Capítulo 2

O funeral foi um evento sombrio, um mar de ternos pretos e murmúrios baixos. O caixão da minha mãe estava fechado, um arranjo de lírios brancos cobrindo a madeira escura. Cada olhar de compaixão parecia uma mentira. Eles me viam como a filha enlutada, a amada esposa do grande Breno Queiroz. Não viam a mulher que estava sufocando.

Breno estava ao meu lado, um pilar de força para as câmeras, sua mão um peso pesado na base das minhas costas. Um genro perfeito e enlutado.

Então, eu a vi.

Catarina Vasconcelos, caminhando em nossa direção, seu rosto uma máscara de tristeza que não alcançava seus olhos frios e calculistas. Ela usava um vestido preto ridiculamente caro, mais adequado para um coquetel do que para um funeral.

Meu sangue virou gelo.

"O que ela está fazendo aqui?", sibilei para Breno, minha voz baixa e venenosa.

Ele apertou minhas costas, um aviso silencioso. "Comporte-se, Amélia. As pessoas estão olhando."

Catarina parou na nossa frente. "Amélia, eu sinto muito, muito mesmo pela sua perda. Sua mãe era uma mulher maravilhosa."

A hipocrisia era de tirar o fôlego.

"Saia daqui", eu disse, minha voz tremendo de raiva.

Ela fingiu choque, colocando a mão sobre o coração. "Eu só vim prestar minhas condolências."

"Você quer prestar suas condolências?" Minha voz se elevou, atraindo alguns olhares curiosos. "Ajoelhe-se, Catarina. Ajoelhe-se aqui neste chão frio e implore o perdão da minha mãe. Perdão pela vida que você e sua família destruíram. Perdão pelo meu pai."

Um suspiro percorreu a pequena multidão que se formava ao nosso redor.

Os olhos de Catarina brilharam de raiva antes que a máscara de luto voltasse ao lugar. Ela olhou para Breno, uma donzela em perigo.

"Breno, eu..."

"Amélia, já chega", disse Breno, seu tom não deixando espaço para discussão. Ele a estava protegendo. Ali, no funeral da minha mãe, ele estava protegendo sua amante.

"Chega?" Eu ri, um som agudo e quebrado. "Nunca será o suficiente. Eu quero que ela vá embora."

Ele se inclinou, seu hálito quente contra minha orelha. "Não faça uma cena. Discutiremos isso em casa." As palavras eram uma ameaça.

Catarina me deu um pequeno sorriso triunfante por cima do ombro de Breno. Ela tinha vencido. Ela sempre vencia.

Olhei para os lírios brancos no caixão, meu coração um peso frio e morto no peito. Eu não podia lutar com ele aqui. Não podia lhe dar essa satisfação.

"Tudo bem", sussurrei, a palavra uma rendição.

Ele se endireitou, seu rosto público de volta ao lugar. "Catarina, talvez seja melhor você ir", disse ele, sua voz gentil. Ele a estava livrando.

Ele a pegou pelo cotovelo e a levou para longe, murmurando algo que não consegui ouvir. A multidão os observava, seus sussurros seguindo o casal. Provavelmente pensaram que ele era um santo, lidando com sua esposa histérica com tanta graça enquanto confortava uma amiga da família.

A ironia era uma pílula amarga.

Virei-me, incapaz de observá-los. Senti-me completamente sozinha, uma ilha de luto genuíno em um oceano de performance. O resto do serviço passou como um borrão. Não ouvi o elogio fúnebre. Não senti os tapinhas de compaixão no meu ombro. Minha mente era um espaço em branco, entorpecido.

Depois, Breno nos levou para casa em silêncio. A tensão no carro era uma coisa viva. Olhei pela janela, observando as luzes da cidade se tornarem um borrão, evitando deliberadamente seu olhar.

Ele finalmente quebrou o silêncio quando entramos em nossa garagem. "Precisamos conversar sobre o que aconteceu hoje."

"Não há nada para conversar."

"Você me envergonhou, Amélia. Você se envergonhou."

Ele estacionou o carro, mas não desligou o motor. Virou-se para mim, o rosto duro. "Eu conhecia sua mãe há anos. Eu me importava com ela."

A mentira era tão descarada, tão insultuosa, que quase me fez rir. Pensei nele, anos atrás, comendo o ensopado caseiro da minha mãe em nosso pequeno apartamento, dizendo a ela que sempre cuidaria de sua filha. Prometendo-lhe o mundo.

"Você se importava com ela?", perguntei, minha voz perigosamente baixa. "É por isso que você a deixou morrer?"

Seus olhos brilharam. "Não seja ridícula. Não foi isso que aconteceu."

"Não foi?"

Antes que ele pudesse responder, um caminhão, com os faróis apagados, surgiu dobrando a esquina. Estava se movendo impossivelmente rápido.

Só tive tempo de gritar o nome dele.

O impacto foi violento, um esmagamento brutal de metal e vidro estilhaçado. Minha cabeça bateu contra a janela lateral. A dor, branca, quente e ofuscante, explodiu em meu abdômen.

O mundo girou. Senti o gosto de sangue.

"O bebê", ofeguei, agarrando minha barriga.

O carro fora arremessado para a calçada, o lado do motorista esmagado. Breno parecia praticamente ileso, protegido pelo volume do motor.

Ele olhou para mim, os olhos arregalados com algo que não consegui decifrar. Medo? Contrariedade?

Seu telefone tocou. A tela se iluminou com uma foto de Catarina.

Ele atendeu.

"Você está bem?", disse ele ao telefone, a voz tensa de preocupação. "Onde você está? Fique aí. Estou indo."

Ele soltou o cinto de segurança.

Eu o encarei, minha mente lutando para processar o que estava acontecendo. A dor irradiava por mim em ondas. O sangue se espalhava pelo meu vestido.

"Breno, não", implorei, minha voz fraca. "Me ajude. Por favor."

Ele olhou para mim, o rosto uma máscara fria e sem emoção. Olhou para o sangue manchando meu vestido. Olhou de volta para o meu rosto.

E então ele saiu do carro.

Ele nem olhou para trás. Apenas começou a correr pela rua, desaparecendo na escuridão, me deixando sozinha nos destroços.

O abandono foi mais doloroso que o acidente. Foi uma confirmação final e brutal do que eu já sabia. Eu não era nada para ele. O bebê não era nada. Apenas Catarina importava.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, misturando-se com o sangue. Tentei alcançar a maçaneta da porta, mas estava emperrada. A dor no meu estômago estava piorando, uma sensação aguda e cortante.

Um homem passeando com seu cachorro correu até a janela do carro. "Senhora, você está bem? Estou ligando para o 190!"

"Por favor", solucei, minha voz mal um sussurro. "Meu marido... ele me deixou. Por favor, você tem que me ajudar. Meu bebê..."

O mundo começou a desvanecer nas bordas. Pontos pretos dançavam em minha visão. A voz do homem tornou-se distante, abafada.

A última coisa que vi antes de desmaiar foi a rua vazia onde Breno estivera. Ele se foi. Total e completamente.

Capítulo 3

Acordei com o bipe constante de um monitor cardíaco e uma dor surda e latejante no abdômen. O cheiro de antisséptico enchia meu nariz. Eu estava em um quarto de hospital particular, do tipo de luxo estéril que o dinheiro de Breno podia comprar.

Meu primeiro pensamento foi no bebê.

Levantei-me, ignorando o protesto agudo dos meus músculos. Minha mão foi instintivamente para minha barriga. Ainda estava lá. Uma onda de alívio, complicada e confusa, me invadiu.

Eu precisava sair. Precisava saber o que estava acontecendo.

Passei as pernas para o lado da cama, meu corpo doendo a cada movimento. Encontrei um roupão sobre uma cadeira e o vesti. O corredor estava silencioso, o chão polido refletindo a iluminação fraca da noite.

Movi-me lentamente, usando a parede como apoio. Estava procurando por uma enfermeira, um médico, qualquer um. Ao me aproximar do posto de enfermagem, ouvi vozes vindas de uma pequena sala de estar privativa.

Uma voz era de Breno. A outra pertencia ao seu assistente pessoal, um homem chamado Marcus. Gelei, me escondendo nas sombras do corredor.

"Senhor, tem certeza disso?", Marcus soava hesitante, preocupado. "Deixar a Sra. Queiroz logo após o acidente... a mídia..."

"Eu cuido da mídia", Breno retrucou. Sua voz era fria, desprovida de qualquer preocupação. "Catarina estava histérica. Ela achou que o caminhão estava vindo atrás dela. Ela precisava de mim."

Meu coração parou. Catarina. Ele me deixou sangrando em um carro destruído por ela. Porque ela estava com medo.

"Mas a Sra. Queiroz está grávida, senhor. Com seu filho. O que o senhor fez esta noite... trancá-la na máquina de ressonância magnética..."

Tapei a boca com a mão para abafar um grito. Do que ele estava falando?

"Ela tem claustrofobia", disse Breno, sua voz plana e assustadoramente distante. "Um pequeno susto foi necessário. Ela tem se comportado mal. A cena no funeral. Seu desafio. Ela precisava de um lembrete de quem está no controle."

Ele não estava falando do acidente de carro. Estava falando de outra coisa. Algo que aconteceu depois. Devo ter sido trazida para cá, e ele... ele fez algo comigo.

"Esta criança é meu herdeiro, Marcus. É a única coisa que importa. Amélia é apenas a portadora. Uma incubadora. Um meio para um fim. Assim que o bebê nascer, sua utilidade terá acabado."

As palavras foram como socos, cada uma aterrissando com força brutal. Uma incubadora. Um meio para um fim.

"E o senhor tem certeza de que ela ainda não sabe sobre a doadora do óvulo?", perguntou Marcus.

"Ela não é inteligente o suficiente para descobrir", Breno zombou. "E mesmo que descobrisse, o que ela faria? Ela não tem nada. Ninguém. A mãe dela está morta. Eu me certifiquei disso."

O mundo se dissolveu em um grito silencioso. Eu me certifiquei disso.

Não foi negligência. Não foi um erro. Ele havia intencionalmente negado tratamento. Ele havia assassinado minha mãe.

Senti uma onda de náusea tão forte que tive que me agarrar à parede para não desmaiar. O homem que eu amei, o homem que eu salvei, era um monstro. Um assassino a sangue frio que orquestrou a morte da minha mãe e agora estava usando meu corpo para carregar o filho dele com outra mulher.

"Ela vai entrar na linha", Breno continuou, sua voz cheia de uma confiança arrogante que fez minha pele arrepiar. "Ela me ama. Ela é fraca. Ela vai me perdoar por tê-la deixado esta noite, assim como perdoa todo o resto. Ela sempre perdoa."

Não consegui mais ouvir. Voltei cambaleando pelo corredor, minha mente um turbilhão de horror e luto. Ele achava que eu era fraca. Achava que eu o perdoaria.

Ele não tinha ideia de quem eu era mais.

Eu tinha que ser esperta. Tinha que fingir.

Voltei para o meu quarto bem a tempo de uma enfermeira entrar. Deitei-me na cama, arrumando meu rosto em uma máscara de confusão fraca.

"Sra. Queiroz, você acordou!", disse ela alegremente. "Você nos deu um belo susto."

"O que aconteceu?", perguntei, minha voz um rouco convincente.

"Você tem alguns hematomas e uma concussão leve do acidente, mas você e o bebê estão perfeitamente bem. As ordens do médico são para você ficar em observação. E precisamos levá-la para uma ressonância magnética de rotina, apenas para verificar sua lesão na cabeça."

A ressonância. As palavras de Breno ecoaram em meus ouvidos. Um pequeno susto foi necessário.

Meu sangue gelou. Ele havia planejado isso.

"Ok", eu disse, forçando um sorriso pequeno e confiante. Eu tinha que seguir o jogo. Era a única maneira.

Dois maqueiros vieram e me transferiram para uma maca. Eles me levaram para o departamento de imagem, as luzes brilhantes do hospital piscando sobre minha cabeça. Eles foram gentis e profissionais. Quase me deixei acreditar que era apenas um procedimento de rotina.

Eles me ajudaram a deitar na cama estreita da máquina de ressonância magnética.

"Vamos apenas deslizá-la para dentro agora, Sra. Queiroz", disse um deles. "Apenas fique perfeitamente imóvel."

Quando a cama começou a se mover, me deslizando para dentro do tubo apertado e cilíndrico, minha respiração ficou presa na garganta. As paredes pareciam estar se fechando.

Uma memória, nítida e aterrorizante, brilhou em minha mente. Eu era uma criança, talvez com seis anos. Brincando de esconde-esconde com meus primos. Eu me escondi em uma geladeira velha e abandonada. A porta se fechou, a trava se encaixando no lugar.

A escuridão. O silêncio. A sensação do ar ficando rarefeito. O pânico, arranhando e gritando, presa naquela caixa pequena e sufocante. Meu pai finalmente me encontrou, horas depois, histérica e mal respirando.

Eu tinha pavor de espaços fechados desde então. Breno sabia disso. Ele sabia que era meu medo mais profundo e primitivo.

A máquina ganhou vida, o barulho alto e rítmico ecoando a batida frenética do meu coração. Eu estava presa. As paredes estavam a centímetros do meu rosto. Eu não conseguia me mover. Não conseguia respirar.

Eu gritei. Implorei para que me deixassem sair. Arranhei as paredes do tubo, minhas unhas raspando no plástico duro. Mas ninguém veio. O barulho continuou, uma trilha sonora implacável para o meu terror.

Meus pulmões ardiam. Pontos pretos dançavam em minha visão. O mundo se estreitou para este tubo sufocante. A dor no meu abdômen voltou, aguda e insistente. Eu ia morrer aqui. Ele ia me matar, assim como matou minha mãe.

Não sei quanto tempo fiquei lá dentro. Pareceu uma eternidade.

Então, quando senti que estava prestes a perder a consciência, o barulho parou. A cama começou a deslizar para fora.

As luzes brilhantes da sala eram ofuscantes. Uma figura estava sobre mim. Não era um médico ou um maqueiro.

Era Hélio Jeferson.

"Recebi sua mensagem", disse ele, o rosto sombrio. "Parece que precisamos acelerar o plano."

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