Capítulo 2

Ravenmoor tinha esse jeito de te engolir.

Não de repente, não com alardes. Mas devagar, como névoa entrando por baixo da porta enquanto você dormia. Você acordava e simplesmente estava envolta nela, e nem sabia mais quando tinha começado.

Eu vivia aqui desde que tinha memória. Antes disso, também. Mas os "antes" da minha vida começavam com um incêndio, uma cama de hospital e o rosto da Sra. Hargrove, que me acolheu sem muita cerimônia e menos ainda afeto. Sete anos de idade, sem família, sem explicações. Só um arquivo no cartório com o nome Ayla Morgan e um endereço que não existia mais.

Com o tempo aprendi que Ravenmoor era o tipo de cidade onde as perguntas custavam caro. Então eu parei de fazer.

— Você está encarando o nada de novo — disse Kai, jogando o mochilão no banco ao meu lado e deslizando para o assento em frente com a familiaridade de quem fazia aquilo há anos. Porque fazia. — Aconteceu alguma coisa ou você está só sendo você mesma?

— Sendo eu mesma — respondi, empurrando o copo de suco na direção dele. — Pode tomar, não estou com fome.

Ele aceitou sem protestar. Kai Blackwood era assim: nunca desperdiçava comida, nunca perdia uma oportunidade de te chamar de idiota com carinho, e nunca — em dezoito anos de amizade — tinha me deixado sozinha quando importava. Tinha cabelos escuros sempre levemente bagunçados, ombros largos demais para um cara de dezessete anos, e um sorriso que chegava antes de qualquer palavra.

Era meu melhor amigo. Meu único amigo de verdade, se eu fosse honesta comigo mesma.

— Os Hargrove estão te enchendo o saco de novo? — ele perguntou, com a boca já no copo.

— Os Hargrove vivem me enchendo o saco. Isso é o estado natural das coisas.

— Ayla.

— Kai.

Ele me olhou por um segundo a mais do que o necessário. Aquela olhada dele que eu nunca sabia bem como interpretar — séria demais para ser só amizade, leve demais pra ser outra coisa. No final, ele desistiu, como geralmente fazia.

— Tudo bem — cedeu, pousando o copo na mesa. — Mas se quiser dormir no sofá lá de casa essa semana, você sabe que pode.

A família Blackwood era um capítulo à parte. Numerosa, calorosa e barulhenta de um jeito que eu nunca tive em lugar nenhum. O pai de Kai, Reid, era o tipo de homem que preenchia qualquer cômodo onde entrava, não pela altura nem pelo volume, mas por alguma presença intangível que fazia as pessoas recuarem um passo sem perceber. Os irmãos de Kai eram parecidos. Todos eles eram parecidos.

Eu sempre achei curioso. Nunca perguntei por quê.

Saímos da lanchonete por volta das cinco. O sol baixava sobre os telhados de pedra de Ravenmoor com aquela luz dourada e preguiçosa que tornava tudo mais bonito do que realmente era, como maquiagem sobre um rosto cansado. As ruas do centro eram estreitas, calçadas irregulares, e as árvores que cresciam nas calçadas tinham raízes tão antigas que levantavam o asfalto em ondas. Ninguém consertava. As raízes faziam parte da paisagem, e a cidade parecia ter aceito isso há muito tempo.

Foi quando Kai parou.

Fiz dois passos além dele antes de perceber, e me virei para ver o que tinha chamado a atenção. Ele estava com os olhos fixos na rua paralela, a mandíbula levemente tensa, o corpo imóvel da forma que ficava quando estava em alerta. Eu reconhecia esse estado nele desde criança, mesmo sem nunca ter sabido nomear.

— O quê? — perguntei.

— Nada — ele disse. Mas não era nada.

Segui a direção do olhar dele. Uma caminhonete preta e alta estava estacionada na frente da mansão Vael, aquela construção grande e escura que ficava vazia há pelo menos três anos no limite da rua mais antiga da cidade. Homens descarregavam caixas em silêncio enquanto a luz do fim de tarde batia nas janelas da casa como uma espécie de advertência.

— Alguém comprou a mansão? — perguntei.

— Aparentemente.

Havia algo no tom dele que me fez olhar de volta para o rosto de Kai. Não era surpresa. Era reconhecimento.

— Você sabe quem é?

Ele virou para mim e esboçou um sorriso que não chegou aos olhos.

— Não faço ideia — disse. — Vamos embora, está ficando frio.

Era mentira. Eu sabia que era mentira.

Segui assim mesmo.

Capítulo 3

A notícia se espalharia pela escola antes mesmo do sino das oito.

Os Valecliff.

Até eu — que raramente prestava atenção em fofoca — ouvi o nome três vezes antes de chegar à sala de aula. Uma família inteira. Irmãos. Pai e mãe adotivos, comentou alguém. Vindos de... onde? Ninguém sabia ao certo. Europeus, talvez. Ricos, com certeza. O tipo de riqueza que não precisava se anunciar.

— Alguém disse que são uns cinco — começou Priya Mehta, encostada na minha carteira antes da aula começar, visivelmente animada. — Dois irmãos, uma irmã e os pais. E que são absurdamente bonitos.

— Que relevante — murmurei, abrindo o caderno.

— Ayla. Você é incapaz de se empolgar com qualquer coisa.

— Estou empolgada com a prova de literatura.

Ela fez uma careta e voltou para o lugar dela.

Não sabia dizer o que era exatamente, mas desde que vi a caminhonete preta na noite anterior, alguma coisa dentro de mim estava inquieta. Não era curiosidade. Era aquele senso aguçado que aprendi a ignorar, fazendo barulho de novo.

Eles chegaram perto do intervalo.

Eu estava saindo da biblioteca quando os vi atravessando o corredor principal, e entendi de imediato o que Priya quis dizer. Havia neles algo que escapava ao ordinário. Não era só a beleza, embora fossem perturbadoramente belos. Era o modo como se moviam, como ocupavam o espaço — uma graciosidade calma e precisa que parecia calculada, mas que fluía natural demais para ser ensaiada.

A irmã era alta, de cabelos cor de trigo, com um olhar que varria um cômodo inteiro antes de pousar em qualquer ponto específico. Um dos irmãos ria de alguma coisa, com um sorriso fácil que sugeria que achava tudo levemente entediante. A mulher ao fundo observava os dois com a paciência de quem já viu muito.

E o terceiro.

Ele estava um passo atrás dos outros, e foi o único que não estava olhando para nada em específico — até que olhou para mim.

Parei no meio do corredor sem querer.

Era alto, com ombros que preenchiam o casaco escuro de um jeito que fazia o tecido parecer intencional. Cabelo quase preto, olhos que eu não consegui definir à distância — claros demais, escuros demais, alguma coisa entre os dois que não tinha nome certo. Tinha um rosto que poderia ter sido esculpido por alguém que conhecia muito bem geometria e queria fazer o restante do mundo se sentir mal.

O problema era a expressão.

Não havia nada nela, à primeira vista. Mas enquanto o olhar dele me encontrava e ficava — não varria, não deslizava, ficava — algo mudou naqueles traços. Uma fresta de algo que não consegui nomear. Como se tivesse encontrado alguma coisa que não esperava.

Desviei o olhar primeiro. Por instinto, mais do que por escolha.

Quando levantei os olhos de volta, ele ainda estava me olhando.

— Ayla.

A voz de Kai veio de trás. Ele apareceu ao meu lado em dois passos, e a presença dele era tão familiar e sólida que soltei um ar que nem percebi que estava prendendo.

— Você viu? — perguntei baixinho.

— Vi — disse. Tinha algo na voz dele — quieto, apertado — que fez a inquietação no meu peito dobrar de tamanho. — Fica longe deles, Ayla.

Olhei para o lado.

— O quê?

— Só fica — ele repetiu, e o tom não era pedido. Tinha ali algo que se aproximava de urgência, uma seriedade que raramente aparecia no rosto dele. — Por favor.

Eu não entendi naquele momento. Não perguntei, porque o sino bateu e o corredor se encheu de gente e o momento passou.

Mas na hora do almoço, quando cruzei com o de olhos impossíveis no corredor e ele inclinou levemente a cabeça para o lado — como se eu fosse um enigma que ele já tivesse encontrado antes e ainda não tivesse conseguido resolver — eu soube que era tarde demais para ficar longe de qualquer coisa.

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