Na manhã seguinte, Clara sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com sua febre. Lembrou-se das palavras de Heitor da noite anterior, a crueldade casual em sua voz enquanto planejava a próxima "pegadinha" com Stella.
Ela caminhou em direção ao escritório dele, um lugar onde geralmente era bem-vinda. A porta estava entreaberta. Ela ouviu suas vozes novamente.
— Tem certeza de que isso é uma boa ideia, Heitor? Um sequestro falso parece um pouco demais — disse Stella.
— É perfeito — respondeu Heitor, sua voz suave. — Teremos as duas amarradas. Eu em uma videochamada. Terei que escolher quem salvar. Será o teste final do meu amor por você, querida.
O coração de Clara parou.
— Mas e se ela ficar com medo? E se ela realmente se machucar? — perguntou Stella, com uma falsa nota de preocupação na voz.
— Não se preocupe. É tudo encenado. Haverá um airbag. É a pegadinha número 98. Precisamos torná-la memorável antes do grande final.
O grande final. O casamento. Onde eles planejavam revelar tudo e rir dela.
— E se você começar a sentir pena dela? — Stella pressionou.
Houve uma pausa. Clara prendeu a respiração.
— Sentir pena da Clara? — Heitor riu, um som frio e vazio. — Nunca. Isso sempre foi sobre você, Stella. Sempre foi por você.
— Ah, Heitor — Stella ronronou, satisfeita. — Eu sabia que você ainda me amava mais.
Clara recuou da porta, seu corpo dormente. Sentia como se não pudesse respirar. Cada palavra de amor, cada toque terno dos últimos três anos era uma mentira. Uma performance.
Ela conseguiu voltar para seu quarto, desabando na cama. Seu corpo tremia.
Algumas horas depois, seu telefone tocou. Era Heitor.
— Oi, amor. Desculpe por ontem à noite. Sinto sua falta — disse ele, sua voz cheia de um calor falso. — Escuta, preciso que você faça algo por mim.
Ele precisava que ela entregasse um arquivo em uma mansão remota na serra. Disse que era urgente, para um negócio. Disse a ela para ir sozinha e não contar a ninguém.
— E Clara — ele acrescentou —, use aquele vestido branco que eu tanto amo.
Ela sabia que era uma armadilha. Era o começo da pegadinha número 98. Mas seu passaporte e identidade ainda estavam desaparecidos. Ele os tinha. Ele a estava controlando.
— Eu te devolvo seu passaporte e identidade logo depois que você entregar o arquivo — disse ele, como se lesse seus pensamentos.
Ela não tinha escolha. — Ok — sussurrou.
A viagem foi longa. Sua febre piorou e seu corpo doía. Quando finalmente chegou à mansão, o sol estava se pondo, lançando sombras longas e sinistras.
Quando estendeu a mão para a campainha, dois homens mascarados a agarraram por trás. Eles a arrastaram para dentro, a amarraram a uma cadeira e colocaram um saco em sua cabeça.
Quando finalmente tiraram o saco, ela viu Stella amarrada a uma cadeira em frente a ela. Stella estava chorando, sua maquiagem borrada. Era uma performance convincente.
Um laptop foi colocado na frente delas. A tela piscou e mostrou o rosto bonito e preocupado de Heitor.
— Heitor! Nos ajude! — Stella gritou.
Um dos homens mascarados, com a voz distorcida eletronicamente, disse: — Heitor Albuquerque. Você só pode salvar uma. Sua noiva, ou sua pequena artista. Escolha.
O rosto de Heitor era uma máscara de angústia. Ele olhou de Stella para Clara.
Por um segundo louco, o coração de Clara bateu com um pingo de esperança. Ele a escolheria? Depois de três anos, algo daquilo significou alguma coisa para ele?
— Eu escolho a Stella — disse Heitor, sem um momento de hesitação. — Eu pago qualquer coisa. Apenas a deixem ir.
Ele olhou para Clara, seus olhos cheios de uma falsa pena. — Sinto muito, Clara. De verdade.
Então ele desligou.
A esperança dentro de Clara morreu, final e para sempre.
Os homens desamarraram Stella e a levaram embora. Clara foi deixada sozinha no quarto escuro.
Então, os homens voltaram para buscá-la. Eles a arrastaram em direção a uma grande janela com vista para o penhasco.
— Ele não te escolheu — um deles rosnou. — Agora você paga o preço.
Eles a empurraram para o parapeito da janela. O vento chicoteava seu cabelo em seu rosto. Abaixo, havia apenas escuridão e o som das ondas quebrando.
— Por favor — ela sussurrou, sem saber a quem estava implorando.
Instintivamente, ela chamou o nome dele. — Heitor!
Então ela parou. Por que estava chamando pelo homem que acabara de condená-la à morte? Seu coração parecia estar sendo arrancado de seu peito.
— Nos dê o arquivo — disse o homem —, ou você vai para baixo.
Ela agarrou o arquivo contra o peito. Era a última coisa que ele havia pedido que ela fizesse por ele. Mesmo agora, alguma parte quebrada dela queria ser leal.
O homem de repente a soltou.
Ela perdeu o equilíbrio, seu corpo tombando sobre a borda. Enquanto caía, uma estranha sensação de paz a invadiu. Era isso. Era o fim da dor.
Ela fechou os olhos, esperando pelo impacto.
Mas ele nunca veio.
Ela aterrissou em algo macio, elástico. Um airbag.
Risadas explodiram ao seu redor. Os homens tiraram as máscaras. Eram os amigos de Heitor. Stella estava lá, olhando para ela de cima, um sorriso triunfante no rosto.
— Você realmente achou que ele escolheria você? — um deles zombou. — Foi tudo uma pegadinha, sua idiota.
— Ela realmente achou que ele a amava — outro riu. — Ela até chamou o nome dele antes de cair.
Clara ficou deitada no airbag, olhando para seus rostos zombeteiros. O mundo girava ao seu redor. A humilhação foi um golpe físico, pior do que qualquer queda. Esta era a pegadinha número 98. Um jogo que eles jogaram com sua vida, seu coração.
E ela havia caído completamente.
Stella se aproximou, seus saltos clicando no pavimento. Ela pegou o arquivo que havia caído ao lado de Clara.
— Obrigada por entregar isso, Clara — disse ela, sua voz escorrendo uma doçura falsa. — É a escritura de uma villa na França. Um presentinho de casamento do Heitor para mim.
Heitor apareceu, correndo para o lado de Stella. Ele a abraçou, seu rosto cheio de preocupação.
— Você está bem, querida? Eles te assustaram? — ele perguntou, ignorando completamente Clara no chão.
— Estou bem, Heitor. Foi só um sustinho — disse Stella, aninhando-se nele.
Heitor beijou sua testa. — Vamos para casa. Vou pedir ao meu médico para te examinar.
Ele levou Stella embora sem um único olhar para trás, para Clara. Seus amigos o seguiram, ainda rindo.
Clara foi deixada sozinha na escuridão, o frio se infiltrando em seus ossos.
Ela lentamente se levantou. Seu passaporte e identidade estavam no chão, próximos. Ele havia cumprido sua promessa, da maneira mais cruel possível.
Ela os pegou e tirou o celular. Percorreu seus contatos até encontrar um número que não ligava há muito tempo. Um número que ela havia conseguido depois de uma aposta meio ano atrás.
O telefone tocou uma vez antes que uma voz profunda e calma atendesse. — Gael Oliveira.
Lágrimas escorreram pelo rosto de Clara. — Gael — ela engasgou. — Eu perdi a aposta. Estou pronta para ir embora.
— Vou cuidar do visto — disse ele, sua voz quente e firme. — Vou te buscar em uma semana.
Havia um som de sorriso em sua voz. — Eu sabia que você ligaria.
Depois que ela desligou, a secretária de Heitor, uma mulher chamada Sara, apareceu. Ela ajudou Clara a se levantar, seu rosto cheio de pena.
— O Sr. Albuquerque me pediu para levá-la para casa, Srta. Ribeiro — disse ela suavemente. Ela entregou a Clara um pão doce quente de uma padaria familiar. Era o favorito de Clara.
A visão daquilo, um pequeno símbolo de um amor que nunca foi real, a quebrou. As lágrimas que ela vinha segurando finalmente vieram, quentes e rápidas.
O estresse, a queda e o frio finalmente cobraram seu preço. Clara desmaiou, sua febre disparando. Ela acordou em uma cama de hospital.
Heitor estava sentado ao seu lado, descascando uma maçã com cuidado. Ele parecia o noivo perfeito e atencioso.
— Você acordou — disse ele, com a voz suave. Ele pegou a mão dela. — Você me assustou. Por que não me disse que estava doente?
Clara olhou para o rosto dele, o rosto bonito que ela tanto amara. Lembrou-se de todas as vezes que ele cuidou dela, de todos os grandes gestos. Uma vez, ela pensou que ele era seu anjo da guarda. Agora ela sabia que ele era seu demônio pessoal.
— O incidente desta manhã está em todas as notícias — disse ele, sua voz ficando séria. — Não diga nada à imprensa. Eu vou cuidar disso.
Ela viu um brilho de algo em seus olhos. Ele estava escondendo alguma coisa.
Quando ele saiu para falar com o médico, ela pegou o celular.
As manchetes eram brutais. "Noiva de Heitor Albuquerque em Falso Sequestro". Mas os artigos não eram sobre ela. Eram sobre Stella. A mídia estava pintando Stella como vítima de uma pegadinha cruel, e Clara como a outra mulher ciumenta e instável que poderia ter orquestrado tudo.
Então ela viu. Uma postagem da conta oficial de Heitor nas redes sociais.
"Stella é a mulher mais importante da minha vida. Não permitirei que ninguém a machuque. As pegadinhas foram longe demais. Eu a protegerei, sempre."
Abaixo, Stella havia respondido: "Algumas pessoas fazem qualquer coisa por atenção. Tão patético."
Os comentários eram uma enxurrada de ódio, todos dirigidos a Clara. "Interesseira." "Psicopata." "Deixe Heitor e Stella em paz."
Ele a havia jogado aos lobos para fazer Stella parecer uma santa. Ele a estava usando, uma última vez.
Heitor voltou para o quarto, um sorriso gentil no rosto.
— O médico disse que você só precisa de um pouco de descanso — disse ele. — O que você ia me dizer, lá na mansão, antes de... cair?
Ele ainda estava jogando o jogo.
— Nada — disse Clara, sua voz morta.
O telefone dele tocou. Era Stella. Ele virou de costas para ela para atender, sua voz baixando para um sussurro íntimo.
— Já estou indo, querida. — Ele desligou e se virou para Clara. — Fique aqui e melhore. A gala de caridade para o seu centro de artes é em três dias. Mandarei um carro te buscar.
Ele saiu do quarto sem olhar para trás.
Clara olhou para a maçã que ele havia descascado para ela. Ele até a cortara em pequenas formas de estrela, do jeito que ela gostava.
Então ela se lembrou. Ela era alérgica a maçãs. Era Stella quem as amava.
Mesmo neste pequeno gesto íntimo, ele as havia confundido. Ou talvez, ele nunca a tivesse visto de verdade.