Capítulo 2

Ponto de Vista: Elara

Ivan ficou em silêncio do outro lado da linha por um longo momento. Eu podia praticamente ouvir as engrenagens girando em sua mente brilhante, processando o puro desespero em minha voz.

"Elara, isso não é um tratamento de spa", disse ele finalmente, seu tom mudando de sonolento para agudamente alerta. "Este é um procedimento radical e irreversível. É projetado para soldados com estresse pós-traumático extremo, para vítimas de eventos catastróficos. O que diabos aconteceu?"

Eu não conseguia contar a ele. Não conseguia formar as palavras. Falar em voz alta tornaria tudo ainda mais real, e eu já estava me afogando na realidade daquilo.

"Seu marido... o Bruno está bem?", ele perguntou, sua voz suavizando com preocupação. Ele conhecia nossa história. Sabia que Bruno tinha sido minha rocha, meu maior apoiador, o homem que literalmente me tirou dos destroços de um acidente de carro anos atrás.

"Ele está bem", eu disse, as palavras com gosto de cinzas. "Ele está ótimo."

"Então o que é? Elara, você é uma das pessoas mais resilientes que eu conheço. Você construiu uma vida, um império, do nada. Seja o que for, você consegue superar."

"Não", sussurrei, encarando meu reflexo na janela escura — uma estranha de olhos fundos. "Isso não. Algumas coisas você não supera. Você apenas... as arranca."

Ele suspirou, um som pesado e cansado. "O protocolo nem está finalizado. Não temos ideia de quais podem ser os efeitos colaterais a longo prazo. Apagar um evento traumático específico é uma coisa, mas o que você está insinuando... apagar uma pessoa, uma seção inteira da sua vida... poderia causar perda de memória em cascata. Poderia mudar quem você é."

"Ótimo", eu disse, minha voz monótona. "Esse é o ponto. Eu não quero mais ser essa pessoa."

"Existem... existem cobaias necessárias para o elemento especial que você mencionou? Aquele que poderia fornecer uma lousa em branco?", perguntei, lembrando de um detalhe da nossa conversa no jantar. Ele havia mencionado um componente, um soro, ainda em fase teórica, que poderia não apenas apagar, mas ajudar a construir uma nova, embora vazia, estrutura de identidade.

Sua voz tornou-se séria, quase severa. "Elara, o que você está perguntando?"

"Estou me voluntariando", afirmei, minha determinação se solidificando a cada segundo que passava. Os sons abafados do corredor haviam parado, e um silêncio novo e mais aterrorizante tomou seu lugar. Em breve, ele voltaria para nossa cama, seu corpo cheirando a outra mulher, e fingiria que nada aconteceu.

"Esta não é uma decisão a ser tomada às duas da manhã", ele insistiu.

"Esta é a única decisão", contrapus. "Ivan, por favor. Você é o único que pode me ajudar. Eu preciso desaparecer. Eu preciso esquecer."

Houve outra longa pausa. Prendi a respiração, todo o meu futuro dependendo de sua resposta. Ele conhecia minha história, meu medo profundo de abandono, a lealdade feroz que eu depositava na família que construí para mim. Ele sabia que, para eu querer detonar essa família, a traição devia ter sido absoluta.

"Encontre-me no laboratório amanhã à tarde", disse ele finalmente, sua voz carregada de uma resignação grave. "Nós conversaremos. E Elara... não faça nada drástico até lá."

Mas já era tarde demais. A coisa mais drástica já havia sido feita comigo.

Desliguei o telefone e voltei para debaixo das cobertas, virando de costas para a porta. Fiquei perfeitamente imóvel, meu corpo rígido, meus olhos bem abertos no escuro. Pratiquei minha respiração, desacelerando-a, imitando o ritmo do sono.

Minutos depois, a porta do quarto rangeu ao se abrir.

Eu não me mexi.

Senti o colchão afundar com o peso dele se acomodando ao meu lado. Senti o calor de seu corpo enquanto ele se aproximava, o cheiro familiar de seu perfume agora manchado por outra coisa — o perfume fraco e enjoativo que Kiara sempre usava.

Seu braço envolveu minha cintura, puxando-me contra seu peito. Seus lábios, os mesmos lábios que estiveram nos dela momentos atrás, pressionaram a parte de trás do meu pescoço. Uma onda de náusea me percorreu, tão poderosa que tive que morder o interior da minha bochecha para não engasgar.

Eu me encolhi e afastei seu braço, uma reação puramente instintiva de nojo.

"Elara?", ele murmurou, a voz grossa de um falso sono. "Amor, você está acordada?"

"Vá dormir, Bruno", eu disse, minha voz abafada pelo travesseiro. "Você tem uma reunião cedo."

Ele não pareceu notar o gelo no meu tom. Apenas riu, um som baixo e satisfeito que fez minha pele arrepiar. Ele me abraçou de novo, mais apertado desta vez, sua mão se espalhando possessivamente pela minha barriga.

"Só estava sonhando", ele resmungou no meu cabelo. "Sonhei que você me deixou. Me deu um susto danado."

A ironia amarga daquilo era uma dor física. Ele estava com medo.

"Estou aqui", eu disse, deixando-o acreditar em sua mentira. Mas em minha mente, eu já tinha partido. Eu estava escolhendo um novo nome. Júlia. Júlia Bastos. Um nome simples, despretensioso. Um nome sem história, sem fantasmas. Eu estava imaginando a nova identidade, o novo passaporte. Estava planejando minha fuga, liquidando meus bens, traçando um curso para uma nova vida onde o nome Bruno Wagner não significava nada.

Os sons de seu ronco baixo logo encheram o quarto. Ele estava exausto, claro. Tivera uma noite agitada.

Esperei até o sol começar a vazar pelas persianas antes de me mover. Ele saiu para sua corrida matinal, e eu fui direto para o banheiro, escovando os dentes até minhas gengivas ficarem em carne viva, tentando esfregar o gosto fantasma de sua traição da minha boca.

Quando desci, a cena na cozinha era tão grotescamente doméstica que parecia algo de um pesadelo. Kiara estava sentada no nosso balcão, tomando suco de laranja, suas pernas nuas dobradas sob ela no banco. Ela usava uma das camisetas grandes de Bruno, a gola caindo de um ombro. Ela olhou para cima quando entrei, sua expressão uma máscara perfeita de doçura inocente.

"Bom dia, Elara!", ela disse animadamente. "Você acordou cedo."

Bruno estava no fogão, virando panquecas. Ele se virou, um sorriso largo e bonito no rosto, um sorriso que uma vez fez meu coração disparar e agora só me dava vontade de vomitar.

"Bom dia, amor", disse ele, a voz cheia de calor. "Guardei um pouco de massa para você." Ele apontou com a espátula para um prato que havia colocado no meu lugar de sempre.

"Você tem tanta sorte, Elara", suspirou Kiara, apoiando o queixo na mão. "O Bruno é o marido mais atencioso do mundo. Ele te mima demais."

Encontrei seus olhos por cima da borda da minha xícara de café. O desafio estava lá, brilhando em suas profundezas.

"Ele é", eu disse, minha voz perigosamente calma. "Ele dá a todos exatamente o que merecem."

Bruno, alheio, riu. "Eu só cuido das pessoas de quem gosto. Minha esposa, obviamente, vem em primeiro lugar. Mas também cuido da protegida da minha esposa."

A maneira casual como ele nos compartimentava, sua esposa e sua amante, sentadas à mesma mesa, era de uma arrogância de tirar o fôlego.

Coloquei minha xícara na mesa com um clique suave. "Bruno", perguntei, minha voz muito clara. "Você me ama?"

Ele pareceu surpreso com a franqueza da pergunta. Kiara congelou, o garfo a meio caminho da boca.

"Claro que eu te amo", disse ele, a testa franzida em confusão. "Você é a única mulher que eu já amei. Você sabe disso."

Suas palavras eram um roteiro bem ensaiado, suave e praticado. Mas na noite anterior, eu tinha ouvido a versão sem roteiro.

"Eu só estava pensando", eu disse, mexendo meu café intocado. "Você acha que é possível um homem amar duas mulheres ao mesmo tempo?"

Ele zombou, um som confiante e desdenhoso. "Não. Claro que não. Amor não é algo que se pode dividir. Quando você ama alguém de verdade, não há espaço para mais ninguém. É algo que consome tudo."

Eu mantive seu olhar, minha própria expressão indecifrável. "Eu concordo."

"Por que você está fazendo essas perguntas estranhas, Ela?", ele perguntou, um toque de irritação em sua voz.

"Por nada", eu disse, tomando um gole lento de café. "Apenas uma hipótese. Se você algum dia se apaixonasse por outra pessoa, você me contaria, certo? Você não iria simplesmente... me manter por perto?"

Ele contornou o balcão e colocou as mãos nos meus ombros, inclinando-se para beijar minha testa. Tive que lutar contra o impulso de recuar.

"Isso nunca vai acontecer", disse ele, sua voz uma promessa baixa e sincera. "Mas se acontecesse, eu nunca te prenderia contra sua vontade."

"Bom saber", eu disse, minha voz uma calma mortal. "Porque se esse dia chegasse, eu não lutaria. Eu simplesmente iria embora. E me certificaria de esquecer tudo sobre você."

Capítulo 3

Ponto de Vista: Elara

Bruno riu, um som rico e confiante que encheu a cozinha. Ele achou que eu estava brincando, sendo dramática. A arrogância daquilo era estonteante.

"Você nunca me deixaria, Ela", disse ele, apertando meus ombros. "Nós somos o destino um do outro. Você e eu."

Ele tentou me puxar para um abraço, mas eu resisti, uma tensão sutil nos meus músculos que ele, pela primeira vez, pareceu notar. Um lampejo de algo — aborrecimento? suspeita? — cruzou seu rosto antes que ele o suavizasse.

Eu podia sentir o perfume dela na camisa dele, misturado com o cheiro de panquecas e sexo velho. Era sufocante.

"Vou me atrasar para minha reunião", eu disse, me livrando de suas mãos e indo em direção à porta. Eu precisava sair dali antes de me estilhaçar em um milhão de pedaços.

"Espere, Ela", ele chamou. "E os seus projetos para o complexo da orla? Você disse que precisava deixá-los na prefeitura. Eu posso levar para você."

Meu sangue gelou. Ele estava me testando. Verificando se minha rotina estava inalterada, se o mundo dele ainda estava seguro em sua órbita.

"Tudo bem", eu disse sem me virar. "Eu dou um jeito."

"Tem certeza?"

"Tenho certeza", eu disse, abrindo a porta e saindo para o ar fresco da manhã, ofegando como se estivesse sido mantida debaixo d'água.

Eu não fui para o escritório. Não fui para a prefeitura. Dirigi, sem rumo a princípio, as torres de vidro e aço da cidade que ajudei a moldar passando borradas pela minha janela. Minha cidade. Minha vida. Uma fachada linda e intrincada, construída sobre uma fundação de mentiras.

Dirigi até me encontrar em uma parte da cidade que raramente visitava, um bairro anônimo e decadente, cheio de lojas de penhores e agências de crédito. Estacionei em frente a um pequeno escritório discreto com uma placa que dizia "Documentos & Cópias".

Lá dentro, um homem com olhos cansados e uma expressão praticada e desinteressada ergueu o olhar de seu computador.

"Preciso de uma nova identidade", eu disse, as palavras soando estranhas e poderosas na minha língua.

Ele não piscou. Apenas acenou para uma cadeira. "Vai custar caro. Serviço de urgência custa mais."

"Não me importo com o custo", eu disse, tirando um maço de dinheiro da minha bolsa — o fundo de emergência que sempre mantive, uma relíquia dos meus dias em lares adotivos, quando sabia que só podia contar verdadeiramente comigo mesma.

Uma hora depois, saí com uma carteira de motorista, certidão de nascimento e CPF impecáveis. O rosto nas fotos era o meu, mas o nome era diferente.

Júlia Bastos.

Eu disse o nome em voz alta dentro do meu carro. Parecia limpo. Sem fardos.

Naquela tarde, encontrei Ivan em seu laboratório. Era um espaço estéril e branco, zumbindo com a energia silenciosa da tecnologia de ponta. Ele olhou para meu rosto pálido e as olheiras sob meus olhos, e sua postura profissional se suavizou.

"Elara", disse ele gentilmente. "Fale comigo."

Então eu falei. Contei tudo a ele. Os sons na noite, o nome que ouvi, a descoberta nauseante. Contei a ele sobre os quatro anos orientando Kiara, a faculdade que paguei, a confiança que depositei nela. Contei sobre as mentiras de Bruno, a maneira como ele me olhou naquela manhã como se eu fosse o centro de seu universo enquanto sua amante estava sentada a poucos metros de distância, vestindo a camiseta dele.

Eu não chorei. Estava além das lágrimas. Minha voz era um monólogo monótono, recitando fatos, cada um deles mais uma pá de terra na cova da minha antiga vida.

Quando terminei, ele ficou em silêncio, sua expressão uma mistura de pena e horror.

"O procedimento...", comecei.

Ele ergueu a mão. "Apagar as memórias é a parte fácil, relativamente falando. O soro — o 'elemento especial' — é o que torna uma verdadeira lousa em branco possível. Ele cria um estado de neuroplasticidade temporária e intensificada. Ajuda o cérebro a aceitar uma nova narrativa, uma nova identidade, sem os cismas psicológicos que normalmente ocorreriam. Essencialmente... reinicia seu senso de identidade."

Ele me olhou, seus olhos cheios de um peso terrível. "Nunca foi testado em um ser humano. Os riscos são astronômicos. Estamos falando da própria estrutura da sua consciência, Elara."

"Eu assumo o risco", eu disse sem hesitar.

Ele assentiu lentamente, como se esperasse por isso. Ele me conhecia. Sabia que quando eu tomava uma decisão, era definitiva. "Posso mandar sintetizar e enviar o soro. Terá que ser feito discretamente, por canais internacionais. Levará alguns dias."

"Quantos?"

"Três", disse ele. "Chegará no dia 24."

O aniversário de Bruno. O universo tinha um senso de humor doentio.

"Tudo bem", eu disse. "Vou comprar minha passagem."

Quando cheguei em casa naquela noite, Bruno estava me esperando, seu rosto uma máscara de alívio ansioso.

"Elara! Onde você esteve?", ele exclamou, correndo para mim e me puxando para um abraço sufocante. "Seu celular estava desligado, você não estava no escritório... eu estava prestes a chamar a polícia!"

Fiquei rígida em seus braços, o cheiro dele revirando meu estômago. "Meu celular descarregou", eu disse, minha voz monótona. "Fui dar uma volta."

Ele se afastou, as mãos ainda segurando meus braços, os olhos perscrutando meu rosto. "Uma volta? O dia todo? Mas... eu vi as caixas no seu closet. As que você arrumou com suas roupas."

Medo, agudo e repentino, perfurou minha dormência. Ele andou bisbilhotando.

"Estou doando", eu disse rapidamente, a mentira vindo facilmente. "Para o abrigo de mulheres. É hora de fazer uma limpeza."

O alívio que inundou seu rosto foi instantâneo e absoluto. Ele acreditou em mim. Ele queria acreditar em mim.

"Ah", disse ele, seu aperto afrouxando. "Ah, graças a Deus. Ela, você me assustou. Nunca mais faça isso comigo. Nunca, nunca me deixe." Sua voz estava embargada de emoção, uma performance magistral de um marido aterrorizado e amoroso.

Eu apenas olhei para ele, meu coração uma pedra morta e pesada no peito. "Não vou", prometi.

Ele partiria para sua "viagem de negócios" com Kiara em dois dias. Eu tinha até lá para terminar de apagar Elara Rios.

No dia seguinte, levei minha aliança de casamento a uma joalheria personalizada em uma parte da cidade que Bruno nunca visitaria. Era uma aliança de platina simples e elegante com um diamante impecável de três quilates, um anel que ele mesmo havia desenhado.

Deslizei-a do meu dedo. Parecia estranho, minha mão de repente leve e livre.

"Preciso que você derreta isso", eu disse ao joalheiro, colocando o anel no tapete de veludo.

Ele me encarou, depois para o anel, os olhos arregalados. "Derreter? Senhora, esta é uma peça linda. Platina, um diamante VVS1, no mínimo... Por que você iria querer derretê-la?"

"Apenas faça", eu disse, minha voz não deixando espaço para discussão. "Derreta a aliança de platina até virar um pedaço irreconhecível. Me devolva o diamante separadamente."

Ele parecia que eu tinha pedido para ele cometer um assassinato. Mas o olhar em meus olhos, e o dinheiro que deslizei pelo balcão, o convenceram.

Saí da loja com uma pequena caixa de veludo preto. Dentro havia um único diamante perfeito e um pequeno e feio pedaço de metal cinza que um dia simbolizou o para sempre.

Quando cheguei em casa, a cena era de caos. Dois carros de polícia estavam estacionados na entrada, suas luzes piscando. Bruno estava no gramado da frente, falando animadamente com um policial, sua expressão frenética.

Ele viu meu carro e seu rosto se desfez no que parecia ser um profundo alívio. Ele correu para mim assim que saí, me puxando para um abraço esmagador e desesperado.

"Elara! Oh meu Deus, Elara!", ele chorou, a voz falhando. Os policiais e nossa governanta assistiam com expressões simpáticas.

"O que está acontecendo?", perguntei, meu corpo rígido em seu abraço.

"Eu cheguei em casa, você tinha sumido, seu carro tinha sumido... eu pensei..." Ele enterrou o rosto no meu pescoço, seu corpo tremendo. Outra performance de mestre.

"Eu te disse, meu celular descarregou", eu disse, me afastando. "Fui resolver umas coisas."

"O dia todo? Sem dizer uma palavra?", um dos policiais perguntou, seu tom cético.

Antes que eu pudesse responder, Bruno saltou em minha defesa. "A culpa é minha. Eu a tenho sufocado. Ela só precisava de um pouco de espaço." Ele se virou para mim, seus olhos suplicantes. "Mas por favor, Ela, apenas me diga para onde você vai da próxima vez. Eu não posso te perder. Eu morreria se te perdesse."

Ele era um ator fenomenal. Eu quase tive que admirar o empenho.

Então seus olhos caíram na pequena caixa preta em minha mão.

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