Capítulo 2

Deitado de bruços, com os braços embaixo da cabeça, quase mergulhado em um estado de sonolência, por ter dormido apenas uma hora desde que o dia amanheceu, percebi Luce se movendo pelo quarto, sendo o máximo possível discreta e silenciosa ao se vestir, mas seus movimentos graciosos capturaram minha atenção mesmo através das pálpebras semi fechadas.

A luz suave do quarto delineava suas formas enquanto ela recolhia suas roupas com delicadeza. O jeito como ela pegava as peças com cuidado, revelando sutileza em cada gesto, prendeu minha atenção. A mente ainda sonolenta, mas curiosa, eu a observava de relance, tentando não ser intrusivo em sua privacidade.

Seu olhar concentrado e sua expressão tranquila transmitiam uma sensação de paz. Era como se estivesse testemunhando um momento de intimidade, onde Luce estava em sintonia com sua própria essência. O quarto ganhava vida com sua presença, e o ar parecia carregado com uma energia suave e cativante.

Enquanto ela se vestia, eu me perdia em pequenos detalhes: o movimento gracioso dos cabelos, a maneira como suas mãos encontravam o fecho do colar, a delicadeza ao deslizar as pulseiras em seus pulsos. Tudo parecia acontecer em câmera lenta, e cada gesto dela se tornava um pequeno espetáculo aos meus olhos.

Ao terminar de se vestir, ela se virou em minha direção. Por um breve instante, nossos olhares se cruzaram, e tenho a impressão que não era para estar acordado, nunca estava.

- Não se preocupe que não quero que me leve até a porta - diz ela de repente, pegando a bolsa largada em um canto do quarto.

- Nem o café da manhã do hotel? - sugiro sem perceber, não entendo por quê aquelas palavras saíram com tanta facilidade, sendo que aquele não era o roteiro de sempre - O café da manhã deles é muito bom - finalizo com total convicção.

Já que aquela não era a primeira vez que estava naquele hotel, muito menos naquela cama. O quarto sempre estava reservado para mim e para as possíveis aventuras que encontrava.

Um sorriso discreto se formou em seus lábios, e então ela se dirigiu para fora do quarto, deixando para trás a leve fragrância de sua presença.

Sorrio para mim mesma, lembrando da noite naquele quarto, havia sido quente, muito quente e este era um dos motivos pelos qual gostava de mulheres mais novas, quase inexperientes.

Inicialmente quando vi Luce virando shot de tequilas um atrás do outro, logo deduzi que fosse alguma frustração referente algum relacionamento. A maioria das mulheres que encontrava naquele bar, tinham quase o mesmo problema e naquele momento eu decidia ser na solução.

E estava convicto que naquele noite, havia sido o de Luce, pelo modo como me arranhava e se contorcia em baixo de mim, desejando me sentir por completo. E não satisfeito apenas com um orgasmo, precisei fazer ela gozar mais três vezes, assistindo atentamente ela se desmanchar a cada orgasmo, revirando os olhos nas órbitas e enfiando suas unhas em minha pele.

Decido me levantar, apesar da vontade de continuar dormindo, e segui para o banho. A água quente ajudou a despertar meus sentidos e me preparar para o dia que estava por vir. Após me secar e me vestir adequadamente, percebi que algo estava faltando para começar minha manhã de forma satisfatória: um café forte e revigorante.

A ideia de tomar o café do hotel não me entusiasmava. Ele parecia insosso e sem personalidade, algo que não me satisfaria de verdade. Queria algo especial, um café que me envolvesse com seu aroma e sabor, algo que me ajudasse a enfrentar o dia com energia e prazer. E não ficar em um lugar com casais apaixonados, desfrutando o café da manhã incrível do hotel.

Me lembro de um café charmoso e aconchegante que havia descoberto alguns quarteirões adiante. Era um local encantador, com uma atmosfera acolhedora e um café delicioso.

Eu queria experimentar novamente aquele sabor único e aproveitar um momento só meu.

Decidi sair em busca desse café especial. Enquanto caminhava pelas ruas, podia sentir o ar fresco da manhã e a ansiedade por esse encontro com o café perfeito. Chegando ao local, a atmosfera agradável logo me envolveu. O aroma de grãos recém moídos impregnava o ambiente, e eu sabia que estava prestes a ter uma experiência sensorial incrível.

Ao sentir uma mão tocando suavemente meu ombro, meu coração dá um salto. Ao virar o rosto e erguer as sobrancelhas surpreso, me deparei com o rosto familiar de Emma, minha amiga de infância. Um sorriso espontâneo iluminou meu rosto, e automaticamente me virei para abraçar ela.

- Emma! Não acredito que é você! - exclamei com entusiasmo, ainda surpreso e feliz por ver ela ali, na fila do café, em meio a tantas pessoas desconhecidas.

Ela também sorri e me abraçou com carinho.

-Pois é, que coincidência nos encontrarmos assim! Nem imaginava que poderia te ver por aqui - diz ela, com a voz suave e amigável que me lembrava dos tempos de infância - Ainda mora aqui? - Ela me olha com atenção.

- Nunca saí daqui, Emma - Ela assenti, ainda sorrindo.

- Eu sai mas, voltei - diz encolhendo os ombros, me acompanhando a medida que a fila anda.

- Voltou definitivamente? - questiono duvidando da minha capacidade de processar aquela situação, depois da noite que tive.

- É - diz parecendo desconfortável - Estou de volta na cidade em que juramos que nunca mais voltaríamos - Ela suspira, fixando novamente o olhar em mim - Lembra dessa promessa? - pergunta baixo.

Não costumava fazer promessas. Nunca. Não mais. Com certeza desde criança, quando costumava fazer promessas com a mulher que estava naquele momento ao meu lado, aonde um dia, deixaríamos aquela cidade e moraríamos juntos. Obviamente éramos crianças e não tínhamos ideia de como a vida poderia ser cruel, começando com o fato de nos separar por 21 anos.

- Mas estou feliz em estar aqui - Ela cruza o braço com o meu - Pelo menos encontrei você - Antes mesmo que pudesse responder, ela beija o lado do meu rosto, justamente no momento que eu era o próximo da fila - Nos vemos por aí, Armstrong - Dito isto, ela gira os calcanhares, me deixando ali com a sensação que havia voltado no tempo.

- Senhor? - A voz da atendente impaciente, me puxa para a realidade.

Capítulo 3

Com a sensação de exaustão pesando em meus ombros, saí do banheiro vestida em meu roupão macio e aconchegante. A luz suave do dia espreitava pelas frestas das cortinas do quarto ainda fechadas, lançando um brilho fraco e reconfortante no ambiente.

Caminho lentamente até a minha cama, sentindo o toque macio do carpete sob meus pés descalços. Cada passo era uma espécie de alívio após a noite mal dormida que tive. A briga com Aiden ainda pairava em minha mente, mas, naquele momento, eu queria apenas encontrar um pouco de paz e descanso.

Me deito na cama com um suspiro de alívio, sentindo o conforto dos lençóis frescos abraçando meu corpo cansado. O roupão ainda exalava o aroma suave do sabonete que usei no banho, criando uma atmosfera reconfortante ao meu redor.

Enquanto fechava os olhos, tentei desligar os pensamentos e as emoções que me atormentavam. Ainda podia sentir a intensidade do beijo de Julian, a agressividade e o desejo que nos envolveram. Mas, naquela hora, a necessidade de descanso superava qualquer outro pensamento.

Conforme me acomodava na cama, senti a suavidade dos travesseiros abraçando minha cabeça e o aconchego do edredom cobrindo meu corpo.

Ao ser surpreendida pela entrada repentina de minha mãe em meu quarto, meus olhos se abre rapidamente e me sento na cama, surpreso com sua presença. Ainda sonolenta, tento compreender o que estava acontecendo enquanto ela se jogava na cama com um sorriso contagiante estampado em seu rosto.

- Meu Deus, mãe, você me assustou! - exclamo, esboçando um sorriso leve, mesmo diante da confusão do momento.

Ela ri alegremente, parecendo não se importar com o fato de ter me pego de surpresa.

- Desculpe, querida, eu não pude resistir! - Ela continuava sorrindo, algo surpreendente, pois ultimamente ela não sorria.

Enquanto ela falava, ainda tentava despertar completamente, sentindo uma mistura de sonolência. No entanto, o sorriso caloroso de minha mãe era contagiante, e aos poucos, a atmosfera do quarto começou a ficar mais leve.

Coloco um braço ao redor dela.

- Mas o que trouxe você até aqui? - pergunto rouca pelo sono.

Ela deu de ombros de forma descontraída.

- Só estava passando pelo corredor e pensei que seria bom conversarmos um pouco. Afinal, eu sempre amei essas conversas matinais com você - Ela queria contar, só não sabia como.

- Claro, mãe - digo suavemente.

Ainda sentada na cama, observo minha mãe, Emma, se deitar ao meu lado com um suspiro de satisfação. Seus olhos brilham enquanto ela fixa o olhar no teto, parecendo estar revivendo momentos do passado.

- Sabe, querida, algo realmente incrível aconteceu hoje - diz sorrindo - Comentei algumas vezes sobre meu amigo de infância com você, lembra? - pergunta sem me olhar.

- Claro, mãe! Você sempre falou dele - lembro com um suspiro -O que aconteceu? - pergunto curiosa.

- Acredite ou não, eu o encontrei hoje em uma cafeteria da cidade. Parece que o destino decidiu brincar comigo e cruzar nossos caminhos depois de tantos anos - O sorriso aumenta em seu rosto.

Finjo surpresa, apesar do sono.

- Sério? E como foi o encontro? Vocês conversaram muito? - Deito ao seu lado, lutando com o sono.

Ela suspira.

- Foi maravilhoso. A princípio, estávamos um pouco tímidos, afinal, fazia muito tempo desde a última vez que nos vimos. Mas, aos poucos, a conversa fluiu como se o tempo não tivesse passado. Parecia que estávamos ainda naquela época, trocando sorrisos e segredos - diz nostálgica.

- Deve ter sido um momento muito especial para você - Fecho meus olhos por alguns instantes, apenas para descansar as palpébras.

Sinto sua mão acariciando meu rosto.

- Sim, foi. Ele continua o mesmo cara gentil e divertido de antes. E o mais surpreendente é que eu ainda senti aquela faísca, sabe? A mesma que sentia na adolescência. Parecia que nada mudou entre nós - Não conseguia entender como ela poderia sentir a mesma coisa de mais de vinte anos atrás, mas pelo jeito ela sentia.

- É como se o tempo tivesse parado, né? - murmuro.

- Exatamente. Foi como reencontrar uma parte importante do meu passado, e isso trouxe um sentimento de nostalgia e alegria ao mesmo tempo - Ela faz uma breve pausa - E quem sabe o que o futuro reserva, não é? Por enquanto, vou aproveitar a sensação de reviver essa amizade que foi tão importante para mim.

- E está certa - digo tentando fazer com que aquela nossa “conversa” terminasse.

Se apoiando nos cotovelos, ela me olha.

- Passou a noite com Aiden? - questiona, esperando pacientemente pela minha resposta.

- Não quero falar sobre isto - digo virando de costas, ainda com os olhos fechados.

- Só para lembrar... - diz saindo da cama - você ainda tem caixas para desempacotar e seu quarto para arrumar - Ouço seus passos saindo do quarto.

Com a mente ainda ecoando nas palavras de minha mãe sobre o reencontro com seu crush de infância, me vi novamente lutando contra os pensamentos que me atormentavam. Porém, minha mente insistia em me lembrar do desconhecido que me deixou assada. A lembrança de nosso beijo arrebatador era como uma sombra que se recusava a desaparecer. As imagens invadiam minha mente, despertando excitação.

Sua presença intensa mexeu com algo dentro de mim, uma parte desconhecida que ansiava por ser explorada.

Lentamente, tento esvaziar minha mente, concentrando-me em respirar profundamente. Queria encontrar paz, mas o turbilhão de pensamentos e sensações era uma correnteza forte demais para controlar.

Ainda assim, o cansaço gradualmente começou a me vencer, e os limites entre a realidade e o sonho se tornaram tênues. Enquanto minha mente se entregava ao torpor do sono, uma parte de mim ansiava por encontrar o desconhecido novamente, mesmo sabendo que poderia me deixar mais assada novamente.

No mundo dos sonhos, as fronteiras do real e do imaginário se confundiram. Eu me vi em um cenário diferente do qual estava, um lugar onde as regras da realidade não se aplicavam. E lá, encontrei Julian mais uma vez, sua presença misteriosa me envolvendo em um abraço repleto de desejo.

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