Capítulo 2

Meus joelhos rasparam no cascalho enquanto os guardas me arrastavam pelo pátio. As pedras ásperas rasgavam minha pele, mas a dor não era nada comparada ao peso esmagador da humilhação. Eu estava sendo puxada como um animal em direção ao grande canil de ferro forjado no outro extremo do jardim. Era o lar dos premiados Dobermans de Ricardo.

"Não, por favor, não façam isso," eu gemi, minha voz falhando.

Os funcionários da casa se reuniram para assistir, seus rostos uma mistura de curiosidade mórbida e satisfação cruel. Alguns deles levantaram seus celulares, as pequenas lentes pretas capturando minha degradação. O som de suas risadinhas foi um golpe físico.

"Olhem para a 'assassina'. Ela está recebendo o que merece."

"O lugar dela é numa jaula."

Os guardas me jogaram dentro do canil e bateram a pesada porta. O trinco de metal se encaixou com um som de finalidade. Os Dobermans, agitados pela comoção, começaram a latir, seus rosnados profundos e ameaçadores enchendo o pequeno espaço. Eu me arrastei para o fundo da jaula, pressionando-me contra as grades frias.

"Por favor, me deixem sair!" eu gritei, minha voz perdida na cacofonia de latidos.

Ricardo ficou do lado de fora do canil, me observando com aqueles mesmos olhos vazios. Ele era uma estátua de julgamento justo, impassível diante do meu terror.

Apertei meu peito, meus dedos procurando por algo, qualquer coisa, para me segurar. Eles encontraram um objeto pequeno e liso no bolso do uniforme barato que eu usava. Uma conta de lápis-lazúli, um presente da minha avó. "Para proteção," ela havia dito. Era a única coisa da minha vida passada que eu consegui manter.

A pedra lisa estava fria contra minha pele, um pequeno ponto de realidade neste pesadelo. Minha mente voltou aos anos que passei tentando ganhar o amor de Ricardo. Eu pensei que poderia derreter seu exterior gelado com meu calor. Eu tinha sido tão ingênua. Todos os meus esforços, todo o meu amor, não valeram nada. Tudo levou a isso: uma jaula.

Meu orgulho, que já foi o assunto da sociedade paulistana, era agora uma relíquia esquecida. Ele o havia arrancado de mim, pedaço por pedaço, até não sobrar nada. A dor física, o medo constante, a vergonha pública — tudo se fundiu em uma onda de desespero que finalmente me puxou para o fundo. O mundo inclinou, os latidos desapareceram e tudo ficou preto.

Acordei com uma dor aguda e ardente na bochecha. A mãe de Ricardo, Eleonora Montenegro, estava sobre mim, seu rosto contorcido em uma máscara de puro ódio. Eu não estava mais no canil, mas no chão de mármore frio da sala em memória de Isabela.

"Sua criatura inútil," ela cuspiu, sua voz pingando veneno. "Você desmaia por um tempinho numa jaula? Isabela está morta por sua causa. Morta!"

Ela apontou para o enorme retrato de Isabela que pendia sobre a lareira. "Ricardo quer que você bata a cabeça no chão. Cem vezes. Para implorar o perdão de Isabela."

Meu corpo era um peso morto. Eu não conseguia me mover. Uma das empregadas agarrou meu cabelo e forçou minha cabeça para baixo, batendo minha testa contra o chão duro. Uma vez. Duas vezes.

"Sinto muito," eu sussurrei, as palavras mecânicas, sem sentido.

"Mais alto!" Eleonora gritou. "Isso soa como se você estivesse arrependida?"

Novamente, eles forçaram minha cabeça para baixo. Um fio quente de sangue escorreu pela minha têmpora. Repeti as palavras, minha voz um eco oco na sala silenciosa. "Sinto muito, Isabela. Sinto muito mesmo."

A memória daquela noite de cinco anos atrás passava em minha mente em um loop. Isabela, caindo. O choque em seu rosto. E então Ricardo, me encontrando ao lado de seu corpo, seu rosto se desfazendo não de dor, mas de uma raiva terrível e fria. "Você vai pagar por isso, Helena," ele havia jurado. "Pelo resto da sua vida, você viverá no inferno para se redimir pelo que fez."

Ele havia cumprido sua promessa.

Bati minha cabeça no chão novamente. E de novo. A dor era um zumbido distante. Contei cada uma, uma ladainha do meu sofrimento. Noventa e oito. Noventa e nove. Cem.

Terminei, minha testa sangrando livremente no tapete branco imaculado. Eu estava tonta e enjoada, mas um único pensamento atravessou a névoa. Lucas.

Olhei para Ricardo, que observava silenciosamente da porta. "Eu fiz o que você pediu," eu murmurei. "Agora, por favor, me deixe ver o Lucas."

Um lampejo de algo — seria pena? — cruzou seu rosto, mas desapareceu tão rápido quanto apareceu. Ele caminhou até uma pequena mesa e pegou um frasco cheio de um líquido escuro.

"Você quer ver seu irmão?" ele perguntou, sua voz enganosamente suave.

Eu assenti, a esperança lutando com o terror em meu peito.

Ele estendeu o frasco. "Beba isso. Beba isso, e eu deixarei você vê-lo."

Olhei para o frasco, depois para seu rosto indecifrável. "O que é isso?"

"Um remédio," ele disse suavemente. "Para garantir que uma assassina como você nunca possa ter filhos. Para garantir que sua linhagem amaldiçoada termine com você."

Meu sangue gelou. Ele queria me tornar infértil. Ele queria tirar a única coisa que uma mulher considera sagrada, a possibilidade de um futuro, de uma família própria. Tudo por um crime que eu não cometi.

Olhei do frasco para seus olhos frios e determinados. Era uma escolha entre meu futuro e meu irmão.

Não havia escolha alguma.

Por Lucas, eu faria qualquer coisa.

Com a mão trêmula, peguei o frasco. Levei-o aos lábios e bebi até a última gota.

Capítulo 3

O líquido queimou um rastro de fogo pela minha garganta, instalando-se como uma brasa quente no meu estômago. O calor do dia de verão lá fora parecia uma piada cruel comparado ao inferno que ardia dentro de mim. Esta era a solução final de Ricardo. Ele não apenas puniria meu presente; ele apagaria meu futuro. O homem gentil e devoto que o mundo via era um monstro, e meu amor por ele tinha sido o arquiteto da minha própria destruição.

Mas eu tinha que viver. Por Lucas. A memória do último desejo da minha avó era um mantra no caos da minha dor. Eu tinha que protegê-lo.

Meus joelhos cederam. Uma onda de cólicas agonizantes tomou meu abdômen, tão intensa que roubou meu fôlego. Mordi o lábio para não gritar, sentindo o gosto metálico de sangue. A dor era uma coisa viva, torcendo e me rasgando por dentro.

Caí no chão, encolhendo-me em uma bola. Uma tosse violenta sacudiu meu corpo, e cuspi um bocado de sangue no mármore branco.

Do outro lado da sala, Ricardo se encolheu. Por um momento fugaz, um lampejo de algo — desconforto, talvez — cruzou suas feições perfeitas. Foi a primeira rachadura que vi em sua fachada gelada em cinco anos.

"Chame um médico," ele ordenou a uma empregada próxima, sua voz tensa.

"Não," eu ofeguei, forçando a palavra a sair através da dor. "Nenhum médico. O Lucas. Você prometeu."

Ele me encarou, seu rosto uma máscara de fúria fria mais uma vez. Ele virou nos calcanhares e saiu da sala, deixando-me contorcendo no chão em uma poça do meu próprio sangue.

As horas que se seguiram foram um borrão de dor excruciante. Um médico veio, uma lavagem estomacal foi feita, e o mundo desapareceu e reapareceu em ondas de agonia e inconsciência. Acordei não em um hospital, mas em um pequeno e úmido quarto nos aposentos dos empregados. Era uma cela.

Meu corpo era uma sinfonia de dores. Eu me sentia esvaziada, uma concha frágil que poderia se quebrar a qualquer momento.

A porta se abriu com um estrondo, me fazendo pular. Uma empregada que eu não reconhecia estava lá, seu rosto um esgar de desprezo. Ela jogou um maço de tecido em mim. Aterrissou no cobertor fino que cobria minhas pernas.

Era um vestido. Um pedaço de renda preta ridiculamente curto e frágil que parecia pertencer a uma casa de strip-tease. O tecido era barato e arranhava meus dedos.

"Ordens do patrão," disse a empregada, sua voz cheia de zombaria. "Você deve usar isso esta noite."

"Não," eu sussurrei, minha voz rouca. Afastei o vestido como se fosse uma cobra venenosa.

O esgar da empregada se alargou. Ela avançou e me deu um tapa forte no rosto. "Você não tem escolha." Ela arrancou o cobertor de mim e, com a ajuda de outra serva, forçou meus membros protestantes na roupa humilhante. "O Sr. Montenegro está recebendo um convidado. Ele quer que você os sirva."

Elas me arrastaram para fora do quarto, meu corpo tremendo incontrolavelmente. Na superfície polida de um espelho do corredor, vi um vislumbre de mim mesma. Eu era um espantalho vestido com os trapos de uma prostituta, meu rosto pálido e machucado, meus olhos arregalados de terror. Era difícil respirar.

Elas me empurraram para a sala de jantar privativa. A mesa estava posta para três, com taças de cristal e talheres reluzentes. Ricardo estava sentado na cabeceira da mesa, parecendo tão sereno e intocável quanto um deus. Ele nem sequer olhou para mim.

Ele ia me exibir na frente de alguém assim. Ele ia vender meu último pingo de dignidade para sua própria satisfação doentia.

Um homem grande e de aparência gordurosa, na casa dos cinquenta, sentava-se em frente a Ricardo. Seus olhos percorreram meu corpo, um sorriso lascivo se espalhando por seu rosto.

"Então, este é o presentinho que você me prometeu, Ricardo," o homem bradou, lambendo os lábios. "Ouvi dizer que ela é arisca."

Ricardo finalmente olhou para mim, seus olhos frios. "Sr. Queiroz, Helena está aqui para garantir que você tenha uma noite agradável."

Ele estava me dando para este porco. Como castigo.

Minha mente ficou em branco de horror. Tropecei para trás, tentando fugir, mas as empregadas me seguraram firme.

"Ricardo, não," eu implorei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Por favor, não faça isso comigo."

O Sr. Queiroz riu, um som horrível e úmido. Ele se levantou e caminhou pesadamente em minha direção. "Não se preocupe, querida. Seu marido só quer que eu lhe ensine uma lição. Ele me disse para ser minucioso."

Ele estendeu a mão para mim, seus dedos gordos agarrando meu braço. O mundo girou, e meu último pensamento consciente foi um grito que nunca saiu dos meus lábios.

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