Capítulo 2

NARRAÇÃO DA JASMINE

Meu nome é Jasmine e resido no Morro

do Vidigal com meu pai, que me criou

desde o meu nascimento, quando minha

mãe faleceu. Até hoje, não tenho

informações sobre o que aconteceu com

ela; meu pai apenas me informou que ela

morreu no meu parto. Sempre que tento

questioná-lo sobre ela, ele muda de

assunto. Ele é a única família que me

restou. Sou uma jovem tímida, que não

aprecia fazer amigos ou sair de casa.

Nunca tive namorados, nem sei como e

beijar um garoto.completei meus

estudos e, desde então, permaneci aqui

no morro, onde não há muitas

oportunidades de emprego.

Não consegui me formar na faculdade,

não queria que meu pai gastasse o que

não tem comigo, pois nossa situação é

bastante humilde. Meu pai trabalha para

o dono da morro, esse dono que nunca

conheci e da qual tenho certo receio, em

virtude dos comentários que circulam.

Em algumas ocasiões, ao ir ao mercado,

ouço rumores sobre ele. Dizem que é

uma pessoa de temperamento

extremamente difícil e que trata mal as

mulheres. Cheguei até a escutar relatos

sobre a agressão que ele teria cometido

contra a própria namorada. Deus me livre

de cruzar com ele, dizem que ele é o

diabo em pessoa.

Já pedi diversas vezes ao meu pai que

considerássemos a possibilidade de nos

mudarmos, mas ele sempre afirma que

este é o único lugar onde consegue arcar

com o aluguel. No entanto, nos últimos

tempos, notei que ele tem estado

diferente, passando mais tempo fora de

casa consumindo bebidas e se

encontrando em situações complicadas

nas ruas.

Eu mesma já busquei ele várias vezes na

porta de bares, o que não aprecio, pois

não gosto de me expor. Raramente saio

de casa, exceto para ir ao mercado e à

padaria; fora isso, prefiro permanecer em

meu lar, onde desfruto do meu pequeno

jardim no quintal. Sinto-me em paz

quando estou cuidando das minhas

flores.

Escuto barulhos na sala, onde objetos

caem ao chão. Apresso-me para ver o

que aconteceu e descubro que é meu

pai, mais uma vez sob o efeito do álcool.

Dirijo-me rapidamente a ele e o ajudo a

se sentar no sofá.

Jasmine: Mais uma vez, pai. O senhor

sempre promete que vai parar de beber,

mas nunca cumpre. Veja como está, mal

consegue se sustentar em pé.

Pedro: Silencio, menina. Não preciso dos

seus conselhos. Estou bem; bebo

apenas para esquecer o passado.

Ele responde de maneira confusa.

Jasmine: Pai, se bebe por que sente falta

da mamãe; eu também sinto, mas nem

por isso fico buscando consolo em

bebidas.

Pedro: Minha filha, você é tão ingênua.

Não sabe o que aquela mulher nós fez.

Ela não merece o seu amor, nem o meu.

Jasmine: Como assim, pai? Mamãe está

morta. Como pode dizer que ela não

merece nosso amor?E o que ela nós fez

papai?

O que o senhor está querendo dizer? Por

que sempre que pergunto sobre ela, a

resposta é apenas que ela morreu!

Ela morreu e não tenho mais nada a dizer

sobre essa mulher. Não quero que o

nome dela seja mencionado nesta casa,

entendeu? Durante todos esses anos,

conseguimos viver sem ela e nunca irei

perdoá-la.

Jasmine: Pai, o senhor está se

contradizendo. Vou ajudá-lo a ir para o

seu quarto e já trago um café bem forte

para o senhor.

Ajudei ele a ir para o quarto e fui preparar

um café bem forte. Quando ouvi batidas

agressivas na porta, fui atender e me

deparei com dois homens de aparência

intimidante, o que me deixou com medo.

Terror: Onde está seu pai, mina?

Jasmine: Ele chegou da rua passando

mal e foi deitar, senhor. O que deseja

com ele?

DK: Avise seu pai, garota, que se ele não

pagar o chefe o que ele deve até esta

noite, nosso chefe virá fazer uma visita

pessoalmente, garanto que a visita não

será nada agradável, tá ligada?

Jasmine: Qual é a valor que meu pai,

deve ao seu chefe,senhor?

Terror: Quatro mil reais. Se ele não pagar,

o chefe não será compreensivo. Vamos

retornar à noite para buscar o dinheiro.

Se não houver o valor, nosso chefe

poderá optar por outra forma de

cobrança.

Naquele momento, ao ouvir suas

palavras, senti um arrepio. Ele me

analisou de maneira intimidadora, o que

me causou grande temor. Após a saída

deles, não consegui conter as lágrimas.

Onde conseguiremos esse dinheiro? O

que meu pai estava pensando ao solicitar

esse empréstimo a essa gente?

Capítulo 3

COBRA

Estava na minha sala, cheirando um pó e

aproveitando a brisa, quando os dois

viados entraram de volta na minha sala,

tirando a tranquilidade que eu tinha.

Cobra: Hoje vocês decidiram me tirar a

paz, caralho! Bando de arrombados do

carai!

DK: Você tá chapado em plena luz do dia,

Cobra. Essas coisas estão te fazendo

mal, tá ligado?

Cobra: Tô suave, são as únicas coisas

que me deixam em paz e me fazem

esquecer da merda que a vagabunda me

fez, tá ligado?

Terror: Pode crer, viemos lá da goma do

coroa que deve uma grana alta pra tu, se

pá.

Cobra: Dá o papo, porra.

DK: E aí que tá, não estivemos com o

coroa, e sim com a filha dele, que, por

sinal, é gostosinha. Bagulho doido, porra!

Nunca tinha visto a mina antes, mas

parece uma deusa de tão linda que a

mina é.

Cobra: Tá de caó com minha cara, né?

Vocês foram lá para ver a mina e não

cobraram o coroa, seus viados?

Terror: Sem neurose! E claro que fomos lá

cobrar o cara, mas a mina disse que ele

estava passando mal. Com certeza ele

estava bêbado e só isso que o

desgraçado do velho sabe fazer.

Cobra: Não importa! Eu metia o louco e

enfiava a arma na testa dele rapidinho, a

bebedeira passava. Estou vendo que eu

mesmo vou ter que ir atrás desse velho

desgraçado. Vocês estão muito fracos.

DK: Dê mais um tempo, Cobra. Talvez

eles não tenham o dinheiro; eles são

humildes, cara.

Bati na mesa com força.

Cobra: Tô nem aí se essa porra e humilde

caralho, quando pegar esse coroa

maldito safado, tá fudido na minha

mão,ta ligado?

Terror: Calma, cara! Ele tem uma filha

que parece ser órfã de mãe. Vamos

manter a calma; a garota estava

assustada. Não vamos chegar lá e ser

grossos com ela.

Cobra: De grosso aqui e só meu pau! Vou

chegar lá e meter um tiro na cara do

desgraçado e da puta da filha que me

deve há meses, morô.

Terror: Calma, pô, a gente resolve isso e,

se o velho, não passa a grana, você vai lá

e faz o que quiser com ele.

Eu me levanto da minha cadeira, pego

meu maço de maconha e acendo. Aquela

brisa me deixava loucão e fico frente a

frente com o Terror.

Cobra: Por que não posso ir na casa do

coroa? Vai dizer que já 'gamou' na mina e

quer proteger o pai, Terror?

Terror: Claro que não, tá doido? Eu só

achei a mina de responsa. Não sabe que

o pai dela deve uma grana pra você. A

mina tem cara de ser ingênua, tá ligado?

Cobra: Essas minas que têm cara de

ingênua são as piores. Elas fazem a gente

esquecer tudo, o bandido fica de quatro

por elas e depois vazam, tá ligado? Ou te

trocam por um vacilão, Zé ruela.

DK: Você não esquece essa porra

mesmo, né?

Cobra: Vou meter o pé, tem baile hoje à

noite. Quero comer carne nova. Essas

putas daqui já me cansaram e vou dar

meu papo,quero minha grana aqui até

amanhã, se não, eu que vou lá e cobrar o

velho, caralho, não vou querer saber se a

mina é linda ou tem cara de ingênua; eu

vou passar os dois. Pega a visão, porra!

Peguei minha moto e estava subindo

acelerado em direção à minha goma

quando, de repente, uma moça

atravessou a rua sem prestar atenção. Ao

frear a moto para não atropelá-la, ela se

assustou com barulho e deixou as

sacolas cair no chão.

Estacionei a moto e desci bastante puto

com pessoas que não prestam atenção

por onde andam. Fui em direção a porra

da garota que estava pegando seus

pertences do chão.

Cobra: Você não olha por onde anda, não

caralho? Eu podia ter te atropelado, sua

estupida!

Ao me aproximar dela, já estava bastante

agitado, e percebi que ela não me olhava.

— Me desculpe, estava distraída, moço.

Ajoelhei-me ao seu lado, segurei seu

braço, forçando-a se levantar e a olhar

para mim. Quando ela me encarou, fiquei

surpreso; a garota era extremamente

linda, quase parecia um anjo. No entanto,

não me deixei levar pela sua beleza.

Cobra: Na próxima vez, vou passar por

cima de você, garota.

— Me desculpe, por favor, você está

machucando meu braço.

Olhei em seus olhos, que já se

umedeciam com lágrimas, e a soltei,

saindo apressado em direção à minha

moto.

Cheguei na minha goma e fui direto tomar

um banho gelado.

Cobra: Que mulher era aquela?

Parecia um anjo, véi.

Depois do banho, percebi que já

estava anoitecendo, então me arrumei

para o baile, pronto para comer para

comer uma gatinha. Fui de moto e o baile

tava frenético, do jeito que papai gosta.

Subi para o meu camarote, fui pegar uma

cerveja e me sentei para observar o

movimento. Então, uma gostosa veio e se

sentou no meu colo, tentando me beijar,

mas eu a empurrei para o chão, pois não

curto essa porra de aproximação.

-Que loucura, Cobra, por que você fez

isso?

Cobra: Não gosto de ser beijado por

putas ta , ligado? Agora, vaza daqui

caralho.

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