O dia termina e eu continuo remoendo a conversa com Amber.
É difícil admitir, mas ela tem razão.
Quando você luta tanto por algo - quando investe tempo, esforço e esperança em um objetivo - abrir mão parece o mesmo que aceitar o fracasso.
Eu não desprezo cargos menores. Não menosprezo quem não teve oportunidade de estudar e se formar.
Não... não é isso.
Para mim, é mais complexo.
A necessidade de provar que sou capaz, que consigo ser alguém... essa urgência lateja dentro de mim há anos, consumindo cada pensamento.
É como se cada recuo fosse uma derrota pessoal. Essa teimosia, essa vontade incessante de mostrar que posso ir mais longe... às vezes me cega.
Mas, como Amber disse: preciso recomeçar.
Vou dormir tarde da noite. Viro de um lado para o outro até, finalmente, pegar no sono.
Às sete da manhã, o despertador toca.
Estico o braço, tateando a mesinha ao lado da cama em busca do aparelho que insiste em me arrancar do sono.
Quando finalmente o encontro, ainda com metade do rosto enterrado no travesseiro, abro um olho com dificuldade e, com satisfação, pressiono o botão vermelho que encerra aquele som irritante.
Enfim... silêncio.
Levanto-me com relutância. Meus olhos estão pesados, e uma leve dor de cabeça ameaça estragar o dia. Pelo menos o estômago parece em paz.
Caminho até o banheiro, já me livrando da roupa pelo caminho.
Entro no box e ligo o chuveiro.
A água fria despenca sobre minha cabeça, arrancando um suspiro trêmulo. Cada gota desperta um pedaço adormecido do meu corpo. O arrepio percorre minha pele e, por um instante, sinto como se estivesse voltando à vida.
Fico ali mais do que o necessário, deixando a água levar minhas lembranças desconfortáveis - entrevistas frustradas, meses de estresse, a incerteza do que vem pela frente.
Por fim, ajusto o registro para morno e termino o banho.
Vinte minutos depois, estou diante do espelho, cabelo enrolado na toalha, escovando os dentes e massageando o rosto com a skincare.
Cada passo da rotina é uma tentativa de impor ordem ao caos da minha mente.
Sigo para a cozinha e preparo o café.
Não vivo sem café.
Café é vida.
Mesmo com a gastrite, essa é uma tradição que me recuso a abandonar.
Faço torradas e ovos mexidos. Arrumo a mesa - só para mim - e tomo o café na companhia do silêncio.
Depois da nossa conversa de ontem, Amber foi para a casa do "investimento" dela. Hoje é domingo. Provavelmente só volta à noite... ou talvez nem volte.
Esse "investimento" está durando mais do que os outros. Mas, se tratando de Amber White, tudo pode mudar em questão de minutos.
A melodia de Per Amore, de Andrea Bocelli, ecoa pelo apartamento vazio.
- Quem é que liga às oito e trinta e cinco da manhã de um domingo? - resmungo, irritada.
- Alô? - atendo com a voz arrastada.
- Alô, Claire? - uma voz masculina soa do outro lado.
- E quem mais seria? - respondo sem disfarçar o mau humor.
- Nossa! Que meiga você está hoje,
Clarissa. - Ele ri. - Está naqueles dias?
Reviro os olhos, mas sorrio de leve. Ele sempre dizia isso quando eu estava mal-humorada.
Como se tivesse levado um choque, encaro o calendário na parede.
É... realmente está perto.
- Não, não estou. - Tento suavizar o tom. - Só não tive uma boa semana.
- Ainda não conseguiu emprego?
Suspiro.
- Escuta, Claire, não quero me intrometer, mas talvez você devesse considerar cargos menores... ou até outras áreas. Administração é uma área ampla, cheia de possibilidades. Você só precisa se permitir explorar.
Reviro os olhos. Aquilo de novo... em menos de vinte e quatro horas.
- É, eu sei. - Minha voz sai seca. - Vou enviar currículo para cargos menores.
Um nó aperta minha garganta. As palavras "cargos menores" soam como cacos de vidro na boca. Admitir isso é mais doloroso do que eu gostaria.
- Mas qual é o motivo da ligação? - tento mudar de assunto.
- Os esboços que te mandei. O que achou?
Ah, os esboços.
Sou leitora beta: leio textos antes de publicados, faço críticas e sugestões. Ele é escritor, mas usa um pseudônimo feminino ridículo. Para minha surpresa, vende bem os livros digitais.
- Bem... você tá começando na fantasia, mas não precisa exagerar tanto nos devaneios. - Seguro uma risada. - Ainda estou tentando imaginar um leão com barbatanas, quatro chifres e olhos de... abelha.
- Eu estava inspirado - ele se defende.
- Inspirado ou febril? - provoco, rindo.
- Vai se ferrar... - diz, mas posso sentir que está sorrindo.
- Escuta, a ideia é boa, mas precisa rever as criaturas místicas. Tem que ter equilíbrio. Eu imprimi os capítulos, fiz anotações e vou digitalizar para te mandar.
- Perfeito. - Ele suspira, rendido. - Ah, Claire...
- O quê?
- Você vai conseguir!
A frase me pega de surpresa. Simples, mas dita com tanta convicção que quase me faz acreditar também.
- Um beijo de esquimó - completa ele, rindo.
Fecho os olhos e sorrio, mesmo sabendo que ele não pode ver.
- Um beijo de esquimó - repito.
- Tchau, Clarissa.
- Tchau.
Desligo e fico olhando para a tela apagada do celular. Só ele consegue me arrancar um sorriso mesmo nos dias ruins.
🌹
O restante da manhã passa comigo no sofá, vasculhando sites de vagas e enviando currículos. Só percebo o tempo quando meu estômago se revira.
- Meu Deus! Já é meio-dia!
Esfrego o rosto, tentando afastar o cansaço.
Vou até a cozinha e abro a geladeira retrô vermelha. Lá está a travessa com o resto da lasanha de ontem.
- Bem... vai ser isso mesmo.
Coloco no micro-ondas e arrumo a mesa com cuidado, mesmo sendo só para mim. Coloco o prato no centro, dobro o guardanapo ao lado... e suspiro.
Encosto na cadeira e encaro a comida diante de mim.
O cheiro da lasanha toma o ar, mas não me desperta fome.
Passo o garfo distraidamente pela borda do prato, mexendo no molho endurecido.
- Mesa para um, por favor - murmuro, sentindo o peso da frase se espalhar pelo apartamento vazio.
Silêncio.
E ele parece mais pesado do que nunca.
O som de uma canção parece distante. Não consigo identificar o que é. A melodia me soa familiar, mas está embaçada, confusa.
Ela continua, insistente. Cresce de volume. Vibra?
Arregalo os olhos, assustada.
Estou esparramada no sofá, a TV ainda ligada na série turca que venho acompanhando. Quantos episódios eu perdi?
O celular volta a tocar Bocelli.
Dessa vez, localizo o som abafado e enfio a mão por baixo das almofadas até encontrar o aparelho.
Na tela, o nome de Amber White pisca.
Atendo.
- Oi, Amber - digo, ainda bocejando.
- Você estava dormindo? - pergunta.
- Cochilei no sofá.
Ela silencia por um segundo. Ao fundo, escuto uma voz masculina e risinhos abafados.
"Para... não... devolve meu sutiã!" - ouço, revirando os olhos diante da cena que consigo imaginar.
- Claire? Ainda tá aí? - pergunta, ofegante.
- Não saí da linha nem por um segundo - respondo, brincando. - Estava me divertindo.
Ela ri, sem vergonha alguma.
- Então... Will me falou que a prima dele trabalha numa empresa no Centro. É grande, bem conceituada. Estão contratando para vários setores. Tem uma vaga urgente. Acho que seria uma boa você tentar.
O silêncio domina a linha por alguns segundos.
- Claire?
- Quem é Will? - pergunto, arqueando a sobrancelha mesmo sem ninguém para ver.
Ela solta uma risada.
- Will é o meu inv... é... o cara com quem estou saindo. Eu acho.
- Ele não sabe que é um investimento? - digo, com ironia na voz.
- Cala a boca! - rebate, rindo.
Consigo imaginar o rosto dela ficando vermelho e acabo rindo junto.
- Como eu dizia... acho que vale a pena tentar. Mas o currículo precisa ser entregue pessoalmente no RH, até às onze da manhã de amanhã.
- Amanhã? E... por que pessoalmente? - pergunto.
- Não sei. Cada empresa tem suas burocracias.
- Então vou te mandar o endereço. Acorda cedo, coloca uma roupa nem muito social, nem muito casual. Uma maquiagem leve. É só entregar o currículo, não é entrevista formal. - Ela fala como se fosse minha consultora de imagem.
- Tudo bem - respondo, sem muita convicção. - Estarei lá.
- Ótimo! E eu não volto pra casa hoje.
- Quer que eu envie seus pertences? - pergunto num tom fingidamente sério.
- Não seja ridícula! Agora, se me der licença, vou voltar aos meus negócios - diz, rindo maliciosamente.
Alguns segundos de silêncio.
- Sério, Claire... essa pode ser uma boa chance pra você.
O tom brincalhão dela some por um instante, e percebo: ela está realmente torcendo por mim.
- Tudo bem. Boa noite, Amber.
- Boa noite, Claire.
Desligo o telefone. Me espreguiço no sofá, alongando o pescoço tenso. Caminho pelo corredor estreito até o quarto.
Olho a tela do celular: vinte e duas horas.
- Como o tempo passou rápido... - murmuro, sentindo um aperto no peito.
O tempo sempre corre mais depressa quando o amanhã carrega alguma expectativa.
Abro o guarda-roupa e passo os olhos pelas opções.
Pego uma blusa social preta de botões, mangas três quartos. Uma calça jeans de lavagem escura. Cinto de couro preto. Preciso de um casaco - o clima está esfriando. Os sapatos? Decido amanhã.
Sigo até a escrivaninha, abro a gaveta e tiro a pasta com meus documentos e currículos impressos. Deixo tudo separado sobre a mesa.
Um sentimento conhecido começa a crescer no estômago.
Ansiedade.
Meu coração acelera. As mãos suam.
Respira, Claire.
Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Só respira.
Luto contra os pensamentos que tentam me dominar: a preocupação antecipada, o medo de falhar, a sensação de não ser boa o suficiente.
- Você só vai entregar um currículo, Claire. Não há o que temer. Se não conseguir esse emprego, virá outro melhor. - sussurro para mim mesma.
Só respira, Clarissa. Vai dar tudo certo.
Depois de lutar por longos minutos para vencer a batalha silenciosa, começo a me preparar para dormir. Já passa das onze.
Coloco o despertador para 7h30. Me arrasto até a cama, me enrolo no cobertor e me aconchego no travesseiro.
Fico encarando o teto.
Mesmo depois do esforço para me acalmar, ainda há um peso no peito. Uma inquietação. Um medo... Como se essa fosse minha última chance. Como se, se eu falhar agora, nada mais vá dar certo.
Eu sei que sou jovem. Mas, às vezes... me comparo.
Com outras pessoas.
Com gente da minha idade.
Com quem estudou comigo.
Com a Amber.
Não, eu não tenho inveja dela.
Sou grata por tê-la na minha vida.
Mas, às vezes, olho pra ela e desejo ter um pouco da facilidade que ela tem.
De conseguir o que quer.
De se prender. De se desprender.
Ela saiu da faculdade direto para um emprego. Tudo meio que... se encaixou.
Não que ela não tenha lutado. Lógico que sim. Ralamos muito durante o curso.
Mas depois... os caminhos se dividiram.
E a estrada dela parecia pavimentada, enquanto a minha ainda era de terra batida.
E ela nunca está sozinha.
Somos diferentes.
Ela se apaixona e desapaixona na mesma velocidade.
Beija quem quer. Vive intensamente.
Eu?
Sou mais contida. Preciso de sentimento.
Não deixo qualquer um se aproximar. Não consigo.
Eu sei que me cobrar assim é injusto.
Mas é difícil evitar esses pensamentos quando cada tentativa parece mais um fracasso.
Balanço a cabeça, tentando expulsar a negatividade.
Não é hora pra isso.
Volto a encarar o teto.
Inicio meus exercícios de respiração.
Depois de alguns minutos...
- Vai dar tudo certo... - repito em voz baixa, como se essas palavras pudessem me abraçar.
E então, adormeço.