Capítulo 2

KATHERINE

Sigo pela longa estrada ladeada pela cerca até a grande casa branca.

“Que singelo”, penso, “cerquinha branca, casa branca, leite branco”.

Vejo uma grande árvore e paro meu carro abaixo dela e vou em direção à porta. Meu corpo ainda trêmulo do longo caminho acidentado.

Não tem campainha. Olho de novo, pensando em uma forma de chamar alguém. Bato palmas, “alô, alguém”, tento chamar a atenção. Nada. Apenas o vento morno da tarde e o silêncio.

“Droga, só falta isso agora! Imagina eu voltar todo esse caminho com essa intimação nas mãos! Não, isso não pode acontecer, não mesmo!”, eu penso chateada, mesmo porque tenho certeza que o Green me manda outra vez aqui!

Estou sentada há um bom tempo quando vejo uma grande camionete RAM preta chegando em alta velocidade e para atrás do meu carro.

Imediatamente levanto e vou na direção de quem chegou.

“Oi...” sou interrompida.

“Essa é a vaga dos Behring, ninguém pode estacionar aqui”, o homem já vem dizendo e andando na minha direção carrancudo.

“Desculpe, só vim trazer um documento e já estou de saída”, digo em um fôlego.

Ele me olha e seu rosto irritado agora está feroz.

“Documento?”, ele pergunta levantando a sobrancelha esquerda

“Sim”, estendo para ele.

“Nichollas Behring?”, pergunto.

“Não, eu sou Tom”, ele me devolve o documento mais carrancudo.

“Tom, posso te chamar de Tom? Onde posso encontrar o Sr. Nichollas Behring?”, pergunto tentando manter a calma e cumprir a missão.

“Ele não está aqui?”, ele levanta o queixo e indica a casa e os prédios.

“Eu não sei, eu vim de Lansing pela manhã e depois que cheguei não encontrei ninguém a quem perguntar. Será que você pode me ajudar?”, olhei esperançosa para Tom.

Ele me olhou, avaliando e bufou, abrindo um sorriso.

“Tudo bem”, ele disse franzindo os lábios.

Entrou na camionete partiu. Imaginei que ele ia embora e fiquei desanimada. Voltei para minha cadeira.

Após algum tempo, vi Tom se aproximando.

“Achei que tinha ido embora”, eu digo cansada.

“Eu disse que ia te ajudar, não disse?”, ele devolve.

“Vamos”, ele diz em voz plana e aponta para a casa.

Ele abre a porta da frente e realmente é incrível. Incrível porque do lado de fora ninguém imaginaria que existe tudo isso do lado de dentro.

Não é uma decoração convencional, como se esperaria pelo visual externo, mas uma mistura de madeiras que é simplesmente linda. Pessoalmente não gosto muito de visual rústico e muita madeira definitivamente não me agrada, mas isso... é definitivamente de muito bom gosto. A parede principal é revestida em madeira natural, com tábuas estreitas no sentido horizontal em pedaços de 40cm de diversos tons de castanho, proporcionado apenas pelo verniz. A parede do fundo é em tábuas naturais largas envernizadas no mesmo tom da principal, agora na posição vertical. O piso tem um revestimento cerâmico castanho que acompanha o padrão da madeira natural do ambiente. Apenas sofás brancos, tapete e algumas cadeiras rústicas acompanham a decoração com três toras gigantes naturais minimamente tratadas, cortadas em alturas diferentes que servem como mesa. O teto estilo catedral segue o estilo de tábuas largas naturais envernizadas com a iluminação feita por pontos de luz. Mais adiante se vê a sala de jantar com uma imensa mesa de madeira rústica com acabamento sofisticado e diversas cadeiras integrando o ambiente. A iluminação da sala de jantar pende do teto com argolas rústicas e é finalizada por um domo em forma de estrela. Realmente fiquei impressionada com a integração de tanta madeira no espaço, não que eu seja uma aficcionada pelo design ou não tenha visto muitas coisas muito chiques na vida, mas isso é diferente e muito bonito.

“Já podemos ir?”, diz ele em tom de deboche.

“Desculpe, mas a decoração é bem diferente e inesperada”, eu digo explicando porque tomei meu tempo olhando.

“Não sabia que os promotores gostavam tanto de design”, ele diz ainda provocando.

“Em primeiro lugar eu não sou promotora, sou apenas assistente de promotoria. E em segundo lugar, como tenho olhos, posso muito bem olhar e ter minha opinião sobre o design, você não acha?”, respondo já irritada com a zombaria dele.

“Vamos”, ele bufa e ri, ainda zombando.

Andamos pela casa toda, abrindo cada porta.

“Ele não está aqui como você pode ver”, diz Tom.

“E lá?”, aponto para os grandes prédios do lado de fora.

“Então você quer ir lá?”, Tom sorri e me pergunta.

“Eu preciso”, franzo os lábios e aceno com a cabeça.

“Ok”, Tom estende a mão sinalizando para eu ir na frente.

Andamos lado a lado e chegamos ao primeiro prédio.

O cheiro dos animais era inconfundível. Era um enorme galpão, com uma estrutura circular gigante, onde as vacas eram colocadas como se fosse ao redor de uma mesa redonda, com cochos à sua frente, as “cadeiras” eram baias onde se encaixavam e atrás haviam instrumentos mecânicos para ordenha.

Era realmente espantoso, mas não me atrevi a ficar muito tempo olhando, para evitar mais uma rodada da zombaria de Tom.

Ele me conduziu por todo o prédio, onde cumprimentou os funcionários.

Na saída, meu estômago roncou firme, pudera, até minha água tinha acabado.

Tom me encarou, mas não disse nada e prosseguimos para o próximo prédio, mais distante.

Novamente fui surpreendida. Era como um galpão de alta tecnologia onde haviam pequenas baias como suítes, onde estavam filhotes, bezerras, cada um com água e comida e fichas, como fichas médicas, onde estavam todas as informações do bichinho.

Balancei a cabeça, isso é estranho!

“O quê?”, Tom me pergunta soando acusatório. “Os animais também gostam de ser bem tratados”, ele me olha irritado.

“Eu não disse nada”, eu arregalo meus olhos e levanto as mãos.

“Mas pensou”, ele diz e continua andando por todo o ambiente comigo atrás.

Quando saímos, já escureceu. Ele aponta o próximo prédio, ainda mais distante.

Capítulo 3

Estamos andando há um tempo e já está escuro quando sinto meu pé travar em alguma coisa e caio de lado.

“Aiii”, respiro fundo e tento levantar, assustada pelo acidente inesperado e pela dor.

Tom está parado, não consigo ver seu rosto no escuro, mas com certeza, pelo que já vi, deve estar zombando.

Sinto o vento e percebo uma gota, está começando a chover.

Me agito tentando levantar, a dor é grande, mas me coloco em pé.

“Vamos voltar ou quer ver?”, ele aponta para o prédio iluminado mais à frente.

“Podemos ver?”, eu não quero ir, mas não posso falhar.

Tom bufa mais uma vez.

Mordo o lábio e vou em frente, mancando, me contendo para não gemer, andando devagar, a chuva aumentando.

De repente sinto braços me erguerem e seguro na camisa de Tom assustada.

Ele rapidamente me leva para o próximo prédio e lá está... paredes brancas, uma cobertura e metros e metros de coxos dos dois lados e vacas holandesas emparelhadas fazendo sua refeição.

Além dos animais não há mais ninguém.

“Por que você não me disse que o que era?”, pergunto indignada.

“Você não ia acreditar, não é, promotora?”, Tom responde debochando e me pondo no chão.

Ele levanta uma sobrancelha e me encara.

“Se eu dissesse que eram apenas coxos você ia pensar que eu estava escondendo alguém aqui, não é?”, ele se inclina para mim com os olhos cerrados.

Suspiro desalentada e sacudo a cabeça.

“Eu não acredito nisso”, eu penso, já imaginando que teria que voltar aqui mil vezes até poder intimar o Nichollas Behring.

“Está satisfeita?”, Tom pergunta irritado.

“Tom, você pode ligar para o Nichollas, por favor, e ver quando ele pode me receber?”, pergunto já em desespero de causa, tentando despertar a compaixão do homem à minha frente parecendo fofa ao piscar os olhos.

Tom bufa e dá um meio sorriso.

“Por favor...fico te devendo. O Promotor vai me fazer voltar aqui mil vezes até conseguir intimar o Nichollas, você sabe...”, tento persuadi-lo, minha voz mais doce e suplicante.

“Você paga as dívidas, senhora promotora?”, Tom estreita os olhos e me encara com os lábios curvados para cima.

“Claro que pago, Tom, promessa é dívida, fico te devendo uma”, digo o mais sério que consigo.

Lá fora o mundo está se desfazendo em água, o vento uivando forte e raios cortando o céu.

“Eu cobro dívidas, senhora promotora”, ele me diz muito sério também.

“Pode cobrar”, eu digo olhando em seus olhos e acenando a cabeça.

Ele pega o celular, manda uma mensagem e se afasta.

Depois de um tempo de espera, Tom volta.

“Ele ia voltar hoje, mas a chuva interditou a estrada”, Tom diz e aponta o céu que é riscado por um raio.

“Droga!”, eu uivo de decepção, não conseguindo me conter mais.

“A doutora promotora está nervosa?”, Tom ri.

“Eu saí de Lansing às 7:45h, dirigi horas até aqui nessa estrada horrível, até agora nem tomei café da manhã, esperei por horas, andei toda a propriedade de salto, torci o tornozelo, não achei o cara e ainda a estrada está interditada, o quê? Por que eu estaria nervosa? Irritada? De jeito nenhum! Estou ótima! Vou dançar a ‘ula’”, digo expulsando do peito toda a frustração desse dia horrível de uma vez.

“Eu não tenho nada a ver com isso doutora, não pedi para você vir, não te neguei comida e não machuquei o seu pé e até te levei num tour por toda a propriedade e te dei uma carona no colo, não dei?”, Tom ergue uma sobrancelha com um meio sorriso.

“É, alguém está se divertindo, não é Tom? Sempre tem alguém se divertindo”, eu bufo irritada, fazendo uma careta e franzindo os lábios.

“Vem”, Tom estende o braço na minha direção.

Fico sem entender e num segundo me vejo no colo de Tom mais uma vez, ele correndo na chuva torrencial. No escuro, a chuva fria escorrendo pelo meu corpo, escuto as batidas fortes do coração do Tom e sua respiração pesada enquanto chove a cântaros.

Tom é um cara grande e forte. Não gosto de admitir, mas ele é bem, bem bonito mesmo e para um cara de fazenda, é educado também, eu percebi pelo uso das palavras que ele fez.

Ele empurra a porta da casa grande e entra. Estamos encharcados até os ossos. Ele sobe as escadas e num instante estamos no segundo andar.

Ele empurra a porta e entra em um dos quartos.

“Vai agora para o chuveiro, depois eu te arrumo uma toalha”, ele ordena.

Paro por um segundo e então, vou para o banheiro, afinal não há muito que se possa fazer agora. Não tem como continuar com essa roupa encharcada.

Tiro a minha roupa e entro na ducha. A água quente escorrendo pelo meu corpo cansado me dá um alívio imenso. Deixo ela correr pelo meu tornozelo machucado. Está feio, uma grande mancha roxa está aparecendo agora. Contenho a vontade de chorar, de dor e de frustração... Hoje não foi um bom dia, com certeza.

“Ok, ok, Kath, vamos acabar com a festinha de autocomiseração e ir em frente”, digo para mim mesma me consolando.

Olho em volta à procura dos produtos de banho. Shampoo...e...gel de banho masculino.

“Só?”, me sinto inacreditável...

Saio do banho e não vejo mais nada. “Toalhas? Ahhh... ele disse que ia arranjar alguma”, penso frustrada.

Abro a porta e espio, não vejo nada. Meu cabelo pingando. Estico mais o pescoço para fora, nada. Espero mais um pouco e fico frustrada. Finalmente decido ir em frente e arrancar o lençol da cama e me enxugar antes de ficar doente. Quando abro a porta, pronta para dar o primeiro passo, vejo um braço na minha frente com as toalhas.

“Merda”, o grito vaza da minha garganta e corro para o banheiro, não antes de pegar as toalhas.

Estou com tanta raiva que não consigo respirar. Esse sem-vergonha estava lá o tempo todo e com certeza me pegou nua!

Tenho que achar uma forma de lidar com o Tom, porque só vou achar o Nichollas através dele e principalmente, porque agora não tem para onde correr, é noite, chovendo e a estrada está interditada. “Maldito Tom!”

Me acalmo e finjo que nada aconteceu. Saio do banheiro enrolada em uma toalha e outra enrolada no cabelo e agora a luz está ligada.

Vejo Tom preguiçosamente sentado numa poltrona no quarto usando uma calça de moletom cinza e camiseta branca. Os olhos crivados em mim.

“Tem alguma coisa que eu possa usar?”, pergunto tranquilamente.

Tom levanta e vai até um armário de onde tira uma camisa longa preta e me entrega.

“Não que vá ficar mais bonita nisso”, ele me dá um sorriso malicioso.

“Ahhh... você gostou do que viu então, Tom?”, pergunto com ironia.

“Com certeza doutora”, ele me responde com outro sorriso pingando malícia.

“Tom, Tom, eu esperava mais de você... isso faz você parecer um menino do colegial”, minha vez de zombar de você Tom!

“Doutora, até um menino do colegial sabe apreciar um bom design, não foi a senhora que me ensinou isso?”, ele diz ainda com aquele sorriso largo que eu quero arrancar da cara dele com uma faca.

“Realmente é uma pena”, olho para ele com o meu melhor olhar de pena e balanço a cabeça.

Dessa vez ele se endireita no sofá, mas antes que ele diga qualquer coisa, entro no banheiro para colocar a camisa. Deve ser do Tom, é enorme em mim e me cobre até o meio das coxas. Está bom devido às circunstâncias.

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