Capítulo 2

O celular vibrou em seu bolso. Era um número novo, não rastreável.

"Aqui é o Daniel."

Sua voz era exatamente como ela se lembrava da faculdade — calma, profunda e firme. Era uma âncora na tempestade de seu pânico.

"Eu preciso ir embora", Alana sussurrou, a voz rouca. "Esta noite. Preciso de uma nova identidade, uma nova vida em algum lugar que ele nunca possa me encontrar."

"Onde você está?", ele perguntou, sem nenhum traço de surpresa em seu tom.

"Estou em casa. Na mansão Bernardes."

"Fique onde está. Eu cuido de tudo. Você terá um novo passaporte, um novo nome e a confirmação de um voo em uma hora. As ações são uma oferta generosa, Alana, mas minha ajuda não depende delas."

"Não", disse ela, a voz se firmando. "É uma transação. Estou comprando minha liberdade. Você o odeia. Desmontar a empresa dele por dentro será sua recompensa."

Ela conhecia Daniel o suficiente para saber que ele era um pragmático. Apelar para sua rivalidade com Arthur era mais inteligente do que apelar para sua piedade.

Houve uma breve pausa do outro lado. "Tudo bem, Alana. Uma transação, então. Vou mandar um carro. Esteja pronta."

A linha ficou muda.

Alívio e terror lutavam dentro dela. Ela se moveu rapidamente, sua mão quebrada um lembrete surdo e latejante de sua realidade. Encontrou uma pilha de documentos na mesa de Arthur — propostas de investimento, contratos, acordos de parceria.

No fundo da pilha, ela deslizou os papéis do divórcio que seu advogado havia redigido meses atrás, uma fantasia que ela nunca pensou que teria a coragem de realizar.

Ela voltou para seu quarto, seus passos leves, quase flutuando.

Arthur voltou uma hora depois. Ele a encontrou deitada na cama, a imagem de uma esposa frágil e arrependida.

Ele correu para o lado dela, o rosto marcado pela preocupação. Ele segurou sua mão não ferida, seu toque surpreendentemente gentil.

"Meu amor, me desculpe", ele murmurou, a voz embargada pelo que parecia ser um arrependimento genuíno. "Eu odeio fazer isso com você. Eu odeio."

Ele se inclinou, seu hálito quente contra sua orelha. "Nunca pense em me deixar, Alana. Eu não sei o que faria. Acho que enlouqueceria."

Ela se lembrou da vez em que foi a um congresso de arquitetura de três dias em Curitiba. Ele rastreou seu avião, comprou todas as diárias do hotel em que ela estava e teve um ataque de pânico quando o celular dela ficou sem bateria por duas horas. Ele era obsessivo. Possessivo.

Ele via o amor dela não como um presente, mas como sua propriedade.

Alana simplesmente olhou para ele, sua expressão cuidadosamente neutra. Não podia deixá-lo ver a fúria fria que fervia sob a superfície.

"Tenho alguns projetos novos que preciso que você veja", disse ela, a voz suave. "É um novo projeto de resort. Os investidores estão ansiosos."

Ela deslizou a pilha de papéis para a cama, o acordo de divórcio escondido com segurança dentro. "Sua assinatura é necessária na aprovação preliminar."

Arthur, ansioso para voltar ao seu papel de marido solidário, nem sequer olhou para eles. Ele confiava nela implicitamente em questões de negócios e design. Era a única área em que ele a considerava sua igual.

Ele pegou sua caneta e assinou a primeira página, depois folheou, assinando cada uma sem pensar duas vezes. Sua assinatura nos papéis do divórcio foi um rabisco rápido e arrogante.

"Qualquer coisa por você, meu amor", disse ele, pondo os papéis de lado. "Sempre apoiarei seus sonhos."

Ela sentiu uma pontada amarga e triunfante. Ele acabara de assinar o fim de seu casamento, e não tinha a menor ideia.

Ele então insistiu em alimentá-la, trazendo uma bandeja de sopa e pão para a cama. Ele era um monstro, mas sua atuação como marido amoroso era impecável.

Assim que ela estava terminando a última colherada, a porta de seu quarto se abriu com um estrondo.

Joyce estava lá, um sorriso vicioso no rosto. Ela ergueu o celular.

"Olhe isso, Alana. Uma nova cicatriz para sua coleção. Esta na sua mão é particularmente feia. Será que você conseguirá segurar um lápis de novo?"

No celular dela havia uma foto em close da mão machucada e inchada de Alana.

Alana se lembrava vividamente daquela punição. Arthur havia quebrado dois de seus dedos porque Joyce alegou que Alana lhe dera um "olhar sujo".

"Apague isso, Joyce", disse Alana, a voz baixa. "E saia do meu quarto."

"Me obrigue", Joyce provocou, aproximando-se.

Passos ecoaram no corredor. Arthur estava voltando.

Os olhos de Joyce se voltaram para a porta, um lampejo de pânico e depois uma inspiração cruel neles.

Ela pegou um abridor de cartas da mesa de Alana, fez um corte superficial em seu próprio braço e cambaleou para trás bem no momento em que Arthur entrou.

"Arthur!", ela gritou, lágrimas escorrendo pelo rosto. "Alana... ela me atacou! Ela disse que ia me matar!"

Os olhos de Arthur voaram do braço sangrando de Joyce para o abridor de cartas no chão, perto dos pés de Alana.

Alana esperava a explosão. A raiva. A crença imediata nas mentiras de Joyce.

Mas não veio.

Arthur ignorou Joyce completamente. Ele correu para o lado de Alana.

"Você está bem? Ela te machucou?", ele perguntou, suas mãos pairando sobre ela, procurando por ferimentos.

Ele olhou para Joyce com fria irritação. "Joyce, o que você está fazendo aqui?"

"Ela tentou me esfaquear!", Joyce gritou, estendendo o braço.

"Alana está ferida. Ela mal consegue se mover, muito menos atacar você", disse Arthur, a voz impassível. "Não seja ridícula."

Alana o encarou, perplexa. Isso era uma novidade. Ele a estava defendendo.

"Eu não a toquei, Arthur", disse Alana, a voz tremendo com uma mistura de fúria e emoção genuína. "Verifique as câmeras. Por favor. Apenas verifique as câmeras pela primeira vez."

Seu corpo inteiro tremia. A injustiça de tudo aquilo, os anos de acusações infundadas, desabaram sobre ela.

O rosto de Arthur se suavizou. Ele a puxou para um abraço gentil. "Shh, meu amor. Está tudo bem. Eu acredito em você. Eu sempre vou acreditar em você."

Ele acariciou seu cabelo. "Você não precisa provar nada para mim."

Ele então se virou para Joyce. "Vá para casa, Joyce. Alana precisa descansar."

Joyce pareceu atordoada, depois furiosa, mas saiu do quarto batendo a porta.

Alana sentiu um lampejo de algo perigoso. Esperança.

"Você... você realmente acredita em mim?", ela perguntou, a voz baixa.

"Claro, meu amor", ele sussurrou, beijando sua testa. Ele a segurou com força por um momento, depois a soltou. "Vou buscar um pouco de água para você. Não se mova."

Ele saiu do quarto, seus passos se afastando pelo corredor.

Alana soltou um suspiro que não percebeu que estava segurando. Por um único e insano momento, ela pensou que talvez estivesse errada. Talvez ele pudesse mudar.

O pensamento foi obliterado um segundo depois.

Alguém a agarrou por trás, uma mão pressionando um pano encharcado de produtos químicos sobre sua boca e nariz.

O mundo girou, o cheiro doce e enjoativo enchendo seus pulmões.

Seu último pensamento consciente foi das palavras de despedida de Arthur. Eu acredito em você.

Outra mentira. A mais brutal de todas.

Capítulo 3

Escuridão.

Essa foi a primeira coisa que Alana registrou enquanto a consciência retornava lentamente. Uma escuridão densa e sufocante que a pressionava de todos os lados.

Ela tentou mover as mãos, mas estavam amarradas firmemente atrás das costas. Seus tornozelos também estavam amarrados.

Uma voz familiar cortou o silêncio, tingida de uma decepção cansada que fez sua pele arrepiar.

"Alana, Alana. Por que você tem que tornar isso tão difícil? Eu te disse para não machucar a Joyce."

Era Arthur.

"Eu disse que acredito em você", ele continuou, sua voz ecoando no espaço pequeno e escuro. "Mas ações têm consequências. Você tem que aprender isso."

Ela se debateu contra as amarras, um grito silencioso preso na garganta. A corda áspera cortava seus pulsos.

"Agora", a voz de Arthur comandou de algum lugar fora de sua linha de visão, "prosseguiremos com a punição número noventa e sete."

Ele nem estava na sala. Estava assistindo, ouvindo de outro lugar.

Uma luz súbita e ofuscante inundou o espaço, e uma máquina zumbiu para a vida. Duas garras de metal dispararam, agarrando sua mão esquerda já estilhaçada e prendendo-a a uma mesa de aço.

"Isso é pela dor da Joyce", a voz de Arthur anunciou, desprovida de toda emoção.

Uma broca desceu do teto, sua ponta brilhando sob a luz forte. Ela girava cada vez mais rápido, um zumbido agudo que perfurava sua própria alma.

Ela desceu em direção ao seu dedo indicador.

Alana mordeu o próprio lábio com força, o gosto metálico de sangue inundando sua boca, qualquer coisa para não gritar. A dor era excruciante, um universo de agonia explodindo em sua mão. Ela sentiu a broca ranger contra o osso.

A próxima coisa que soube foi que estava acordando em um quarto de hospital. Não um hospital público, mas a ala médica particular de Arthur em sua mansão.

O ar cheirava a antisséptico e lírios.

Através da névoa dos analgésicos, ela ouviu vozes do lado de fora de sua porta. Arthur e um médico.

"O soro de regeneração nervosa está pronto", disse o médico. "Mas só há uma dose disponível este mês. A Srta. Cummings também precisa para o corte no braço."

O coração de Alana gelou.

"Dê para a Joyce", disse Arthur sem um momento de hesitação. "A lesão dela, embora menor, foi causada pela agressão de Alana. Isso servirá como um lembrete para minha esposa. Deixe que a dor dela lhe ensine uma lição."

Uma lição. Ele havia destruído a mão dela e estava chamando isso de lição. Ele ainda acreditava em Joyce. Suas palavras de confiança no quarto não passaram de um prelúdio para essa tortura.

Um pequeno som involuntário escapou de seus lábios, um gemido de puro desespero.

A porta se abriu com um estrondo.

Arthur correu para o lado dela, seu rosto uma imagem perfeita de preocupação amorosa.

"Meu amor, você está acordada", ele sussurrou, estendendo a mão para ela. "Você me assustou."

Ele a viu se encolher ao seu toque.

"O que há de errado?", ele perguntou, a testa franzida. "Você ainda está com raiva de mim?"

Ele se ajoelhou ao lado da cama dela, seus olhos suplicantes. "Eu sei que você está chateada. Mas você não pode continuar machucando a Joyce. Ela é inocente. Ela é frágil. Você quase a fez ter um ataque cardíaco."

Alana o encarou, o puro absurdo de suas palavras sugando o ar de seus pulmões.

"Minha mão, Arthur", ela sussurrou, a voz um arranhão rouco. "Você está preocupado com os sentimentos da Joyce, mas e a minha mão?"

Uma sombra de culpa cruzou seu rosto. Ele olhou para baixo, incapaz de encontrar seus olhos.

"Foi necessário", disse ele em voz baixa. "Para te ensinar."

Então ele fez algo que revirou seu estômago. Ele tirou uma pequena faca afiada do bolso, do tipo que usava para abrir cartas.

Ele passou a lâmina pela própria palma da mão, um corte profundo e limpo. O sangue brotou, pingando no chão branco e imaculado.

"Vê?", disse ele, seus olhos selvagens com uma espécie de dor distorcida. "Eu também estou sofrendo, Alana. Sua dor é a minha dor. Me perdoe. Por favor, me perdoe."

Ela se lembrou dele fazendo isso antes. Era sua tática de manipulação final. Quando suas punições iam longe demais, quando ele via a luz nos olhos dela começar a diminuir, ele se machucava. Uma forma de compartilhar a dor, de provar que seu amor era real, um ato de penitência desequilibrado para puxá-la de volta da beira do abismo.

Tinha funcionado antes. Ela havia chorado, cuidado de seus ferimentos e acreditado em seu remorso.

Não mais. Ela via o ato pelo que era: uma performance. Uma forma de controlá-la, de fazê-la se sentir culpada por sua própria crueldade.

"Estou cansada", disse ela, a voz plana e vazia. "Quero dormir."

Ele pareceu magoado com a frieza dela, mas assentiu. "Claro, meu amor. Descanse. Estarei bem aqui."

Ele puxou uma cadeira para o lado da cama e se recusou a sair, apesar dos protestos das enfermeiras. Ele ficou ali por dois dias, observando-a, às vezes falando com ela em tons baixos e amorosos, recontando suas memórias mais felizes.

Ele a alimentou, a banhou e cuidou de seus ferimentos com uma gentileza que era absolutamente aterrorizante em seu contraste com sua violência.

Uma das enfermeiras suspirou sonhadoramente enquanto trocava o soro de Alana. "O Sr. Bernardes te ama tanto. Nunca vi um marido tão dedicado."

Alana quis rir. Se elas soubessem.

No terceiro dia, ela ouviu um choro suave vindo do corredor.

Era Joyce. Ela estava parada do lado de fora da porta, falando com Arthur.

"Arthur, eu te amo", Joyce sussurrou, a voz embargada por lágrimas falsas. "Eu sei que ela é sua esposa, mas você sabe como eu me sinto."

O sangue de Alana gelou. Ela se ergueu um pouco, o coração batendo forte.

Pela fresta da porta, ela viu.

Arthur, seu marido dedicado e amoroso, puxou Joyce para um abraço.

Ele olhou nervosamente para o quarto de Alana, certificando-se de que ela ainda estava "dormindo".

Então, ele se inclinou e beijou Joyce.

Não foi um selinho de consolo na bochecha. Foi um beijo profundo e apaixonado, um que falava de um segredo feio e compartilhado.

Alana sentiu o último pedaço de seu coração virar pó.

Sua aliança de casamento parecia uma marca de ferro em seu dedo. Com a mão boa, ela, lenta e deliberadamente, a tirou. Foi uma luta, seus dedos inchados pelo soro.

Ela segurou o anel de diamante, o símbolo de seu "amor eterno", e o jogou na lixeira de metal ao lado de sua cama.

Ele caiu com um clique suave e final.

Arthur escolheu aquele momento para voltar. Ele viu o espaço vazio em seu dedo, depois seus olhos correram para a lixeira.

Ele viu o anel.

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