Capa do Romance Sedas e Pérolas

Sedas e Pérolas

9.8 / 10.0
Criada no Brasil, Aisha carrega um nome árabe e o mistério sobre o pai que jamais conheceu. Sua mãe, Marina, fugiu do Líbano grávida para protegê-la da opressão local, acreditando ter garantido um futuro livre à filha. Contudo, o destino inevitável atrai a jovem de volta às suas raízes. Nesse cenário desconhecido, ela enfrentará medos profundos e perigos. Entre o risco da escravidão e o poder de um influente libanês, Aisha descobrirá se o amor pode florescer em meio ao caos.

Sedas e Pérolas Capítulo 1

véu de estrelas

Aisha olhava para o céu negro coberto por cintilantes estrelas que em sua imaginação observava uma majestosa cascata de estrelas que a qualquer momento poderia cobri-la de brilho. As estrelas sempre a fascinou e imaginava infinitas histórias de fantasia com a presença delas em sua vida.

O que Aisha não imaginava era que a noite em que ela nasceu, há 18 anos atrás era uma noite completamente escura, sem a presença de suas encantadoras estrelas. Uma tempestade se formava no céu, com trovões assustadores e raios que atingiam lugares vulneráveis. E essa noite tempestuosa foi o cenário do nascimento de Aisha, a amante das estrelas. Talvez seu amor pela constelação se tornou mais ardente quando sua mãe há dois meses atrás lhe revelou parte de sua vida que ela desconhecia.

Marina sempre tentou de todas as formas ocultar da filha os detalhes de seu relacionamento com seu pai. Tudo que Aisha conhecia de seu pai era uma fotografia cortada pela metade que sua mãe lhe entregou quando ela fez 15 anos. Sempre que ela perguntava coisas sobre seu pai, Marina perdia o controle emocional e se perdia no passado e se expressava por abundantes lágrimas.

Com o passar dos anos e a menina se tornando uma mulher, Marina se viu obrigada a encarar os olhos da filha e revelar toda a verdade. E foi exatamente naquela noite de verão em que encontrou Aisha deitada no gramado que resolveu de uma vez por todas contar a filha seus segredos.

A presença da mãe fez com que ela se levantasse do chão e observasse Marina se aproximar. Marina estava nervosa, mas se esforçou para se mostrar tranquila diante dos olhos curiosos da filha.

Ainda que tivesse uma única filha para dedicar seu papel de mãe, Marina não tinha esse tempo que sonhava viver ao lado dela. Era uma médica cardiologista e estava sempre viajando para conferências e com muitas consultas agendadas todos os dias. Nas férias podiam se aproximar mais e Marina veio a meses se preparando psicologicamente e fisicamente para aquele momento.

Marina era uma excelente médica, pessoas de outros estados do Brasil a procuravam na capital Mineira para consulta-la. Porém mesmo entendendo muito do coração humano, ela não compreendia as razões para que o seu próprio coração se curasse das feridas de seu passado.

Escondia da família seu vício com o álcool, bebia as escondidas na calada da noite e passava a manhã trancada no quarto aos finais de semana para não demonstrar sua ressaca. Aos 45 anos teve uma crise de pânico tão grande que teve consciência de que precisava de ajuda urgentemente. Foi nessa época que buscou por terapia e a cada consulta com o psicólogo conseguiu amenizar sua angustia para finalmente abrir seu coração a sua filha e contar-lhe toda a verdade.

Marina forçou um sorriso e se sentou ao lado de Aisha que correspondeu o sorriso da mãe devolvendo o seu sorriso cheio de alegria em ter a mãe ali do seu lado. Marina não sentia merecer a filha que tinha. Imaginava que a filha se tornasse uma pessoa difícil e revoltada por ter uma mãe tão problemática e que escondia a verdadeira história de seu pai. Mas Aisha era completamente o contrário do que ela temia. Sua filha era compreensiva, obediente e muito amorosa. Sabia que sua mãe sofria muito ao falar de seu passado e por mais que tivesse curiosidade para saber mais sobre seu pai, não queria ver sua mãe sofrer por sua causa.

Em uma época onde a tecnologia conspira a favor do ser humano, não era muito difícil buscar sanar a curiosidade de uma menina que tinha ânsia por conhecer seu pai. Portanto o que Marina ocultava da filha sobre seu passado, ela mesmo buscava por essas informações na internet.

Desde seus 14 anos Aisha buscava saciar sua curiosidade nas redes sociais e em sites específicos, informações sobre seu pai e sua família. Era uma aventura descobrir os rostos de pessoas que ela nunca viu e saber que eram seu sangue. Durante esses quatro anos acompanhando seu pai e sua família pela internet criou um vínculo afetivo por cada rosto que descobria ser um integrante de sua família. Talvez esse fosse o maior defeito de Aisha: desvendar o desconhecido. Ela era destemida e determinada, o que seria uma notável qualidade para uma adolescente do século XXI que muitas vezes se mostravam inseguras para seguir padrões da sociedade contemporânea. Mas Aisha não se importava com padrões, tinha o espirito livre e desde muito pequena aprendera ter sua própria opinião para tudo, para se vestir para ela mesmo e não para impressionar a sociedade. Dessa forma Aisha se desligava das vaidades externas e se preocupava com o intelectual, se dedicando ao máximo nos estudos, pois sonhava ser tornar uma médica conceituada e respeitada como sua mãe.

Sua mãe acariciou seu rosto e segurou em sua mão com carinho. Respirou fundo e olhou com admiração para a filha:

__ Você se tornou uma mulher linda Aisha! Eu tenho muito orgulho de ser sua mãe! (As palavras de Marina soaram com o tom de emoção tão forte que difícil foi para ela reter as lágrimas aquele momento)

Aisha sorriu novamente e abraçou sua mãe, permaneceram abraçadas olhando o céu. As infinitas estrelas cintilantes sob seus olhos. E o silêncio também se fez entre elas. Naquele silêncio Marina buscava forças de sua fraqueza para contar a filha tudo que machucava seu coração e sua alma. Não poderia mais adiar, havia passado dezoito anos e era direito de Aisha saber sobre sua chegada ao mundo.

Aisha sabia que a mãe estava aflita e tentou de forma ingênua acalma-la:

__ Mãe, você acha que um véu coberto de estrelas me deixaria bonita? (A voz da filha a trouxe para a realidade)

__ Um véu? (Perguntou Marina não compreendendo)

__ Eu andei pesquisando sobre meu pai... (Revelou Aisha)

Nesse momento o rosto de Marina se empalideceu, olhava para a filha com pânico. Seu psicólogo havia lhe alertado sobre a possibilidade de Aisha já ter descoberto muito mais coisas a respeito de seu pai e sua família através da facilidade das redes sociais e sites de busca, mas uma mãe erra muito ao subestimar seus filhos. E foi exatamente isso que Marina fez. Ela via Aisha como uma menina ingênua demais para desejar desvendar os mistérios de sua vida que ela ocultava. Não via ou não queria ver os sinais que a filha dava lhe mostrando que já sabia da existência de seu pai e seus familiares. Marina escondia tanto sua dor, que não enxergou sua filha buscando meios de descobrir o que ela omitia.

__ Na cultura de meu pai as mulheres usam véu, o hijab! (Disse Aisha encarando os olhos de sua mãe)

_ Na cultura de seu pai as mulheres vivem oprimidas, apanham, muitas até morrem por resistir as regras. Não se engane pela sedutora aparência... è tudo fachada para encobrir a crueldade que elas passam! (A voz de Marina soava em alto tom e encarava a filha com os olhos marejados de lágrimas)

Tudo que ela havia planejado contar com harmonia e tranquilidade havia se transformado em um contexto de raiva e ódio. O passado chegava com mais força em sua mente e lhe tirava a razão para pensar pacificamente.

__ Eu entendo que a senhora tenha muita mágoa do que deve ter vivido ao lado de meu pai... Não quero que sofra por minha curiosidade... me desculpa... (Aisha disse tentando acalmá-la)

__ É seu direito saber toda a verdade. Hoje eu decidi te contar tudo e é isso que vou fazer! Mas uma coisa eu te peço minha filha, não queira conhecer de perto o que eu passei, não se coloque em minha pele nem por um segundo, porque eu não permitirei que coloque os pés naquela maldita terra de seu pai!

Naquela noite linda e estrelada, Aisha conheceu a história de sua mãe com o libanês Ahmad Al-Sabbah. Um homem muito rico que vivia em uma cidade libanesa por nome Trípoli (em árabe: Ṭarābulus) é a maior cidade do norte do país e a segunda maior do Líbano, situada a 85 kilometros da capital, Beirute. Marina viajou ao Líbano para realizar um intercâmbio com alguns amigos da faculdade e acabou conhecendo Ahmad Al-Sabbah em uma festa de casamento que um de seus amigos fora convidado.

Marina foi obrigada a engolir seu orgulho e confessar a filha que desde a primeira vez que viu seu pai naquela festa, se encantou por ele. Marina usou a palavra encanto para esconder a palavra “Paixão”, pois não estava disposta a se mostrar fraca diante da filha expondo seu passado.

Ahmad Al-Sabbah era um homem árabe muito bonito. Era alto, forte e tinha olhos esverdeados que possuía um forte poder de sedução. Marina na idade de 20 anos se viu completamente apaixonada pelo libanês que a tratava como se fosse uma rainha do oriente. Lhe presenteou com ouro, lhe entregou véus de seda coberto por pérolas raras do mar mediterrâneo e lhe prometeu o mundo se se casasse com ele.

Durante os seis meses que estudavam ali naquele pais, Marina se relacionou com Ahmad Al-Sabbah. E nesse relacionamento Marina vivenciou de perto a cultura e tradições daquele povo. Ela frequentava a mansão de Ahmad, conheceu sua família e logo passou a odiar tudo que pertencia ao mundo árabe.

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