Capítulo 2

O Narrador:

Então Shahanshah segue para os seus aposentos com Vashti, se despoja da armadura e de toda a imundície e entraja as vestes reais, seguindo para o banquete em seguida, sem ao menos se importar com a esposa, mais uma vez.

Aprecia o banquete em sua homenagem e o silêncio de suas esposas, seguem para o templo a fim de cumprir seu dever moral e retornam ao palácio.

Deixa a família e segue direto para a sala do trono. Manda convocar sua corte para que estejam mais uma vez em sua presença, desta vez para uma importante reunião.

— Exijo que façam um levantamento de todos os povos e territórios que estão sob meu domínio, general Faridoon.

— Apresentar-te-ei agora mesmo, Majestade, veja nesse mapa. Assíria, Armênia, Mesopotâmia, Média, Susa, Pérsia, Hircânia, Pártia, Bactriana, Aracósia, Gedrósia, Babilônia, Damasco, Jerusalém, Pasárgada, Persépolis, Assur, Ninive. – Faridoon diz e mostra no mapa as regiões ganhas nas últimas guerras.

Shahanshah faz uma breve reflexão, anda pela sala e deixando todos tensos, precisa conquistar os demais territórios adjacentes, mas deve governar os que tem posse nesse momento.

— Quero que todos possam viver no Império Persa sendo livres...

— Vossa Majestade é realmente muito justo, meu Senhor. – Babak diz.

— Eis que não conclui meus pensamentos, Babak. Todos terão que me pagar impostos, mas como farei para recolhê-los? – ele pergunta.

— Podemos mandar um responsável a cada um desses lugares em um dia específico para recolher os impostos, Majestade. Não seria o melhor a se fazer? – Omid pergunta.

— E como transportaríamos tudo isso? – Farod pergunta.

— Se nem ao menos temos estradas adequadas. – Heydar diz.

— Se nem ao menos temos transportes suficientes para tanto. – Fravardin diz.

Eis que o Imperador ainda está pensativo e caminha pela sala.

Pode Vossa Majestade instituir um coletor de impostos responsável por cada província? Ele pode residir na região, coletar e enviar para o império. – Sinbad diz.

— Mas teríamos que ter um bom sistema de comunicação entre essas regiões, que fizessem com que a mensagem chegasse das localidades ao império com agilidade. – Payam diz.

— Mas precisamos de boas estradas também. – Sarod diz.

— São excelentes ideias, vamos realizar todas. – o Imperador diz, deixando todos muito confusos.

— Vamos construir novas estradas para que todos possam circular entre as Satrapias, esse é o nome que darei as localidades e sátrapas aos coletores de impostos que eu escolherei, darei um voto de confiança aos homens a quem confiarei essa missão tão importante. – o Imperador diz e todos ficam assombrados com tamanha novidade.

Inicia-se uma discussão sobre as sugestões dos possíveis nomes para os sátrapas, devem ser pessoas dignas para a posição, de reputação ilibada e de conhecida justiça, poucos homens se encontram nessa condição, serão dezoito pessoas.

A reunião perdura por muitas horas até que resolvam todas as questões envolvidas nesse processo, mas as ordens do Imperador Shahanshah são implementadas imediatamente.

Jahangir Azimi POV:

Meus pais sempre cuidam da terra e dos animais desde a infância, mas me apoiam para realizar o meu grande sonho que é me tornar um guerreiro das tropas do grande Imperador Shahanshah. Ao longo de seis anos, tenho treinado e estudado arduamente para isso, mesmo que a minha família não tenha qualquer recurso além de sua dignidade a oferecer, todos da cidade de Persépolis nos conhecem, vivo correndo pela cidade para me exercitar, carregando pesos, trabalhando na ferraria de graça para conseguir uma espada para os meus treinos solitários.

Depois de anos, hoje tenho a chance de mostrar o meu valor como guerreiro em um teste com o general Faridoon e em um dia auspicioso, o de mais uma vitória do exército.

Me apresso no banho, visto minhas melhores roupas, uma calça e camisa de manga longa justas de cor verde clara, um pelote verde escuro com longas cavas, uso um cinto sobre ele, manto vermelho, coifa de seda na cabeça também verde escuro, não são peças novas, estão bem surradas na verdade, mas são as mais apropriadas.

Me despeço dos meus pais, Feroze e Banu Azimi, penso no significado de seus nomes e nosso sobrenome, vitorioso, dama e glorioso, magnífico, gosto de refletir sobre a força, beleza e importância deles.

— Nunca se esqueça, meu filho, que você é o conquistador do mundo, meu Jahangir, glorioso e magnifico. Levante sua cabeça e vença todos os obstáculos, nada será fácil para você, mas sei que pode e vai conseguir. – meu pai diz, se referindo ao significado do meu nome e sobrenome.

— Com suas bençãos nada pode dar errado, meu pai. – digo e me despeço mais uma vez.

Preparo a sela, monto em meu cavalo e sigo para o forte.

Como previsto, sou barrado na entrada pelos soldados, me identifico e fico aguardando até que algum soldado possa liberar a minha entrada.

— O general Faridoon o espera na área de treinamento dos soldados.

— Por favor, pode me dizer onde fica? Nunca estive no palácio.

O guerreiro ri e me indica o local, parece um pouco difícil de encontrar, mas eu vou conseguir me localizar, pelo menos eu espero.

Enquanto eu caminho, vejo uma moça parada sob a sombra de uma árvore.

É a mulher mais linda e triste que já vi em toda a minha vida.

Princesa Shanaz POV:

Decido sair da minha alcova e dar um passeio pelos jardins, Lila, Pari e Zena me encontram no exato momento em que estou saindo e me questionam o porquê de não as ter convocado, afinal uma Milady não deve ser vista sozinha pelos corredores.

Não expresso qualquer opinião, apenas permito que me sigam até os jardins, as ocupo pedindo que tragam qualquer coisa, como livros, esteira, algo para beber, assim me deixam sozinha por alguns momentos para que eu possa apreciar a paisagem com serenidade.

Gosto muito das minhas damas, são como irmãs para mim, mas as vezes só quero ter um pouco mais de espaço e privacidade.

Escolho uma árvore e me sento sob sua sombra, de onde estou consigo observar o movimento das pessoas que são livres para viver como querem, mas eu estou presa nesse palácio noite e dia, aprendo como ser uma boa rainha, administrando um harém e um palácio, esperando que cedo ou tarde me casem com um estranho de quem provavelmente eu não goste e me levem para outro reino. Essa é a vida que me espera, mas que não me agrada e dela não posso fugir.

Lágrimas embaçam meu olhar, mesmo assim noto que um rapaz está parado me observando.

É um homem do povo! Ele é tão lindo, diferente do que vemos por aqui, olhos verdes, cabelos levemente ondulados longos e pretos e barba preta, fico olhando para ele por alguns segundos distraída.

— O que o senhor deseja? – pergunto.

— Desculpe, Milady, não queria ser grosseiro ou incomodá-la em seu descanso. Estou procurando a área de treinamento, preciso falar com o general Faridoon, mas me perdi. – ele diz.

— Não se preocupe, eu lhe mostrarei onde é. – digo e sorrio.

— Lhe agradeço muito. – o homem gentil diz.

Caminhamos lado a lado em silêncio mais uns cem metros e eu lhe mostro a área de treinamento e ele sorri agradecido.

— Obrigado, Milady.

— De nada, cavalheiro...

— Oh... Jahangir Azimi, às suas ordens. – ele diz.

Viro rapidamente porque ouço passos e sei que são minhas damas.

— Não me dirá quem é? – Jahangir pergunta.

— Agora não posso, até as folhas daqui conhecem o meu nome. – lhe respondo assim e saio correndo.

Capítulo 3

Jahangir Azimi POV:

Sigo para a área de treinamento e o general está me esperando, faço uma reverência para ele.

— Sou uma pessoa como você, não faça essa saudação para mim, rapaz. Você é o Jahangir Azimi? – o general diz.

— Sim, senhor. – eu digo com firmeza.

— Vamos começar vendo o quanto você pode correr, comece. – o general diz e eu começo imediatamente a correr por toda a área, confesso que eu pouco tempo estou cansado, mas continuo a correr, pedindo à Ahura-Mazda para que o general peça para eu parar, mas demora um bom tempo e quase me leva a exaustão.

Sinto alívio quando ouço sua solicitação para deter a corrida e o suor banha o meu corpo, tento recobrar o meu fôlego o mais breve possível, o faço com as mãos sobre os joelhos, mas os olhos atentos ao general e suas solicitações.

— Está cansado? – general Faridoon pergunta e eu nego, ainda resfolegando.

— Muito bem, então vamos para o segundo exercício. Quero que pegue o arco e as flechas e acerte os alvos. – diz, entrega o material e aponta para os alvos que estão bem distantes.

O que me deixa bem aflito, a essa distância, com as mãos trêmulas de cansaço, dificilmente acertarei, mas tentarei bravamente, afinal essa é a chance da minha vida.

— Você tem dez chances ou flechas, quero que acerte pelo menos sete no alvo. – o general exige.

Começo e erro a primeira, o que me deixa nervoso.

Acerto a segunda, terceira e quarta, erro a quinta e sexta, sei que não posso errar mais nenhuma e minhas mãos começam a tremer mais ainda, posso ser eliminado agora mesmo.

Posiciono a flecha com muito medo e acerto a sétima, oitava, nona e décima.

— Muito bem, cavalheiro! Me impressionou. – agora vamos para o teste físico.

Em seguida o general me submete aos testes de força, exigindo muito de mim e me levando novamente à exaustão.

— Agora o último teste, para isso pegue a sua espada e venha duelar comigo. – o general exige.

Iniciamos um duelo árduo, combatemos com nossas espadas e só podemos ouvir o tilintar e zunir delas no ar, nos esquivamos dos golpes um do outro e usamos nossos corpos para nos defender em alguns momentos, até que eu acabo perdendo para o general, por falta de atenção e sua espada vem ao meu pescoço, me fazendo perder a batalha.

— Muito bem, são excelentes golpes e duelo, vejo que está realmente bem-preparado, meu bom rapaz. – o general Faridoon diz.

— Esse é o seu parecer? - Me pergunto confuso e resfolegando.

Guardo minha espada e espero em uma posição respeitosa até que o general diga algo ou me dispense, o tempo parece parar diante do seu silêncio.

O general anda de um lado para o outro, de certo está pensando.

Então o vejo pegar uma espada e um uniforme e em seguida ser entregue a arma ser entregue na palma da minha mão direita.

— Cavalheiro Jahangir Azimi, te nomeio e integro a partir de hoje guerreiro do exército do império persa, vá à casa de seus pais, pegue os seus pertences e venha morar aqui no alojamento, aqui terá tudo o que precisa. – o general Faridoon diz finalmente as palavras que espero há todos esses anos.

Esperei a minha vida inteira por essas palavras!

— Prometo a minha fidelidade e lealdade ao Imperador Shahanshah e ao seu império, legado, família, hei de dar a minha vida por sua segurança e proteção, servindo com todo o meu empenho e dedicação. – ergo a espada e faço meu juramento oficial.

Junto o uniforme e a espada nova e guardo em meu alforge, me apresso para seguir para a casa dos meus pais para lhes contar as boas novas.

Monto em meu cavalo e saio a galope do palácio, em algum tempo chego em casa e não os vejo, certamente estão cuidando de nossas terras ou animais, cuido de arrumar minhas poucas peças de roupa e outros itens que me pertencem e busco por eles.

— Enfim meu filho retornou e pelo belo sorriso no rosto, vejo que vitorioso. – diz meu pai.

— Sim, pai, conquistei meu grande sonho e sou um guerreiro do exército persa. – digo com orgulho, vou até meu alforge e mostro a minha espada e uniforme.

— Parabéns, meu querido, você lutou muitos anos para realizar esse sonho, só lamento perder a companhia do meu querido e único filho. – minha mãe diz, já com derramando as primeiras lágrimas.

— Oh mãe, eu sempre virei vê-los e nunca deixarei que falte nada para nessa casa, hei de suprir todas as necessidades que sempre passamos, o salário é bom e trarei todo na sua mão para que possa administrar bem a nossa casa e viver com um pouco de luxo, como merecem. – digo e choramos nós três abraçados.

Enxugamos as lágrimas e minha mãe decide preparar algo para a nossa refeição, enquanto isso conversamos a respeito dos testes e avaliações aplicados pelo general.

Pouco tempo depois, comemos uma refeição quase que exclusivamente composta por verduras e legumes plantados e colhidos por nós mesmos, com raríssima carne, mas é o suficiente para nos sustentar nesse momento, afinal precisamos poupar para ter alimentos para a semana e o mês todo. Somos gratos pelo pouco que temos.

— Hoje a colheita foi boa, amanhã cedo preciso ir vender. – meu pai diz.

— E terá sucesso, meu pai. Agora tenho que partir. – digo.

Minha mãe chora e me abraça, meu pai me abençoa e me ajuda com o alforge e a posicionar os outros itens que estou levando comigo sobre a sela do cavalo.

— Vá e não se esqueça de quem é, dos seus valores, de onde veio, de seus objetivos. Um homem nunca deve ter mais ambição do que coragem, força e dignidade. – meu pai diz.

— Nunca me esquecerei dos seus ensinamentos, meu pai. Eles estão escritos na minha alma e os carrego em meu coração. Eu amo vocês e voltarei o mais breve possível. – digo, os beijo e monto em meu cavalo.

Deixo meus pais e uma nuvem de poeira atrás de mim, sigo a caminho do palácio em Persépolis, minha nova morada.

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