O sol da tarde batia no parquinho da escola, aquecendo minha pele, mas fazendo pouco para descongelar o nó frio de ansiedade no meu estômago. Quando Léo me viu, lançou-se em meus braços, seu corpo pequeno encaixando-se perfeitamente no meu.
— Mamãe! — ele gritou, seus olhos, do tom exato dos de Heitor, brilhando com uma inocência que simultaneamente partia e remendava meu coração. — O papai vem para o meu aniversário? Você disse que ele talvez viesse!
A pergunta, tão ansiosa e esperançosa, pareceu uma ferida aberta. Meus olhos arderam. Quantas vezes eu tinha visto aquele brilho de esperança diminuir? Quantas vezes eu tinha mentido, ou pelo menos distorcido a verdade, para protegê-lo da negligência do pai?
Justo quando eu procurava as palavras certas, meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem. Era Heitor. Uma única linha: *Estarei em casa hoje à noite. Dê feliz aniversário ao Léo.*
Um choque de algo parecido com alegria me percorreu. Era uma emoção tola e passageira, um fantasma da esperança que eu costumava sentir. Mas, por um momento, foi real. Ele viria.
— Sim, meu amor! — exclamei, minha voz um pouco alta demais, um pouco sem fôlego. Abracei-o com mais força. — O papai vem para casa! Ele disse que estará aqui hoje à noite!
Léo se afastou, o rosto se abrindo em um sorriso largo.
— Sério? O papai vem? — Ele pulou nas pontas dos pés, sua excitação irradiando em ondas. — Eba! O papai vem!
Um sorriso agridoce tocou meus lábios. Essa era a primeira vez que Heitor concordava em vir para casa no aniversário de Léo. Uma pequena vitória, ou talvez apenas um alívio temporário. Mas eu aceitaria. Pelo Léo.
Naquela noite, transformei nosso pequeno e aconchegante apartamento em um paraíso de aniversário. Balões em cores vibrantes flutuavam perto do teto, serpentinas cruzavam a sala de estar e o aroma da pizza caseira favorita de Léo enchia o ar. Assei um bolo pequeno, cobri com sua cobertura azul favorita e coloquei seus presentes, cuidadosamente embrulhados em papel de dinossauro. Léo, abençoado seja, tinha terminado a lição de casa em tempo recorde, tomado banho e agora estava empoleirado na ponta do sofá, com os olhos grudados na porta, esperando.
O relógio tiquetaqueava. Seis horas. Sete. Oito.
Meu celular permaneceu silencioso. Liguei para o número de Heitor. Direto para a caixa postal. Tentei de novo. E de novo. Cada toque ecoava o vazio crescente no meu peito. Era o mesmo padrão familiar, o mesmo silêncio frio.
— Mamãe — disse Léo suavemente, a voz mal passando de um sussurro, me tirando da minha última tentativa fracassada de falar com Heitor. Ele olhou para mim, o lábio inferior tremendo levemente. — O papai está muito ocupado?
As palavras foram um golpe físico. Minha respiração falhou. Meu coração, já machucado e surrado, rachou um pouco mais. Como eu poderia explicar? Como eu poderia dizer a ele que seu pai, o homem que ele adorava, não se importava o suficiente para priorizá-lo?
Ajoelhei-me ao lado dele, puxando-o para meus braços. Seu corpo pequeno parecia frágil, vulnerável.
— Não, querido. O papai não está muito ocupado. Ele só... teve um imprevisto.
Outra mentira. Uma necessária, por enquanto.
— Mas eu estou aqui. Eu sempre estarei aqui. E ainda podemos ter o melhor aniversário de todos, só nós dois.
Léo enterrou a cabeça no meu ombro, seu silêncio falando volumes. Então, depois de um momento, ele fungou.
— Você pode colocar meu chapéu de aniversário, mamãe?
— Claro, meu anjo. — Minha voz estava embargada de lágrimas não derramadas.
Peguei o chapéu de papel frágil, estampado com super-heróis de desenho animado. Enquanto o colocava gentilmente na cabeça dele, a tela do meu celular piscou. Uma notificação de Karina Oliveira. Uma postagem no Instagram.
Meus dedos, quase por vontade própria, tocaram na notificação. Uma foto carregou na minha tela. Karina, radiante em um vestido cintilante, brindando com taças de champanhe com um homem cujo braço estava envolto possessivamente em sua cintura. Heitor. A cabeça dele estava jogada para trás em uma gargalhada, os olhos brilhando com uma alegria que eu não via dirigida a mim há anos.
E na mão esquerda dele, brilhando inconfundivelmente na iluminação suave do restaurante, estava a aliança de casamento dele. Minha aliança de casamento. Aquela que ele sempre alegou que usava, mas nunca usava, por medo de arruinar sua imagem de solteiro. Ele estava usando por Karina. Publicamente.
Eles não estavam apenas em um baile de gala. Estavam em um jantar romântico, em um restaurante exclusivo na cobertura, celebrando, sem dúvida, a mais recente "conquista" dele — uma conquista que eu havia escrito.
A dor, aguda e visceral, que vinha me corroendo o dia todo, de repente recuou. Em seu lugar, uma calma gélida se instalou sobre minha alma. Isso não era apenas negligência. Era um ato deliberado de apagamento, uma proclamação pública de sua nova realidade, comigo e Léo firmemente excluídos.
Meu polegar pairou sobre a tela. Então, com uma certeza arrepiante, apertei "Curtir".
Coloquei cuidadosamente o frágil chapéu de papel de aniversário na cabeça de Léo. Ele olhou para mim, com os olhos arregalados e esperançosos.
— O que você desejou, meu amor? — perguntei, forçando um sorriso que parecia quebradiço em meus lábios.
Ele pensou por um momento, depois sussurrou:
— Desejei que você estivesse sempre comigo, mamãe. Só você e eu.
Meu coração se partiu em mil pedaços. Era isso. Esse foi o momento gravado na minha memória, aquele que solidificou tudo. Eu nunca esqueceria esse desejo puro e bruto. E passaria todos os dias garantindo que ele se tornasse realidade. Eu construiria uma vida onde o desejo dele fosse a realidade.
— Eu prometo, querido — sussurrei de volta, beijando o topo da cabeça dele. — Para sempre. Só você e eu.
Comemos pizza fria, cantamos "Parabéns" desafinado para um bolo comido pela metade e abrimos presentes com tema de dinossauro. O nome de Heitor não foi mencionado uma única vez. Éramos apenas nós. E pela primeira vez em muito tempo, a casa parecia um lar, verdadeiramente nosso lar, não um abrigo temporário esperando por um senhorio distante.
Mais tarde naquela noite, depois que Léo adormeceu, sonhando com dinossauros e seu pai alheio, entrei na sala de estar silenciosa. Os balões ainda flutuavam, testemunhas silenciosas de um aniversário celebrado sem pai. Peguei o envelope pardo grosso que havia escondido sob uma pilha de revistas velhas. Dentro estavam os papéis do divórcio, impressos com capricho, assinados pelo meu advogado, esperando pela assinatura dele. Minha última hesitação, a fraca e persistente esperança de que ele pudesse de alguma forma mudar, de que pudesse nos escolher, dissolveu-se como açúcar no chá quente.
Então, o clique suave da porta da frente. Heitor finalmente estava em casa.
Ele entrou na sala, o smoking levemente amassado, um leve cheiro de champanhe caro impregnado nele. Seus olhos, cansados e sombreados, pousaram nos balões murchos, no bolo pela metade, no papel de presente espalhado. Um lampejo de algo — arrependimento? culpa? — cruzou seu rosto.
— O aniversário do Léo — murmurou ele, as palavras ocas. — Deus, sinto muito, Adriana. O baile atrasou, depois a Karina precisou de uma carona para casa, e... — Ele deixou a frase morrer, suas desculpas frágeis, transparentes.
Meu sorriso era fino, com bordas de gelo.
— Está tudo bem, Heitor. O Léo se divertiu muito.
As palavras eram uma mentira, mas eram mais fáceis do que a verdade.
Ele passou a mão pelo cabelo, parecendo genuinamente miserável.
— Eu sei que pisei na bola. De novo. Prometo, vou compensar. Para vocês dois. — Seus olhos se desviaram para os meus, um lampejo do velho Heitor, aquele que costumava me encantar, tentando ressurgir.
— Você não vai precisar — disse eu, minha voz calma, quase desapegada. Peguei o envelope pardo e estendi para ele. — Apenas assine isto.
Ele olhou para o envelope, depois para o meu rosto, a confusão nublando suas feições.
— O que é isso?
— Papéis do divórcio — declarei secamente, minha compostura firme. — Um acordo de dissolução de parceria, como meu advogado colocou. Tudo o que você precisa fazer é assinar.
A mandíbula dele endureceu.
— Divórcio? Adriana, não seja ridícula. Somos casados. Temos o Léo. — Ele deu um passo mais perto, os olhos se estreitando. — Isso é por causa do baile? Eu te disse, é só trabalho.
Meu celular vibrou. Não o meu, o dele. O toque insistente perfurou o silêncio. Ele olhou para baixo, a expressão ainda irritada. Um número familiar piscou na tela. Karina.
Ele hesitou por um momento, depois atendeu, a irritação clara na voz.
— Karina, o que foi?
A voz dela, estridente e em pânico, vazou do telefone, mesmo no volume baixo.
— Heitor! Ai meu Deus, é um desastre! O prédio do meu apartamento, estourou um cano, tem água por todo lado! Minhas roupas de grife, meu notebook, tudo arruinado! Por favor, você tem que me ajudar!
O rosto de Heitor, um momento atrás cheio de irritação, instantaneamente suavizou em preocupação.
— Karina, acalme-se. Onde você está? Você está segura? Estou indo para aí. — Ele já estava na metade do caminho para a porta, a mão alcançando as chaves do carro.
— Apenas... apenas assine os papéis, Heitor — disse eu, minha voz mal passando de um sussurro.
Ele parou, virando-se para mim, os olhos arregalados e distraídos. Ele arrancou o envelope da minha mão, rabiscou sua assinatura na parte inferior sem nem olhar o conteúdo e jogou-o de volta na mesa.
— Pronto. Feliz agora? Sinto muito, Adriana, tenho que ir. Isso é uma emergência.
Ele não esperou pela minha resposta. Saiu pela porta num piscar de olhos, o som do carro acelerando desaparecendo rapidamente na noite.
Fiquei ali, sozinha na sala silenciosa, os papéis do divórcio assinados apertados na minha mão. Os balões balançavam suavemente, uma despedida silenciosa e zombeteira. Ele tinha escolhido. Ele tinha escolhido Karina. Ele tinha escolhido sua vida pública cuidadosamente construída, seus momentos fugazes de fama, em vez de sua esposa, seu filho, sua família. Ele tinha escolhido nos deixar.