Capítulo 2

No dia seguinte, o clima estava no mesmo jeito que do dia anterior, exceto pela ausência da chuva, Lara então resolveu que iria correr um pouco, havia alguns dias que não fazia isso, e como hoje haveria aula somente no período da tarde, poderia correr à vontade. Vestiu um conjunto de moletom preto, tênis, fez um rabo de cavalo em seus cabelos e colocou seus fones, gostava de ouvir música na companhia da natureza. A casa de Lara ficava bem próxima a um grande parque repleto de arvores nessa época do ano elas estavam perdendo das folhas o que as deixavam ainda mais charmosa, as poucas arvores que tinham folhagem era em tons amarelo e alaranjados, aquilo tudo era realmente magníficos, algumas pessoas caminhavam outras corriam, mas por ser cedo haviam poucas pessoas o que deixava Lara ainda mais a vontade, ela primeiro começou se alongando depois fez uma pequena caminhada até seu corpo se acostumar em estar em movimento, logo já estava correndo, mas o que a deixou desconfortável foi sentir que estava sendo seguida, mas olhou tudo em volta e não via ninguém que parecesse estar a observando, deixou esse pensamento de lado e se concentrou na sua corrida e na música que embalava seus passos rápidos. Quando finalmente se deu por cansada já estava encharcada de suor, e resolveu voltar para casa. Chegando em casa novamente seus pais discutiam, mas dessa vez Henrique estava presente com a cabeça baixa, dessa vez Lara não deixaria passar.

- Bom dia, posso saber o que está acontecendo - os três a olharam com surpresa, até então não haviam notado sua presença – sei que está acontecendo algo e vocês estão me escondendo.

- Pai, ela tem o direito de saber, a final ela será a maior prejudicada - Henrique falou com os olhos fixo no chão como se estivesse com vergonha de encarar sua própria irmã.

- Sente minha filha, temos que... – mas antes que seu pai finalizasse sua mãe a abraçou o que a desconcertou, porque teve certeza que algo sério acontecia.

Lara se sentou e viu seu pai puxar o folego buscando uma força e coragem para lhe contar algo.

- Lara minha filha, primeiro vou te explicar de onde todo nosso dinheiro vem – Lara ficou confusa, pois sabia muito bem no que seu pai trabalhava. – Minha pequena, temos a nossa empresa de distribuição como você sabe, porém não é só isso que eu e seu irmão fazemos, antes mesmo de me casar com sua mãe, eu entrei para a máfia – Lara deu uma gargalhada, não podia acreditar no que estava ouvindo, seu pai um homem sempre tão calmo, amoroso e correto não poderia ter negócios fora da lei.

- Lara seu pai fala a verdade - sua mãe interviu e Lara pode ver lagrimas escorrer pelo rosto da mulher que sempre mascarou muito bem seus sentimentos.

- Eu iniciei na organização, apenas para auxiliar na distribuição das mercadorias, e com o tempo fui pegando gosto pelo dinheiro fácil, nesse período conheci sua mãe, ela era filha de um dos chefes de segurança me apaixonei por ela desde a primeira vez que a vi, nos casamos e eu prometi a ela que nunca me envolveria com o grande escalão, ficaria apenas na distribuição, mas infelizmente não consegui cumprir minha promessa, cada vez me envolvia mais e mais, a cada serviço bem finalizado o dinheiro que entrava aumentava ainda mais, nossa empresa que até então era totalmente legalizada passou a fazer serviços fora da lei, usava a empresa apenas para lavagem de dinheiro. Quando Henrique fez 15 anos eu tive a péssima ideia de o colocar no treinamento, na verdade não acho que teria outra saída, filhos nascido na máfia permanecem na máfia – essa frase fez todo corpo de Lara tremer- e conforme ele foi crescendo foi pegando gosto pelo trabalho, e cada dia ficava melhor no que fazia e hoje é um dos mais requisitados pelo grande escalão. – Não consiga mais segurar as lagrimas, não falava nada apenas olhava para meu pai que a cada palavra despedaçava mais meu coração e a imagem de bom pai que tinha em minha mente ia sumindo a cada revelação dita por ele. – Foi, então que tive a péssima ideia de desviar mercadoria, Henrique não sabia o destino da carga, então nem a ele contei o que iria fazer, fui idiota e ingênuo acreditei que não notaria e falta de apenas algumas caixas, a ganancia tomou conta da minha mente, só pensava em ganhar mais. Mas então eles descobriram o que eu tinha feito, e me deram corta para ver se o ocorrido iria se repetir, e como achei que nunca seria pego, cada vez aumentava mais os desvios – Henrique estava ainda na mesma posição de antes, cabeça baixa olhos e mãos fechados, como se quisesse se controlar.

- Pai você estava roubando da própria máfia? - falei a ele incrédula, porque até mesmo eu que não entendo como essas coisas funcionam não me atreveria a fazer isso.

- Nosso Pai é um idiota, e agora colocou todos nós em perigo, principalmente você. – Pela primeira vez desde de que essa conversa começou vejo os olhos de Henrique, eles estavam um verde tão escuro que mais parecia negros.

- Não entendi onde me encaixo nessa história, desde de que vocês começaram a contar estão falando que eu sou quem mais vai sofrer e não vejo onde estou ligada a isso a não ser pelo meu parentesco com vocês. – Falo cuspindo todas as palavras.

- Você será a garantia que não vão matar seu pai e seu irmão – minha mãe fala com pesar em sua voz.

- Como assim? Que garantia é essa? – Não estou entendendo nada

- Minha filha, para que não matam a mim e a seu irmão, você será dada como esposa ao filho do chefe, terá que se casar com ele como forma de pagamento da minha dívida. – Gargalho mais uma vez, uma risada histérica, não pode ser verdade o que estou ouvindo, isso deve ser uma brincadeira de muito mau gosto.

Capítulo 3

- O senhor só pode estar ficando doido. – Nesse momento um homem alto, forte com uma cicatriz enorme em seu rosto entra em casa, acompanhado de Carlos que me olha com pesar em seus olhos.

- Daqui a uma semana será o seu casamento com meu filho, e pelo que estou vendo seu pai não lhe deu educação, não sabe respeitar a autoridade de um homem, se bem que seu pai não pode ser considerado como homem.

- Padrinho - Henrique o cumprimenta beijando suas mãos, o que me deixa confusa, como Henrique pode ser afilhado desse homem horrível.

- Se não te matei ainda Paulo, foi em consideração a Henrique, esse menino é mais homem que você. Henrique, preciso de você no galpão ainda pela manhã para finalizar um serviço e pegue suas coisas, a partir de hoje você não mora mais aqui com esse verme. – Fico imóvel não consigo responder nada, meu pai fica apavorado, minha mãe olha pra Henrique como se nunca mais fosse vê-lo novamente e Henrique vai para seu quarto sem dizer nenhuma palavra.

- Uma semana é pouco tempo para organizarmos um casamento. – Minha mãe diz com a voz falha e o homem a encara.

- Não Joana, é tempo suficiente, lembro-me muito bem que na sua vez de casar não se preocupou com o curto prazo, e além do mais, vocês devem apenas se preocupar com o vestido de noiva, o restante será feito em minha casa. – Minha mãe conhece esse homem antes mesmo de se casar com meu pai, e mais uma vez eu não consigo dizer nada sinto como se estivesse navegando em um mar calmo e em uma fração de segundos, ondas veem ao meu encontro me afogando cada vez mais.

- Tudo bem, daqui a uma semana nos encontramos na cerimônia. – Meu pai confirma.

- Na sexta Carlos levara as coisas da Lara para minha casa, leve apenas o necessário Lara, meu filho não quer nada comprado com o dinheiro de um traidor. – O homem que veio como a anunciação do mau em minha vida vai embora da mesma forma que entrou, acompanhado de Henrique que deixa um beijo da cabeça da minha mãe e vem até mim.

- Fique calma pirralha, vou estar com você sempre. – Não consigo me segurar mais, me agarro a ele com lagrimas inundando meu rosto e me despeço do meu irmão sem dizer nada, porque palavras nenhuma nesse momento consegue descrever a dor que tenho em meu coração e sei que ele compartilha desse mesmo sentimento, porque o homem que deveria nos proteger acaba de nos entregar a morte. Henrique sai de casa com uma pequena mala, não olha em direção ao meu pai e acompanha o homem e Carlos.

Fico em pé repassando tudo que ouvir, tudo que estava prestes a acontecer com a minha vida, por um momento queria que tudo fosse apenas um sonho terrível, não queria acreditar que meu pai tinha nos colocado nessa situação apenas por ganancia. Respiro fundo e olho em direção ao meu pai e minha mãe.

- Tem certeza que se eu me casar, o senhor e Henrique não sofreram nenhum tipo de agressão ou serão mortos? – Questiono meu pai.

- Tenho certeza, Hugo é o chefe da organização, ele é um homem de palavra, acredito que seu desejo nunca fosse machucar Henrique ele realmente gosta dele, e desde que Henrique entrou na organização ele tem o ensinado tudo que sabe e Henrique sempre lhe foi fiel.

- Ao menos Henrique tem a cabeça no lugar – minha mãe fala com tanta magoa de meu pai que acredito que o casamento deles também tenha chegado ao fim.

- Eu serei abusada e espancada por meu marido quando me casar?

- Não sei te dizer minha filha, mas nunca ouvir dizer que Conrado fosse violento com mulheres, na verdade nunca o vi com mulher nenhuma. – Pela primeira vez ouço o nome do meu futuro marido. Não consigo acreditar no que meu pai fala, mas sinto um pouco de conforto em saber que ele não tem fama de ser violento com mulheres.

- Tudo bem, não vou fugir, vou me casar, mas tenha em mente que não quero ter nenhum tipo de contato com o senhor, depois do meu casamento não desejo ter que olhar nunca mais para sua cara. – Nunca falei assim com meu pai, sempre fui uma filha obediente e amo o contato que tinha com minha família, sinto muita magoa, mas não sei se conseguirei ficar sem ver meu pai.

Subo para meu quarto, me jogo na cama derramo todas as lagrimas que estava segurando, choro pensando na vida que levarei daqui para a frente, nunca me imaginei envolvida com a máfia e muito menos sendo esposa do filho do chefe, desejava uma vida calma e normal como imaginava ser a vida dos meus pais, e agora nesse momento não sei o que me espera, o que o futuro me aguarda. Adormeço sentindo cada pedaço do meu coração se quebrar ainda mais, acordo com batidas insistente na porta.

- Filha, você precisa se alimentar, já esta tarde e não comeu nada durante todo dia.- abro a porta e vejo a imagem da minha, que não está tão melhor que a minha, afinal ela perdeu hoje os dois filhos e o casamento de anos - vamos você precisa comer alguma coisa.

- Mamãe não quero ver o Papai agora.

- Não se preocupe ele não está em casa, acredito que não volte tão cedo. – Déssemos e comemos uma sopa, sempre amei sopas e todos os tipos, principalmente as cheias de legumes como essa, mas não consigo comer, parece que tenho um nó na garganta.

- Filha você precisa comer, tem que ser forte. Não queria que passasse por isso, queria que tivesse uma vida diferente da que eu tive.

- Como assim diferente? – A questiono sem entender, porque até onde sabia meus pais casaram apaixonados.

- Eu não me casei com seu pai por vontade própria, amava outro homem, e acreditava que viveria com ele para sempre, mas na máfia mulheres não tem voz, somos criadas para gerar filhos, principalmente homens e satisfazer nossos maridos, ser submissa e sempre obedecer. - Minha mãe tem lagrimas nos olhos, posso sentir dor e triste em sua voz.

- Mamãe não sei se consigo- falo em um murmuro com os olhos já lacrimando e sentindo novamente um nó se formar na garganta.

- Lara, você consegue, tenho certeza disso. Não me casei com seu pai por vontade própria mais hoje não o trocaria por nada, pelo simples fato de ter vocês. Seu irmão e você, são minha vida, os amo incondicionalmente, sei que pareço rígida e não sei demonstrar meus sentimentos, mas não tive uma mãe amorosa e muito menos um pai, os ensinamentos que tive foi abaixo de surras e restrição alimentar, cheguei a ficar dias sem comer como castigo, meu pai não era uma boa pessoa e minha mãe não tinha forças para me amar porque também sofria tanto ou mais que eu nas mãos de meu pai. – Minha mãe teve uma infância tão sofrida e nem ao menos imaginava isso, agora entendo o motivo dela ser dessa forma, e sabendo da sua história tenho certeza que ainda tive dela muito mais do que ela tinha a oferecer, minha mãe realmente se esforçou e se esforça para ser uma boa mãe.

Fiquei extremamente surpresa ao saber da infância sofrida da mamãe e mais ainda em saber que ela já foi apaixonada por outro homem, com a sua declaração de que vive bem e é feliz a sua maneira, mesmo estando em um casamento arranjado me deixa um pouco mais tranquila. Não me considero uma mulher romântica, na verdade acredito que não tive muito tempo para pensar nisso, mas imaginava que quando a hora chegasse seria com um homem da minha escolha, que teria ao menos alguns sentimentos por ele, e me casar com Conrado não esteve em nenhum dos meus delírios.

- Mamãe eu posso contar a Jessica sobre meu casamento? – Questiono minha mãe sobre contar a minha amiga sobre isso, não queria ter que mentir ou omitir isso dela e muito menos me separa de Jessica, ela é a minha melhor amiga e única, nunca fui de muitas amizades e devido a criação rígida que tive minha mãe geralmente não aprovava minhas amizades. Jessica sempre foi muito na dela, tanto quando eu, meus pais sempre gostaram muito dela também.

- Lara se você confia nela pode contar sim, peço só que não entre nos detalhes com ela – confirmo com a cabeça pois isso é melhor do que ficar longe dela.

Terminamos nosso jantar, e fomos para o quarto, esperava poder ter uma noite de sono tranquila. Mas Conrado e seu pai estavam visitando até meus sonhos o que não me permitiu dormir muito bem.

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