Amanda Martins
Estou no meu escritório terminando o relatório final do meu último cliente quando o telefone toca. Só mais esse relatório e finalmente férias.
– Oi Flor. – Flor é minha secretária e amiga, trabalhamos juntas a um tempo na empresa de consultoria contábil do meu pai.
– Mandy o senhor Martins está pedindo que você vá a uma reunião com um novo cliente às dezesseis horas na sala dele. Posso confirmar? – Ela diz calmamente quase querendo evitar algum resmungo meu.
– Sim, por favor. Confirme. – Solto um suspiro longo e cansado. – Depois dessa reunião eu tenho mais alguma coisa?
– Não, por hoje é isso. – Ela diz e sinto que está sorrindo, já imagino o que seja.
– Ah Flor, eu jurava que depois dessa última ia poder tirar férias. – Digo ficando emburrada e fechando a cara instantaneamente mesmo ela não podendo me ver. – Nem adianta vir cheia de sorrisos para mim, se eu não tiro férias você também não tira.
– Espera! – ela diz num tom agudo e desliga na minha cara, me deixando ainda mais irritada, coloco o telefone no lugar e aguardo a entrada triunfal da bonita.
Não demora muito ela entra na minha sala com um enorme sorriso no rosto.
– Sabe Mandy eu não estou ligando muito para as férias, já é a terceira vez que remarcados, MAS...– ela enfatiza me deixando curiosa. – é a primeira vez que temos um gato trabalhando no nosso andar.
– O que? – olho para ela confusa – que gato?
– Minha querida, seu pai acabou de contratar um novo contador, ele está ocupando o escritório ao lado – ela aponta para a parede do lado esquerdo do meu escritório. – Tem que ver como é bonito, se chama Thomas Clark.
– Só você mesmo para me fazer feliz a essas horas. – digo rindo da sua cara de safada – agora me diz, é gato tipo muito gato?
– Mulher, um verdadeiro Deus grego. Poderíamos organizar as suas coisas para a reunião com seu pai lá na minha mesa, daqui a pouco ele termina com o cliente que está atendendo agora e você poderá ver com seus lindos olhos castanhos a veracidade das minhas palavras. – diz se aproximando da minha mesa.
– Ok, mas vê se disfarça. Você não sabe ser discreta. – Me levanto arrumando minha saia.
Olho para Flor que é uma linda mulher, tem os cabelos castanhos iguais aos meus só que cacheados na altura dos ombros, olhos verdes, usa saltos bem altos pois tem uma estatura baixa. Adora um belo romance, então vive com novos contatinhos.
Nos conhecemos quando comecei a trabalhar aqui e ela foi a escolhida para ser a secretária da filha do chefe, além de auxiliar os outros contadores em pequenas tarefas. Seguimos até a sua mesa que fica do lado de fora da minha sala em uma salinha adjacente de onde ela tem a visão de tudo que acontece no andar, inclusive uma ótima vista para a sala ao lado da minha.
Ela se senta em sua cadeira e eu me sento na sua frente com a minha cadeira de lado, de modo que posso ter uma ótima visão da sala vizinha a minha. Conversamos um pouco e logo escutamos vozes vindas de lá, a porta se abre e dois senhores saem acompanhados de um homem realmente muito bonito. Seu sorriso é calmo e radiante.
Ele tem a pele negra, careca estiloso, barba por fazer, mas bem desenhada. O corpo bonito se molda perfeitamente em seu terno cinza.
Ele se despede dos homens a sua frente e se vira na nossa direção, tem os olhos negros mais intensos que já vi. Seu sorriso aumenta quando vê que estamos olhando para ele.
– Boa tarde garotas! – nos cumprimenta de forma que faz Flor arregalar os olhos verdes e corar, eu nunca a vi corar isso era novo para mim. Ele caminha em nossa direção e me estende a mão. – Não fomos apresentados ainda, me chamo Thomas Clark.
– Olá senhor Clark, me chamo Amanda Martins– estendo a mão pegando na dele de forma educada. – Seja bem-vindo!
Eu dou um sorriso para ele e me viro para minha colega que está estranhamente calada olhando fixamente para o homem a nossa frente.
– Obrigada senhorita. – Ele olha para minha amiga e seu sorriso fica ainda mais radiante– senhorita Flor, é bom te ver novamente, não tinha te visto hoje ainda.
Ela continua olhando para ele de forma estranha e eu me levanto indo em sua direção atrás da mesa a apertando de lado, ela parece sair do transe e pisca algumas vezes ainda o olhando.
– Ahn, olá senhor. – Ela se engasga nitidamente nervosa. Aquilo era bem engraçado de se ver. – Estávamos em reunião a manhã toda, precisa de alguma coisa? – Amém, ela voltou a si.
Eu já estava achando bem divertido essa situação. Dei uma risada disfarçada com uma pequena tosse. Ela me olha com raiva e eu me seguro mais ainda para não rir alto.
– Não preciso de nada, obrigado. – Ele passa a mão no queixo e ela segue seus movimentos com o olhar – adoraria que me chamassem apenas de Thomas, somos colegas de trabalho agora. E que tal tomarmos um café na cafeteria aqui da frente? Fui hoje de manhã e o atendimento é bem rápido, então não atrapalharia o rendimento do trabalho.
– Ah, eu realmente adoraria ir – digo segurando mais uma risada – mas tenho uma reunião com o senhor Martins em dez minutos, mas vocês dois poderiam ir, aproveita Flor e tira o resto do dia de folga, vou para casa logo depois da reunião. Ela me olha com os olhos indecisos, mas concorda.
– Claro, se não for incômodo ir apenas nós dois senhor... quer dizer Thomas.
– Não, claro que não. Seria ainda mais interessante. Vamos então?
– Vamos sim... – ela se levanta e pega a sua bolsa. – Nos falamos mais tarde Mandy? – pergunta com um grande sorriso no rosto e uma piscadinha.
– Claro! Te mando mensagem quando eu chegar em casa. Se divirtam. – Amanda Martins dando uma de cupido, quem diria.
Dou uma pequena risada enquanto vejo os dois caminhando até o elevador. Pego a minha bolsa e sigo para a sala do meu pai que fica no final do corredor. Vamos ver o que me espera dessa vez...
Amanda Martins
Paro na frente do escritório do meu pai o senhor Samuel Martins aliso o vestido que estou usando tirando o amarrotado imaginário dele, bato na porta e espero sua autorização para entrar, assim que ele o faz eu entro e me deparo com seus olhos castanhos iguais aos meus me olhando curioso.
– Chegou cedo filha. – Ele diz apontando a cadeira da esquerda a sua frente para que eu me sente, assim eu faço.
– Apenas dez minutos adiantada pai. – Lanço um sorriso carinhoso para ele. – O que tem de tão importante nesse cliente que vai me fazer adiar minhas férias novamente?
Meu pai me olha curioso, eu nunca fui de fazer esse tipo de pergunta até porque trabalho é trabalho e eu nunca recuso ou questiono. Mas seu olhar me diz que o negócio é sério pois não quis indicar nenhum outro contador da empresa.
– Querida esse cliente é realmente importante, mas muito mais que isso é um amigo de longa data e ele me pediu o melhor dos melhores e esse alguém é você.
Abro um sorriso para ele feliz por receber esse elogio, sei que vindo dele é algo muito verdadeiro, ele não passa a mão na minha cabeça só porque sou filha dele. Ao contrário do que muitas pessoas pensam lutei muito para estar onde estou.
Não fui criada pelo meu pai, na verdade ele não sabia da minha existência. Foi quando eu tinha quinze anos que minha mãe ficou muito doente então um pouco antes de morrer me deu seu nome e seu telefone pois se ela partisse eu não iria ter ninguém no mundo e iria para um orfanato até completar a maioridade.
Entrei em contato com ele e expliquei toda a situação, ele pareceu confuso no começo, mas apenas até eu falar o nome da minha mãe, ele pediu todos os dados importantes para que fosse me ver e realmente foi.
Ele de primeira me olhou nos olhos e me abraçou forte. Minha mãe e ele viveram um romance nas férias de verão que ele passou no Brasil com sua família antes de ele ir estudar fora do país.
Eles se separaram sem eles saberem que haviam feito um filho junto. Minha mãe depois que descobriu foi atrás da família dele para contar mais foi impedida pelos meus avós paternos.
Eles a ajudaram financeiramente até morrerem em um acidente de avião dois anos antes de minha mãe descobrir que estava doente, isso sem contar da minha existência para meu pai e também sem ter nenhum contato direto comigo.
Quando eu vi meu pai pela primeira vez percebi que realmente não era nada parecida com minha mãe, eu sou igual ao meu pai. Ele chegou a se casar, mas não teve outros filhos, era apenas eu. Sua ex-mulher não queria e ele acatou sua decisão.
Seu casamento durou pouco tempo, pouco mais de três anos e simplesmente não deu certo e ele não chegou a se casar novamente.
Depois da morte da minha mãe ele me trouxe para Nova York com ele e me colocou em uma das melhores escolas da cidade, sempre nas minhas horas vagas vinha até seu escritório e o via trabalhar e o ajudava, assim eu ficava mais tempo com ele e com o tempo me apaixonei pelo ofício, com isso eu resolvi seguir seu caminho e fiz faculdade de contabilidade e finanças, além de algumas pós-graduações e um mestrado também na área. Hoje sou seu braço direito em sua empresa.
Saio de meu devaneio no momento em que a secretária do meu pai bate na porta anunciando o senhor Jorge McNa.
Aquele homem junto com sua família era o dono de praticamente metade dos hotéis de Nova York. Esse realmente era um cliente e tanto, acredito que o melhor que já tivemos em todos esses anos que trabalho aqui.
O homem é realmente elegante e usa um terno sob medida, ele entra na sala e meu pai vai até ele o cumprimentar, me levanto e deixo que meu pai nos apresente. Dadas as apresentações tomamos nossos lugares e iniciamos as negociações.
Com o passar do tempo percebo que o senhor Jorge está com a raiva contida, o que é no mínimo plausível, aquilo tudo que está acontecendo em sua empresa é um tremendo absurdo, realmente a empresa dele está precisando de serviços especializados já que seus funcionários podem estar roubando-os na cara dura a muito tempo.
Vai ser a primeira vez que vou trabalhar em uma situação como essa, nas outras vezes que dei minha consultoria era para aprimoramento de serviços ou organização ornamental, agora trabalhar com um possível roubo e tentar achar o culpado era nova para mim. Mas eu vou dar o meu melhor como sempre faço.
Meu pai mesmo disse que sou a melhor das melhores então devo fazer por merecer esse posto. Terminamos nossa reunião já com outra para o dia seguinte marcada. Vou trabalhar na empresa deles nesse meio tempo para descobrir mais lá de dentro, outra coisa inédita para mim, me ausentar da minha própria empresa.
Mas devo fazer tudo o que for necessário e dessa forma ficará mais fácil ter acesso a tudo e todos.
O trabalho será totalmente sigiloso para que o criminoso não seja alertado. Saberei mais sobre o "cargo" que irei assumir amanhã durante uma reunião com o atual CEO, sobrinho do senhor Jorge McNa.
Logo após a reunião acabar vou para meu apartamento, estou exausta e com fome. Vejo que Lúcia minha governanta deixou comida pronta para mim na geladeira, contida típica brasileira esquento e a como com gosto, logo depois tomo um banho quentinho e bem demorado para tirar todo o estresse e dores do corpo, me seco e em seguida sigo para o meu quarto e me jogo na cama nua mesmo, adoro a sensação do lençol macio e cheiroso no meu corpo.
Mando uma mensagem para a Flor perguntando como que foi com o gato do escritório, mas ela não me responde então coloco meu celular para despertar mais cedo do que o habitual já que amanhã as nove horas tenho que estar no escritório do senhor Miguel McNa para nossa primeira reunião. Coloco o celular para carregar na mesinha de cabeceira e me aconchego para dormir, pego no sono logo em seguida, sem sonhos ou pesadelos, apenas a expectativa de ser feliz nesse novo trabalho.