Na manhã seguinte
— Tem algo de errado e vocês não podem me esconder — Charlotte
afirmou minutos antes embarcar no próximo voo.
Mamãe varreu com as mãos os ombros da minha irmã e negou mais
uma vez:
— Claro que não, querida. É coisa da sua cabeça.
— E por que tenho que voltar urgentemente para Stanford?
Dei um passo à frente e a tranquilizei:
— Escute, Charlotte. Você confia em mim?
Ela meneou a cabeça em positiva.
— Então não se preocupe. Eu e a mamãe ficaremos bem e precisamos
que embarque nesse voo hoje mesmo — falei, lhe oferecendo um pedaço de
papel.
— O que isso? — ela perguntou, confusa.
— O número de celular de um colega que conheci em um
acampamento de verão alguns anos atrás. Arón também está estudando em
Stanford e estará esperando você no aeroporto. Por favor, Charlotte, esteja
sempre perto dele na universidade e em hipótese alguma saia do campus ou
da fraternidade sozinha.
— Por que disso agora, Tara? — Pela primeira vez, senti Charlotte se
assustar de fato com a situação. — Por que preciso de alguém para me
proteger? O que está acontecendo? Estamos correndo perigo?
Emudeci.
— Eu tenho o direito de saber. — Ela apertou o punho. — É alguma
coisa com o papai? É isso?
Olhei para minha mãe e ela balançou levemente a cabeça em negativa
para mim.
Eu não poderia revelar a verdade para Charlotte naquele momento,
pois a conhecia suficientemente bem para saber que ela não entraria naquele
voo se soubesse da situação em que nos encontrávamos.
Tornei a fitar o olhar doce de minha irmã e me aproximei para abraçá-
la.
— Vai ficar tudo bem, Lottie. Por favor, você tem que confiar em
mim para que tudo dê certo.
— Eu preciso saber o que está acontecendo para poder confiar em
você, Tara. Eu não conseguirei ficar tranquila sabendo que estão me
escondendo algo.
Apertei seu corpinho contra o meu, encostei os lábios em sua orelha e
sussurrei sem que minha mãe pudesse ouvir:
— Eu coloquei uma carta em sua bolsa antes de sair de casa. Lá eu
explico exatamente tudo. Leia tudo com máxima atenção e cautela quando o
avião alçar voo. — Afastei meu corpo e segurei suas mãos. — Vai dar tudo
certo, irmã. Mas você precisa entrar no avião primeiro.
Ela mordeu o canto dos lábios, contendo as lágrimas.
— Certo.
A voz no alto autofalante do aeroporto anunciou a última chamada,
nos alertando para o tempo.
Charlotte me abraçou novamente, só que dessa vez com mais força.
— Eu te amo.
— Eu te amo muito — respondi, apertando seus cabelos e lutando
contra a vontade imensa de chorar.
Charlotte recuou um passo, com os olhos em lágrimas, e abraçou
nossa mãe também, se despedindo em seguida e caminhando para o portão de
embarque.
Ela olhou para trás, em uma oportunidade derradeira de nos ver pela
última vez, mesmo que por um breve instante, e tão logo se obrigou a seguir
em diante, desparecendo na porta à frente.
Permanecemos ali por alguns minutos, como se estivéssemos
digerindo a partida de Charlotte. Ou talvez só esperando que minha mãe se
virasse para mim e me lembrasse daquilo que foi combinado.
— Temos de voltar logo para casa. Gilbert já deve estar indo ao seu
encontro.
— Não.
Mamãe se virou para mim e indagou:
— Como não?
— Não vou fazer isso, mamãe. Não vou dar minha vida de bandeja
àquele homem.
Ela pareceu inspirar fundo e disse, pausadamente:
— Já havíamos conversado sobre isso. Pensei que já estivesse tudo
certo em sua cabeça, Tara.
Virei para encará-la e disse:
— Eu vou fugir agora. Se quiser, venha comigo, mãe. Caso contrário,
me sentirei profundamente culpada se algo lhe acontecer. Mas essa é minha
vida e você não pode me obrigar a ir ao inferno e continuar vivendo.
Assisti seu rosto endurecer e suas linhas de expressão marcarem ainda
mais sua face. Minha mãe demorou a falar alguma coisa, mas disse depois de
muito pensar:
— Qual o seu plano?
Perseguimos as portas laterais do aeroporto em passos urgentes.
Se tudo desse certo, encontraríamos uma viatura da polícia que nos
levaria à delegacia e eu denunciaria todo o ocorrido, pedindo para que
acionassem a polícia da Califórnia assim que Charlotte tocasse o chão do
aeroporto Internacional de Los Angeles.
Embora mamãe acreditasse que nada que fizéssemos mudaria o nosso
destino, eu tentaria. Morreria tentando caso fosse preciso. E quando eu
chegasse à delegacia, ligaria minha câmera e anunciaria toda essa merda aos
quatro cantos, destruindo a imagem de vida perfeita que construí nos últimos
anos.
— Por favor, nos ajude! — eu disse, me aproximando de um policial
ao lado de uma viatura perto da entrada lateral. Ele era alto, tinha cabelos
pretos e usava óculos escuros.
— Com o que posso ajudar, senhorita?
— Eu e minha mãe estamos sendo perseguidas, precisamos de ajuda!
— quase implorei por aquilo.
— Acalme-se. Claro que posso ajudá-las, vocês estão seguras agora.
Mas precisam me contar exatamente o aconteceu — ele disse, tocando o meu
braço. — Vamos entrando na viatura, as levarei para um local em que
possamos conversar melhor.
— Para delegacia? — mamãe questionou o rapaz.
— Sim, para a delegacia. — ele falou, abrindo a porta.
Mamãe tocou o meu braço, como se quisesse desistir.
— Oh, mãe! Vamos lá, vamos manter a fé — disse, baixinho.
— Senhorita, algum problema? — o policial perguntou atrás de mim.
— Hãm, não, nada! Minha mãe só está assustada.
— Seja lá quem esteja perseguindo sua mãe e a senhorita, não
deixarei que essas pessoas ponham as mãos em vocês. Dou minha palavra.
Senti mamãe relaxar ao meu lado e ela foi convencida pelo homem de
bem em nossa frente.
Dei espaço para que ela pudesse passar e entrar no carro e em seguida
fiz o mesmo, sentando no banco traseiro.
— Aliás, qual é mesmo seu nome? — perguntei para o homem que se
aprumou no lugar do motorista.
Ele retirou os óculos escuros e me respondeu:
— Nico.
— Prazer, Nico. Eu me chamo Tara, e minha mãe, Eleanor.
— O prazer é todo meu, pessoal. — ele respondeu, me encarando pelo
retrovisor com um meio sorriso nos lábios.
Segurei a mão da senhora ao meu lado e sussurrei que tudo ia dar
certo, como um mantra, enquanto Nico dava partida e dirigia para a
delegacia.
A rota começou a ficar estranha quando não prosseguimos pelas
avenidas agitadas de Chicago. Ao invés disso, Nico pegou uma estrada cujos
os lados não tinham nada além de árvores enormes e musgos na base dos
troncos.
Mamãe apertava minha mão com força e eu questionei Nico, que
havia ficado calado desde que saímos do aeroporto.
— Com licença, Nico. Não deveríamos seguir pela cidade?
— Estamos na cidade, srta. Tara. Não se preocupe, estamos quase
parando.
— Tem certeza?
— Absoluta. Olha lá, eles já estão nos esperando — ele disse.
— Eles quem? Nós não estávamos indo para a delegacia?
Olhei rapidamente para a frente através do para-brisa e avistei dois
carros pretos altos, muito semelhantes aos que encontramos no dia anterior
quando chegamos do funeral. Alguns homens de pretos esperavam ao lado do
carro e um nó se formou em minha garganta quando reconheci um deles, o
careca de rosto tatuado.
Não. Não pode ser. Não!
Fitei minha mãe, que estava cabisbaixa, como se já tivesse imaginado
que isso aconteceria.
— Desgraçado! — Avancei pelo banco, socando o vidro blindado
entre nós, fazendo com que as extremidades estremecessem. — Nós
confiamos em você — rosnei.
— Infelizmente, não sou uma pessoa em que possa se confiar,
senhorita — ele declarou.
O homem que se apresentou como Nico parou no acostamento e no
mesmo instante a porta do carro da frente se abriu e aquele homem nojento se
pôs para fora.
Senti todos os meus membros ficarem dormentes, enquanto meu
cérebro era esmagado pela possibilidade do meu corpo ser tocado por aquele
velho asqueroso.
A porta ao lado se abriu em um rompante junto à ordem de Gilbert:
— Saia!
Fiquei parada, escutando as batidas desesperadas de meu coração,
com um grito de socorro entalado na garganta.
— Eu disse para sair, sua vadia insolente! — Ele agarrou meus
cabelos e me puxou para fora, enquanto minha mãe gritava.
Caí no chão, ralando meu braço no asfalto. Ele veio para cima de mim
e espancou um tapa em meu rosto. Mamãe gritou mais alto, pedindo para
parar, no entanto, sua voz foi abafada por alguém.
O covarde me levantou, me segurando pelos cabelos, e disse em meu
ouvido:
— Essa é a última vez que você terá a chance de tentar fugir de mim.
Na próxima, eu corto sua garganta.
— Corte minha garganta agora! — Cuspi em sua cara.
Ele apertou os olhos, respirou fundo e depois os abriu lentamente,
com o inferno no olhar.
— Vai demandar muito tempo para domar você, menina. Mas não me
importo, adoro éguas selvagens. — Ele acariciou o lado do meu rosto com o
dedão e eu fechei os olhos, sentindo minha bochecha queimar com as
lágrimas que vazavam dos meus olhos. — Você me amará, Tara. Ou pelo
menos, me obedecerá. Eu prometo, menina.
Ele se afastou, dizendo alto:
— Dom! Pega a garota.
Olhei para o lado e vi o brucutu tatuado vindo ao meu encontro com
um pano na mão.
— O quê? — perguntei enquanto ele se aproximava e pegava minha
cabeça com a palma da mão com brutalidade. — O que você vai fazer?
Ele não respondeu, apenas cobriu minhas vias respiratórias com um
produto químico, o qual não consegui identificar. Tentei agarrar o punho do
algoz e tentar lutar contra meus sentidos para eu permanecer lúcida, porém
eles foram enfraquecendo a cada fração de segundo, até eu me entregar
completamente aos braços da escuridão.
Algumas horas depois
— Por que exatamente não me quer mais, Brandon? — a voz de
Clarisse no viva-voz reverberava por todo o interior do meu carro, em mais
uma de suas ligações desnecessárias.
— Por favor, não se humilhe desse jeito! — murmurei, apertando o
volante, cansado dos joguinhos dela.
— Você não me ama mais? — ela ronronou do outro lado da linha.
— Quer mesmo que eu responda a essa pergunta?
Ela fez uma breve pausa.
— Então é verdade o que nossos amigos dizem. Você não me ama
mais.
— Eu realmente não sei por que ainda atendo suas ligações. Você
deveria voltar para o seu ex-marido e me deixar em paz.
— Então devo voltar para você? — ela provoca. Às vezes me esqueço
que um dia fomos casados e que ela terminou comigo para se casar com
outro.
— Essa é a última vez que atendo uma ligação sua... — respondi,
perdendo a paciência e tentando entender que pecado eu cometi para merecer
um dia fodido de reuniões na presidência e depois ganhar uma ligação dessas.
— Espera! Espera! Eu estou em Chicago, foi por isso que liguei.
Pensei que fosse se interessar por uma noite com você e eu em uma banheira
de espuma em alguma cobertura de um hotel caro.
— Foi essa a razão de me ligar? Me propor uma transa em um quarto
de hotel?
— Sim. Parece uma proposta maravilhosa, não? Ainda sinto saudade
do gosto do seu corpo. Aposto que também sente saudade da maneira que
faço amor.
Ela só poderia estar de brincadeira. Clarisse definitivamente não
mudou com o tempo, ainda continuava a mesma mulher convencida e
audaciosa.
— Por favor, escute com atenção o que vou dizer. Se eu quisesse ter
uma noite com uma trepada sensacional, você seria a última pessoa em quem
pensaria. Não porque ainda tenho ressentimentos, mas sim porque existem
mulheres que desempenham melhor tal tarefa.
— Você está me humilhando, Brandon.
— Já havia aconselhado a não se humilhar. Passar bem. — Encerrei a
ligação, suspirei profundamente e finalmente me livrei da voz daquela mulher
entrando em meus tímpanos.
Clarisse foi a razão principal para eu acreditar que o amor é uma
dádiva para poucos. Talvez ela fosse a única e última mulher que teve
verdadeiramente meu coração nas mãos. Mas isso era passado, não guardava
mais rancor, tampouco havia reservado sentimentos para minha ex-mulher.
Tornei-me um homem totalmente indiferente a tudo, inclusive ao ódio