Um zumbido suave da minha bolsa me tirou da lembrança. Não era meu celular pessoal, mas um pequeno dispositivo criptografado. Fui para o canto da varanda, escondida por um grande vaso de planta.
Era uma ligação de Fredy.
"Está tudo pronto, Alana", disse ele, com a voz calma e profissional. "O protocolo está pronto. Apenas dê a palavra final."
"Obrigada, Fredy."
"Você tem certeza disso? Uma vez feito, não há como voltar atrás. Você deveria pelo menos se despedir da sua família."
Suas palavras tocaram em algo profundo dentro de mim. Família. A palavra parecia oca. Um nó se formou na minha garganta.
Davi não era mais minha família. Ele era um estranho que compartilhava minha cama. Um parceiro de negócios na farsa do nosso casamento.
"Fredy", eu disse, minha voz firme apesar do aperto no peito. "Quando você acionar o protocolo, quero que tudo seja apagado. Não apenas meus registros públicos. Quero que Alana Ferraz desapareça de todos os servidores, de todos os bancos de dados. Apague-me."
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Alana, isso é... extremo. É um nível de apagamento que reservamos para agentes queimados. Esse Davi, eu pensei que vocês dois fossem felizes."
Isso era um testemunho de quão bem eu havia representado meu papel. Ninguém, nem mesmo meus contatos mais próximos, sabia a verdade sobre minha vida.
"Ele me traiu, Fredy."
As palavras saíram secas e sem tom.
Um suspiro longo e pesado veio pelo telefone. "Ah. Entendo." Ele fez uma pausa. "A ligação dela há alguns meses... aquela que você me pediu para rastrear. Agora tudo faz sentido."
Ele não precisou dizer mais nada. Ele entendeu.
"O sistema estará pronto em quarenta e oito horas. Resolva seus assuntos pessoais. Assim que você estiver naquele avião, Alana Ferraz deixa de existir."
"Eu vou", eu disse, uma onda de alívio me invadindo. O plano era sólido. Estava acontecendo.
Eu não precisaria passar por um divórcio conturbado. Não precisaria lutar por bens ou ouvir suas mentiras e desculpas. Eu simplesmente desapareceria.
"Obrigada, Fredy. Por tudo."
"Apenas tome cuidado, garota."
Ele desligou. Guardei o dispositivo de volta na bolsa no momento em que Davi apareceu na porta da varanda.
"Com quem você estava falando?", ele perguntou, os olhos semicerrados de desconfiança.
Eu me virei, meu rosto uma máscara perfeita de calma.
"Minha mãe. Ela queria nos desejar um feliz aniversário."
Sustentei seu olhar, sem vacilar. Era uma mentira simples e crível.
Ele estudou meu rosto por um momento, procurando por algo. Então ele relaxou, sua desconfiança se dissipando. Ele me abraçou por trás, me puxando contra seu peito.
"Eu te amo, Alana. Você sabe disso, não é? Eu estaria perdido sem você."
Suas palavras eram veneno. Imaginei o que aconteceria se eu perguntasse a ele agora: "E se você me traísse?"
Ele provavelmente riria.
Lembrei-me de uma conversa que tivemos anos atrás, um momento de brincadeira descuidada. Eu havia perguntado o que deveria fazer se ele me traísse. Ele riu e disse: "Me tranque para fora para sempre. Eu mereceria."
Logo, você terá o que merece, pensei. Você será trancado para fora da minha vida, para sempre.
Nesse momento, Kátia Moraes se aproximou. Ela segurava uma pasta nas mãos, sua expressão séria e profissional.
"Sr. Ayres, desculpe interromper. Temos uma atualização urgente sobre o Projeto Fênix."
Davi me soltou, sua postura mudando instantaneamente para a de um CEO focado.
"O que é?"
Ele pegou a pasta, de costas para mim, criando um pequeno espaço privado para eles conversarem.
Eu os observei, uma imagem perfeita de um chefe e sua subordinada. A atuação deles era impecável. Por um momento, quase admirei sua habilidade.
Senti uma estranha sensação de gratidão. Tive sorte de descobrir. Sorte de ter uma saída que não envolvia gritos e pratos quebrados.
Davi fez um sinal para uma contagem regressiva do gerente do evento. "Cinco, quatro, três, dois, um..."
Ele se virou para mim, seu sorriso largo e deslumbrante. "Feliz aniversário, meu amor."
De repente, o céu lá fora explodiu em uma chuva de cores brilhantes. Uma queima de fogos maciça, só para nós. A multidão ofegou e aplaudiu.
"Dez anos", Davi murmurou, seus olhos nos fogos. "Parece que foi ontem."
Eu encarei as luzes explodindo. Dez anos. Parecia uma vida inteira.
Uma vida completamente diferente. O homem ao meu lado não era o homem com quem me casei. Aquele homem era ambicioso, mas gentil. Este era arrogante e vazio.
Ele se virou para mim, o rosto iluminado pelas cores piscantes. Ele se inclinou para me beijar.
No momento em que seus lábios estavam prestes a tocar os meus, o celular dele vibrou.
Ele recuou, um lampejo de irritação no rosto.
"Quem diabos está me incomodando agora?", ele resmungou, pegando o celular.
Ele olhou para a tela. A irritação desapareceu, substituída por uma mistura complexa de emoções. Eu vi claramente, mesmo na penumbra. Desejo. Complicação.
Consegui ver a tela de relance. Uma mensagem de "K". Um único emoji de coração.
Ele rapidamente afastou o celular, mas era tarde demais. Eu tinha visto.
Seus olhos brilharam com um olhar cru e faminto. Um olhar que ele não me dava há anos.
Ele pigarreou, guardando o celular de volta no bolso.
"É o trabalho", ele mentiu, a voz suave como seda. "Uma emergência com um dos servidores no exterior. Tenho que ir resolver."
"Davi, é nosso aniversário", eu disse suavemente, minha voz com a dose certa de decepção.
"Eu sei, querida, me desculpe", disse ele, o rosto uma máscara de arrependimento. "Vou te compensar, eu prometo."
"Tudo bem", eu disse, cortando-o antes que ele pudesse inventar mais mentiras. "Vá. O trabalho é importante."
Ele pareceu aliviado. Tão fácil. Ele achava que eu era tão fácil de enganar.
"Você é a melhor, Alana. Voltarei assim que puder."
Ele me deu um beijo rápido e distraído na bochecha e se apressou em sair.
Eu o observei ir, uma certeza fria se instalando em meu coração. Ele não ia consertar um servidor. Ele ia para ela.
E eu ia segui-lo.
Dei a ele dez minutos de vantagem antes de sair da festa. Peguei o elevador de serviço até a garagem, meus movimentos rápidos e silenciosos. Meu próprio carro estava estacionado em uma seção privativa. Entrei e saí para a rua.
Foi fácil encontrar o carro dele. Ele dirigia um carro esportivo personalizado que era impossível não notar. Mantive uma distância segura, com os faróis apagados. Ele dirigia rápido, afastando-se do distrito comercial e em direção aos novos e luxuosos prédios residenciais.
Ele entrou na garagem subterrânea de um prédio de apartamentos moderno e elegante. Estacionei do outro lado da rua e observei.
Alguns minutos depois, Kátia Moraes saiu do lobby do elevador. Sua postura profissional havia desaparecido. Ela usava um robe de seda, com os cabelos soltos. Parecia impaciente.
Quando o carro de Davi parou, ela correu até ele, sua expressão uma mistura de beicinho e prazer.
"Você demorou uma eternidade", ela reclamou, com a voz brincalhona.
Davi saiu do carro, com um sorriso largo no rosto. Ele a puxou para seus braços.
"Eu tive que fugir da festa", disse ele, a voz baixa e íntima. "Eu tinha uma surpresa para alguém especial."
Ele gesticulou vagamente para o céu, onde os últimos fogos de artifício estavam desaparecendo. "Você gostou deles?"
"Eram para mim?", ela perguntou, os olhos se arregalando. "Pensei que fossem para... ela."
"Eu estava pensando em você o tempo todo", disse ele, beijando-a profundamente. "Eu prometo, Kátia. Só mais um pouco de tempo. Assim que este negócio for fechado, eu resolvo as coisas."
Eu estava sentada no meu carro, com o motor desligado, observando-os pelo retrovisor. Minhas próprias palavras de anos atrás ecoaram em minha mente. Os fogos de artifício do aniversário. Eu havia dito a ele que era extravagante demais, que deveríamos economizar o dinheiro. Ele havia insistido. Agora eu sabia por quê. O grande gesto romântico não era para sua esposa. Era para sua amante.
Como pude ser tão estúpida?
Kátia envolveu os braços em volta do pescoço dele, pressionando o corpo contra o dele.
"Eu não quero esperar, Davi", ela ronronou. "Fico com ciúmes de pensar em você com ela."
Ele riu, um som baixo e rouco. "Você não tem do que ter ciúmes."
"Então prove", ela sussurrou, as mãos deslizando pelo peito dele. "Mostre-me quem você realmente quer."
Ele não precisou de mais incentivo. Ele a pegou no colo, as pernas dela envolvendo sua cintura, e a carregou em direção ao carro dele.
Ela soltou um gritinho de riso.
Ele a empurrou contra a porta do passageiro, sua boca encontrando a dela novamente. Os vidros eram escuros, mas eu podia ver suas silhuetas se movendo juntas, uma dança frenética e desesperada.
Afundei no meu assento, meu corpo escondido nas sombras. Uma única lágrima escapou e traçou um caminho frio pelo meu rosto. Eu a enxuguei com raiva.
Ver uma vez em uma foto era uma coisa. Ver ao vivo era outra. A traição parecia nova, uma ferida aberta novamente.
Lembrei-me de suas promessas, seus votos. Tudo mentira.
O que ele via nela? Ela era jovem, ambiciosa e óbvia. Era só isso que era preciso? Um brinquedo novo e brilhante para substituir o antigo e familiar?
Forcei-me a respirar fundo e devagar. Depois outra vez. Eu não ia desmoronar. Não aqui. Não agora.
Eu tinha um plano. Eu tinha uma saída.
Apenas mais quarenta e sete horas. O pensamento era uma tábua de salvação. Eu suportaria isso. Eu passaria por esta noite, e então estaria livre.
Não voltei para a festa. Dirigi para casa, para nossa casa grande e vazia. A casa que construímos juntos, cheia de memórias que agora estavam manchadas. Fui direto para o nosso quarto e deitei, sem me preocupar em tirar o vestido.
Devo ter adormecido, porque fui acordada pelo som da porta do quarto se abrindo. Eram quase 3 da manhã.
Davi estava na porta, sua silhueta contra a luz do corredor. Ele parecia tenso.
"Alana? Você está aqui. Eu estava tão preocupado."
Ele correu para a cama, o alívio inundando seu rosto quando me viu.
"Voltei para a festa e você tinha sumido. Você não atendeu o celular. Pensei que algo tivesse acontecido."
Eu quase ri. Preocupado. Ele só estava preocupado porque seu álibi perfeito, sua esposa amorosa, havia desaparecido.
"Você voltou tarde", eu disse, minha voz seca. "Deve ter sido um grande problema com o servidor."
"Foi", disse ele, sem hesitar. "Uma bagunça de verdade. Mas já está tudo resolvido."
Ele se sentou na beirada da cama, pegando minha mão. Seu toque era nojento.
Eu estava ficando boa nisso, percebi. Mentir. Fingir. Ele me ensinou bem.
Ele parecia tão aliviado por eu estar bem, por seu mundo perfeito ainda estar intacto. Ele me puxou para um abraço, enterrando o rosto no meu cabelo.
"Nunca mais me assuste assim", ele sussurrou. "Se eu te perdesse, não saberia o que fazer. Eu vasculharia o mundo inteiro por você."
Fiquei perfeitamente imóvel em seus braços, suas palavras me envolvendo como uma jaula.
Não se preocupe, Davi, pensei. Logo você terá a chance de provar.