Zuldrax
Meu nome é Zuldrax, também conhecido como Zuldrax, o Temerário. Sou o atual rei de Zafis e sou temido por muitos, pois herdei de meus pais todo o potencial real de um zafisiano. Não sabia quanto tempo levaria, mas certamente eu venceria Alister, rei de Halis, na guerra que estamos destinados a lutar. O ódio entre os reinos de Zafis e Halis já existia há séculos, e eu não permitiria que a vida de tantos guerreiros tivesse sido perdida em vão.
Após o último ataque, há cerca de um mês, algo aconteceu que deixou Alister atordoado. Parecia que ele tinha encontrado algo importante, tão importante que recuou suas tropas e voltou para Henir, a cidade central de Halis. Pensei que talvez fosse o momento oportuno para invadir, no entanto, minhas tropas estavam cansadas e as fronteiras de Halis possuíam uma magia especial de dispersão.
Somos muito mais fortes e hábeis que os halisianos. Possuímos um tipo de energia especial que aumenta nosso potencial em combate corpo a corpo; no entanto, eles têm uma aura mágica, algo com que poderíamos lidar facilmente, desde que estivéssemos preparados.
Decidi também recuar minhas tropas para que pudessem descansar e recuperar suas forças. Momentos de trégua ocorriam com certa frequência, e sua duração podia variar de semanas a meses, ou até se estender por anos, dependendo da situação. Eu precisava revisar minhas estratégias e, principalmente, descobrir o que Alister estava tramando.
Ao final do dia, recolhi-me em meus aposentos e, com uma dióxy de comunicação, entrei em contato com meu espião chamado Haigar, guarda real de Alister e de inteira confiança dele. Ele só aceitou se submeter às minhas ordens para que eu poupasse a vida de seu filho, que mantinha cativo numa prisão em Zaríon, cidade central de Zafis.
A função para a qual eu o designara era simplesmente carregar uma dióxy especial que me permitia ver através de seus olhos e ouvir através de seus ouvidos, pois suas funções sensoriais se refletiam no meu dióxy espelho.
Dióxys são pedras raras capazes de canalizar nossa energia e reverter para um efeito específico. Dióxys normalmente são únicas, não sendo encontradas duas pedras de igual efeito. Para acionar uma dióxy é necessário estar em contato físico direto.
Vislumbrei Alister numa sala de reuniões. Ele estava com três de seus mais fortes guerreiros, magos de muito talento e, para minha surpresa, Hiratamino estava ali. Hiratamino é o mago mais velho no reino de Halis e serviu ao rei Helgon e à rainha Rainessya, pais de Alister.
Após a morte deles e da recém-nascida princesa Lenissya, Hiratamino abdicou do papel de mago real, pois fracassara ao proteger seus reis. Alister, como único sobrevivente da família real, herdou o trono e se tornou meu maior inimigo. O que estaria Hiratamino fazendo ali? Eu estava prestes a descobrir.
— Acha que é possível, Hiratamino? — questionou Alister, entregando-lhe uma dióxy e aguardando ansiosamente sua resposta. — Consegue sentir, certo?
— Impressionante! Sua energia vital permanece intacta. Não há dúvidas, ela está realmente viva!
Alister arregalou os olhos e não se conteve. Lágrimas começaram a cair, mas havia um sorriso em seus lábios que me irritava profundamente. Quem estava viva, afinal?
— Como é possível? Sua aura vital havia se dissipado. Não havia indícios de que ela pudesse ter sobrevivido — disse Hiratamino. Seu rosto de espanto foi, aos poucos, sendo substituído por um olhar de esperança e um sorriso de comoção que me deixou enojado.
— Todos nós acreditávamos nisso, mas essa dióxy localizadora é a prova de que Lenissya está viva, embora não esteja perto de nós. Agora entendo o que pode ter acontecido. Minha mãe, na tentativa de proteger a pequena Lenissya das mãos de Zadthos, utilizou uma magia de transporte dimensional, levando-a a um mundo onde ela pudesse ficar segura.
— Isso é realmente incrível! E depois de tantos anos — disse Hiratamino, deixando-se cair para trás, apoiando as costas no encosto da poltrona. — Entendo.
— Agora que sei que minha irmã está viva, não descansarei até tê-la conosco novamente.
— Se ela tiver herdado a mesma energia de sua mãe, será de grande ajuda nesta guerra. Rainessya era um prodígio, mas estava enfraquecida após o parto, e eu falhei no momento em que elas mais precisavam.
— Não se culpe mais por isso, Hiratamino. Também carrego a culpa de ter deixado Zadthos passar pelo nosso exército. Não tínhamos como prever. Vamos nos focar no futuro.
— Majestade, como bem disse Hiratamino, Rainessya era um prodígio. A magia que ela deve ter usado para levar Lenissya para outro mundo deve ser de alto nível, e talvez nenhum de nós consiga conjurá-la. Como faremos essa proeza? — perguntou o sábio Ikzar, quebrando o clima de euforia. Muito bem, Ikzar... muito bem!
— Já pensei nessa possibilidade, mas creio que deve haver alguma maneira. Hiratamino, eu convoquei você até aqui porque preciso de sua experiência. Sei que não quer mais usar magia, mas preciso do seu auxílio.
— Vossa Majestade, será uma honra servi-lo nessa importante missão. Farei o possível para trazer a princesa de volta. Sei que não posso apagar meus erros, mas trazê-la de volta ao seu lar em segurança será minha remissão perante ti.
— Conto com você! — disse Alister, virando-se para seus subordinados. — Este segredo fica entre nós. Não vamos dar esperança ao nosso povo sem ter certeza de que nossa missão dará certo. E se isso chegar aos ouvidos de Zuldrax, Lenissya correrá perigo. Então, eu lhes peço, que o que foi dito nesta sala permaneça nesta sala.
Alister se retirou em silêncio. Aquele idiota nem desconfiava que eu já sabia de tudo. Demorei alguns minutos para processar o que ouvira. Não conhecia Lenissya, não sabia do que era capaz, mas meu ódio por ela já começava a se manifestar. Ela pertencia à família real de Halis e, portanto, precisava ser eliminada, pois era uma ameaça.
Passei noites mal dormidas depois disso. Precisava de uma estratégia. Pensei em matar Hiratamino, mas aquele velho já não duraria muito mesmo, e para isso eu teria que me arriscar bastante e invadir Henir, o que era quase impossível.
Guerrear nas fronteiras é fácil, mas invadir a área central de Halis seria muito trabalhoso e, com certeza, traria muitas mortes. Meu pai morreu realizando essa façanha, e as dores geradas pelas perdas naquela época foram enormes.
Uma coisa entrava em conflito com meu anseio de atrapalhar o plano de resgate: minha vontade de matá-la. Eu sabia que, se a missão fracassasse, Lenissya continuaria viva e eu jamais conseguiria acabar com a família real. O que eu tinha que fazer, então, era esperar que eles a trouxessem para que eu pudesse agir.
Passaram-se alguns dias e nenhum de nós iniciou um novo ataque. Tanto meu reino quanto o deles possuíam uma vigília poderosa e artimanhas que impediam que inimigos invadissem o território um do outro.
Quanto àquela missão estúpida, o velho Hiratamino andava com frequência na biblioteca real da cidade central de Halis, chamada Henir, procurando algo na literatura que o auxiliasse nessa questão de passagem dimensional.
Ver aqueles tolos se esforçando me divertia. Eu faria daquela missão um curto sonho, seguido de um pesadelo infinito. Alister parecia ansioso, preocupado com o possível ataque que eu poderia realizar naquele instante, mas seu foco ainda era sua irmãzinha Lenissya.
Para preocupá-lo ainda mais, espalhei o boato de que estava armando meu exército e que iniciaria um novo ataque em breve. Mal sabia ele que eu não tinha a menor intenção de fazer isso. Me divertia atormentando-o.
Parte dos meus homens descansava em casa com suas famílias, enquanto outros vigiavam perto de nossa cidade central, Zaríon, e das fronteiras, revezando-se entre si. Embora eu quisesse ferozmente vencer essa guerra, meu povo era mais importante. Queria que aproveitassem o tempo com coisas prazerosas e fortalecessem os laços afetivos entre si. Nossa união e ódio contra o povo de Halis os fariam perecer em algum momento. Era só questão de tempo.
Alister decidiu me enviar uma proposta de paz sob o pretexto de que a Noite Negra estava se aproximando e que, em memória das pessoas que morreram naquele dia, deveríamos estender a trégua por um período mais longo. Já se passaram dezesseis anos desde que a Noite Negra ocorreu. Eu tinha apenas oito anos na época, mas me lembro da minha mãe, olhando pela janela do palácio para o horizonte, pálida, com um olhar profundamente entristecido. Acho que sabia, bem no fundo, que seu amado não voltaria mais.
Pensei em recusar o pedido de Alister, afinal, eu sabia muito bem o porquê daquilo, mas preferi não provocá-lo. Era melhor que ele acreditasse que estávamos em trégua temporária para, talvez, pegá-lo desprevenido em algum momento. Bem... esse truque já é velho, mas nunca me cansava dele. Sorri maliciosamente enquanto novas ideias surgiam em minha mente.
Zuldrax
Mais de um mês se passou, e a 'tão importante' missão continuava sem nenhum progresso. Desesperado, Alister convocou sua guarda pessoal para acompanhá-lo em uma jornada. Vislumbrei seu rosto determinado. Aquele reizinho queria ir para Salis, o terceiro grande reino de nosso mundo. Para nós, eles não fediam nem cheiravam. Tratava-se de um povo simples, sem capacidades especiais, cujo intelecto era seu único orgulho. Não queriam guerras e não se metiam nos nossos assuntos.
Desenvolviam-se em busca do progresso e da ciência. Sua neutralidade me deixava enjoado, mas não os odiava e, portanto, não via motivos para caçar briga em seu território. Eles tratavam de forma cortês qualquer um que pisasse em seu reino e, justamente por isso, nem os halisianos nem os zafisianos os visitavam. Não queriam correr o risco de se encontrarem e gerarem tumulto no meio daquela gente.
O fato de Alister estar indo para lá só poderia significar que ele estava realmente desesperado. Isso me alegrava. Em uma das conversas que teve com Haigar, seu “fiel” amigo e meu espião, soube que a biblioteca de Halis continha apenas parte do segredo para a viagem dimensional e Alister acreditava que a biblioteca de Salis possuía a parte chave do feitiço de que precisavam. Resolveram ir ao reino de Salis e implorar ao rei Nicolas que lhes permitisse estudar os livros da biblioteca real de Seradon.
Queria que algo ruim lhes acontecesse pelo caminho, mas, infelizmente, a viagem correu bem. Inicialmente, foram bem recebidos pelo rei Nicolas e sua esposa, Megan, que os convidaram para um jantar. Alister aceitou o convite com uma cortesia exagerada. Com um aperto de mão, disse:
— Será uma honra jantar com Vossa Majestade e sua bela família neste reino tão encantador.
“Hipócrita”, pensei. Ele queria agradar o rei Nicolas com palavras doces para ver se conseguiria mais facilmente seu objetivo, e acabou que, mais tarde, conseguiu. No jantar, Nicolas apresentou seu filho Henry. Rolou uma conversa chata, uns risos para lá e para cá, mas logo a coisa ficou séria.
Alister começou a relembrar a história de sua família. Disse que acreditara que sua irmã estava morta e que agora seu maior desejo era revê-la. Todos naquela mesa se emocionaram com a história, e a família real inteira se compadeceu de Alister. Ele obteve, então, a permissão para que Hiratamino estudasse os livros da biblioteca.
O príncipe Henry, em especial, ficou muito interessado nessa história de viagem dimensional e resolveu ajudar. Ele tinha um espírito aventureiro, pelo que pude perceber. Queria ver se realmente era verdade e, caso fosse, conversar com Lenissya para descobrir mais sobre o outro mundo. Alister consentiu, afinal, estava em débito com eles.
Hiratamino ficaria hospedado no castelo real, na cidade de Seradon, até encontrar o que precisava. Alister e seus homens voltaram para Henir, afinal, ele era o rei, e caso se descuidasse, eu não pouparia esforços em trucidá-los.
Passaram-se algumas semanas. Alister caminhava impaciente de um lado ao outro de seu quarto. Haigar estava com ele, tentando acalmá-lo, mas era inútil. Seria outro dia monótono se não fosse pela estranha figura que apareceu ao final do dia no palácio. Era Hiratamino. A seriedade em seu rosto fez com que Alister duvidasse por alguns segundos que havia esperança. No entanto, erguendo um livro grosso, de capa branca, com uma gravura hexagonal na frente, disse:
— Encontrei o feitiço de que precisávamos.
Alister não se conteve de alegria e disparou sua energia em forma de um feitiço luminus, iluminando a sala central do palácio com a cor que representava o reino de Halis: o azul. Ele estava empolgado, mas o velho Hiratamino interrompeu sua alegria, dizendo:
— Não será fácil trazê-la de volta, talvez seja impossível. O feitiço que precisamos está entre os mais complexos de Nível 4.
Quem diria que seria assim? Talvez Lenissya realmente não pudesse retornar. Acho que fiz a mesma cara que Alister e seus subordinados naquele momento. Estive perdendo tempo acompanhando essa missão estúpida, quando havia tantas outras coisas importantes a fazer. Talvez houvesse outra maneira de chegar a Lenissya para matá-la...
Nível 4 é um nível máximo de domínio da energia aura. Eu possuía esse nível à maneira zafisiana, mas Alister não passava do nível 3. Mesmo sendo da família real, ele não herdara o grande potencial da energia halisiana. Hiratamino, com muitos anos de experiência e treino, a muito custo chegou à força máxima do nível 3, o mesmo potencial de Alister.
Grande parte da população era apenas nível 1, os guardas em geral possuíam nível 2, e alguns poucos magos mais treinados conseguiam feitiços simples de nível 3. Quando a maior parte da esperança deles se esvaiu, Hiratamino se ajoelhou perante o rei e disse:
— Mas se me deres tempo e me permitires, treinarei, me fortalecerei, e, se necessário, morrerei tentando trazer Lenissya de volta.
Alister respondeu:
— Sabes o que me pedes? Jamais o sentenciaria a tal destino!
— Não há outra escolha e Vossa Majestade sabe disso.
O rei abaixou a cabeça e ficou pensando por uns instantes. Em seguida, ergueu seu olhar e, encarando seu amigo de forma convicta, disse:
— Me fortalecerei contigo e somaremos forças nessa tarefa.
Sem querer contrariar o rei, Hiratamino consentiu. Treinaram arduamente nos meses que se seguiram, tentando concentrar e liberar a energia de forma específica e aprendendo formas de sincronizá-las entre si. Resolvi treinar um pouco também, pois de forma alguma queria perder para Alister. Eu gostava de passar as horas livres aprimorando minhas habilidades com armas.
Nas últimas guerras, utilizei com mais frequência uma adaga, mas minha arma predileta é, e sempre será, a espada. Concentrando minha energia na arma, eu conseguia reverter feitiços, desmanchá-los, aumentar o alcance do corte, dentre outras técnicas. Mas um treinamento desse tipo era desnecessário. Eu já era bom demais nisso. Quis tentar algo diferente.
No acervo do meu palácio, há uma dióxy de reversão que todos consideram inútil. Ela reverte nossa energia, que normalmente circula no sentido horário, para o sentido anti-horário, mudando sua forma e dificultando sua identificação. Era quase impossível controlá-la, o que inviabilizava sua utilização. Resolvi que treinaria com ela, um desafio um tanto interessante e que, quem sabe, poderia ser útil algum dia.
Essa dióxy foi colocada em um bracelete para que fosse mais fácil transportá-la sem tocá-la diretamente. Nas primeiras vezes que usei o bracelete, quase desmaiei. O impacto de ter a energia revertida de repente gerava um imenso estresse no corpo. Aos poucos, fui me habituando, e em poucos dias não sentia mais o impacto negativo da dióxy.
O tempo foi passando e meu treino com a dióxy de reversão teve grandes avanços; porém, o de Alister teve progressos ainda maiores. Após pouco mais de um ano de treinamento de controle e sincronia, Alister decidiu abrir o portal. Sabendo que uma grande quantidade de energia seria drenada e que a sincronia da energia dele com a de Hiratamino deveria ser perfeita, planejaram antecipadamente e cuidadosamente a forma como iriam proceder.
Essa tarefa continuava desconhecida para o povo de Halis. Embora muitos empregados no palácio tivessem achado estranha a viagem deles a Salis, suas reuniões secretas e todo esse treino rigoroso, não desconfiaram nem um pouco do que estava por acontecer.
Alister, Hiratamino, Haigar e Ikzar se dirigiram a uma sala secreta no palácio, localizada abaixo do trono da sala de reuniões extraoficiais. Lá, colocaram suas capas sobre um banco largo feito de tábuas de carvalho ancestral e iniciaram seu plano.
Alister começou a magia, concentrando todo seu esforço para a invocação de um portal por onde Hiratamino passaria. Logo, seu olhar baixou, cansado, pois a magia lhe exigia muito. Hiratamino teve que ajudar, pois Alister não conseguiria abrir o portal sozinho. Sincronizaram suas energias até que uma luz policromada apareceu diante deles, para onde Hiratamino prontamente se dirigiu, segurando a dióxy localizadora. Essa dióxy o guiaria exatamente para onde a energia de Lenissya estava.
Logo, o velho desapareceu do nosso mundo para o desconhecido. Se tudo corresse conforme o planejado, ele pegaria a princesa, invocaria um novo portal utilizando o restante de sua energia e voltaria de imediato. Aquele mundo poderia ter muitos perigos, e talvez ele sequer conseguisse chegar lá. Aguardamos.
Passados sete minutos de intensa ansiedade, uma nova luz surgiu naquele cômodo, semelhante à do portal que Alister abrira, só que desta vez vinha do exterior. Sim, eles estavam voltando!