Capítulo 2

Enquanto procurava por algum conforto no ar gelado da manhã, minhas lágrimas inundaram meus olhos. A mansão que um dia fora cheia de alegria e risadas agora parecia estar vazia, assim como a capela próxima. A ausência dos meus pais deixou um vazio imenso em mim, e eu não sabia como preenchê-lo.

Minha tia me avistou ao ar livre e me abraçou com emoção.

Ayla, sei que pode parecer difícil neste momento, mas eu prometo que vamos conseguir superar essa situação juntas. Vamos para Nova Iorque juntas, minha filha, passar um tempo lá. Você adora Nova Iorque, então vamos ficar juntas nessa cidade. Não quero te deixar sozinha aqui, você sabe que preciso voltar para resolver algumas coisas, mas só pense nisso, está bem? Pense com carinho, meu amor.

Deixar minha cidade para me mudar para o exterior é algo que ainda não decidi se desejo, mas vou refletir antes de falar para minha tia que não tenho vontade de sair do país, pelo menos por enquanto.

- Tia, é tão difícil para mim compreender. Tudo ao meu redor parece vazio e confuso. - disse, com a voz tremida pela intensidade da emoção.

 - Vamos dar um passo de cada vez. - ela respondeu, segurando minha mão com firmeza.

Após o sepultamento, os dias que se passaram foram marcados pela presença constante de visitantes expressando solidariedade. Lidar com a enxurrada de lembranças difíceis era desafiador, porém reconfortante perceber quantas vidas meus pais tinham impactado. As palavras amáveis e as histórias compartilhadas serviram como um reflexo do afeto e da generosidade que eles propagaram.

Clara, uma jovem com quem eu mal tinha contato, trocava ideias comigo na faculdade. Foi ela quem me abordou do lado de fora.

- Ayla, qual é o seu estado emocional no momento? - indagou, demonstrando preocupação em seu semblante.

- Estou me esforçando para suportar, Clara. - falei, com a voz tremida.

Ela me envolveu em seus braços com firmeza, e encontrei um certo conforto em tê-la por perto. Mesmo sem nos comunicarmos muito, ela tomou a iniciativa de conversar comigo, e assim começou a surgir uma amizade sincera. Clara era uma loira de beleza impressionante, com olhos azuis penetrantes. Seu corpo invejável e o relacionamento sério com um advogado respeitado eram comentados por aí.

- Ayla, pode conta conosco. - pronunciou, apertando minha mão.

A amizade que começou recentemente foi um alicerce de apoio para mim durante aqueles dias difíceis. Ela me auxiliou a enfrentar os desafios mais complexos e me motivou a continuar em frente.

Agora, depois de várias semanas de tristeza e de tentar reestruturar minha rotina, tomei a decisão de que era necessário fazer uma transformação. A angústia de permanecer na residência onde cada canto me recordava de meus pais era demais. Era fundamental descobrir uma nova razão para viver, algo que me inspirasse a continuar.

Troquei ideias com minha tia a respeito da minha escolha de buscar uma oportunidade de trabalho fora do negócio imobiliário familiar. Eu estava em busca de algo que fosse totalmente meu, que me proporcionasse desafios e contribuísse para o meu crescimento pessoal e profissional.

- Concordo plenamente, Ayla. - minha tia afirmou. - Seus pais sempre incentivaram você a perseguir seus objetivos. Tenho certeza de que eles se alegrariam.

Graças ao suporte dela e da minha amiga Clara, que agora era uma das minhas mais próximas amigas, iniciei o envio de currículos para diversas empresas e me preparei para entrevistas. Embora tenha sido um processo longo, finalmente obtive uma resposta positiva de uma renomada empresa do ramo financeiro. Estavam interessados em me entrevistar para integrar a equipe de gestão.

Chegou o momento da entrevista e eu estava ansiosa, porém decidida. Coloquei uma roupa mais simples, não queria que descobrisse que era uma mulher rica no momento, revisei minhas anotações mais uma vez e parti para a empresa com um misto de nervosismo e expectativa. Ao adentrar na recepção sofisticada e moderna, senti um arrepio na espinha. Era o início de uma nova etapa, e eu estava preparada para encará-la.

- Senhorita Gabrielly, fique à vontade para entrar. - disse a recepcionista com uma expressão simpática.

Entrei na sala de reuniões e fui recebida por um homem alto e confiante, com olhos azuis penetrantes. Seu nome era Leonardo, o CEO da empresa. Sua presença era intimidante, mas havia algo em seu sorriso que me fez sentir um pouco mais à vontade.

- Ayla Gabrielly, correto? - falou ele, oferecendo a mão. - É uma alegria te encontrar. Por gentileza, faça-se confortável.

A entrevista foi bastante proveitosa. Leonardo fez questões que me fizeram pensar, mas consegui lidar com elas sem problema. Durante nossa conversa, notei que ele não era apenas um líder exigente, mas também exibia um ar de superioridade e vaidade, ele sorria de maneira encantadora. Me encantei por aquele homem. Pela primeira vez em toda a minha existência.

- Sinto que você tem algo de especial, Ayla. - declarou ele. - Em breve, vamos nos encontrar novamente.

Após a entrevista, meu coração disparava de emoção. Sabia que aquilo representava o início de uma nova fase empolgante. E, dias mais tarde, finalmente chegou a tão sonhada proposta de trabalho.

Aceitar a oportunidade de trabalho na empresa financeira foi uma escolha corajosa para mim. Desde o início, me envolvi totalmente no desafio, decidida a mostrar minha competência sem depender da influência da minha família. Meus dias são ocupados com reuniões produtivas, análises de dados detalhadas e tomadas de decisão estratégicas que influenciam o rumo da empresa. Gradualmente, fui conquistando o respeito e a valorização dos meus colegas pelo meu empenho e pela minha capacidade analítica.

No entanto, o que me deixa curioso é a relação com Leonardo. Ele ocupa o cargo de CEO, um indivíduo alto e confiante com olhos azuis intensos que parecem penetrar na minha alma. Com frequência, ele me convoca para debater projetos relevantes ou revisar relatórios. Admiro sua capacidade de liderança e perspicácia empresarial, mas há algo mais nele que me intriga. Às vezes, sinto como se ele estivesse num mundo à parte, e desconheço sua vida pessoal fora da empresa. Por vezes, ele parece bastante indiferente, mas em outras, extremamente amigável.

Ele nunca revelou qualquer interesse romântico por mim, e pela primeira vez eu desejo que um homem seja ousado e me envolva em um beijo apaixonado. A boca dele parece feita para ser tocada pela minha. A simples visão dele me deixa inquieta e ansiando por mais. Meu chefe é tentador, mas ele sequer percebe minha presença. Já o flagrei com outras mulheres aqui na empresa, o que me entristece profundamente, já que sou perdidamente apaixonada por ele.

Capítulo 3

Ele costumava me elogiar com frequência, porém eu ansiava por algo a mais. Porém, devido à minha timidez, imaginava que não alcançaria meus desejos.

- Ayla, fiquei surpreso com a qualidade do seu trabalho. Você possui um talento extraordinário. - falou ele, sua voz profunda causando um arrepio em minhas costas.

Engoli em seco, envolvida pela potência de suas palavras.

- Agradeço, Sr. Leonardo. É uma honra colaborar com o senhor. - consegui expressar, esforçando-me para manter a calma.

Ele emanou um sorriso que provocou uma sensação de calor em mim.

Ele se aproximava de mim de uma maneira que eu nunca havia experimentado antes. Em geral, não permito que homens se aproximem tanto, especialmente quando estou acompanhada de uma amiga. Mas, naquele momento, algo era diferente e eu permiti que ele chegasse mais perto.

- Ayla, estou desejando muito realizar uma ação há muito tempo, por favor, não me leve a mal, mas quero muito fazer isso com você. Você é incrivelmente bela e estou precisando disso agora. Ele disse antes de me beijar, o melhor beijo que já recebi. Ainda sou virgem, nunca estive com um homem antes em minha vida.

Foi como um turbilhão de sentimentos. Seus lábios transmitiam calor e intensidade, suas mãos seguras em volta da minha cintura. Cada pedaço de mim se entregou ao beijo, a conexão entre nós queimando com uma intensidade que não podia ser desprezada.

Depois de nos afastarmos, nossos olhares se cruzaram em um momento de silêncio carregado.

- Ayla, preciso te dizer... - iniciou ele, porém suas palavras se perderam, como se estivesse batalhando para processar o que acabara de presenciar.

Recuperei minha respiração, meu corpo ainda pulsando com a presença dele.

- Penso que é apropriado eu me retirar. - Sussurrei, com a voz vacilante.

Com um movimento de cabeça vagaroso, Leonardo demostrou uma mescla de anseio e indecisão em seu olhar.

- Com certeza. Até amanhã, Ayla. - falou ele, com a voz áspera.

Deixei a sala em estado de choque, tentando compreender a avalanche de emoções que invadia meus pensamentos. O significado daquele beijo para mim, para meu emprego, para minha trajetória profissional era uma incógnita. Estava prestes a perceber que a linha que separa o profissionalismo da paixão era mais complexa do que eu poderia imaginar.

Assim que terminei de trabalhar, me veio à mente o beijo de Leonardo. Uma sensação diferente percorreu meu corpo, mas o que ele havia feito comigo? Sentindo meu rosto corar, evitei o contato com as pessoas ao meu redor e, ao avistar um táxi, pedi para ir para casa. O carro logo chegou e o vazio foi preenchido. Mesmo tendo Lourdes, não era a mesma coisa que ter meus pais por perto. Com uma suspeita forte, finalmente criei coragem e fui recebida de braços abertos por Lourdes, que estava comigo desde os meus três anos de idade.

- Bem-vinda de volta. - Ela me recebeu com um abraço caloroso.

- É tão bom ter a senhora aqui. - Meus olhos encheram-se de lágrimas.  

- Não há necessidade de enfrentar tudo isso sozinha, querida. Se precisar desabafar, estou aqui para te ouvir.

Fixei meus olhos nos dela e percebi claramente a sua apreensão em relação a mim. Dei-lhe um beijo na bochecha e rumei para o meu quarto. Não era disposição que me faltava para continuar ao seu lado, mas sim o cansaço.

Deitei sobre a cama e permiti que o cansaço dominasse meu corpo, eu precisava me preparar para mais um dia ao lado de Leonardo.

Busquei chegar o mais rápido possível para evitar por completo o CEO da organização. Estava determinada em me concentrar no trabalho, no entanto a presença de Leonardo continuava a me incomodar. Uma reunião de última hora havia sido agendada, talvez devesse compartilhar com Lourdes ou com minha amiga Clara o ocorrido ontem, mas então, como reagiria se ela sugerisse algo? Procurei evitar ao máximo, no entanto a cada troca de olhares carregados de significado, ressurgia a lembrança daquele momento intenso na sala de reuniões.

Por mais que eu quisesse resistir, não conseguia evitar a atração que sentia por ele. Leonardo ia além de ser apenas um CEO bem-sucedido; seu charme era envolvente, com uma influência magnética que me prendia. Sua capacidade de transitar entre a seriedade profissional e um sorriso cativante me deixava curiosa.

As sugestões apresentadas sobre a situação atual da empresa eram bastante genéricas em relação ao marketing, e devido à minha experiência em acompanhar meu pai nesse aspecto em seu negócio, eu tinha uma ótima sugestão para eles.

- Penso que não teremos sucesso se seguirmos por essa direção, em relação ao plano de marketing que pretendiam implementar.

- Qual é o seu conhecimento em Marketing? - Questionou Amanda, de forma irônica, para Leonardo, o assistente com quem suspeitava que ele já tivesse se envolvido.

- É imprescindível compreender que poucos serviços oferecidos não serão eficazes para uma empresa que abrange diversos setores como esta.

- Seria interessante se pudesse realizar uma análise mais aprofundada e apresentar uma alternativa diferente, qual é a sua opinião? - Propôs Julius, líder do departamento de marketing.

- Seria um grande prazer contribuir com vocês nesse desafio de extrema importância.

- Portanto, está definido, traga até a minha escrivaninha um documento com suas ideias até o término do seu horário de trabalho. - Solicitou Leonardo com um semblante sério. - Pode ir.

Decidi concentrar-me no trabalho, mesmo que Leonardo estivesse sempre presente na sala de reuniões e nos corredores da empresa. A lembrança daqueles olhares intensos ainda permanecia fresca em minha memória, se misturando com os obstáculos que eu enfrentava no meu trabalho.

Sentada em frente à minha escrivaninha, respirei profundamente e peguei o meu bloco de notas. Iniciei o planejamento minucioso para a estratégia de marketing que propus durante a reunião. Ver meu pai lidar com estratégias na empresa da família me deu ideias valiosas que eu planejava implementar nesse projeto.

Enquanto eu estava me dedicando ao trabalho, fui surpreendida pelo toque do meu celular. Era Clara, minha amiga  e confidente desde o momento difícil com meus pais.

- Ayla, qual é o seu estado emocional? - questionou Clara, demonstrando preocupação em sua voz através da ligação.

Estou buscando me manter-me ocupada. Acabei de sair de uma reunião bastante intensa na empresa. Acredito que, aos poucos, estou conquistando meu espaço, especialmente no campo profissional.

Um breve momento de quietude antecedeu as palavras de Clara.

- Tenho absoluta convicção de que você se saiu incrivelmente bem, como é de praxe. No entanto, gostaria de saber qual é a situação do Leonardo. Vocês estão....?

Meus pensamentos vagaram para a situação intensa que vivemos juntos ontem na sala de reuniões. Aquele gesto inesperado havia alterado completamente a atmosfera, deixando uma tensão evidente entre nós. Eu me sentia perdido em relação a essa nova situação, especialmente neste momento em que era essencial focar em demonstrar minha competência aqui.

- Não tenho certeza, Clara. O dia de ontem foi bem complicado. Estou tentando organizar minhas ideias, me concentrar no trabalho. Mas está sendo desafiador, entende?

Clara expirou profundamente enquanto estava na ligação.

"Compreendi. Estou disponível para conversar, sempre que precisar. Saiba que não está sozinha nessa situação, tudo bem? E fique atenta com esse Leonardo, já ouvi coisas muito ruins a respeito dele. Não se iluda achando que ele é a pessoa perfeita."

Não compreendi a mensagem que ela transmitiu a respeito do Leonardo, pois ela o considerava um homem atraente e simpático.

Silenciosamente, expressei minha gratidão por ter Clara como companhia. Sua presença sempre foi fundamental, sobretudo neste momento em que me deparo com diversas transformações e obstáculos em meu caminho.

Depois de encerrar a ligação, direcionei meu foco para o projeto à minha frente. Estava na hora de me dedicar ao trabalho, demonstrar minha competência e fazer a diferença, independentemente do desfecho com Leonardo.

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