Ponto de Vista de Beatriz Ferraz:
O salão de festas mergulhou em uma cacofonia de gritos e chamados frenéticos por segurança. O ar, antes preenchido com conversas educadas e o tilintar de taças, agora estava denso de pânico.
— O que está acontecendo?
— Aquela é... não é a Beatriz Ferraz? A que o Fernando expulsou cinco anos atrás?
— Meu Deus, ela está completamente descontrolada.
Os sussurros giravam ao meu redor como abutres circulando uma presa. Eles estavam certos. Eu estava descontrolada. Fernando me descontrolou.
— Ouvi dizer que ele mandou um vídeo para ela... do cavalo dela...
— Ele o quê? Isso é monstruoso.
— Shh! Os Albuquerque vão te ouvir. Mesmo assim, voltar assim... ela deve estar desesperada.
Ignorei todos eles, meu foco fixo em Fernando. Ele estava olhando para sua mão sangrando, mas não estava se contorcendo de dor. Um sorriso lento e estranho se espalhava por seu rosto. Era o sorriso de um predador que acabara de ser lembrado do quanto gostava da caça. A visão daquilo me causou um arrepio de puro ódio.
Cassandra, ainda no chão, arrastou-se para o lado dele, ignorando seu próprio ferimento.
— Nando, você está bem? Aquela vadia... ela te machucou!
Ela me fuzilou com o olhar, o rosto uma máscara de fúria e lágrimas.
— Como você ousa? Depois de tudo que os Albuquerque fizeram por você, sua órfã ingrata! Você deveria estar de joelhos agradecendo a ele, não o atacando!
Soltei uma risada curta e sem humor.
— De joelhos? É isso que ele está te ensinando agora, Cassandra? A ser uma boa cachorrinha?
Olhei de seu rosto manchado de lágrimas para o olhar sombrio e possessivo de Fernando.
— Ele certamente te treinou bem. Você dominou o ato de "cadela leal" perfeitamente.
Fernando se colocou na frente dela, protegendo-a da minha vista. O gesto era tão familiar que meu estômago revirou. Ele sempre fazia isso, protegendo seu brinquedo mais novo enquanto tentava quebrar o antigo.
— Nosso relacionamento acabou, Beatriz — disse ele, a voz perigosamente baixa. — Você foi expulsa. Você não tem o direito de estar aqui, e certamente não tem o direito de tocar nela.
— Eu tenho todo o direito — cuspi de volta.
Ele deu um passo mais perto, sua figura imponente projetando uma sombra sobre mim.
— A única pessoa que eu amo é a Cassandra — disse ele, as palavras uma facada deliberada. Eu sabia que ele não a amava. Fernando era incapaz de amar. Ele só era capaz de obsessão e posse. — Como um lixo como você conseguiu entrar aqui? Rasteje de volta para o esgoto de onde você veio. Você nunca mais fará parte desta família.
Ele me olhou de cima a baixo, a imagem do desdém aristocrático. O mesmo olhar que ele me deu no dia em que me jogou para fora com nada além da roupa do corpo.
— E você vai pagar pelo que fez no rosto da Cassandra — ele sibilou. — Eu vou garantir isso.
A segurança finalmente estava abrindo caminho pela multidão. Fernando gesticulou para eles, um movimento casual do pulso. Um dos guardas, um homem corpulento que eu não reconheci, aproximou-se de mim com cautela. Fernando então fez algo que gelou meu sangue. Ele enfiou a mão no paletó, tirou uma pequena e ornamentada faca de frutas do seu lugar na mesa e a estendeu para o guarda.
— Dê uma arma a ela — Fernando ordenou, seu sorriso se alargando em um sorriso aterrorizante. — Vamos tornar a luta justa. Eu quero vê-la quebrar.
Eu apenas ri. O som era áspero e quebrado, ecoando no salão de repente silencioso.
— Você acha que pode me quebrar, Nando? Você tenta há anos. Tudo o que você fez foi me deixar mais forte.
O guarda hesitou, olhando dos olhos enlouquecidos de Fernando para os meus, determinados. Eu não esperei por ele. Arranquei a faca da mão de Fernando, seu peso frio e sólido um conforto.
Apontei a ponta da faca para o coração dele.
— Você é patético — sussurrei, minha voz tremendo com uma raiva que fermentava há cinco anos. — Você acha que isso é um jogo? Acha que ainda tem poder sobre mim?
Minha risada ficou mais alta, mais selvagem.
— Você não entende, não é? Eu não voltei para brincar. Eu voltei para queimar seu mundo inteiro até as cinzas.
A memória dos momentos finais de Cometa passou pela minha mente. O relincho aterrorizado, o som frio e industrial da pistola de abate. A imagem de mim, de joelhos na lama, implorando a Fernando para poupá-lo. Ele apenas riu, aquele mesmo sorriso cruel no rosto. Ele me chamou de patética naquela época também.
— Você vai se arrepender disso, Nando — eu disse, minha voz caindo para um silvo venenoso. — Eu juro pelo túmulo de Cometa, um dia, você vai se ajoelhar diante de mim e implorar pela misericórdia que nunca mostrou a ele. E eu vou rir, assim como você fez.
O sorriso em seu rosto desapareceu, substituído por uma carranca furiosa. Ele sabia que eu estava falando sério. Ele sabia que o jogo havia acabado.
— E você — eu disse, virando meu olhar para Cassandra, que se encolhia atrás dele — estará bem ao lado dele.
Minha risada selvagem ecoou pelo salão enquanto a segurança finalmente me cercava. Mas eles chegaram tarde demais. O primeiro tiro da minha guerra já havia sido disparado.
Ponto de Vista de Beatriz Ferraz:
A mão de Fernando disparou, fechando-se em meu pescoço antes que alguém pudesse reagir. O ar foi violentamente forçado para fora dos meus pulmões. Pontos pretos dançaram nas bordas da minha visão enquanto ele apertava, seu polegar pressionando minha traqueia.
— Eu deveria ter te matado cinco anos atrás — ele rosnou, o rosto a centímetros do meu. Seus olhos não estavam mais cheios de diversão fria, mas de pura fúria assassina. Este era o verdadeiro Fernando, o monstro que eu conhecia tão bem.
Ele me jogou para trás. Meu corpo bateu com força no chão, o impacto sacudindo meus ossos. O vidro quebrado da garrafa de champanhe cravou nas minhas costas e braços, pontadas agudas de dor que não eram nada comparadas à pressão na minha garganta.
Ele estava em cima de mim em um instante, uma mão ainda esmagando meu pescoço, a outra agarrando um punhado do meu cabelo e puxando minha cabeça para trás.
— Ajoelhe-se — ele ordenou, sua voz um rosnado baixo e aterrorizante. — Ajoelhe-se e implore pelo meu perdão.
Minhas mãos arranhavam inutilmente seu pulso, minhas unhas raspando sua pele. Eu não conseguia respirar. O mundo estava se estreitando para um túnel escuro.
— Eu te dei tudo, Beatriz — ele sibilou, o rosto contorcido em uma máscara de fúria psicótica. — Eu te dei um lar. Um nome. Sua vida é minha para dar, e minha para tirar.
Um sorriso doentio e distorcido se espalhou por seus lábios.
— Mas não vou deixar você morrer. Ainda não. Seria fácil demais. — Ele se inclinou mais perto, seu hálito quente contra minha orelha. — Você é meu brinquedo favorito. E eu não terminei de brincar com você.
A lembrança de uma videochamada passou pela minha mente. Era de Cassandra, uma semana depois de eu ter sido exilada. Ela estava rindo, exibindo uma nova pulseira de diamantes.
— O Nando comprou para mim — ela arrulhou, a voz escorrendo malícia. — Um presentinho de agradecimento. Por me livrar da concorrência.
Ela então virou a câmera, mostrando Fernando ao fundo, olhando pela janela.
— Ele ficou tão desapontado que você não lutou mais pelo seu precioso cavalo — ela disse. — Ele queria te ver quebrar. Ele me disse que adora ver a luz morrer nos seus olhos.
Sua voz caiu para um sussurro conspiratório.
— Cuidado, Beatriz. Se ele se cansar de mim, você pode ser a próxima na lista dele. E ele não ficará satisfeito em apenas te matar.
A memória alimentou uma última e desesperada onda de desafio. Juntei a pouca saliva que me restava na boca, espessa com o gosto metálico de sangue do meu lábio mordido, e cuspi diretamente no rosto de Fernando.
Uma gota vermelha pousou em sua bochecha perfeitamente esculpida.
Seus olhos se arregalaram em choque, depois se estreitaram em pura repulsa. Por um momento, seu aperto em minha garganta afrouxou enquanto ele recuava.
Foi toda a abertura que eu precisava.
Eu arquejei por ar, uma respiração crua e irregular que queimou meus pulmões.
— Com nojo, Nando? — grasnei, um sorriso ensanguentado esticando meus lábios. — Ótimo. Acostume-se.
Imitei seu tom anterior, minha voz um eco quebrado e zombeteiro da sua.
— Eu também não terminei de brincar com você.
Meu olhar passou por ele para os rostos horrorizados na multidão.
— Eu voltei para fazer cada pessoa que me machucou pagar — declarei, minha voz ficando mais forte a cada palavra. — E eu sempre começo pelo que está no topo.
O rosto de Fernando era uma nuvem de tempestade de raiva. Ele limpou a saliva de sua bochecha com as costas da mão.
— Tudo bem — disse ele, a voz perigosamente calma. — Você quer brincar? Vamos brincar.
Ele se levantou, pairando sobre mim.
— Segurança — ele chamou, sua voz ressoando com autoridade. — Vigiem-na. Não a deixem se mover.
Ele então me deu as costas, caminhando até Cassandra, que agora estava sendo cuidada por suas amigas. Ele se ajoelhou ao lado dela, sua expressão suavizando para uma de preocupação gentil enquanto afastava uma mecha de cabelo solta e encharcada de sangue de seu rosto.
— Está tudo bem, querida — ele murmurou, sua voz agora um bálsamo calmante. — Eu estou aqui. Eu vou cuidar disso.
Cassandra se desfez em soluços teatrais, enterrando o rosto em seu peito.
Eu me sentei, meu corpo gritando em protesto. As bordas afiadas do vidro cravaram mais fundo na minha pele, mas eu mal senti. Tudo o que eu podia sentir era o calor escaldante do meu ódio.
Os sussurros começaram novamente, desta vez tingidos com uma espécie de pena cruel.
— Ela é uma tola por desafiá-lo.
— Você viu o jeito que ele olhou para a Cassandra? Ele realmente a ama.
— Pobre garota. Ela nunca teve chance. Ela é apenas uma órfã que ele acolheu. Deveria ter se mantido em seu lugar.
Alguém perto de mim pegou o celular. Um vídeo começou a tocar. O som de um cavalo aterrorizado. Meu cavalo. Cometa.
O som me atingiu como um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões mais uma vez.