Capítulo 2

As luzes fluorescentes da sala de espera do hospital público eram duras e impiedosas. Faziam todos parecerem doentes, inclusive eu. Eu segurava um copo de papel com café frio e amargo, o cheiro institucional de antisséptico e miséria impregnado em minhas roupas.

Léo estava na emergência, ligado a máquinas que apitavam e zumbiam, cada som uma nova onda de pavor no meu coração.

Um médico finalmente saiu. Ele era jovem, cansado e seu rosto estava sombrio.

"Sra. Viana?"

Levantei-me, minhas pernas instáveis. "Sou Clara Menezes", corrigi-o automaticamente. Eu não usava o nome de Franco há meses, não desde que nosso mundo supostamente desmoronou.

Ele não pareceu notar. "Seu filho está estável por enquanto, mas a condição dele é crítica. É um evento neurológico de início súbito, provavelmente ligado ao autismo dele. É muito raro e muito agressivo."

Eu apenas o encarei, sem entender os termos médicos, apenas o pavor em sua voz.

"Do que ele precisa?", perguntei, minha voz mal um sussurro.

"Ele precisa de um procedimento imediato", disse o médico, seus olhos evitando os meus. "Chama-se Intervenção Neurovascular. É complexo e requer um especialista. E... é extremamente caro."

Ele mencionou um número que me deixou sem ar. Duzentos mil reais. À vista.

"Somos um hospital público, Sra. Menezes", ele continuou gentilmente. "Não temos o equipamento nem os especialistas para isso. Você precisaria transferi-lo para uma instituição privada, como o Sírio-Libanês. Mas eles não o admitirão sem o pagamento."

Duzentos mil reais. Poderia muito bem ser duzentos milhões. Eu tinha setenta e três reais na minha conta bancária.

O médico viu a expressão no meu rosto. "O pai dele... ele está presente?"

A imagem de Franco naquele terraço, jogando dinheiro fora, passou pela minha mente. O helicóptero. A amante grávida.

"Ele está... indisponível", engasguei.

A memória era tão vívida, tão nítida, que parecia estar acontecendo de novo. O confete de notas de cem reais. O sorriso triunfante de Janine. A mentira fácil de Franco.

Estou escondido de credores num motel em Osasco.

A mentira era uma coisa física, uma pedra na minha garganta.

Senti uma onda de algo frio e duro substituir o pânico. Era fúria. Uma fúria pura e focada.

Ele tinha o dinheiro. Ele tinha, e estava gastando em uma festa enquanto nosso filho morria.

Olhei para o médico, minha determinação se solidificando. "Eu vou conseguir o dinheiro."

Ele pareceu duvidoso, mas assentiu. "Você não tem muito tempo. Algumas horas, talvez."

Algumas horas.

Saí da sala de espera, minha mente uma lousa em branco, exceto por um único pensamento ardente: Franco.

Saí do hospital para a tarde cinzenta. Não peguei meu carro. Peguei o metrô, o chiado metálico do trem uma trilha sonora para a tempestade na minha cabeça.

Eu estava indo para o prédio do Grupo Viana. A reluzente torre de vidro perto da Faria Lima, onde Franco construiu seu império. O lugar que eu uma vez o ajudei a decorar, o lugar onde levei um Léo bebê para visitar seu pai.

Agora eu estava indo como uma mendiga. Um fantasma de uma vida que ele tentou apagar.

Ao me aproximar da entrada grandiosa, vi que estavam montando algo para um evento. Uma coletiva de imprensa. Havia vans de reportagem e jornalistas.

Uma grande faixa estava sendo desenrolada sobre as portas. Lia-se: "GRUPO VIANA: UMA NOVA ERA DE PROSPERIDADE."

Abri caminho pela multidão que se formava, meu coração uma pedra fria e pesada no peito. Ele não estava mentindo apenas para mim. Ele estava mentindo para o mundo inteiro. E eu estava prestes a entrar no meio de sua grande performance para exigir a vida de nosso filho.

Capítulo 3

Uma mão agarrou meu braço bem quando eu alcançava as portas giratórias do prédio do Grupo Viana.

"Desculpe, senhora. Este é um evento particular."

O segurança era do tamanho de um armário, sua expressão impassível. Ele era novo. Não me reconheceu.

"Eu sou Clara Menezes. Franco Viana é meu marido. Preciso vê-lo."

Os olhos do segurança piscaram com um pingo de reconhecimento, mas ele não se moveu. "O Sr. Viana está se preparando para uma coletiva de imprensa. Ele não pode ser perturbado."

"Meu filho está no hospital", eu disse, minha voz subindo com desespero. "Ele está morrendo. Preciso falar com ele agora."

O aperto do segurança se intensificou. "Tenho minhas ordens, senhora."

"Ordens? De quem?"

"Minhas."

A voz era como seda e veneno. Janine Moraes saiu de trás do segurança, uma visão em um elegante vestido de maternidade cor de creme que não fazia nada para esconder sua barriga inchada. Ela me olhou de cima a baixo, uma avaliação lenta e deliberada do meu casaco barato e sapatos gastos. Um sorriso pequeno e cruel brincava em seus lábios.

"Clara. Que surpresa", disse ela, seu tom pingando falsa doçura. "Pensei que você estaria enfiada naquele apartamentinho charmoso na Zona Leste."

Ela usava meus antigos brincos de diamante. Aqueles que Franco me deu no nosso primeiro aniversário. Pareciam vulgares nela.

"Preciso ver o Franco", eu disse, ignorando sua provocação. "É sobre o Léo."

Tentei manter minha voz firme, esconder a fúria e o medo. Pelo Léo, eu tinha que estar calma. Pelo Léo, eu faria qualquer coisa.

"O Franco está ocupado", disse Janine, aproximando-se. Eu podia sentir seu perfume caro. "Ele está prestes a anunciar seu retorno triunfante. A falsa falência foi um golpe de gênio, não foi? Livrou-se de todo o peso morto."

Ela olhou para mim de forma pontual. Eu era o peso morto.

"Por favor, Janine", implorei, a palavra com gosto de cinzas na minha boca. "O Léo está doente. Ele precisa de uma operação. Custa duzentos mil reais. Eu sei que o Franco tem."

Minha humilhação era um banquete para ela. Seus olhos se iluminaram de prazer.

"Duzentos mil?", ela ronronou, colocando uma mão protetora na barriga. "É muito dinheiro. O Franco precisa disso para sua nova família. Para seu herdeiro saudável."

As palavras foram um golpe físico. Herdeiro saudável. Como se Léo fosse defeituoso. Manchado.

"Eu faço qualquer coisa", eu disse, minha voz quebrando. Eu me odiava por implorar a essa mulher, mas o rosto de Léo, pálido e lutando para respirar, estava gravado em minha mente. "Eu assino os papéis do divórcio. Nunca mais peço um centavo. Apenas... apenas me dê o dinheiro para a cirurgia. Salve-o."

Janine riu. Um som agudo e feio.

"Você realmente não entende, não é?", disse ela, inclinando-se para que apenas eu pudesse ouvir. "Tudo isso... você perder sua cobertura, seu dinheiro, sua vida... não foi apenas negócio. Foi para o meu entretenimento."

Seus olhos eram frios e duros.

"Eu queria ver você rebaixada. Eu queria ver você rastejar. E o Franco? Ele me deu tudo o que eu queria."

"Ele sabe que o Léo está doente?", sussurrei, a última gota de esperança se desfazendo.

"Ele sabe", ela confirmou, seu sorriso se alargando. "E ele sabe que você está aqui. Na verdade, foi ele quem disse à segurança para não deixar você entrar."

O mundo girou em seu eixo. Ele sabia. Ele sabia que eu estava aqui, implorando pela vida de nosso filho, e ele tinha soltado sua amante em mim como um cão.

"Você é patética", Janine zombou, apreciando meu silêncio atordoado. "Você é uma dona de casa fracassada com um filho quebrado. Você é um obstáculo. E eu sou muito, muito boa em remover obstáculos."

Ela se virou para o segurança. "Leve-a para o elevador de serviço. Mostre a ela a saída dos fundos. Não podemos tê-la estragando o grande dia."

O segurança agarrou meu braço novamente, seu aperto firme e impessoal. Ele começou a me arrastar, passando pelos repórteres e pelas faixas que celebravam uma nova era de prosperidade construída sobre as ruínas da minha vida.

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