Capítulo 2

Capítulo 3

Cruelford

Acabei indo de ônibus. Era "tarde" demais e peguei um trânsito

enorme no caminho, mas essa era a melhor alternativa. O metrô é

vazio e bem mais limpo, mas demorava demais e fica a uns quatro

quarteirões de distância do meu trabalho.

Para melhorar furei minha meia calça quando entrei correndo no

edifício Crawford. Ele é um dos maiores e mais altos da rua, todo

espelhado, com um quê de superioridade comparado aos outros ao

seu redor. No primeiro andar está a sua recepção toda em mármore

claro, uma cor próxima ao bege, e com muito vidro. Para entrar você

deve ter uma carteira de identificação com nome e cargo, mas só os

funcionários da plebe, eu como exemplo, precisam disso. Para os

chefes e empresários isso nem é necessário, só é preciso olhar para

o grande Rolex em seu pulso ou seu terninho impecável de marca.

Não sei nenhuma marca de terno cara, mas nem preciso, o que sei

é que qualquer que seja sua marca, só a gravata deve valer a minha

vida e mais um pouco, ainda ficaria devendo.

Entrei na recepção e passei correndo por Gabe, o recepcionista,

para conseguir pegar o elevador. Trabalho no 9º andar, o que é bom

porque a cozinha fica no 7º, e a maravilhosa e melhor máquina de

café do mundo fica no 12º, então nem preciso de elevador. Quando

cheguei ao meu andar já sabia que o senhor Maxon estava me

esperando, como sempre.

- Minha sala, agora! – Ele ama gritar comigo. Deve ter uns 45 anos,

loiro alto, sempre está de terno tons de cinza e até que dava um

caldo. Mas ele é tão irritante que consegue ficar feio.

Fui correndo para sua sala, no fim do corredor do departamento.

Quando entrei ele logo fechou a porta com tudo atrás de mim, dessa

vez eu até que senti um pouquinho de medo. Só um pouquinho.

- Senhorita Smith, estou cansado de tanto chamar sua atenção por

conta dos seus atrasos. A Senhorita trabalha para mim há um ano e

nesse tempo todo acho que nunca a vi chegar na hora, você sabe

qual é o horário que deve estar aqui na empresa? Às vezes penso

que não!

- Desculpa senhor Maxon, é que eu acabei me atrasando – ele era

tão irritante, não acredito que já o aguento há um ano.

– Isso eu já percebi senhorita! – disse ele, gritando. Não te disse,

ele ama gritar comigo.

- Sim, mas ontem fiquei até as 22h00 aqui na empresa, repassei

todos os relatórios da semana inteira. Fiz também suas planilhas de

custos e investimentos, está tudo com o departamento de

atendimento e pronto para entregar ao cliente. Sei que não justifica

o meu atraso senhor, mas não estou prejudicando o meu trabalho

aqui na empresa por chegar atrasada, eu sempre compenso em

horas extras. – Isso sem nenhuma bonificação, é claro.

- Disso eu estou ciente, sei muito bem o que cada funcionário em

meu departamento faz – não parece – Porém, como a senhorita

mesmo disse, isso não justifica os seus atrasos. Estou sempre

tentando te ajudar, sei que o seu passado não foi fácil, estou a par

dos problemas e dificuldades... – Blá, blá, blá como você é sofrida e

sua vida é uma droga, era só o que eu escutava. Sabia que como

sempre ele iria entrar com esse discurso da garota esperança,

estava até demorando – Enfim, vou te dar mais uma chance como

sempre, mas desta vez não desperdice! Vou ficar de olho em seu

serviço, qualquer deslize seu já sabe, RUA! – gritou ele, mas uma

vez.

- Sim senhor, pode deixar comigo e me desculpe novamente pelo

atraso, não vai mais acontecer. – Eu espero.

- Acho ótimo. Agora pode ir para a sua mesa, temos muito trabalho

a fazer.

Sai da sala do senhor Maxon com um sorriso bem falso no rosto. No

fundo ele está certo, tenho que parar de chegar atrasada, mesmo

fazendo todo o meu trabalho sem erros e até mesmo

antecipadamente, eu precisava deste emprego. Precisava demais.

Tinha que sair do lar o mais breve possível, logo iria completar 21

anos e devo ter meu próprio cantinho. Mais alguns meses

poderíamos, eu e Jason, estava economizando a mais de um ano

para que isso fosse possível.

Assim que cheguei a minha mesa comecei a adiantar o meu

trabalho, hoje não poderia ficar trabalhando até mais tarde como

sempre, porque ia sair com o cara mais gato do meu bairro, Joe

Davys. Quando estava quase encerrando o meu expediente o

senhor Maxon jogou uma pilha de pastas em minha mesa, fazendo

com que eu desse um pulo de susto.

- Bom, senhorita Smith, percebi que gosta de ficar após seu horário

então não terá problemas em recolher dados sobre novos

investidores e criar estratégias de como podemos conseguir mais

contas, não é mesmo? Preciso delas para amanhã às 07h00 na

minha mesa juntamente com uma apresentação, faça um trabalho

completo pesquisando sobre os nossos maiores concorrentes e

também mande uma cópia para o Senhor Dickens, em meu nome.

Quando você acha que não pode odiar ainda mais uma pessoa,

aparece o senhor Maxon mostrando que isso é extremamente

possível. Era realmente uma pena eu já ter idade para ser presa por

assassinato.

- Mas Senhor eu... – não consegui nem argumentar porque ele já

estava a caminho do elevador.

O ódio e raiva me fizeram terminar o trabalho em menos de duas

horas. Cataloguei todos os novos clientes, focando no motivo da sua

escolha por nosso sistema e quais benefícios se encaixam melhor a

cada um, montei sua apresentação, transformei em dashboards e

fiquei com uma cópia de tudo só por precaução.

O ponteiro do relógio que ficava em cima da minha mesa tocou,

marcando 19h00. Comecei a me apressar. Marquei com Joe às

20h00 lá no lar, eu precisava chegar cedo e ainda me arrumar, ou

tentar ficar apresentável pelo menos. Até que meu celular tocou

mostrando que eu tinha uma nova mensagem. Número

desconhecido avisava o visor. Mas eu já sabia a quem aquele

número pertencia.

Capítulo 4

Emma Smith versus A melhor cafeteira do mundo

Eram duas mensagens de texto de um número desconhecido.

Comecei a ler a primeira e com isso me sentei de novo em minha

cadeira. Estava pronta para ir embora, era quase a hora do meu

encontro. Já tinha arrumado todos os documentos, colocado na

mesa do senhor Maxon e do senhor Dickens e consegui tempo de

até adiantar o trabalho do dia seguinte. Mas o que estava escrito

nas mensagens fez com que minha pressa fosse embora.

Desconhecido: Esqueça nossos planos pra hoje à noite, isso foi um

erro.

Desconhecido: Vou sair com a Kate.

Fui do céu ao inferno em cinco segundos. Maldito Joe Davys.

Sabia que era ele, passamos a tarde toda trocando algumas

mensagens bobas que me esqueci de adicionar seu número na

agenda do celular. Sua primeira mensagem chegou às 16h00.

Desconhecido: Ansiosa para hoje à noite?

Nem precisei pensar para respondê-lo.

Emma Smith: Claro que estou, nunca fui em uma festa no Granni's.

Óbvio que isso não era verdade, o que mais me deixava excitada

ansiosa era sair com Joe. Ficaria feliz até se ele me convidasse

para ir ao lixão, mas não ia deixar isso na cara. Depois de alguns

minutos ele responde.

Desconhecido: Aí, essa doeu. Então você só está me usando,

senhorita Smith?

Ri discretamente de sua resposta, olhei para os lados para ter

certeza de que meu chefe não estava por perto e o respondi.

Emma Smith: Bem, se isso significar café e muffins de graça por

toda vida acho que estou sim, senhor Davys.

Imediatamente ele me respondeu.

Desconhecido: hmm... mas você só quer isso de mim, muffins e

cafés ilimitados?

Claro que não, estava querendo outras coisas meio indevidas para

se escrever por mensagem de texto. Então me fiz de inocente e

respondi.

Emma Smith: Não tenho culpa se o seu café e seus bolinhos são os

melhores da região! Tenho que me aproveitar disso.

Desconhecido: Sim, mas eu possuo outras coisas que são as

melhores da região. Você pode se aproveitar delas também se

quiser...

Ai ai, Joe, Joe.

Pode ter certeza de que eu sei. Ele era bem simpático e discreto,

mas já "corriam" boatos pelo bairro sobre seus relacionamentos e

paqueras. Diziam que na adolescência era mais agitado, mas que

Joe nunca foi um canalha com suas parceiras, sempre era muito

carinhoso e cavalheiro. Também tinham outros boatos por aí que

falavam de sua GRANDE pessoa, se é que você me entende.

Emma Smith: está tentando me seduzir, Davys?

Desconhecido: com certeza! então me diz, está funcionando?

Essa tinha sido sua última mensagem, antes é claro de eu receber

esta agora. Ele não só me deu um bolo como me trocou pela Kate?!

QUAL É O PROBLEMA DOS HOMENS?

O que mais me irrita não é nem não poder sair com Joe, ter a

chance de usar pela primeira vez minha perseguida (que até então

nunca foi devidamente "perseguida"), ser abraçada por aqueles

braços fortes, arranhar aquelas costas firmes e largas, aí e aquele

cabelo.

TUDO BEM, ESSA PARTE ME DEIXA MUITO, MUITO PUTA! Mas

Kate? Sério?! Esperava mais de você Joe Davys.

Depois disso acho que vou ficar mais um tempo aqui na empresa.

Ainda não quero voltar para o lar e José, o porteiro, sempre me

avisa quando vai fechar tudo. Algumas vezes ele até me

acompanha até o ponto, diz que é perigoso uma moça como eu

andar por aí a noite.

Já que não iria sair com Joe e estava cedo para ir embora decidir ir

ao 12º andar, onde fica a melhor máquina de café do mundo que

falei. Deixei minhas coisas em minha mesa e subi. Quando o

elevador abriu me surpreendi com o que vi. O andar inteiro estava

aceso como se todos os funcionários estivessem trabalhando ainda.

Fui direto na cozinha, peguei um copo e apertei o botão cappuccino.

Sem sucesso.

A máquina parecia estática, não mexia e nem fazia nenhum

qualquer barulho. Nada.

Juntei toda a minha raiva acumulada do dia como ter me atrasado

(de novo) para o trabalho, ter rasgado minha meia preferida no

caminho, receber o esporro do Senhor Maxon, o toco que recebi do

Joe sendo trocada por Kate, tudo isso e comecei a dar tapas na

máquina.

Dar tapas é eufemismo comparado ao que eu estava fazendo,

depois de uns segundos comecei a espancá-la mesmo. Estava

dando uma boa lição naquela maldita, escrota e estupida máquina

de café quando ouvi alguém parar atrás de mim.

- O que ela lhe fez para tratá-la tão mal assim? - Disse um homem

com voz grave atrás de mim.

E como se estivesse sido pega em flagrante fazendo algo estúpido,

o que eu estava fazendo mesmo, gelei.

Capítulo 5

O estranho do 12º andar

Fiquei parada, imóvel por um instante, com as mãos apertando a

parte de cima da máquina. Passei por um misto de sensações.

Primeiro foi o medo. Quem estaria a essa hora ainda aqui na

empresa e por quê? Ninguém nunca ficava até esse horário, pelo

menos até agora. Segundo foi a curiosidade. A voz era de homem

com certeza. Era uma mistura de firmeza, repreensão, mas também

comicidade. Ele deveria estar rindo ou achando engraçada a minha

discussão com a máquina de café.

Ou achar que sou uma louca mesmo.

- Acho melhor você dar um tempo a ela antes do 2º round, linda. -

disse o estranho.

Tomei coragem e me virei para olhá-lo. Acho que até senti uma

glória divina na minha cara, sem exageros. Se Deus mandasse

alguém para representar o sexo na terra era esse homem. Devia ter

uns 30 anos, não sei bem. Pele um pouco bronzeada, cabelos

negros ondulados estavam bagunçados e emolduravam seu rosto.

De início seu corpo foi o que chamou a minha atenção, todo grande

e forte, emanava certa segurança, conforto. Seu sorriso era de um

perfeito conquistador que faziam companhia a sua postura. Estava

debruçado no vão da porta, com as mãos apoiadas no batente, seu

corpo ocupava todo o vão.

Porém o que me enfeitiçou foram seus olhos.

Foi muito estranho. Sabia que nunca havia visto aquele homem em

minha vida, mas algo em seus olhos teimava me dizer o contrário.

Enquanto isso, minha mente e meu coração travavam sua própria

batalha. Não conseguia parar de olhá-los, eram como faróis me

chamando, cada vez mais. Tinham uma cor escura, tal qual carvão,

onde quase não se distinguia de sua pupila. Cílios e sobrancelhas

negras e grossas contornavam e aperfeiçoavam seu olhar, os

tornando cada vez mais enigmáticos.

Para muitos, até mesmo para mim, a beleza dos olhos estava em

sua cor como azul, verde ou amendoada, mas pela primeira vez

percebi o quão errado era esse pensamento. No momento não

conseguia pensar em um par de olhos azuis ou verdes mais bonitos

que os negros do estranho em minha frente.

Não reparei que minhas mãos estavam suadas até que as esfreguei

em minha saia plissada, fingindo tirar dobras que não existiam. Ele

também me encarava. Seu sorriso logo se desmanchou e agora

estava sério. Seus olhos estavam fixos nos meus e seu olhar era

incrédulo, como se estivesse com dúvida ou preocupado com

alguma coisa.

- O-o que – eu disse tentando voltar à realidade – O que você

disse?

- Oh, eu...– parecia que também estava perdido em seus

pensamentos. Limpou a garganta e continuou –...Perguntei o que a

máquina lhe fez, linda.

Sai do meu momento de êxtase e comecei a ficar irritada de novo.

Quem esse cara pensa que é? Odeio quando homens colocam

apelidos em mim sem motivo ou se quer me conhecer. Por que fica

me chamando de linda? Até aqui na empresa não fico em paz.

- Não te interessa! - respondi irritada - Quem é você?

- Calma, minha linda. Trabalho aqui como a senhorita, suponho.

Estava trabalhando até mais tarde em um novo projeto, sou... – sua

voz mansa e extremamente sedutora estava me tirando do sério.

- Não sou sua linda! Na verdade, não sou nada sua nem te

conhecer eu conheço! Se você me chamar de linda mais uma vez

juro que te dou um soco na cara!

Ele continuava a me olhar daquele jeito intenso, deixando-me cada

vez mais sem fôlego. Soltou o batente e começou a andar em minha

direção. Lentamente. Não conseguia pensar, falar, nem mesmo me

mover. Não sei por que estava tão irritada com aquele estranho,

mas ao mesmo tempo queria sentir suas mãos grandes e fortes em

mim, explorando meu corpo todo, saciando o meu desejo me

apertando contra o balcão. Não, não. O que está acontecendo

comigo? Preciso pegar alguém, a abstinência está me fazendo mal.

Ele continuou vindo devagar em minha direção até que começou a

abrir seu paletó. Depois foi a vez de gravata. Tudo isso sem nenhum

momento tirar os olhos de mim. Meu coração começou a disparar, a

respiração aumentou tanto que parecia que faltava ar no ambiente,

não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. O

desejo estava tomando conta e aqueles olhos quase negros

estavam me levando à loucura. Ele parou a uns 30 centímetros de

distância. Ainda me encarando passou a mão por de trás de minha

cintura e...

Tec!

- Você tem que apertar mais forte. – Seu sorriso malicioso estava de

volta. Comecei a encarar seus lábios e sua barba por fazer. Pensei

como deve ser senti-la no rosto, esfregando em meu pescoço, qual

seria a sensação dele me apertando seus lábios contra os meus...

Oh céus, eu me transformei em uma tarada!

- O... O-oque? – minha voz saiu fraca, quase inaudível. A gagueira

estava me dominado hoje.

- Eu disse que você precisa apertar mais forte. – seu tom de voz era

grosso e profundo. Ai meu Deus, apertar o que mais forte? Como

assim? Será que ele estava pensando o mesmo que eu?

- Apertar o-o que mais forte?! – Fiquei um pouco com medo de

perguntar. Tudo o que passava na minha cabeça não era nada

inocente, queria apertar muitas coisas daquele homem ou que ele

apertasse muitas coisas minhas, aí não sei!

Foco, Emma, foco!

Então ele passou a mão pelas minhas costas de cima a baixo e

parou perto do topo da minha bunda. Comecei a ofegar. Respirar

estava se tornando uma tarefa cada vez mais difícil perto dele. Até

que me puxou para o lado devagar e foi se aproximando cada vez

mais. Ele me apertou ainda mais, puder sentir seu corpo prensando

o meu cada vez mais. Em um momento fechei os olhos, me

concentrando apenas em suas mãos e o caminho que as

percorriam.

- Apertar a alavanca da máquina mais forte, ela costuma travar às

vezes. Se a senhorita preferir... – sussurrou baixinho em meu

ouvido, com uma voz rouca muito – ...posso ajudá-la com isso.

Nesse momento soltei um grunhido vergonhoso, que me fez

despertar e ser jogada de volta a realidade. Encarei seus olhos mais

não por muito tempo, estava confusa demais e aí então desviei o

olhar e vislumbrei a máquina ligada. Estava tão enfeitiçada que não

reparei que ele abriu o compartimento de cápsulas para ligar o

equipamento. Que vergonha!

Precisava sair dali imediatamente. O estranho irresistível estava me

olhando profundamente com um sorriso tentador. Libertei-me de

seus braços e comecei a andar rapidamente em direção ao elevador

até que ele me puxou pelo braço.

- Espere! Qual é o seu nome? – questiona.

Puxei meu braço um pouco forte demais e continuei andando mais

rápido agora de encontro ao elevador olhando para o chão. As

escadas não eram uma boa opção nesse momento, ficar em um

lugar escuro com esse homem não ia ajudar.

Então ele disse com uma voz firme e séria quase gritando:

- Eu perguntei qual é o seu nome, senhorita. Responda. – Comanda

petulante.

Apertei o botão do elevador e só aí olhei para trás. Ele estava

parado no mesmo lugar onde tinha me puxado quando pediu para

que eu esperasse. O elevador chegou. Não consegui tirar os olhos

daquele estranho executivo que me encarava.

Seu rosto estava sério e impassível, pude ver que me olhava em

dúvida. Ainda olhando para ele comecei a entrar lentamente no

elevador de costas. Agora ele estava se aproximando rapidamente

com uma expressão de raiva em seu rosto. Não sei bem se era isso

direito. Ele escondia muito bem suas emoções, ao contrário de mim

é claro.

- Eu? – falo baixo, desviando o olhar – Não sou ninguém, senhor.

Boa noite.

E as portas do elevador se fecharam.

Capítulo 3

Capítulo 9

O idiota do meu chefe

- Não vai me falar mais sobre você? Estou esperando. – Pergunta.

- Falar o que de mim Sean? Acredite, não tenho nada de importante

a dizer.

- Eu Duvido.

- Tudo bem, por onde eu começo a falar sobre a minha

"extraordinária" vida. – Debocho sorrindo. Não queria falar sobre o

orfanato para ele, mas então sobre o que falaria? Realmente não

tinha tanta coisa assim para dizer...

- Você pode começar a me dizer no que você trabalha lá na

empresa. Sei que é no 9º andar, mas o que a senhora faz?

- Ah, sou secretária no setor comercial de novos clientes. Trabalho

para o Senhor Maxon, na realidade eu posso até dizer que trabalho

por ele na maior parte do tempo. – Dei uma risadinha porque isso

realmente era engraçado, eu trabalhava por ele quase todos os

dias, na realidade até hoje o que eu mais fiz foi trabalhar no lugar

daquele cara. Ele mais dorme do que trabalha.

- Como assim? – Sean parecia mesmo interessado no que eu

estava dizendo e pode até parecer loucura, mas olhando em seus

olhos pude sentir que podia confiar nele.

- Bom, - suspiro - que fique aqui entre nós, mas, por exemplo, você

sabe daquela conta milionária que pegamos com a Goldman

Sachs?

- Sim, eu ouvi falar – pude sentir que ficou um pouco nervoso,

agitado no momento. Não entendi sua reação - o que tem ela?

- Pois então, quem fechou e assinou todos os papeis foi o Senhor

Maxon, mas eu que fiz todo o planejamento. Vi que os clientes que

compravam seus empreendimentos eram de alto escalão e que

precisavam de uma empresa como a nossa para cuidar tanto das

transações quanto trabalhar na melhoria da divulgação, e ver os

reais lucros que esse investimento pode ter. Fiquei cuidando desse

contrato durante meses, mas no final quem assinava o trabalho todo

era ele.

Sean ficou sério e em silêncio por alguns minutos pensando no que

eu havia dito. Fiquei tentando analisá-lo para tentar saber no que

estava pensando, mas não conseguia ver nada. Quando queria

Sean conseguia se tornar indecifrável, seu rosto era impassível.

Estávamos quase chegando então paramos mais uma vez em um

farol.

- Emma, isso é muito grave. Você deveria conversar com ele sobre

isso ou delatar esse caso. O que ele está fazendo com você é

extremamente errado, está te usando para obter lucros para si.

- E você acha que eu não sei? Mas ele é desse jeito mesmo, um

tremendo idiota, tem vezes que eu vou na sala dele e ele está

dormindo. Mas a coisa é mais complicada do que isso...

- Emma, responda-me sinceramente. O que você estava fazendo

até essa hora na empresa? Porque já está bem tarde e essa hora

ninguém mais deveria estar lá. – Sean agora me olhava sério e pelo

tom de sua voz pude sentir que ele não me pedia uma resposta.

Estava mandando mas de forma gentil, parecia realmente

preocupado ou somente curioso. Hesitei de início, mas acabei

cedendo,

- Eu estava fazendo uma pesquisa e criando a apresentação final de

lucros e estratégias para prospectar novos clientes, para a reunião

que Senhor Maxon fará amanhã.

- Emma, você ficou a noite toda fazendo a apresentação que ele

fará amanhã. Você não percebe o quão absurdo é isso? - ele

pergunta indignado.

- Se você acha isso absurdo espera eu te contar que ele nem me

paga por isso – comecei a rir, mas parei quando Sean parou o carro.

Havíamos chegado e eu nem percebi. Quando ele parou o carro

virou totalmente na minha direção exatamente igual como havia feito

quando começamos a nos beijar. No entanto, agora me olhava com

raiva, estava sério e parecia um pouco irritado.

- O que foi? - perguntei sem entender.

- Como assim? – disse cada palavra pausadamente.

Sua voz era tão séria e firme que nem consegui responder de

imediato. Ele não estava brincando. Seus olhos pareciam mais

escuros e frios, sua mão que estava no volante o segurava tão

firmemente que os gomos de seus dedos estavam esbranquiçados.

A outra estava novamente em minha coxa. Tive que me segurar

para não me derreter naquele instante, meu corpo todo se aqueceu

tão rapidamente que respirar normalmente, estava de novo, se

tornando meu maior desafio.

- Emma, responda-me. Agora.

- Você é bem mandão. - Tentei brincar para diminuir sua irritação,

todavia Sean estava impassível. Seu olhar ficou mais sério ainda e

suas sobrancelhas se união formando um "v" em sua testa.

- De qualquer forma você não entenderia, me desculpe, é mais

complicado do que você pensa.

- Experimente. - Sean disse me desafiando.

Respirei fundo. Mais uma vez. De novo só para garantir.

- O senhor Maxon não poderia me contratar, eu não sou apta ao

meu cargo – dei uma risada sarcástica – ou a qualquer cargo

daquela empresa, talvez para faxineira.

- Não acredito nisso.

O interrompi e continuei.

Se eu não falasse de uma vez talvez depois não fosse ter coragem

de fazê-lo.

- Eu não consegui terminar a faculdade. - Faço um movimento com

os ombros – Tranquei faltando alguns meses para me formar. Além

disso só fiz alguns cursos de secretariado e administração, nada

que me faça ser apta a trabalhar na Crawford. Ele já me conhecia

por uma amiga em comum, ficou sabendo que eu precisava de um

trabalho então confiou em mim. Por isso que faço tudo o que ele

pede, e fico feliz por fazê-lo, porque isso prova que mesmo sem

diploma eu consigo fazer um trabalho excelente como o que te falei,

que foi aceito pela presidência da empresa. - E estava dizendo a

verdade, me orgulhava muito disso.

Sean continuou em silêncio. Agora não olhava mais para mim e sim

para frente. Tirou a mão de minha coxa e voltou a sua posição de

motorista. Sofri em silêncio por isso e como ele não disse nada

continuei.

- Ele não paga minhas horas extras porque sabe que não vou

denunciá-lo ou algo assim. Preciso mesmo desse trabalho, não

posso perdê-lo Sean. Sei que se eu for ao RH a primeira coisa que

vão fazer é me demitir, além de que não posso provar minhas horas

extras, pois todo trabalho que faço é no computador pessoal dele, e

todas as planilhas, pesquisas e reuniões estão em seu nome, como

vou provar que fui eu que fiz tudo? Sou uma simples secretária

quem nem faculdade tem.

- Emma isso... isso é tão errado de tantas maneiras. Você não

pode...

- Sean o que eu não posso é perder o meu emprego - disse sendo

firme - Mas sabe de uma coisa? Eu até gosto de ficar na empresa

até tarde, faço isso desde sempre. Sério está tudo bem, só te disse

por que confio em você, não preciso que você faça nada e

principalmente não conte a ninguém! Preciso muito desse emprego.

Sean olhou para mim ainda com raiva e certa relutância em seus

olhos. Sei que não era direcionada a mim, mas a situação. Parecia

revoltado e derrotado ao mesmo tempo.

- Você promete? Promete não contar a ninguém? - perguntei.

Olhei diretamente em seus olhos, sei que era algo extremamente

difícil, porém era o que precisava fazer. Sean tinha que prometer

não dizer nem fazer nada, preciso demais daquele emprego. Mais

alguns meses e eu já posso me mudar do lar, ter meu próprio

cantinho. E para que isso seja possível eu aceitaria até engraxar os

sapatos do Senhor Maxon todo dia.

- Tudo bem, – disse a contragosto – não irei dizer nem farei nada.

Porém se esse tal de Maxon fizer algo mais absurdo que isso, não

me responsabilizo, Emma.

- Fechado? – perguntei.

Estendi a mão para um "high five" com soquinho, era assim que

fazia com Jason quando éramos pequenos. E aquele sorriso

esplêndido, que me fazia pensar em coisinhas e fazia minhas

pernas ficarem bambas, apareceu novamente. Sean mostrava certa

teimosia, mas quando sorri ele desistiu e bateu em minha mão.

- Fechado.

- Ótimo, sabia que podia confiar em você Sr. Riquinho que curte

comer lesma, - estendo o punho em sua direção - agora faltou dar

um soquinho, para fechar a promessa.

Seu sorriso se estendeu tanto que pude ver seus dentes. Seus

olhos agora estavam me encarando com carinho. Apertando minha

mão a levou até seus lábios e deu um beijo de leve no gomo dos

meus dedos.

- Sempre que precisar Senhorita Smith, - fechou o punho e deu o

"soquinho" - e não se sinta desvalorizada só porque não terminou a

faculdade, você é mais inteligente do que muitos engravatados

cheios de diplomas naquela empresa.

Capítulo 10

Eu, você e o dogburger

Senti borboletas no estômago. Ele não precisava me dizer, sentia

que podia confiar em Sean mesmo não sabendo o motivo. Sejamos

racionais, eu o conheci a menos de quatro horas isso é realmente

muito, muito estranho. Porém, quando eu olhava para ele parecia

ser algo normal. Natural, como se já o conhecesse.

- Chegamos, estamos no Bronx. Onde é que fica o tal do dogduder?

Estou ansioso para comer comida de verdade.

- Primeiro, é DogBURGER. - Ri de sua confusão - E segundo,

estamos bem perto. É só você continuar aqui nessa rua mesmo e

em frente virar na terceira à esquerda. É naquela rua ali com a

estátua engraçada da mulher nua.

- Ah sim, Afrodite.

- Bom, se você quer chamá-la assim, por mim tudo bem. – Respondi

sem entender.

- Não Emma – Sean gargalhava. Toda vez que fazia isso olhava

para mim como se eu não estivesse falando sério. Sua risada tinha

um som tão gostoso de se ouvir, era firme e contagiante. Ele

realmente ria de verdade, não era para me agradar nem nada. Além

de que quando ria ficava mais atraente, como se fosse possível.

Seus dentes brancos apareciam e sua boca que fora lapidada por

deuses se abria gloriosamente. Ele era um sonho, só podia ser –

aquela estatua engraçada é Afrodite, uma deusa da mitologia grega.

- Acho que sei qual é. Aquela do amor, não é?

- Exatamente. Acho que chegamos.

Paramos em frente ao Dog&Burger's. É um foodtruck simples, todo

laranja e decorado com umas lâmpadas pisca-pisca de natal. Sean

parou o carro ao lado do furgão, saímos e logo fomos pedir.

- Hey Tuck! – eu digo ao homem alto dentro do furgão, que estava

picando alguns alimentos na bancada do fogão. Tuck tem uns 32

anos, é alto, magro, tem os cabelos da mesma cor que os meus,

marrom cor de terra, e olhos castanho escuros.

- Oi m&m's! Qual o pedido de hoje? Deixa eu

adivinhar...- Tuck disse, fazendo piada.

- O de sempre, é claro! – ri.

- Pode deixar comigo. Quem é o seu amigo? – disse levantando a

cabeça na direção de Sean.

- Esse é o Sean, ele trabalha lá na Cruelford também.

- Cruelford? – Sean me olhou não entendendo a referência. Fiz um

sinal com a cabeça dizendo "te explicou depois" e virei para Tuck

novamente.

- Faz dois DogBurgers do jeito da M&M's ok. Completos!

Tuck sorriu e disse - É pra já! Querem algo para beber?

- Não quero nada, e você Sean?

- Uma cerveja, por favor.

Sentamos em uma das mesas ao lado do furgão, nela haviam

algumas flores pequenas, pareciam margaridas. Sean puxou a

cadeira para mim, o que eu achei bem estranho. Que homem faz

isso atualmente? Mas me lembrei que Sean devia ser um Anjo

divino que deveria estar perdido na terra, ou algo assim. Era beleza

e simpatia demais para ser real.

- Cruelford? – perguntou quando finalmente nos sentamos.

- Pois é, mas não me dê todo crédito. Jason que inventou depois de

ter recebido um esporro do Senhor Maxon e dos seguranças de lá

na última vez que tentou me visitar. Ele seduziu umas das

recepcionistas e subiu escondido para me ver, coisas de Jason. –

não consigo evitar rolar os olhos – Porque pedir para que eu

descesse para vê-lo seria normal demais para ele.

- Claro que seria – Sean sorriu sem mostrar os dentes – Você mora

por aqui?

- Sim, dá para ir a pé. Meu apê fica perto daquele prédio ali na

esquina, o verde.

- Estou vendo, fica bem próximo mesmo. Você mora com seus pais

e com seu irmão?

- Moro só com Jason, meu irmão de criação. – E mais umas 200

pessoas, mas isso era só um pequeno detalhe não é mesmo?

- E seus familiares estão no Texas?

- Não tenho família, só Jason mesmo. Somos órfãos – não queria

parecer triste, porém foi inevitável. Não era pelo fato de não ter

família, já havia me acostumado com isso, mas porque chegaria um

momento em que teria que dizer a Sean quem eu realmente era.

Uma estúpida garota esperança.

- Sinto muito. – disse sendo sincero.

- Não, tudo bem. Eu cuido dele e ele... bem, vamos só dizer que ele

precisa de mais cuidados que eu. Jason pode ser um pouco

inconsequente às vezes – ou SEMPRE, TODA SANTA HORA – mas

o amo do mesmo jeito. E você? Tem irmãos?

- Tenho uma irmã, Kara. Ela mora em Londres... – Reparei que

quando começou a falar de sua irmã Sean pareceu triste por um

momento – Minha mãe mora em Hamptons, com o marido. – Agora

parecia com raiva, não pude identificar o porquê, mas parecia ter

algo a ver com marido de sua mãe – e eu em Manhattan.

- Nossa te trouxe para bem longe de casa então. Aposto que você

não vai se arrepender.

- É certo que não vou. – disse me encarando com aqueles olhos

negros como a noite e esbanjando um sorriso malicioso que fez com

que meu corpo todo se estremecesse.

Desse jeito não vou conseguir sobreviver. Quando chegar vou ter

que tomar um banho com pedras de gelo para ver se consigo

apagar um pouco desse fogo todo que sinto perto de Sean. Ótimo,

agora imaginei Sean nu. Se vestido já é desta forma, nu então...

Imagine ele todinho como veio ao mundo, molhado tomando banho,

cheio de sabão. Tocando meu corpo todo com suas mãos grandes.

Ele tem mãos bem grandes, realmente. Aqueles braços fortes me

apertando contra seu peitoral bem definido. Eu agarrando e

arranhando suas costas largas. Seu olhar negro e intenso sobre

mim. Seus cabelos ondulados, negros e molhados tocando meu

rosto. Aposto que Sean deve ter um grande e majestoso...

- Pronto! Dois DogBurger's estilo M&M's – disse Tuck deixando

nossos lanches em nossa mesa, me trazendo de volta para a

realidade – Aproveitem.

- Obrigada Tuck. – disse meio sem graça.

Ele fez um aceno com a cabeça e voltou para o furgão.

- Agora você pode me explicar o que estou prestes a comer, Emma?

Porque a aparência é ótima, mas tem tantas coisas...- disse

encarando o lanche confuso.

- Eu te disse que com Tuck não tem miséria. Tem de tudo um pouco.

Expliquei a Sean detalhadamente o que ele iria comer. Se fosse o

Jason nesta posição ele nem questionaria, aquele come até pedra.

Mas gostei de ter que explicar a Sean como era um simples

sanduíche. Ele me olhava com tanta atenção que pareceu até que

estava explicando qual era a cura do câncer. Sean realmente nunca

comeu um sanduíche decente. Essa era a mais estranha,

comovente e fofa situação em que eu já estive.

O lanche que iriamos comer é o mais vendido. Parece um

sanduíche normal, só que com tudo de gostoso possível. Muito de

tudo. No lugar do tradicional hambúrguer ia um salsichão. De

complemento vinha uma porção de batatas fritas e nuggets. Esse

sanduíche era uma explosão de enfarte cardíaco, diabetes e

colesterol. A morte em uma mordida. Pelo menos seria uma boa

forma de morrer, pois é delicioso.

- Nossa, pelo tamanho imaginei mesmo que teria muita coisa. É

gigantesco!

- Sim – eu disse – espere até você provar.

Fiquei observando Sean comer seu sanduíche. Ele pegou com tanto

cuidado que parecia que poderia quebrar. Levou o lanche até aboca,

mas hesitou. Antes de morder me olhou.

Seus olhos me perguntavam se estava fazendo certo, comecei a rir

e acenei com a cabeça o incentivando a continuar, então Sean deu

sua primeira mordida.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos

Sempre sua Luce

Capítulo 2
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED