Ponto de Vista de Eliana
Na manhã seguinte, Heitor estendeu a mão para mim na cama, com a intenção de pousá-la em meu quadril. Eu me afastei antes que pudesse me conter. Foi um movimento pequeno, quase imperceptível, mas seu lobo interior notou. Um rosnado baixo de confusão e descontentamento retumbou em seu peito, um som que eu podia mais sentir do que ouvir.
*Tem algo errado, meu amor?* sua voz ecoou em minha mente através do nosso Elo Mental.
Eu continuei de costas para ele. *Apenas um pesadelo.*
Ele não insistiu. Em vez disso, ele roçou o nariz em meu pescoço, sua voz tornando-se suave e persuasiva. "Tenho uma surpresa para você esta noite. Vamos ao restaurante do terraço. Aquele onde nos conhecemos." Ele fez uma pausa, deixando a memória pairar no ar entre nós. "Quero que seja uma noite especial."
Um sorriso frio tocou meus lábios. "Parece perfeito", eu disse, minha voz oca. "Eu também tenho uma surpresa para você." O pedaço derretido de pedra da lua já estava embrulhado em uma pequena caixa simples na minha bolsa.
Minha mente vagou para a semana passada. Meu aniversário. Heitor havia esquecido. Ele alegou que havia um assunto urgente da alcateia, um ataque de lobos renegados perto da fronteira norte que exigia sua atenção imediata. Ele ficou fora a noite toda. Agora, eu sabia exatamente qual "loba renegada" ele estava "cuidando".
A amargura era um gosto físico na minha boca.
Naquela noite, enquanto íamos para o restaurante em seu elegante carro esportivo preto, meus olhos captaram algo no tapete do lado do passageiro. Um único e longo fio de cabelo loiro-oxigenado. De Jamile.
Eu não disse nada.
O restaurante ficava no topo de um arranha-céu com vista para a cidade, as luzes brilhando como um mar de estrelas abaixo. Era lindo, romântico, e o lugar onde ele uma vez me prometeu o mundo. Parecia um lugar apropriado para terminar tudo.
No meio do nosso aperitivo, a testa de Heitor se franziu. "Droga", ele murmurou, batendo na têmpora. "A rede do Elo Mental está com problemas de novo. Algo sobre o servidor no quarto quadrante. Preciso ligar para o Gama. Volto já."
Era uma mentira, claro. Não havia servidor. A "rede do Elo Mental" era uma desculpa conveniente que ele usava para os negócios da alcateia e, agora, para seu caso.
No momento em que ele saiu, eu me movi. Voltei para o carro, meus saltos estalando no asfalto. Seu celular reserva, aquele que ele achava que eu não conhecia, estava no porta-luvas. Eu sabia a senha: o aniversário de Jamile.
A tela se acendeu, revelando uma série de mensagens de texto explícitas.
Jamile: *Tá com ela agora? É tão chato quanto você diz?*
Heitor: *Dolorosamente. Estarei com você em breve. Use o vestido vermelho. Aquele que eu gosto.*
Uma nova mensagem apareceu enquanto eu olhava. Era uma foto de Jamile. Ela estava posando em um espelho, segurando uma pequena e icônica caixa verde-escura. Uma caixa da H.Stern. A legenda dizia: *Mal posso esperar para você colocar isso em mim hoje à noite, Alfa.*
Meu estômago revirou. A repulsa física era tão forte que senti que ia vomitar. Não era apenas ciúme; era minha alma, meu próprio lobo, rejeitando a profanação do nosso vínculo sagrado.
Quando Heitor voltou para a mesa, seu rosto era uma máscara de charme plácido. "Tudo resolvido", disse ele com um sorriso.
Eu olhei para ele, realmente olhei para ele, e vi um estranho. A náusea subiu pela minha garganta, quente e ácida.
"Você está bem?", ele perguntou, a testa franzida com o que parecia ser preocupação. "Você está pálida."
"Deve ter sido o carpaccio", menti, empurrando minha cadeira para trás. "Não estou me sentindo bem."
Corri para o banheiro e esvaziei o conteúdo do meu estômago no vaso sanitário branco e imaculado, meu corpo convulsionando com o veneno de sua traição.
Ponto de Vista de Eliana
No caminho para casa, uma calma estranha e terrível tomou conta de mim. A náusea violenta diminuiu, substituída por uma clareza gélida. Minha loba interior, que estava choramingando de dor, silenciou. Era como se ela também entendesse. O tempo da dor havia acabado. Agora era a hora da ação.
Quando entramos na garagem de nossa mansão enorme e estéril, eu me virei para ele.
"Heitor", eu disse, minha voz suave, "sinto que estamos tão desconectados ultimamente. Você pode ficar em casa amanhã? Por favor? Só por mim. Sem trabalho, sem negócios da alcateia. Só nós."
Observei o conflito se desenrolar em seu rosto. A irritação imediata de seus planos serem frustrados, rapidamente mascarada pela preocupação fingida de um companheiro devotado. Ele deveria ver Jamile amanhã. Eu sabia disso.
"Claro, meu amor", ele finalmente disse, forçando um sorriso caloroso. Ele faria o papel do Alfa sacrificando seus deveres por sua preciosa companheira. "Qualquer coisa pela minha Âncora."
Naquela noite, esperei até que o som de sua respiração profunda e regular enchesse o quarto. Então, saí da cama e fui para o escritório dele. A senha do seu computador de trabalho era pateticamente fácil: nosso aniversário. O dia em que nos conhecemos.
Naveguei até a lixeira. Ele era arrogante, mas não inteligente o suficiente para deletar permanentemente seus arquivos. Lá estava. Um arquivo de vídeo.
Cliquei em play.
O vídeo mostrava Jamile, vestindo nada além de uma das camisas sociais de Heitor, sentada na beirada de sua enorme mesa de carvalho. Minha mesa, no que antes era nosso escritório compartilhado.
"Quando você vai finalmente me marcar, Alfa?", ela ronronou, passando um dedo de unha vermelha pela gravata dele. "Quando você vai se livrar daquela Ômega velha e chata e me fazer sua verdadeira Luna?"
Fechei o laptop, minhas mãos nem mesmo tremendo.
Na manhã seguinte, eu estava acordada quando as ligações frenéticas de Jamile começaram. Heitor saltou da cama, pegando o celular e se retirando para o banheiro principal, fechando a porta atrás de si. Mas ele não podia bloquear minha audição de lobisomem aguçada.
"Não posso, Jamile, ela quer que eu fique em casa hoje... Não, não posso simplesmente sair... Eu te compenso, prometo", ele sussurrou, sua voz um murmúrio baixo e apaziguador.
Ele saiu alguns minutos depois, fingindo um bocejo. Para se desculpar por seu "sono interrompido", ele preparou um café da manhã luxuoso, enchendo meu prato com panquecas e frutas. "Deveríamos contratar mais funcionários", disse ele, esbanjando falsa sinceridade. "Você não deveria ter que levantar um dedo, meu amor."
Eu olhei para ele do outro lado da mesa, um perfeito estranho. "Heitor", comecei, minha voz deliberadamente casual, "estamos bem? Como companheiros?"
Ele pareceu surpreso, então seu rosto se suavizou em sua máscara bem praticada de devoção. Ele pegou minha mão. "Eliana, você é meu mundo. Minha Âncora. Eu nunca, jamais faria algo para te machucar. Você sabe disso." A mentira era tão suave, tão sem esforço.
Puxei minha mão e tomei um gole do meu café. "Bom", eu disse. "A propósito, você chegou a me dar aquele presente de aniversário da semana passada? Acho que nunca recebi."
O efeito foi instantâneo. Seu sorriso congelou. O sangue sumiu de seu rosto. Um lampejo de pânico puro brilhou em seus olhos antes que ele pudesse escondê-lo. Ele havia esquecido completa e totalmente.