Capítulo 2

A velha senhora sentou-se exatamente ao seu lado. Natasha fingiu nem notar a presença dela e continuou escrevendo. Não satisfeita, a pessoa ao lado baixou a cabeça quase entrando em seu bloco de anotações, sem disfarçar que estava tentando ler. Natasha fechou o bloco sem muita cerimônia e deixou-o descansando em seus joelhos, colocando a caneta em cima.

Mas a mulher continuava olhando para o bloco. E depois ficou olhando fixamente para Natasha, que percebeu estar sendo observada atentamente. Ficou muito incomodada e se viu perguntando:

- Tudo certo, senhora?

- Sim... sim...

Natasha respirou fundo. Não tinha vontade nenhuma de fazer aquela viagem. E ter como companhia aquela senhora agradável não seria nada bom. Decidiu fingir que não estava incomodada e voltou a anotar.

- Por que escreve sobre o trem? – perguntou a mulher.

Natasha suspirou. Detestava viajar acompanhada a qualquer lugar. Preferia ficar com seus próprios pensamentos. Para ela viajar sentada sozinha era terapia. Aliás, adorava ficar sozinha consigo mesma. Então já imaginou se desse conversa para a idosa. Sabia que os velhinhos adoravam conversar por horas e ela odiava.

- Gosto de anotar coisas. – disse ela sem olhar para mulher. Quis parecer irônica, mas não sabia se havia conseguido.

- Este trem não era assim....

Natasha fechou os olhos e recostou sua cabeça no banco. Pensou em trocar de lugar... mas como fazer isso sem ser rude?

- E pensar que esta é a última viagem do trem azul... – falou ela em tom de lamento.

Natasha não respondeu e nem se moveu. Deixou bem claro que não queria conversar. Fechou os olhos.

Ela continuou:

- Agora é praticamente um dia até Tulipa... chegaremos lá às 10 horas da noite de amanhã.

O trem apitou novamente, assustando Natasha. Lentamente começou a se movimentar sobre os trilhos, fazendo um barulho chato. Seria assim pelas próximas 24 horas? Ela não suportaria.

- Não se preocupe, logo o barulho vai parar. – falou a velha senhora como se adivinhasse os pensamentos dela.

Natasha abriu os olhos e levantou a cabeça, um pouco impressionada.

- Sabe, este trem não deveria parar... ele tem tanta história para contar. – falou a mulher com um suspiro.

Natasha olhou nos olhos da mulher. Uma sensação estranha invadiu seu corpo. Sabia que ela tinha muito a contar... e que queria contar. Certamente dentre suas histórias sabia um pouco sobre o trem azul. Decidiu conversar um pouco, pois certamente a senhorinha não desistiria mesmo de tagarelar durante a viagem. O que Natasha mal poderia imaginar é que a história dela era a história do trem azul.

- Sabe bastante coisas sobre este trem? – perguntou Natasha.

- Se eu sei? – ela riu... um sorriso bonito, dentes brancos de dentro da boca já bastante enrugada. – Este trem é a minha vida, menina. Os momentos mais importantes da minha vida foram aqui.

- Então viajou muito nele?

- Meu nome é Sarah. – disse ela estendendo a mão para Natasha.

Natasha apertou a mão gelada.

- Então me conte. – pediu Natasha pouco interessada no nome da mulher.

- Não falo com pessoas que não sei o nome. – rebateu ela.

- Me chamo Natasha.

- Natasha... – disse ela lentamente. – Tenho uma neta que se chama Natália.

Natasha não entendeu a comparação.

- Nem acredito que esta é a última viagem do trem azul. – lamentou ela novamente.

- A última. – confirmou Natasha. – Do trem azul. – entendeu que a senhora poderia já não estar tão lúcida, devido à sua idade.

O trem apitou novamente, fazendo Natasha dar um salto assustada.

- Assustou-se? – perguntou ela docemente.

- Odeio este barulho. Para que serve? Há necessidade disto?

- Eu amo este barulho... – falou ela fechando os olhos e em seguida abrindo novamente. – É ele que me dá forças para viver. Na verdade foi o que me manteve viva por tantos anos.

Natasha ficou atenta. Certamente ali estava sua história. Sinceramente não tinha muito interesse na vovó que contaria a história do seu grande amor que talvez tenha partido para a guerra a bordo do trem e nunca mais voltou... mas ela sabia muito sobre o trem no passado e sua real importância. Seria quase uma aula de história sem precisar fazer pesquisa. Vivenciaria cada detalhe sobre o trem que um dia teve alguma importância para as pessoas, as cidades...

- Por que o apito tem tanta importância para a senhora? – perguntou Natasha.

- Sabe, quando ele apita, a cor do trem é a que você quiser... e você pode se permitir sonhar.

- Não entendi. – falou Natasha confusa.

- Se você ouve o apito do trem mas não o vê não sabe como ele é... imagina-o de qualquer outra forma, menos da maneira como é. E ele é realmente diferente de todos os trens.

- Por quê? – Natasha ficava cada vez mais sem entender nada.

- Porque ele é o trem da minha vida. – falou a senhora firmemente.

- Para onde a senhora está indo? – perguntou Natasha curiosa.

- Para Tulipa, última parada do trem azul.

- Qual a importância do trem para a senhora? – tentou Natasha uma resposta mais sensata.

- Por favor, me chame de Sarah querida.

- Qual a importância do trem... Sarah?

- Sabia que eu estava aqui na primeira viagem do trem azul?

Natasha ficou incrédula. Ali estava o que ela procurava mas achava impossível de conseguir: alguém que conhecia a história do trem azul. E o fato de ela ter estado na primeira viagem era simplesmente muito melhor do que ela esperava. Inacreditável.

- Esteve na primeira viagem e agora está na última. – arriscou Natasha para ver se ela começava logo a contar sua história para não perder muito tempo.

- Esta não é só minha última viagem no trem azul. É a última viagem da minha vida.

- Não pretende viajar nunca mais? – Sarah já se via fazendo perguntas sem querer.

- Não... nunca mais. Estou retornando para Tulipa para terminar minha missão nesta vida e cumprir meu destino.

Natasha sentiu uma sensação estranha. Cada vez a velha senhora a deixava mais confusa.

- E qual é seu destino. – Natasha ouviu-se perguntando.

- Faz muitas perguntas, menina. Como é mesmo seu nome?

- Natasha.

-Tantas perguntas, Natasha... Por quê?

- Um pouco de curiosidade.

-Tenho uma pergunta para você, Natasha. Acredita no amor?

Natasha foi pega de surpresa. Nunca ninguém lhe perguntou sobre isso. Nunca ela se perguntou sobre isso. Ao certo nem sabia o que responder. Não sabia se acreditava ou não no amor. Sempre fora tão realista e fugia do amor. Sua vida era baseada na praticidade e qualquer compromisso com um homem não lhe deixava satisfeita. Quando via que estava se apegando à alguém preferia se afastar, com um enorme medo de perder sua liberdade. Sim... sua liberdade era o seu grande amor. Sua independência. Lutara tanto para ter seu espaço que não queria que ninguém tomasse conta dele. Não... não acreditava no amor. Ele só existia em contos de fada. E se tinha um coisa que nunca lhe interessou, nem quando pequena, foi conto de fadas.

- Não sei. – ela preferiu responder.

- Eu na sua idade já sofria muito por amor... Morria de amor. – disse ela com olhar longe.

Natasha olhou no fundo daqueles olhos azuis profundos, dentro daquela pele bastante enrugada, castigada pelos anos. O que aqueles olhos escondiam? Sarah mexia com alguma coisa dentro de Natasha que ela tinha medo de descobrir.

- Quem é você? – Natasha perguntou confusa. Seria alguém mandada por Jonas para confundi-la em sua matéria?

- Sou Sarah, como já lhe disse. Não estou aqui por acaso, querida. O destino marcou nosso encontro aqui.

- Por que você está aqui? – falou Natasha afastando um pouco o corpo de Sarah.

- Estou aqui para cumprir meu destino.

Natasha olhou para os lados. Pensou estar falando com um fantasma do trem azul. Haveriam fantasmas no trem azul? Não... não existiam fantasmas. O que ela estava pensando?

Sarah parecia entender seus pensamentos. Pegou a mão de Natasha docemente e disse:

- Não tenha medo de mim, querida. Sou apenas uma velha. Não sou uma bruxa nem uma assombração do trem azul.

Natasha apertou levemente a pele gelada e macia. Depois tirou sua mão rapidamente. Pelo menos Sarah era real. Ela olhou para os lados. Bem distante havia um casal naquele vagão. Olhou para a mesa vazia em frente às duas. Com dezenas de lugares vagos naquele vagão e tantos outros no trem por que aquela mulher fora sentar ali, ao seu lado?

- Natasha, será que poderia trocar de lugar comigo? Posso sentar-me à janela?

Natasha se recompôs em seus pensamentos. Achou uma ousadia da velhinha. Ficou um pouco irritada:

- Por que ao meu lado? Por que justo o meu lugar com tantos outros vazios?

- Minha primeira viagem, em 1911, sentei-me exatamente neste lugar.

Para Natasha o lugar era indiferente. Saiu de seu lugar e deixou que Sarah sentasse onde queria. Era só uma idosa conversadeira e inofensiva e certamente lhe incomodaria pelas próximas 24 horas de viagem. E logo passaria aquela viagem chata e ela ainda riria da situação.

Sentou-se de frente para Sarah, atenta à senhora.

Sarah podia ver Tristan à sua frente... sim ela estava em 1911, na primeira viagem do trem azul. Por que ela ainda estava neste plano? Por que ainda vivia? Tantos e tantos anos se passaram e sem querer ela não conseguiu conter e deixou uma lágrima cair.

- Sarah, está tudo bem? – perguntou Natasha.

- Por que não sabe se acredita no amor, menina?

- Não sei... talvez porque eu nunca tenha vivenciado na minha vida uma história real de amor. Porque acho que ele não faz bem para as pessoas... Não sei ao certo.

- Sabe, fui passageira na primeira viagem do trem azul e agora estou sendo também na última. Talvez eu seja uma privilegiada... Mas você é muito mais privilegiada do que eu.

- Por que acha isto?

- Porque vou te contar uma história inacreditável. Uma história que durou quase um século. Somente meu coração sabe tudo que eu passei nesta vida. Sequer meus netos souberam dos detalhes trágicos que aconteceram neste tempo. É uma história longa, muito longa, com muito sofrimento e dor. Mas no final, você vai acreditar no amor, menina.

Natasha olhou atenta para a velha senhora e pegou seu bloco e sua caneta. Estava ali sua história sobre o trem. O amor, o sofrimento e a vida pessoal de Sarah não importava muito, mas os detalhes das viagens estes sim tinham muita importância.

Sarah lentamente curvou-se e pegou o bloco das mãos de Natasha, jogando pela janela.

Natasha olhou-a confusa. Procurou na bolsa e não tinha pego outro. Olhou para o casal que estava afastado em outro banco e eles conversavam animadamente. Nem perceberam o que havia acontecido.

- Eu precisava daquele bloco. – falou ela brava.

- Tente não me interromper enquanto eu estiver contando a história. – falou Sarah sem se importar com o que havia feito. – É muito difícil voltar quando eu estou lá. Você não vai precisar anotar nada. Eu tenho certeza disto. Tudo vai ficar guardado aqui. – ela colocou a mão no coração de Sarah.

Natasha mesmo sem querer, viu-se fazendo sinal afirmativo com a cabeça.

- Se você fechar os olhos, menina, vai viajar no meu mundo.

Natasha fechou os olhos, como se aquilo fosse uma ordem. Jamais imaginou o quanto aquela história realmente mudaria sua vida para sempre. Não precisava muito esforço para entrar no mundo de Sarah. E realmente era muito, muito difícil sair.

Capítulo 3

Tulipa, 1911. Fazenda Mackerson.

- Sarah, querida, precisa me prometer que vai ficar bem. – pediu Lia.

- Eu não quero ir, Lia. Não quero. – pediu Sarah chorando no colo da babá.

- Precisa ir, meu amor. É uma ordem do seu pai.

- Mas eu não quero. – teimava ela.

Marla entrou porta adentro, perguntando:

- Por que ela está chorando, Lia?

- Não quer ir, senhora. – explicou Lia pacientemente.

- Por que isso, Sarah? Por que não quer viajar?

- Não quero ir sozinha, mamãe!

- Precisa ir, Sarah. Já está com 11 anos. Quando chegar em Deolinda estarão esperando por você. Quando sua irmã partiu era ainda mais nova e não fez isto. Todas as mulheres da família Mackerson frequentaram este internato Sarah e você certamente não fugirá à regra.

- Mamãe, você poderia ir comigo? Eu tenho medo.

- Não estará sozinha, Sarah. Muitas pessoas estarão no trem. É a grande inauguração dele e você estará lá, garota! Quantas pessoas queriam esta passagem e não conseguiram. Por sorte seu pai é muito influente e conseguiu. – disse Marla sorrindo.

- Mas eu não quero... – insistiu Sarah.

- Se insistir com este choro e teimosia seu pai vai ficar aborrecido. E pode até mandar Lia embora para castiga-la. Quer isso, Sarah? Quer que Lia vá embora por sua causa?

Sarah olhou para Lia. Não, não queria que Lia fosse embora por sua causa. E sabia que seu pai poderia fazer isso se quisesse.

- Eu irei sem contestar. – disse Sarah tristemente, limpando as lágrimas.

- Isso, Sarah. Seja uma boa menina e tudo correrá bem. – disse Marla saindo do quarto.

Sarah abraçou Lia que estava sentada ao seu lado na cama.

- Lia e se eu for e você não estiver aqui quando eu voltar?

- Estarei, minha princesinha. Estarei sempre esperando por sua volta.

- Promete?

- Sarah, claro que prometo. Mas você também terá que me prometer uma coisa.

- O que quer, Lia? Eu prometo sim.

- Prometa que sempre lembrará de mim e não me esquecerá quando estiver longe.

- Prometo, Lia. Eu te amo.

- Sarah, você ainda é tão pequenina... apenas 11 anos. Por isso gosta tanto de mim. Quando voltar, dentro de 4 anos, já terá 15 anos, estará em idade para se casar, será quase uma mulher... Sua irmã quando partiu para o internato também era tão apegada à mim... Prometeu nunca esquecer-me. Mas quando voltou daquele lugar me odiava. Acho que me odiou simplesmente pelo fato de eu ser negra. Naquele lugar vão falar mal de algumas pessoas para você, querida. Talvez tentem lhe ensinar que nós negros não somos pessoas como vocês. Tente não acreditar em tudo, minha menina. Não deixe que mudem seu puro coraçãozinho. Você é tão diferente dos Mackerson... Prove para mim que crescerá diferente de todos, Sarah. Mantenha a pureza no seu coração, o amor, o afeto, as inquietudes desta cabecinha que sempre procura explicações para tudo.

- Nunca vou esquecer você, Lia. Gosto tanto de você. – Sarah abraçou a babá. – Por que não vai comigo, Lia?

- Não posso, minha menina. Agora pare de chorar. –disse ela limpando as lágrimas que teimavam em cair no rosto branco e delicado da menina. – Vamos procurar seu pai para que ele a leve logo antes que você perca a partida do trem.

Quando Sarah chegou à sala João, Marla e Júlia estavam à sua espera.

- Despeça-se de todos, Sarah. – ordenou o pai rispidamente.

Sarah deu um longo abraço na mãe, outro na irmã.

- Aquele lugar não é nada bom, Sarah. Mas garanto que você irá se acostumar. – falou Júlia.

- Não a deixe mais insegura do que está, Júlia. – censurou Marla.

Júlia riu. Sarah teve um pouco de medo. Foi dar outro abraço em sua amada Lia, mas foi impedida por João, que pegou-a pelo braço, levando-a dali.

Enquanto caminhavam pelo campo alvo e verde, Sarah continuava com uma imensa vontade de chorar. Mas não podia pois seria severamente castigada pelo pai. Havia sido ensinada que não poderia chorar e caso o fizesse nunca na presença dos outros. Mas sabia que na presença de Lia poderia fazer isso... Na verdade com Lia ela sempre podia ser ela mesma, falar o que pensava, chorar, fazer perguntas sobre o mundo todo.

O caminho foi longo, ainda mais com o silêncio que pairava entre os dois.

Quando Sarah chegou na estação ferroviária ficou ainda mais nervosa. Haviam tantas pessoas... Nunca em sua vida havia visto tanta gente num mesmo lugar. Falavam alto, alguns gritavam, a maioria sorria, crianças choravam, havia bastante poeira ao longe, que o vento trazia para perto deles. Sarah sentia que poderia ser pisoteada a qualquer momento enquanto olhava para cima para ver as pessoas.

- És uma privilegiada, Sarah. – disse João. – Este trem é atualmente o mais famoso do país. É a grande promessa de fartura para nosso estado e para prosperidade do país. E você poderá fazer parte da viagem inaugural dele. Ele é muito veloz... Em pouco mais de um dia você estará em Deolinda. Você tem uma cabine reservada para dormir ou se preferir poderá ficar lá sozinha. Quando quiser ir até lá é só pedir para um funcionário.

- E o que eu faço quando chegar em Tulipa? – perguntou ela ansiosa.

- Uma das freiras responsáveis pelo internato estará esperando por você. Basta fazer sempre o que ela mandar e tudo ficará bem. Quando voltar, será uma moça, estará preparada para o casamento. Saberá se comportar como uma verdadeira dama. É o mínimo que precisa para ser uma verdadeira Mackerson. E até aprenderá a ler, que sempre desejou.

- Papai, pode me acompanhar até o interior do trem? Eu tenho medo. – falou ela num tom quase implorador.

João olhou firmemente para a filha. Ela intensificou o semblante de tristeza, para ver se ele se compadecia. Não que seu pai fosse um homem que se compadecesse de alguém, mas talvez ela sendo sua filha pudesse mudar isso, pelo menos naquele dia. E ela conseguiu. João lhe deu a mão e foi com ela para o interior de um dos vagões.

Ele acomodou-a em um banco próximo da janela, alegando que olhar a paisagem lhe faria bem. Ali era o restaurante. Havia uma mesa à sua frente, com biscoitos enfeitados com merengue e chá quente. Haviam pessoas entrando e saindo o tempo todo, todos muito eufóricos. Homens davam tapinhas nas costas uns dos outros e falavam coisas que ela não entendia. Todos cumprimentavam seu pai cordialmente. Tudo assustava a menina.

- Não tenha medo, Sarah. Tudo vai sair conforme o esperado. – disse João. – Adeus.

Ela tentou, mas não conseguiu evitar as lágrimas. Logo começou a limpá-las com a palma das mãos, lembrando da proibição de chorar em público.

- Adeus, papai.

Antes mesmo de ela poder falar outra palavra vieram alguns homens e disseram para João que o governador precisava falar com ele. E ele se foi, sem sequer olhar para trás, deixando a pequena Sarah ali, frágil, sensível, com medo e completamente indefesa. Estava sozinha no meio de todas aquelas pessoas estranhas. Ela fechou os olhos, respirou profundamente e pensou em sua história favorita, que Lia contava todas as noite, sobre Sandy, a garotinha que conseguiu voar. Lembrava de cada parte: “... a garotinha que não tinha medo e nem sequer sabia de seus poderes. Mas um dia, quando corria perigo, o maior perigo de sua vida, ela fugiu correndo muito e subiu no telhado de uma velha casa para se esconder. Quando percebeu que a feiticeira negra estava próxima ela se viu sem chances e se jogou lá do alto. Mas não teve medo naquele momento. Foi muito corajosa, como sempre. Abriu os olhos e os braços... e saiu voando como um pássaro. Foi aí que ela descobriu que todas as pessoas corajosas tem um pouco de magia guardada em algum lugar para o momento que precisarem. E ela, Sandy, perseguida toda sua vida pela feiticeira, podia agora fazer qualquer coisa que quisesse, inclusive voar...”

Como Sarah amava aquela história e como queria ser como Sandy. Pedia para Lia contar várias vezes a mesma história antes de dormir e na maioria das vezes conversavam sobre a menina, sobre sonhos, sobre magia. O trem apitou, assustando a menina. Em seguida foi partindo lentamente. Todos começaram a bater palmas, tanto quem estava dentro como quem estava fora do trem. Sarah também aplaudiu, sem entender muito bem o porquê de estar fazendo aquilo. Ao lado de Sarah sentou-se uma mulher muito elegante, alta, pelo clara, cabelos longos e encaracolados. Vestia um vestido de pura seda cinza claro e usava um lindo chapéu com laço cinza da cor do vestido. Ela usava batom rosa nos lábios. Como Sarah achava lindo mulheres de batom... e aqueles vestidos... Um dia teria tantos vestidos de seda que nem saberia qual usar! Ela tomava seu chá em uma xícara de porcelana pintada à mãe e havia pedido brioches doces.

- Por que me olha tanto? – perguntou a mulher.

- Nada. – falou Sarah olhando para o outro lado rapidamente, disfarçando.

Ela conseguia ver a paisagem passando pelos seus olhos tão rapidamente. As casas, o verde, o rio, as árvores... o trem andava tão rápido.

Aquele lugar pelo qual o trem passava ela reconheceria de olhos fechados, só pelo cheiro. Era a Fazenda Mackerson. Ela não conseguiu conter a emoção e levantou de seu assento. Queria ver toda a fazenda dali. Podia ver todos os peões trabalhando na plantação. Começou a gritar pela janela... Mas ninguém escutava ela. Já quase nos limites da outra fazenda conseguiu ver Lia ao longe, acenando e correndo pelos campos verdes. Lia estava vendo ela! Uma imensa felicidade tomou conta de si. Lá estava sua Lia... sua amada Lia.

- Adeus, Lia, eu te amo. – gritou ela acenando veementemente.

- É sua babá? – perguntou a senhora que se sentava à sua frente.

- Não... é minha mãe. – mentiu Sarah.

As duas mulheres começaram a rir.

Sarah sentiu-se imensamente triste naquele momento, sendo zombada por aquelas duas mulheres que não conhecia. Levantou-se e foi correndo dali, de vagão em vagão, abrindo e fechando portas. Muitas pessoas, todos os vagões lotados. Depois de algum tempo ela chegou ao que imaginava ser o último vagão. Não haviam mais pessoas e sim malas de viagem... muitas, inúmeras, de todas as cores e tamanhos. Em duas caixinhas num canto dois cachorrinhos confortavelmente acomodados.

Sarah sentou-se no chão, colocou a cabeça entre as pernas e chorou. Chorou sem medo, sem repressão. Chorou enquanto tinha lágrimas. Chorou sem saber quanto tempo se passou. Pensou que realmente queria ser filha de Lia. Tanto Lia quanto todos os demais empregados de seu pai lhe tratavam com mais afeto que sua própria família.

Ela percebeu o chão sujo de terra. Com muita raiva passou as mãos com força sobre aquela terra e depois esfregou nos braços, até que ficassem marrons, da cor de sua querida Lia. Por que ela não nascera como Lia? Por que não nascera filha de Lia?

Não conseguia parar de chorar tamanha tristeza que tomava conta de si.

Ela ouviu um barulho e assustou-se:

- Quem está aí? – pergunto ela limpando as lágrimas rapidamente.

- Não tenha medo.

Ela olhou para o garoto moreno que surgia no meio das malas. A claridade da janela sob o sol iluminava-o completamente, quase como se fosse uma aparição.

- Quem é você? – perguntou ela.

- Meu nome é Tristan. – disse ele.

- O que está fazendo aqui?

- Não falo com pessoas que não sei o nome. – disse ele.

- Meu nome é... Sarah. – disse ela apreensiva.

- Por que está aqui, Sarah? Por que está chorando? –perguntou ele sem sair do lugar, parado, olhando para ela.

Ela tornou a limpar as lágrimas. Um estranho estava vendo ela chorar.

- Desculpe-me. – falou Sarah.

- Por que me pede desculpas?

- Por estar chorando na sua frente.

- Eu não me importo. –falou ele com sinceridade.

- Mas eu não posso chorar na sua frente. Uma mulher não pode chorar na frente dos outros. – falou ela quase que para si mesma.

- Mas você não é uma mulher. É uma menina. –falou ele firmemente.

- Sou... Sou quase uma mulher. – falou ela um pouco irritada com o que ele falara.

- Por que chora, Sarah? Por que está se sujando deste jeito?

- O que você está fazendo aqui?

- Eu perguntei primeiro.

Ele era tão firme em suas perguntas e respostas que Sarah não via outra alternativa senão responder.

- Eu... Estou muito triste. –falou ela.

- Por que uma garota tão bonita e rica como você poderia estar triste?

- Não queria partir. Não queria ir para Deolinda.

- O que irá fazer em Deolinda?

- Vou para um internato para moças.

- Por quê?

- Meus pais querem que eu vá.

- Eles estão com você no trem?

- Não.

- Então não vá para lá. –disse ele encontrando a solução.

- Como se fosse possível não obedecê-los. – disse ela.

- Sarah, você está sozinha neste trem sem conhecer ninguém? Não há alguém acompanhando-a até Deolinda?

- Sim... estou sozinha. E você?

- Sim... Também. –falou ele olhando para o lado, desviando o olhar dela.

- Seus pais também lhe mandaram para um internato? – perguntou ela.

- Claro que não. Eu nem tenho pais. –disse ele.

- Você não tem pais? – perguntou ela. – Mas isso é possível?

Ele riu:

- Sim, é possível.

- Nunca pensei que pudesse haver pessoas sem pais. – confessou ela.

- Está viajando na primeira classe? – perguntou ele.

- Primeira classe? – perguntou ela sem entender a pergunta.

- Um lugar cheio de janelas, comida boa, gente bem vestida. – falou ele.

- Sim... tem tudo isso. –falou ela.

- Então é na primeira classe. O lugar onde os ricos viajam. Dá pra ver olhando para você que é rica.

- Você também está lá, Tristan? – perguntou ela.

- Não... Estou viajando aqui mesmo.

- Com as malas? – perguntou ela sorrindo.

- Sim, com as malas. – riu ele.

Ele ouviram o barulho de um das portas se abrindo.

- Não diga à ninguém que estou aqui, Sarah. Por favor. – pediu ele falando bem baixinho e se escondendo entre as malas.

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