NARRAÇÃO DA JASMINE
Meu nome é Jasmine e resido no Morro
do Vidigal com meu pai, que me criou
desde o meu nascimento, quando minha
mãe faleceu. Até hoje, não tenho
informações sobre o que aconteceu com
ela; meu pai apenas me informou que ela
morreu no meu parto. Sempre que tento
questioná-lo sobre ela, ele muda de
assunto. Ele é a única família que me
restou. Sou uma jovem tímida, que não
aprecia fazer amigos ou sair de casa.
Nunca tive namorados, nem sei como e
beijar um garoto.completei meus
estudos e, desde então, permaneci aqui
no morro, onde não há muitas
oportunidades de emprego.
Não consegui me formar na faculdade,
não queria que meu pai gastasse o que
não tem comigo, pois nossa situação é
bastante humilde. Meu pai trabalha para
o dono da morro, esse dono que nunca
conheci e da qual tenho certo receio, em
virtude dos comentários que circulam.
Em algumas ocasiões, ao ir ao mercado,
ouço rumores sobre ele. Dizem que é
uma pessoa de temperamento
extremamente difícil e que trata mal as
mulheres. Cheguei até a escutar relatos
sobre a agressão que ele teria cometido
contra a própria namorada. Deus me livre
de cruzar com ele, dizem que ele é o
diabo em pessoa.
Já pedi diversas vezes ao meu pai que
considerássemos a possibilidade de nos
mudarmos, mas ele sempre afirma que
este é o único lugar onde consegue arcar
com o aluguel. No entanto, nos últimos
tempos, notei que ele tem estado
diferente, passando mais tempo fora de
casa consumindo bebidas e se
encontrando em situações complicadas
nas ruas.
Eu mesma já busquei ele várias vezes na
porta de bares, o que não aprecio, pois
não gosto de me expor. Raramente saio
de casa, exceto para ir ao mercado e à
padaria; fora isso, prefiro permanecer em
meu lar, onde desfruto do meu pequeno
jardim no quintal. Sinto-me em paz
quando estou cuidando das minhas
flores.
Escuto barulhos na sala, onde objetos
caem ao chão. Apresso-me para ver o
que aconteceu e descubro que é meu
pai, mais uma vez sob o efeito do álcool.
Dirijo-me rapidamente a ele e o ajudo a
se sentar no sofá.
Jasmine: Mais uma vez, pai. O senhor
sempre promete que vai parar de beber,
mas nunca cumpre. Veja como está, mal
consegue se sustentar em pé.
Pedro: Silencio, menina. Não preciso dos
seus conselhos. Estou bem; bebo
apenas para esquecer o passado.
Ele responde de maneira confusa.
Jasmine: Pai, se bebe por que sente falta
da mamãe; eu também sinto, mas nem
por isso fico buscando consolo em
bebidas.
Pedro: Minha filha, você é tão ingênua.
Não sabe o que aquela mulher nós fez.
Ela não merece o seu amor, nem o meu.
Jasmine: Como assim, pai? Mamãe está
morta. Como pode dizer que ela não
merece nosso amor?E o que ela nós fez
papai?
O que o senhor está querendo dizer? Por
que sempre que pergunto sobre ela, a
resposta é apenas que ela morreu!
Ela morreu e não tenho mais nada a dizer
sobre essa mulher. Não quero que o
nome dela seja mencionado nesta casa,
entendeu? Durante todos esses anos,
conseguimos viver sem ela e nunca irei
perdoá-la.
Jasmine: Pai, o senhor está se
contradizendo. Vou ajudá-lo a ir para o
seu quarto e já trago um café bem forte
para o senhor.
Ajudei ele a ir para o quarto e fui preparar
um café bem forte. Quando ouvi batidas
agressivas na porta, fui atender e me
deparei com dois homens de aparência
intimidante, o que me deixou com medo.
Terror: Onde está seu pai, mina?
Jasmine: Ele chegou da rua passando
mal e foi deitar, senhor. O que deseja
com ele?
DK: Avise seu pai, garota, que se ele não
pagar o chefe o que ele deve até esta
noite, nosso chefe virá fazer uma visita
pessoalmente, garanto que a visita não
será nada agradável, tá ligada?
Jasmine: Qual é a valor que meu pai,
deve ao seu chefe,senhor?
Terror: Quatro mil reais. Se ele não pagar,
o chefe não será compreensivo. Vamos
retornar à noite para buscar o dinheiro.
Se não houver o valor, nosso chefe
poderá optar por outra forma de
cobrança.
Naquele momento, ao ouvir suas
palavras, senti um arrepio. Ele me
analisou de maneira intimidadora, o que
me causou grande temor. Após a saída
deles, não consegui conter as lágrimas.
Onde conseguiremos esse dinheiro? O
que meu pai estava pensando ao solicitar
esse empréstimo a essa gente?
COBRA
Estava na minha sala, cheirando um pó e
aproveitando a brisa, quando os dois
viados entraram de volta na minha sala,
tirando a tranquilidade que eu tinha.
Cobra: Hoje vocês decidiram me tirar a
paz, caralho! Bando de arrombados do
carai!
DK: Você tá chapado em plena luz do dia,
Cobra. Essas coisas estão te fazendo
mal, tá ligado?
Cobra: Tô suave, são as únicas coisas
que me deixam em paz e me fazem
esquecer da merda que a vagabunda me
fez, tá ligado?
Terror: Pode crer, viemos lá da goma do
coroa que deve uma grana alta pra tu, se
pá.
Cobra: Dá o papo, porra.
DK: E aí que tá, não estivemos com o
coroa, e sim com a filha dele, que, por
sinal, é gostosinha. Bagulho doido, porra!
Nunca tinha visto a mina antes, mas
parece uma deusa de tão linda que a
mina é.
Cobra: Tá de caó com minha cara, né?
Vocês foram lá para ver a mina e não
cobraram o coroa, seus viados?
Terror: Sem neurose! E claro que fomos lá
cobrar o cara, mas a mina disse que ele
estava passando mal. Com certeza ele
estava bêbado e só isso que o
desgraçado do velho sabe fazer.
Cobra: Não importa! Eu metia o louco e
enfiava a arma na testa dele rapidinho, a
bebedeira passava. Estou vendo que eu
mesmo vou ter que ir atrás desse velho
desgraçado. Vocês estão muito fracos.
DK: Dê mais um tempo, Cobra. Talvez
eles não tenham o dinheiro; eles são
humildes, cara.
Bati na mesa com força.
Cobra: Tô nem aí se essa porra e humilde
caralho, quando pegar esse coroa
maldito safado, tá fudido na minha
mão,ta ligado?
Terror: Calma, cara! Ele tem uma filha
que parece ser órfã de mãe. Vamos
manter a calma; a garota estava
assustada. Não vamos chegar lá e ser
grossos com ela.
Cobra: De grosso aqui e só meu pau! Vou
chegar lá e meter um tiro na cara do
desgraçado e da puta da filha que me
deve há meses, morô.
Terror: Calma, pô, a gente resolve isso e,
se o velho, não passa a grana, você vai lá
e faz o que quiser com ele.
Eu me levanto da minha cadeira, pego
meu maço de maconha e acendo. Aquela
brisa me deixava loucão e fico frente a
frente com o Terror.
Cobra: Por que não posso ir na casa do
coroa? Vai dizer que já 'gamou' na mina e
quer proteger o pai, Terror?
Terror: Claro que não, tá doido? Eu só
achei a mina de responsa. Não sabe que
o pai dela deve uma grana pra você. A
mina tem cara de ser ingênua, tá ligado?
Cobra: Essas minas que têm cara de
ingênua são as piores. Elas fazem a gente
esquecer tudo, o bandido fica de quatro
por elas e depois vazam, tá ligado? Ou te
trocam por um vacilão, Zé ruela.
DK: Você não esquece essa porra
mesmo, né?
Cobra: Vou meter o pé, tem baile hoje à
noite. Quero comer carne nova. Essas
putas daqui já me cansaram e vou dar
meu papo,quero minha grana aqui até
amanhã, se não, eu que vou lá e cobrar o
velho, caralho, não vou querer saber se a
mina é linda ou tem cara de ingênua; eu
vou passar os dois. Pega a visão, porra!
Peguei minha moto e estava subindo
acelerado em direção à minha goma
quando, de repente, uma moça
atravessou a rua sem prestar atenção. Ao
frear a moto para não atropelá-la, ela se
assustou com barulho e deixou as
sacolas cair no chão.
Estacionei a moto e desci bastante puto
com pessoas que não prestam atenção
por onde andam. Fui em direção a porra
da garota que estava pegando seus
pertences do chão.
Cobra: Você não olha por onde anda, não
caralho? Eu podia ter te atropelado, sua
estupida!
Ao me aproximar dela, já estava bastante
agitado, e percebi que ela não me olhava.
— Me desculpe, estava distraída, moço.
Ajoelhei-me ao seu lado, segurei seu
braço, forçando-a se levantar e a olhar
para mim. Quando ela me encarou, fiquei
surpreso; a garota era extremamente
linda, quase parecia um anjo. No entanto,
não me deixei levar pela sua beleza.
Cobra: Na próxima vez, vou passar por
cima de você, garota.
— Me desculpe, por favor, você está
machucando meu braço.
Olhei em seus olhos, que já se
umedeciam com lágrimas, e a soltei,
saindo apressado em direção à minha
moto.
Cheguei na minha goma e fui direto tomar
um banho gelado.
Cobra: Que mulher era aquela?
Parecia um anjo, véi.
Depois do banho, percebi que já
estava anoitecendo, então me arrumei
para o baile, pronto para comer para
comer uma gatinha. Fui de moto e o baile
tava frenético, do jeito que papai gosta.
Subi para o meu camarote, fui pegar uma
cerveja e me sentei para observar o
movimento. Então, uma gostosa veio e se
sentou no meu colo, tentando me beijar,
mas eu a empurrei para o chão, pois não
curto essa porra de aproximação.
-Que loucura, Cobra, por que você fez
isso?
Cobra: Não gosto de ser beijado por
putas ta , ligado? Agora, vaza daqui
caralho.