O elevador subia rápido demais para quem precisava de tempo.
Eu sentia o peso do silêncio entre nós, não como ausência, mas como algo cheio demais, carregado de coisas não ditas, de possibilidades perigosas.
Eu estava apavorada, Jorge foi meu primeiro namorado, nunca houve outra pessoa, e agora eu estava indo ao apartamento de um homem que eu não conhecia, para termos intimidade, sexo.
O reflexo no espelho devolvia uma mulher que eu mal reconhecia: olhos atentos, respiração curta, o coração batendo como se estivesse antecipando um erro.
Ele estava ao meu lado, imóvel, impecável. Havia algo nele que não precisava se impor para ser dominante. Apenas era.
Quando as portas se abriram, eu soube que nada naquela noite seria simples.
A cobertura se revelou diante de mim como um cenário cuidadosamente pensado para impressionar, e conseguiu.
O espaço era amplo, elegante, silencioso. O chão de mármore refletia a iluminação suave, e as paredes de vidro emolduravam a cidade como uma obra viva, pulsando luzes lá embaixo.
Eu avancei alguns passos, devagar, quase com receio de tocar em algo que claramente não me pertencia.
— Isso tudo… — comecei, mas a frase morreu antes de se formar por completo.
— É só um apartamento — ele respondeu, como se aquilo fosse comum.
Não era.
Não para mim.
Não era apenas luxo. Era controle. Era poder organizado em linhas retas, em escolhas precisas, em silêncio caro.
Tudo ali dizia que aquele homem não improvisava nada, nem a própria vida.
Ele tirou o paletó com calma, pendurando-o como se estivesse encerrando uma parte do dia. A camisa permanecia fechada, mangas longas, postura perfeita. Nada nele parecia fora do lugar. E talvez fosse isso que mais me impressionava.
Segui atrás dele quando atravessou o living e abriu uma porta de vidro escuro.
O quarto me fez parar.
Era grande, sofisticado, com uma cama que parecia ocupar o centro do mundo. Tons profundos, tecidos macios, luz baixa. Mas foi a área além que roubou meu fôlego: uma piscina privativa, parcialmente fechada por vidro, a água morna liberando vapor lento, criando um véu quase irreal.
O vapor subia suave, envolvendo tudo, transformando o espaço em algo íntimo demais para ser apenas um ambiente. Apertou um controle no balcão, uma música suave, voz feminina, doce....era no idioma dele, eu não entendia uma palavra além da melodia emotiva.
— Isso parece um cenário de novela — murmurei, sem conseguir conter.
Ele sorriu de lado.
— Talvez seja.
O silêncio voltou a se instalar entre nós. Não era confortável, mas também não era desconfortável. Era expectativa.
- De onde veio veio? Trabalhava onde antes de chegar alí?!
- Eu?! Uhmm. Não, nenhuma...
- Ele gargalhou, como se eu tivesse contado uma piada- A Mara disse que era teu primeiro dia?!- concordei.
Ele se aproximou, devagar. Quando tocou meu rosto, foi com o dorso dos dedos, um gesto leve demais para o efeito devastador que causou. Fechei os olhos antes mesmo de perceber.
O beijo veio contido, profundo, como se estivesse testando limites. Não havia pressa. Havia intenção. As mãos dele encontraram minha cintura, firmes, seguras, puxando-me um pouco mais para perto.
Meu corpo respondeu antes que minha mente pudesse interferir.
Ele me conduziu até a piscina, o vapor nos envolvendo como se o mundo tivesse sido deixado do lado de fora. Eu observei quando ele tirou a camisa — e foi ali que perdi o fôlego de verdade.
As costas dele eram cobertas por tatuagens que eu jamais imaginaria, um contraste com àquele homem, cheio de regras aí falar, se expressar ...Vi um dragão com pontas vermelhas que emergia das ondas, poderoso, em movimento, garras abertas, como se estivesse sempre prestes a avançar. Abaixo, uma carpa enfrentava a correnteza, firme, resiliente. Os traços eram precisos, as cores profundas. Arte viva gravada na pele.
E o mais impressionante: tudo aquilo desaparecia sob a camisa social. Invisível no dia a dia. Controlado. Oculto.
Passei os dedos pela pele dele, sentindo o relevo leve da tinta.
— Você esconde muita coisa — murmurei.
— Só o que precisa ser escondido — respondeu, sem se virar.
Entramos na piscina lentamente. A água morna envolveu meu corpo, dissolvendo qualquer resistência que ainda restava. Ele me puxou para perto, e o beijo voltou diferente, mais intenso, mais honesto.
A água se movia ao nosso redor em ondas suaves, marcando o ritmo da proximidade dos corpos. Cada toque parecia carregado de significado. Não era apenas desejo. Era tensão acumulada. Era curiosidade perigosa. Era algo que eu sabia que não deveria querer tanto.
Ele me encostou suavemente na borda da piscina. O corpo dele próximo demais, a respiração quente contra minha pele. Por um instante, ele parou. Encostou a testa na minha, como se estivesse me dando uma última chance de recuar.
— Se isso for longe demais… — começou.
Eu o calei com um beijo- era provocativo, para uma garota carente como eu, era um filme, uma cena de novela onde eu era a atriz principal e ele o galã, eu precisava daquela noite, como a terra precisava de chuva. Era um impulso me trazendo de volta a vida.
Eu não tinha certeza, mas meu corpo não queria parar
O que veio depois não foi feito de imagens explícitas, mas de sensações difíceis de esquecer. Toques firmes, mas cuidadosos. Silêncios preenchidos por respirações irregulares. Olhares que diziam mais do que qualquer promessa poderia dizer.
Quando deixamos a piscina, enrolados em toalhas macias, a cidade ainda brilhava do lado de fora, indiferente ao que havia acontecido ali dentro. Como se o mundo não soubesse — ou não se importasse — que algo tinha mudado.
Deitei-me na cama grande demais, observando o perfil dele à meia-luz. Havia algo quase doméstico em vê-lo ali, relaxado, humano. Um contraste perigoso com o homem que eu não sabia quem era.
Ele passou os dedos pelo meu cabelo, um gesto simples, inesperado.
— Quem é você?! — perguntou com uma curiosidade momentânea.
Não entendi a pergunta é o por quê,mas respondi, enquanto o peito dele se encostava sobre mim.
- Eu sou a Evelin kkk- eu disse meu nome... e você?! Perguntei rindo da pergunta que eu não compreendia o sentido
- Eu sou o Jonny. Simplesmente Jonny- e quero você outra vez...agora.
Fechei os olhos, sentindo o peso daquela noite se acomodar dentro de mim. Porque eu sabia — com uma clareza que assustava, que aquela não era apenas uma lembrança que eu guardaria. Apesar de todo o momento, o luxo, o beijo quente, redentor, eu era agora uma prostituta, ganhando algum dinheiro com o meu corpo, e isto era a verdade, o resto seria ilusão.
Era o tipo de coisa que cobra o preço depois.
E cobra caro.
Fechei a porta do apartamento atrás de mim com cuidado demais, como se qualquer ruído pudesse denunciar algo que nem eu mesma sabia nomear. Encostei as costas na madeira fria e respirei fundo, sentindo o coração bater descompassado, ainda fora do ritmo normal.
Eu estava em casa.
Mas alguma coisa em mim ainda não tinha voltado.
O apartamento estava escuro, silencioso, e por um instante aquele silêncio me pareceu mais pesado do que nunca. Dei alguns passos até o banheiro quase no automático, tirei a roupa sem pensar e entrei no chuveiro antes mesmo da água esquentar. Quando o jato quente finalmente tocou minha pele, fechei os olhos.
E então ele veio.
Não como uma imagem vulgar, não como culpa imediata. Veio como sensação. Como lembrança do toque. Da forma como minhas costas tinham relaxado sob as mãos dele, como se o mundo inteiro tivesse desacelerado só para nós dois.
Apoiei as mãos na parede do box, sentindo a água escorrer pelo meu rosto.
Naquela noite…
Na minha mente…
Eu não tinha feito sexo.
Eu tinha feito amor.
Essa constatação me atingiu com força, arrancando o ar dos meus pulmões. Não foi rápido. Não foi mecânico. Não foi vazio. Houve cuidado, silêncio, presença. Houve uma intimidade que eu não lembrava de já ter sentido antes, ou talvez nunca tivesse permitido sentir.
O jeito como ele me olhou ainda queimava dentro de mim. Não como quem compra, mas como quem enxerga. Como se eu não fosse apenas um corpo disponível por algumas horas.
E isso me assustava.
As lágrimas começaram a cair sem que eu pudesse impedir. Misturaram-se à água quente, escorreram livres, porque ali, sozinha, eu não precisava fingir força. Chorei porque jamais imaginei trabalhar num lugar como aquele. Porque jamais imaginei aceitar aquela proposta. Porque uma parte de mim se sentia errada… e outra, perigosamente aliviada.
Se não fosse aquela noite, eu não sabia o que teria feito.
Saí do banho ainda tremendo, me enrolei na toalha e sentei na beirada da cama. Meu olhar foi direto para a bolsa jogada no canto do quarto. O envelope ainda estava lá, intocado desde que eu chegara.
Levantei devagar, e peguei a bolsa, quando abri o tal envelope, o ar pareceu faltar.
Não era apenas o cachê padrão. Não era apenas o valor que Mara explicara, com aquela voz neutra, como se falasse de algo banal. Havia muito mais ali. Muito mais.
Minhas mãos começaram a tremer.
Fiz as contas uma vez. Depois outra. Conferi nota por nota, como se tivesse medo de estar enganada. Mas não estava. Aquele dinheiro pagava o aluguel atrasado. Pagava a conta de luz com aviso de corte. Pagava o mercado que eu vinha adiando, fingindo não perceber a geladeira cada vez mais vazia.
Sentei no chão com o envelope apertado contra o peito.
E chorei.
Chorei de alívio. Chorei de vergonha. Chorei de medo. Chorei porque, apesar de tudo, eu estava respirando outra vez. Porque, pela primeira vez em dias, eu não precisava decidir entre comer ou pagar uma conta.
Eu me sentia mal. Nunca pensei que pisaria num lugar como aquele. Nunca imaginei que aquela seria a saída. Mas também não sabia para onde iria se tivesse que sair daquele apartamento. Não tinha para quem ligar. Não tinha para onde correr.
E isso doía mais do que qualquer julgamento moral.
Guardei o envelope na gaveta mais funda do guarda-roupa, como quem esconde um segredo que ainda não sabe lidar. Fui até a cozinha, abri a geladeira vazia.
Amanhã eu compraria comida.
Amanhã eu pagaria contas.
Amanhã… talvez tudo fosse diferente.
O celular vibrou sobre a mesa, me arrancando dos pensamentos. Meu coração disparou sem motivo lógico, celular carregado, notificações chegando. Peguei o aparelho com as mãos ainda trêmulas e vi a notificação de e-mail.
Abri.
Li uma vez. Depois li de novo.
“Temos o prazer de informar que você foi selecionada…”
Meu corpo inteiro pareceu amolecer. Escritório de advocacia. Centro da cidade. Início imediato. Manhã seguinte.
Sentei outra vez, agora com um riso que veio misturado ao choro. Um riso incrédulo, frágil. Aquela era a chance. A saída. A prova de que aquela noite não precisava me definir.
Eu não precisaria voltar naquele lugar.
Essa ideia trouxe um alívio quase físico. Nunca mais aquele corredor iluminado demais. Nunca mais a voz controlada de Mara. Nunca mais aquela mistura perigosa de medo e curiosidade.
Foi só uma noite, eu repetia para mim mesma.
Só uma noite.
Preparei algo simples para comer, e fui descansar. Quando me deitei, apaguei a luz e tentei dormir com a sensação de que, finalmente, a vida tinha me dado uma trégua.
Mas foi o rosto dele que veio.
A voz baixa. O silêncio confortável. As costas largas cobertas de tatuagens que pareciam contar histórias que eu jamais ouviria.
O jeito como ele me tocara como se eu fosse algo precioso, não algo descartável.
Virei na cama, irritada comigo mesma.
Não fazia sentido.
Não era real.
Não podia ser.
Repeti isso até o sono me vencer.
Na manhã seguinte, acordei cedo demais. Escolhi a melhor roupa que tinha, simples, discreta, limpa. Prendi o cabelo, passei maquiagem suficiente apenas para esconder o cansaço. No espelho, encarei meu reflexo por alguns segundos.
Era um recomeço.
Quando saí do prédio, o sol ainda tímido tocou meu rosto, e eu respirei fundo. Havia esperança, sim. Mas havia algo mais, uma sensação estranha que eu ainda não sabia nomear.
Algumas noites não terminam quando o dia amanhece.
Algumas ficam à espera.
E eu ainda não fazia ideia de que aquela noite tinha acabado de começar a me seguir.