Capítulo 2

Domrémy ,Interior da França 1412

Em um lugarejo de casas e pessoas bem simples nascia e vivia a pequena Joana D’Arc ,que repousava nos braços da mãe que olhava a ela e ao pai, cuidando de cavalos, com amor e devoção. Então o tempo fora passando com uma infância pobre, mas feliz á

adolescência que lhe trouxera revelações.

Certo dia Joana já com doze anos estava a pastorear algumas abras num pasto próximo quando uma voz lhe surgiu e nada aos ouvidos e lhe dizia: salve a França e coroe o rei. Mantenha-se firme e descubra o seu poder.

Assustada com o ocorrido largou as cabras e correu aos pais para contar-lhe o fato, mas claro que acharam tudo fantasioso e mandaram-na de volta ao campo.

O assunto fora esquecido aos pais, pois Joana mantinha aquelas palavras na mente ate o dia que tomou uma atitude enfim. Aos dezessete anos, cansada de ver o povo sofrer e com uma raiva que a fazia fazer coisas que a assustavam mais também lhe davam uma sensação de liberdade, Joana conseguiu um cavalo emprestado com um amigo de seu pai e partiu para o Castelo de Chinon a

residência do rei e contou-lhe a revelação que tivera. Claro que não ficou cara á cara com o rei, mas o mensageiro fez o seutrabalho. A França caia cada vez mais, mas enfim Joana depois de muitas lutas ganhou o comando dos franceses e, com isso, muitas vitórias. Mas seu verdadeiro poder iria ser descoberto, pena que não o aproveitaria,mas o daria como presente a alguém que mudaria a historia do mundo para sempre E sempre no novo mundo era bem, bem longo.

Em trinta de maio de mil quatrocentos e trinta e um o segredo de Joana D’Arc fora revelado a todos que estavam na praça da cidade de Ruão. Ela fora amarrada ,muito ferida, mas ainda viva e sem roupas num pau colocado na praça e uma fogueira fora acendida á seus pés. E conforme o fogo ia consumindo sua carne que já cheirava a carne assada junto ao forte cheiro de sangue,

o horror e a repulsa de alguns era revertida em palavras de ordem. Mas seu corpo não pode mais conter o seu segredo.

Uma fumaça negra e espessa começara a sair por seus olhos, nariz e boca. Boca essa que gritava em raiva e desespero, e ir direto para o meio do povo que começou a correr e gritar enquanto aquela fumaça parecia procurar por algo ou alguém específico.

Eis que o alvo fora localizado, uma menininha de olhos castanhos escuros arregalados,perdida dos pais no meio daquela multidão enlouquecida. Ela é a minha escolhida! Ela que será condenada junto comigo!

Uma coluna densa e negra avolumou-se e como um touro furioso indo em direção á capa do toureiro a fumaça foi ao encontro da menina e com fúria adentrou por seus olhos arregalados, por sua boca aberta e por seu nariz empinado e a jogara ao chão enquanto se apossava de seu corpo. De sua alma. De sua vida.

Joana consumida pelas chamas dera sua última risada ao se tornar não mais do que um amontoado de cinzas de sua roupa, de sua carne e da madeira e cordas que a prendiam a esse mundo.

A fumaça tornara-se uma força poderosa e arremessou as pessoas que ali haviam parado para ver o corpo da menininha que alguém chamara de Raquel se debater no chão para todos os lados, enquanto uma garoa bem fininha descia e dissipava a fumaça e as chamas do fogo ao ar.

A noite caiu, e, finalmente Raquel despertara, não havia mais ninguém por ali, provavelmente viera sozinha ao ‘evento’ e, agora, a primeira coisa que via era o céu e a lua cheia e nela o reflexo de um sorriso cruel. A partir daqui começa a trajetória daquilo que mudaria o mundo.

A trajetória da primeira vampira.

Raquel olhava para a casa dos pais aflitos e a discutir por causa da rebeldia da filha de fugir para ir ver a cena grotesca de queimarem alguém vivo e em plena praça pública. De repente a porta fora aberta e ao brilho do luar uma Raquel enlameada e de feições distorcidas adentrou a sala.

–Filha, por onde você andou?-a mãe nem sabia o que fazer: brigar, abraçar ou secar a filha que nada falava ou fazia diante de seu desespero. –Fale algo meninaexigiu o pai que se levantou do sofá simples e olhou para a filha muda e paralisada.

Os pais se olharam sem entender o que se passava com a filha que estava gelada por fora, mas por dentro sentia um calor infernal e uma sede que não sabia dizer do quê, mas que também lhe queimava.

Raquel dera ás costas para os pais ao rumar para o quarto perdida da vida que já nem sentia fluir em suas veias que ardiam.. Sua pobre mãe estava á beira das lágrimas ,e isso afirmava, pois podia ouvir nitidamente o inchar de seus olhos para formarem as lágrimas.

De seu pai sentia o inflar das veias cheias de sangue a correr veloz por seu corpo.

Raquel nunca fora de sentir ou mesmo demonstrar medo, mas o que estava sentindo lhe dava arrepios pelo corpo que tremia de frio e calor, fora tudo o quê sentia em seu corpo de diferente.

Praticamente se arrastando entrara em seu quarto e jogou-se de braços abertos sobre a cama .Todos os seus ossos pareciam se quebrar pedaço por pedaço, seu corpo ardia em fogo por dentro, mas por fora o gelo que percorria sua pele era congelante .Seus olhos lacrimejavam num ardor sem explicação como ter pimenta dentro destes.

Deus, o que esta acontecendo comigo?

A garganta de Raquel virou brasas vivas como se o fogo dentro de seu corpo quisesse sair; sua respiração ficou presa e começou a lhe sufocar. Sua vontade era gritar por socorro mais as palavras não saiam ,e no instinto levou as mãos ao pescoço e começou a esfrega-lo como se o ato fosse libertar sua respiração.

O pânico invadiu Raquel que no desespero por ar jogouse no chão e começou a rolar, a sensação que tinha é que seu corpo estava envolto num lençol de chamas.

Lágrimas rolaram por seu rosto e sua boca aberta queria gritar - eu estou morrendo!- mas palavras não saiam.

Preciso de ar - esse era seu pensamento e num tentativa louca de consegui-lo ,levantou-se trôpega do chão e seus olhos foram atraídos para a janela á sua frente.

Raquel estendeu sua mão para frente como se fosse agarrar a brisa que vinha pela janela aberta, chamou o ar, mas somente um chiado rouco saiu de seus lábios de repente secos e rachados. Se fosse outra pessoa já estaria morta, sufocada por sua própria respiração, mas Raquel continuava viva apesar das circunstâncias.

Exausta e cambaleante, Raquel tomou o rumo da janela e com a mão estendida fora derrubando alguns objetos pelo caminho.

Da cozinha e da sala respectivamente seus pais ouviram os barulhos estranhos de algo a cair e ,sem pensar, correram para o quarto da filha, e ao abrir a porta...

Raquel estava parada no peitoril da janela com o vento a balançar raivosamente seus longos cabelos negros.

–Raquel?

A mãe lhe chamou com certo tremor não só na voz, mas também nas mãos, que até queriam tocar a filha, mas tinham receio.

–Raquel ,filha, ao menos olhe para nós-pediu o pai.

Então, lentamente Raquel virou-se mas quisera seus pais que ela não o tivesse feito. Pois sua expressão estava distorcida, seus olhos estavam tomados por uma fumaça negra e ate seus cabelos pareciam serpentes a dançarem sob sua cabeça, e o que ela disse fez sua mãe agarrar-se ao marido.

–Esqueçam sua filha, pois eu sou o que sobrou dela-então abriu os braços e, de costas, jogou-se pela janela om um sorriso nos lábios.

–Não!!!

O que já era de se esperar, aconteceu. Raquel estava morta. Ao menos foi o que aconteceu com o seu corpo, pois sua alma estava prestes a nascer e condenar não só o vilarejo, mas o mundo.

Pobres pais choravam em desconsolo com os corações partidos pelo ocorrido com a filha que fora chamado de ato de loucura. Nem fazem ideia...

A maldição esta por começar e ,infelizmente nem Deus pode recuperar um alma que já caiu na perdição.

Raquel não estava entendendo nada do que estava a acontecer consigo nem agora e nem antes de morrer.

Sim sabia que morrera, mas...

Capítulo 3

O sol já estava se pondo no horizonte, as cores laranja, rosa e amarelo se misturavam ao azul de começar da noite fazendo um belo retrato de paisagem. Depois de muito chorar a mãe de Raquel pegara no sono entre soluços, envolvida pelo calor dos braços do marido que também adormecera na tristeza.

No cemitério uma esplendorosa lua cheia pairou direto sobre o rosto pálido e sujo de terá de Raquel sete palmos abaixo da terra, mas abriu os olhos num rompante de vida. Vida?

Deus, onde estou?-perguntou-se enquanto suas mãos tateavam o interior do caixão. Então, de repente o desespero gritou dentro dela ao se ver na escuridão já que os flashes do luar sumiram, e esta começou a socar o caixão e gritar por socorro.

Raquel não havia se dado de conta que a sua força havia aumentado a tal ponto de quebrar a madeira do caixão, e só o percebera quando seu rosto e corpo começaram a cobrir-se de terra e galhos.

–Tenho que sair daqui-soluçava ao sentir a pele de seus dedos se ralarem e o sangue escorrer, mas isso não a impedira de prosseguir com a destruição do caixão enquanto seu corpo começava a queimar novamente de dentro, enlouquecendo-a de dor. Uma pessoa movida pelo medo não recua e sim avança. E foi justamente isso que Raquel fez quando começou a escalar a terra como um gato a escalar uma parede, que lhe rodeava mesmo tendo o corpo ferido pelos galhos e pedrinhas e só parou quando sentiu uma leve brisa chegar em seu rosto coberto de terra e ,mesmo com os cortes a arderem pela terra e sangue ela sorriu.

Finalmente chegara á superfície e quando abriu os olhos já com metade do corpo para fora da cova a primeira coisa que viu fora a lua que parecia lhe sorrir- então murmurou–obrigado- e largou-se ali e a comtemplou.

Algum tempo se passou com Raquel ali somente a sentir a brisa morna da noite lhe tocando o rosto, se bem que seu rosto ao seu próprio toque para tirar a terra do rosto lhe era frio. Eis que esta se levantou e decidiu que era hora de rever os pais, e caminhou pelo cemitério entre lápides e mausoléus até os portões desaída. Dos males o pior, se é que pode se colocar a situação assim já que ninguém sabia como, de fato, Raquel morrera.

Imagina revê-la no estado em que se encontrava?

A lua parecia seguir os passos de Raquel que, de repente, enquanto cruzava em frente a um mausoléu destruído pelo tempo e pela falta de cuidado ouviu nitidamente o bater de um coração e arranhar de unhas em algo sólido vindo lá de dentro. Claro, seu eu primeiro pensamento fora o de sair depressa dali, mas então surgira outro em sua mente: será que enterrara mais alguém vivo? Lentamente se dirigira até o mausoléu, suas mãos tremeram mais não hesitaram ao irem até a maçaneta da porta que com ruídos e pó a sair do chão abriu-se. De longe espiou lá para dentro, era escuro e fétido mais nada ouvira, e não fiou ali para ouvir.

–Que estranho-murmurou já se virando para ir embora,

mas o bater de asas surgira as suas costas e quando virou-se viu-se atacada por um morcego que cravou suas presas com raiva em seu pescoço.

O grito de Raquel reverberou pelo cemitério enquanto tentava arrancar aquele bicho de seu pescoço, parecia que haviam enfiado varias agulhas em sua veia, então ,enfim pegou aquela coisa pelas asas e a arremessou para longe de si. Sorte sua que o morcego fora embora.

Suspirara aliviada ao levar a mão ate seu pescoço onde sentiu algo pegajoso e quente a escorrer por entre seus dedos, e quando os ergue á frente de seus olhos viu que era sangue. O seu sangue.

Gritou de dor e de medo ao sair correndo sem rumo pelo cemitério sem nem perceber que do nada uma forte chuva começara a cair.

Lágrimas rolavam por seu rosto, sangue rolava por seu pescoço e a chuva lavava sua raiva que tamanha era que com apenas um empurrão Raquel arremessara os portões do cemitério para longe e seguiu correndo.

O tempo e o espaço começaram a girar em torno de Raquel que nada mais sentia, e só fora sentir algo quando dera de cara em uma casa de esquina. O baque fora violento e a mandou ao chão desacordada. Só que Raquel não contava que o morcego havia lhe seguido e agora com ela desmaiada apossou-se de seu pescoço mais uma vez.

O que vai acontecer?

Vou te contar e te apresentar o que ninguém sabia existir. Ainda.

O sol já estava nascendo e Raquel só acordou porque sentiu o forte cheiro de pele queimando e resfolegou quando percebera ser a sua pele que estourava em bolhas porulhentas, e tratou de se arrastar até a sombra da lateral da casa , pois parecia que algo havia lhe sugado as energias. Sua cabeça latejava fortemente e seu pescoço parecia chiar ,mas os sentimentos que sentia por dentro eram bem piores á ponto de fazê-la chorar. Então uma leve garoa desceu do céu.

Minutos depois de ter se acalmado, Raquel pôs-se de pé, retirou os resquícios de lágrimas das bochechas com as mãos e levou, lentamente, o pé ao sol, como se algo lhe avisasse para ter cautela e ,logo comprovou ,pois ao botar o pé no sol esse queimou e estourou em bolhas.

Gritou não só de dor mas de raiva, ai percebeu que o pe na sombra se curava e voltava ao estado normal. Ela fez o teste mais duas vezes e percebeu que não conseguira sair dali a não ser pelas sombras das casas.

Raiva era o que Raquel sentia e quanto mais esta se avolumava em seu peito, mas forte a chuva se tornava á ponto de trazer consigo um vento violento que varria as ruas da cidade sem piedade. Isto que Raquel nem desconfiava que eram os seus sentimentos que causavam essas bruscas variações no tempo.

O dia se passou e Raquel acabou por adormecer recostada aos tijolos da casa, e quando o fez a chuva no mesmo instante cessou. E esta só acordara no entardecer quando uma névoa densa cobria a cidade, tão densa que não se enxergava um palmo adiante do

próprio nariz, com exceção de Raquel que seguia pelas ruas enxergando normalmente.

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