Capítulo 2

Poder não é sobre ter dinheiro. Dinheiro é apenas o combustível, uma ferramenta para os fracos tentarem se sentir fortes. O verdadeiro poder, o vero potere, é a capacidade de silenciar uma sala sem dizer uma única palavra.

É a certeza de que, se eu fechar os olhos e apontar para qualquer lugar no mapa-múndi, eu possuo uma fração daquela terra, de suas leis e das pessoas que nela respiram.

Eu sou Vincenzo Moretti. Para o mundo, sou o rosto da Moretti Indústrias, o bilionário prodígio que estampa a capa da Forbes e dita o ritmo das bolsas de valores de Nova York a Tóquio. Minha vida pública é uma coreografia de luxo e precisão. Eu bebo vinhos que custam o salário anual de um operário, visto ternos de três peças que são armaduras de seda e governo um império de infraestrutura que sustenta nações.

Mas essa é apenas a pele da serpente.

Por baixo do terno de cinco mil dólares, carrego as cicatrizes de uma linhagem que nunca conheceu a paz.

Eu sou o Don. O chefe da L'Ombra. No submundo, meu nome não é associado a ações ou dividendos, mas a sangue, lealdade e uma impiedade que se tornou lendária. Eu não peço licença; eu tomo. Eu não negocio com traidores; eu os apago da existência. Capisce?

Eu tinha tudo sob controle. Bilhões infinitos que compravam o silêncio de juízes e a submissão de rivais. Minha vida era uma linha reta de frieza e luxúria calculada. Mulheres eram adornos, giocattoli momentâneos que eu descartava antes que o perfume delas impregnasse meus lençóis de linho egípcio.

Até que aquela garota atravessou as portas da minha sala.

Eu estava pronto para mandar aquela estagiária para o inferno. O ataque hacker havia me deixado exposto, uma vulnerabilidade que eu não admitia. E então, uma jovem com um terno maior que o corpo e olhos que pareciam ler o código-fonte do universo começou a falar. Ela não apenas recuperou os dados; ela reconstruiu meu império em minutos, de cabeça. Enquanto ela falava, eu não via apenas uma funcionária. Eu via uma anomalia. Uma maledetta genial.

— Eu quero terminar meu estágio com mérito, senhor — a voz dela foi um soco no meu estômago.

Ninguém me dá as costas. Ninguém se levanta de uma mesa onde eu e meu pai estamos sentados sem que eu autorize. Mas ela o fez. Com a dignidade de uma rainha e a simplicidade de quem vai apenas organizar notas fiscais.

Fiquei observando o movimento dos quadris dela, enquanto caminhava até a porta. Havia algo de errado. Eu sou um homem movido pela lógica e pela força, mas aquela garota... ela era uma senha que eu ainda não tinha decifrado. Uma piccola intrigante com uma mente que valia mais do que todo o ouro no meu cofre.

— Vincenzo — a voz do meu pai me trouxe de volta. Ele ainda olhava para a porta fechada, com a expressão sombria. — Aquela menina não é uma estagiária. Ela é uma arma nuclear. Se ela cair nas mãos dos nossos inimigos, estamos acabados.

— Ela não vai cair — cortei, minha voz saindo mais fria do que o gelo no meu uísque.

Senti um tipo diferente de luxúria queimar nas minhas veias. Não era a fome comum por um corpo bonito, embora ela fosse dona de uma beleza crua e não lapidada. Era o desejo de posse. Possesso.

Olhei para o papel onde ela escreveu as fórmulas que valiam bilhões. A caligrafia dela era firme, elegante. Clarice Lima acha que vai voltar para a contabilidade. Ela acha que sua vida voltará ao normal depois de ter me mostrado o tesouro que carrega entre as têmporas. Ela é jovem, brilhante e acredita no mérito. Poverina.

— Faça o que tem que ser feito, cuide disso, mantenha-me informado. — ele falou.

— Lei è mia — murmurei.

Meu pai me encarou por um longo segundo antes de assentir e sair, deixando-me sozinho com meus pensamentos e com aquele rastro de insolência e genialidade que Clarice havia deixado para trás. Ela achava que voltaria para a contabilidade. Que doce ilusão. Ela não voltaria nem para o andar de baixo.

Caminhei até a minha mesa e apertei o botão do interfone.

— Mande o Malvic entrar. Agora.

Passei as mãos pelo rosto, sentindo a adrenalina do ataque hacker ser substituída por uma antecipação predatória. Dante Malvic cruzou a porta segundos depois.

Ele era meu braço direito, meu sottocapo, o homem encarregado da segurança física e das operações mais sujas da L'Ombra. Seu nome soava como uma maldição sussurrada nos becos da Itália, e sua presença era tão gélida quanto a minha.

— Don Vincenzo — ele disse, curvando a cabeça ligeiramente, mas seus olhos de cobra varreram a sala, parando por um décimo de segundo nos papéis escritos por Clarice. — Soube do sistema. Os técnicos dizem que o ataque bem organizado.

— Foi resolvido já — respondi, sentando-me na minha poltrona de couro. — Mas não pelos seus especialistas inúteis, Malvic. Foi por uma estagiária. Uma garota chamada Clarice Lima.

Malvic arqueou uma sobrancelha. Havia algo no brilho dos olhos dele que não me agradou. Uma curiosidade aguda demais.

— Uma estagiária? Devo cuidar dela? — ele perguntou, e a forma como a palavra "cuidar" saiu de sua boca soou como uma lâmina deslizando no pescoço de alguém.

— Você vai ficar de olho nela, mas não do jeito que está pensando — ordenei, fixando meu olhar no dele, deixando claro quem mandava. — Quero vigilância total. Vinte e quatro horas por dia. Se ela tropeçar na calçada, eu quero saber. Se um homem olhar para ela por mais de dois segundos, eu quero o nome dele.

Malvic deu um sorriso de lado, um gesto que nunca chegava aos seus olhos sem alma.

— Ela é tão valiosa assim?

— Ela tem uma memória fotográfica, Malvic. Ela é o backup de tudo o que este império possui. Ela viu as fórmulas, ela viu os códigos. Ela é o nosso maior ativo... e nossa maior fraqueza se cair em mãos erradas.

— Entendido, Vincenzo. Vou designar meus melhores homens para a "proteção" da senhorita Lima.

— Não — eu o interrompi, sentindo um instinto possessivo que eu nunca havia experimentado. — Você supervisiona, mas ela não deve saber, ninguém deve saber sobre isso. Por enquanto, ela vai pensar que foi promovida por mérito. Quero que ela se sinta segura. Quero que ela confie em mim.

Malvic assentiu e se virou para sair.

— Malvic — chamei, antes que ele cruzasse a porta de carvalho maciço do meu escritório com vista para o Duomo.

— Dite, Don Vincenzo — ele respondeu, parando instantaneamente.

— Aqueles três técnicos de TI que deixaram a porta traseira aberta no sistema... e a Signora Hastings. Quero todos fora do meu prédio em dez minutos. Sem referências, sem bônus de rescisão. Se algum deles abrir a boca sobre o que aconteceu hoje, você sabe o que fazer. Nessuna traccia. Ninguém deixa rastro.

— Sará fatto, Don. Considere o andar limpo.

Fiquei observando suas costas enquanto ele saía. Dante Malvic era eficiente, cruel e leal... ou ao menos era o que acreditava.

Vinte minutos depois, o silêncio na sede da Moretti Global era absoluto. O andar da presidência havia sido purgado. Peguei o telefone de linha direta, sentindo o peso da decisão que acabara de tomar.

— Clarice Lima. Traga-a para minha sala. Subito!

Quando a porta se abriu, Clarice entrou. Ela não parecia assustada, mas seus olhos inteligentes varreram as mesas vazias lá fora. Ela sabia que o tabuleiro tinha mudado.

— O senhor chamou, Signor Moretti? — Ela parou no centro da sala, mantendo as mãos entrelaçadas à frente do corpo.

— A equipe de segurança digital e minha secretária foram dispensadas — falei sem rodeios, mantendo meu tom gélido enquanto caminhava ao redor da minha mesa. — A incompetência deles quase custou o que minha linhagem levou séculos para construir.

Clarice arqueou as sobrancelhas levemente.

— O senhor demitiu a todos? Mas quem vai gerenciar sua agenda? E a segurança do novo servidor que eu criei?

Parei diante dela, invadindo seu espaço pessoal. A diferença de altura a obrigava a inclinar a cabeça para trás para sustentar meu olhar.

— Você — disse, minha voz soando como um comando irrevogável. — A partir deste exato momento, você não é mais uma estagiária. Você assume o cargo de Secretária Executiva da Presidência. Seu salário será ajustado para o novo nível de responsabilidade.

Ela deu um passo atrás, atordoada pela rapidez da ascensão.

— Signor Moretti... aprecio a confiança, mas eu mal terminei meu estágio. Eu...

— Não estou pedindo, Clarice. Estou informando — interrompi, estreitando os olhos. — No entanto, há uma condição. Uma regra que, se quebrada, terá consequências que você não consegue sequer imaginar.

Aproximei-me mais, baixando o tom de voz para um sussurro perigoso que só ela poderia ouvir.

— Ninguém, nessuno, deve saber sobre a sua memória. Para o resto deste prédio e para o mundo lá fora, você é apenas uma secretária eficiente que teve sorte. Se alguém descobrir o que você é capaz de fazer, você deixará de ser uma funcionária e passará a ser um alvo. Capisce?

Vi Clarice engolir em seco. A gravidade nas minhas palavras pareceu finalmente atingi-la.

— Eu não falo sobre isso com ninguém, Signore. Sempre soube que era perigoso — ela respondeu, a voz firme apesar da tensão.

— Ótimo. Mantenha assim. Sua mente agora é propriedade intelectual da Moretti. Guarde-a como se fosse sua vida, porque, na verdade, ela é.

Estava convencido de que, mantendo-a sob minhas vistas e sob o véu do anonimato, ela estaria segura. Eu acreditava que o segredo morreria entre aquelas quatro paredes. Na minha arrogância de Don, achei que ninguém ousaria olhar de perto para a "simples secretária" do homem mais poderoso da Itália.

— Pode ir, Clarice. Sua nova mesa está pronta. Começamos amanhã, às seis da manhã.

Ela assentiu e saiu da sala com a cabeça erguida.

Me recostei na minha poltrona, sentindo uma satisfação sombria. O segredo estava seguro. Ou assim eu pensava.

— Aproveite sua última tarde de anonimato, Clarice — sussurrei — Você será minha secretária pessoal. E controlarei toda a sua vida.

Capítulo 3

Eu saí daquela sala sentindo como se pudesse tocar as nuvens de Milão. Meus pés, cansados pelo terno apertado e pelas horas de tensão, pareciam flutuar sobre o mármore impecável do corredor. Secretária Executiva da Presidência. Um salário dez vezes maior.

Eu não era mais a "menina da contabilidade" que contava moedas para o bilhete do bonde. Eu daria conta. Minha mente já estava organizando as pastas, os horários e as pendências de Vincenzo Moretti com a mesma facilidade com que eu decorava o cardápio da trattoria na esquina de casa.

— Eu consegui, tia... — sussurrei para mim mesma, um sorriso involuntário rasgando meu rosto.

Como a equipe antiga havia sido dispensada e o sistema estava em transição, fui liberada mais cedo.

Eu mal podia esperar para chegar em casa, abraçar a única família que me restava e comemorar com uma garrafa de vinho e uma massa decente. Pela primeira vez em anos, o peso da pobreza parecia ter sido erguido dos meus ombros.

Eu estava quase chegando aos elevadores quando uma figura se desprendeu das sombras das colunas de mármore.

— Complimenti, senhorita Lima. Ou devo dizer... braço direito do Don?

Parei abruptamente. Dante Malvic estava encostado na parede, brincando com um isqueiro de prata. Ele tinha um sorriso que não alcançava os olhos, uma expressão que me fez sentir um calafrio repentino, como se o ar condicionado do prédio tivesse ficado dez graus mais frio.

— Obrigada, senhor Malvic — respondi, tentando manter a voz firme e a confiança que sentia há poucos segundos. — Se me der licença, meu turno acabou.

Tentei passar por ele, mas ele se moveu com uma agilidade predatória, bloqueando sutilmente o meu caminho.

— Você é maravilhosa, Clarice. Realmente — ele disse, inclinando a cabeça, analisando-me como se eu fosse um código difícil de quebrar. — Mas precisa tomar cuidado. Milão é uma cidade linda, mas cheia de fendas. Quem Vincenzo Moretti chama para perto de si... geralmente acaba virando um alvo.

Meu coração falhou uma batida. Mantive o rosto inexpressivo, usando minha memória para buscar qualquer menção a "alvos" nos manuais da empresa, mas eu sabia que ele não falava de negócios legais.

— Não entendo o que o senhor quer dizer, senhor Malvic. Sou apenas uma secretária promovida — menti, sustentando o olhar.

Dante soltou uma risada curta, um som seco que ecoou pelo corredor vazio.

— Ah, si? Você entende perfeitamente. Vi o jeito que ele olha para você agora. Vincenzo acha que pode esconder um tesouro apenas o cobrindo com um pano.

Ele se aproximou um pouco mais, e o cheiro de tabaco e couro caro me sufocou por um instante.

— Mas escute bem, piccola: a verdade é que você não precisa de Vincenzo Moretti para ser um alvo. Algumas pessoas brilham tanto que atraem a escuridão por conta própria.

— Eu realmente preciso ir — cortei, desviando dele e apertando o botão do elevador com urgência.

As portas se abriram e eu entrei, sem olhar para trás até que o metal se fechasse. Mas, antes que a fresta sumisse, eu o vi. Dante ainda estava lá, parado, sorrindo de um jeito que dizia que ele sabia exatamente o que eu estava tentando esconder.

A euforia de minutos atrás tinha evaporado.

No trajeto para casa, as luzes de Milão já não pareciam tão brilhantes.

Pela primeira vez, senti que minha memória fotográfica não era apenas uma benção para me tirar da pobreza, mas um farol que tinha acabado de acender para todos os predadores da Itália.

Cheguei ao bairro simples, subi as escadas do nosso prédio antigo no bairro de Navigli quase sem fôlego, não pelo cansaço, mas pela pressa de descarregar a novidade. O corrimão de ferro batido e o cheiro de manjericão vindo dos vizinhos sempre foram o meu porto seguro, mas hoje, aquele cenário parecia pequeno demais para o tamanho do meu futuro.

— Tia! Tia Maria, cheguei! — gritei, abrindo a porta de madeira que rangeu como se reclamasse da minha euforia.

Minha tia apareceu na cozinha, limpando as mãos no avental. Seus olhos, cansados de anos de trabalho em uma lavanderia industrial, brilharam ao me ver.

— Clarice, cara mia, por que chegou tão cedo? Aconteceu algo na contabilidade?

— Aconteceu tudo! — Joguei minha bolsa no sofá gasto e a abracei com tanta força que ela riu.

— Eu fui promovida, tia. Não sou mais estagiária. Vou ser a Secretária Executiva do Signor Moretti. Vou ganhar dez vezes mais!

Tia Maria deu um grito abafado, levando as mãos ao rosto. Para ela, Vincenzo Moretti era apenas um nome nos jornais, um grande empresário que dava empregos e mantinha a economia da Itália girando. Ela não sabia nada sobre a L'Ombra, sobre os códigos apagados ou sobre o olhar gélido de Dante Malvic. E eu faria de tudo para que ela continuasse sem saber.

— Dez vezes mais? Dio mio! — Ela me benzeu rapidamente. — Eu sabia que seu dom, essa sua cabeça maravilhosa, ainda ia nos salvar. O Signor Moretti deve ser um homem muito sábio para reconhecer o seu valor.

— Ele é... decidido - respondi, tentando afastar a imagem do rosto de Vincenzo tão perto do meu.

— Chega de conversa! — Tia Maria disse, tirando o avental com uma energia que eu não via nela há tempos. — Hoje não vamos comer sobras de polenta. Tenho uma reserva guardada para uma emergência, e essa é a melhor emergência da minha vida. Vamos jantar fora, Clarice. Naquela trattoria que você sempre olha pela vitrine.

— Tia, não precisa usar suas economias, eu vou ganhar...

— Shh! — Ela me calou com um gesto. — Hoje é por minha conta. Amanhã, quando o primeiro salário cair, você me devolve.

Enquanto eu me arrumava, olhando para o meu único vestido um pouco mais elegante, uma promessa se firmava na minha mente.

Eu olhava para os móveis descascados e para as contas de luz empilhadas na mesa da cozinha e jurava a mim mesma: devolveria cada centavo para aquela mulher. Daria a ela uma casa onde o teto não vazasse, roupas de seda e todo o descanso que ela nunca teve.

Saímos de braços dados pelas ruas de paralelepípedos. O jantar foi mágico. O gosto do vinho tinto, o risoto de açafrão perfeito, o riso da minha tia... Por algumas horas, eu esqueci o aviso de Malvic.

Esqueci que era um "alvo". Era apenas uma jovem de vinte e três anos celebrando o mérito que tanto persegui.

Mas, ao voltarmos para casa, notei um carro preto estacionado na esquina. Um sedã escuro, com vidros fumê, que parecia deslocado naquela rua simples. Meus olhos, condicionados a não esquecer nada, registraram a placa: MN 042 DX.

— Algum problema, querida? — perguntou minha tia, percebendo que parei por um segundo.

— Nenhum, tia. Só o cansaço. — Sorri, mas um calafrio percorreu minha espinha.

Vincenzo tinha dito que eu estaria segura. Mas aquele carro não parecia proteção. Parecia uma vigília. Eu tinha subido ao topo do mundo em um único dia, e agora, o mundo estava começando a olhar de volta para mim.

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