Capítulo 2

Respirei fundo, o ar parecendo rarefeito e cortante em meus pulmões. Sentei-me na beirada da cama e abri a carta.

A caligrafia familiar e elegante de Arthur preenchia a página. Ele escrevia sobre o quanto sentia minha falta, como contava os segundos para estar em casa e abraçar a mim e ao nosso filho. Dizia que estava trabalhando duro para construir um mundo seguro para nossa família.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Parecia um soluço. Lágrimas pingaram no papel caro, borrando a tinta. Ele era um mentiroso magistral. O melhor que eu já conheci.

Enxuguei os olhos e uma fria determinação se instalou em mim. Não havia mais lágrimas para chorar. Havia apenas ação.

Na manhã seguinte, liguei para o hospital. Não para o médico particular que Arthur havia arranjado, mas para o hospital público no centro da cidade. Marquei uma consulta para um aborto.

A criança dentro de mim merecia ser desejada. Merecia um pai que a amasse, avós que a estimassem. Merecia mais do que uma vida como um peão em um jogo cruel, destinada a ser descartada.

Então, liguei para minha antiga academia de dança.

"Gostaria de ativar minha aceitação adiada para o programa de coreografia internacional", disse à diretora, minha voz firme. "Aquele em Paris."

Houve uma pausa do outro lado. "Clara? É você? Nós pensamos... bem, depois da sua lesão..."

"Estou melhor agora", eu disse, a mentira com gosto de cinzas. "Eu quero ir."

"É uma residência de cinco anos, Clara", disse a diretora gentilmente. "É um compromisso de companhia integral. Guardei a vaga para você o máximo que pude, mas as confirmações finais são esta semana. Se você aceitar, terá que partir até sexta-feira. É uma mudança permanente."

"Eu entendo", eu disse.

"Você tem certeza disso? Você soa... diferente."

"Tenho certeza", repeti, minha voz dura. Não havia mais nada para mim aqui.

A diretora suspirou. "Tudo bem. Vou te enviar a papelada final por e-mail. Só precisa da sua assinatura. Me devolva até amanhã."

Desliguei e verifiquei meu e-mail. A carta de aceitação e os formulários de consentimento já estavam lá. Assinei-os sem um momento de hesitação.

Naquela noite, voltei para casa ao som de risadas. Vinha da sala de estar, um som quente e feliz que me deu arrepios.

Espiei pela esquina.

Arthur estava em casa. Ele estava sentado no chão, segurando cuidadosamente o bebê de Aline. Seu rosto, geralmente uma máscara de cálculo político, estava suave de adoração. Ele estava tão tenso, tão focado, como se estivesse segurando a coisa mais preciosa do mundo.

Aline sentou-se no sofá, sendo alimentada com um pedaço de fruta pela minha mãe, Bárbara.

"Isso está muito azedo, mãe", Aline reclamou, empurrando o garfo como uma criança mimada.

Meu pai, o poderoso Senador Queiroz, ajoelhou-se ao lado dela. "Vamos, Alinezinha, só mais uma mordida. Faz bem para você." Ele arrulhava para ela, sua voz escorrendo afeto.

Fiquei na porta, meu corpo parecendo feito de chumbo. Eu não conseguia me mover. Não conseguia respirar.

Arthur finalmente me notou. Seu rosto mudou instantaneamente de pai babão para marido preocupado. Ele entregou cuidadosamente o bebê a uma babá próxima e correu para o meu lado.

"Clara, você está em casa", disse ele, envolvendo-me em seus braços. "Está cansada? Você parece pálida."

Eu não respondi. Apenas olhei por cima dele para Aline.

Minha presença havia quebrado a atmosfera aconchegante. Meus pais pareciam sem graça. Aline agarrou uma almofada no peito, tentando parecer pequena e inofensiva.

"Clara, querida", meu pai começou, sua voz suave e apaziguadora. "Aline passou por um momento difícil. Ela não tem para onde ir. Pensamos... que seria melhor se ela e o bebê ficassem aqui por um tempo."

"O bebê é inocente em tudo isso", acrescentou minha mãe, seus olhos suplicantes. "Ele precisa de uma família."

Aline olhou para mim, segurando seu bebê perto. "Clara, por favor", ela sussurrou, o retrato de uma mãe desesperada e vitimizada. "Eu sei que não mereço, mas por favor, deixe-nos ficar. Pelo bem do bebê."

Virei meus olhos mortos para meu marido. "O que você acha, Arthur?"

Seu olhar vacilou para Aline e a criança, um flash de emoção crua cruzando seu rosto antes que ele o mascarasse.

"O que você decidir, Clara", disse ele, sua voz uma imitação perfeita de apoio. "Estou com você."

Um humor sombrio e amargo subiu pela minha garganta. "Tudo bem", eu disse, a palavra mal um sussurro. "Ela pode ficar."

Meus pais relaxaram visivelmente. Meu pai imediatamente começou a dar ordens aos funcionários, providenciando para que Aline e o bebê tivessem o melhor quarto.

"E peça ao chef para preparar as refeições de pós-parto dela", ele instruiu. "Aquelas especiais que encomendamos."

Arthur me trouxe uma xícara de chá, sua mão repousando nas minhas costas naquele gesto familiar e reconfortante que agora parecia uma marca de ferro. Eu não recuei.

Pelo resto da noite, caixas chegaram. Um fluxo constante de entregas. Balanços de bebê, roupas de grife, brinquedos caros.

Aconteceu de eu olhar para uma das notas de remessa. O nome do comprador era Arthur Neves.

Ele me viu olhando e rapidamente arrancou o papel. "Está ficando barulhento aqui fora. Vamos para a cama. Você precisa descansar." Ele me guiou de volta para o nosso quarto.

Eu não discuti. Estava cansada demais para lutar.

Ele me aninhou na cama, seu toque gentil e cuidadoso, uma mentira perfeita.

"Preciso verificar a equipe da cozinha", disse ele, sua desculpa frágil. "Garantir que eles tenham tudo o que precisam para... Aline."

Eu o observei ir. Vi o alívio em seus olhos quando ele saiu do quarto. Eu sabia exatamente para onde ele estava indo.

Ele não foi para a cozinha. Foi direto para o novo quarto de Aline.

Soube então que não havia sentido em insistir, em tentar forçá-lo a ficar. Seu coração, sua lealdade, seu futuro — estava tudo naquele quarto com ela.

Esperei até a casa ficar em silêncio. Então saí da cama e peguei minhas malas.

Comecei a fazer as malas, metodicamente limpando cada vestígio da minha vida com ele. Fotos, presentes, roupas. A cada item que eu guardava, me sentia um pouco mais leve.

De repente, a porta do meu quarto se abriu com um estrondo.

Arthur e Aline estavam lá. Aline se escondia atrás dele, me espiando com olhos grandes e inocentes.

O olhar de Arthur caiu sobre minhas malas prontas. "O que você está fazendo?", ele perguntou, sua voz tensa.

Eu não olhei para ele. Apenas continuei dobrando um suéter. "O que foi?"

Ele hesitou. "Meus pais... eles acham que seu quarto tem mais luz do sol. É melhor para a saúde do bebê. Eles acham que Aline deveria se mudar para cá."

Antes que eu pudesse responder, minha mãe, Bárbara, entrou apressada, segurando o bebê. Ela nem olhou para mim.

"Clara, seja uma boa menina e mude-se para o quarto de hóspedes no final do corredor. Aline precisa deste quarto."

Aline espiou por trás de Arthur, sua expressão uma mistura perfeita de medo e desculpa. Arthur instintivamente se moveu, colocando seu corpo entre mim e ela, como se eu fosse a ameaça.

Olhei para seus rostos, uma frente unida contra mim.

E eu sorri. Um sorriso calmo e vazio.

"Claro", eu disse. "Tudo pelo bebê."

Capítulo 3

Eu não apenas concordei em ceder meu quarto; eu mesma chamei as empregadas.

"Por favor, ajudem a Sra. Bastos a trazer as coisas dela", eu disse, minha voz estranhamente calma. "E embalem todas as minhas."

As empregadas trabalharam com uma eficiência brutal. Minha vida foi encaixotada e levada em minutos. As coisas de Aline fluíram para substituí-las. Cobertores cor-de-rosa, um berço branco, um móbile com animais de desenho animado sorridentes. Era um quarto de bebê.

Observei-as pendurarem uma gravura emoldurada na parede. Era uma peça personalizada, uma árvore genealógica com os nomes Arthur, Aline e um espaço para o filho deles. Eles vinham planejando isso há muito tempo.

Baixei os olhos, aceitando a finalidade daquilo. Meus pertences foram movidos para um quarto pequeno e escuro no final do corredor. Não me dei ao trabalho de desempacotar. Eu só precisava aguentar as próximas quarenta e oito horas. Então eu estaria livre.

Naquela noite, depois do jantar, houve uma batida suave na minha porta. Era Aline.

"Eu queria te agradecer", disse ela, sua voz doce como veneno. Ela estendeu uma pequena caixa embrulhada. "Este é um presentinho."

Olhei para o rosto dela, tão bonito e inocente, e senti nojo. Dei um passo para trás.

"Eu não quero", eu disse. "Você está aqui porque meus pais e meu marido querem que você esteja. Não tem nada a ver comigo."

Ela se aproximou, seu sorriso inabalável. "Não seja assim, Clara. Eu realmente aprendi minha lição. Eu só quero que sejamos irmãs. Mamãe e papai ficariam tão felizes."

Ela pressionou o presente em minha mão, seu aperto surpreendentemente forte. "Por favor, apenas aceite."

Senti uma onda de exaustão. Discutir era inútil. Peguei a caixa.

Eu a abri. Dentro, aninhada em uma cama de seda, havia uma fotografia antiga e desbotada. Meu sangue gelou.

Era uma foto do homem que me atacou anos atrás, aquele que meus pais pagaram para desaparecer. O homem que me deixou com pesadelos que ainda me assombravam.

A memória de suas mãos em mim, seu hálito fétido, voltou com uma intensidade sufocante.

Meu corpo tremia incontrolavelmente. Com um grito sufocado, joguei a caixa para longe de mim.

Atingiu Aline no peito. Ela soltou um grito agudo e teatral de dor e tropeçou para trás, bem quando passos soaram na escada.

Arthur, meu pai e minha mãe correram pelo corredor.

Arthur estava ao lado de Aline em um instante. "Aline, o que aconteceu? Você se machucou?"

Aline caiu no choro, apontando um dedo trêmulo para mim. "Eu só queria dar um presente a ela... para agradecer... mas ela me odeia. Ela jogou em mim."

Lutei para me levantar, minhas pernas tremendo. "Não foi isso que aconteceu", eu ofeguei. "A foto... era ele. O homem que..."

A testa de Arthur se franziu de aborrecimento. "Clara, do que você está falando? Pare com essa palhaçada."

"Olhe para ela!", gritei, minha voz rouca de desespero. Apontei para a foto no chão. "Apenas olhe para ela!"

Arthur se abaixou e pegou a fotografia. Ele franziu a testa, virando-a nas mãos. Então sua expressão mudou para uma de confusão.

Ele a estendeu para que eu visse.

Não era o agressor. Era a foto de um homem de meia-idade, de rosto gentil, que eu nunca tinha visto antes.

Arranquei a foto da mão dele, meu coração batendo forte. Era impossível. Eu vi. Eu sabia o que vi. Mas a imagem que me encarava era de um estranho.

Aline fungou, enxugando os olhos. "Esse... esse é meu pai biológico", ela sussurrou lamentavelmente. "Devo ter colocado a foto errada na caixa. Sinto muito, Clara. Não quis te chatear."

Ela parecia tão magoada, tão genuinamente arrependida.

O olhar de Arthur se suavizou com pena dela.

"Tenho certeza de que foi apenas um mal-entendido", continuou Aline, sua voz ganhando força. "Talvez... talvez você estivesse apenas vendo coisas, Clara. Você anda muito estressada."

Gaslighting. Era sua arma favorita.

"Não", eu disse, balançando a cabeça. "Eu sei o que eu vi."

Arthur me interrompeu, sua paciência esgotada. Ele ajudou Aline a se levantar. "Já chega, Clara."

Ele se virou para Aline, sua voz gentil. "Não dê mais presentes a ela, Aline. Ela claramente não está bem."

Virei-me e vi o olhar nos olhos dos meus pais. Era pura, não diluída, decepção. Direcionada a mim.

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