Capítulo 2

Ponto de Vista: Helena Vasconcelos

"Era da minha mãe", engasguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, misturando-se com a sujeira. "É uma herança de família. É para minha... para minha futura cunhada."

As palavras eram para apaziguá-la, para mostrar a ela que era para ser dela, mas tiveram o efeito oposto. Sua mente, já distorcida pelo delírio, as transformou em algo monstruoso.

"Da mãe dele?", ela berrou, sua voz rachando de fúria. "Ele te deu o medalhão da mãe dele? Ele prometeu isso para mim!"

Seu aperto no meu cabelo se intensificou até eu pensar que meu couro cabeludo ia rasgar. Com a outra mão, ela agarrou o medalhão e o arrancou do meu pescoço. A corrente delicada estalou, cortando minha pele.

"Ele mentiu para mim!", ela gritou, mais para si mesma do que para mim. "Aquele mentiroso, traidor desgraçado! Ele me prometeu!" Ela encarou o medalhão em sua palma como se fosse uma cobra venenosa. Então ela olhou do medalhão para a forma imóvel de João, e uma nova e horrível ideia criou raiz em seus olhos.

"Isso é culpa sua", ela sussurrou, sua voz perigosamente calma. "Tudo isso. Se você e seu bastardinho não estivessem aqui, nada disso teria acontecido."

Ela pegou o celular e discou um número. "Fred? Sou eu. Preciso de você no Parque das Flores. Sim, agora. Tem um problema que precisa ser resolvido."

Meu coração parou. Fred. O irmão dela. Um criminoso de quinta categoria que Guilherme uma vez pagou para ficar longe de Janaína.

"Por favor", implorei, minha voz rouca. "Por favor, Janaína, estou te implorando. Apenas olhe para ele. Ele é uma criança. Ele só tem dez anos. Ele vai morrer."

Seu parceiro, o homem que ficou em silêncio, deu um passo hesitante para a frente. "Janaína, talvez a gente devesse só... o garoto está parando. Precisamos transportar."

"Fique fora disso, Marcos", ela retrucou sem olhar para ele. "Ou eu vou garantir que você passe o resto da sua carreira limpando comadres em um asilo."

Ele se encolheu como se tivesse sido atingido e imediatamente recuou, o rosto pálido. Minha última centelha de esperança morreu.

Eu me arrastei de quatro em direção a João, meu corpo doendo. "Janaína, por favor. Pelo amor de Deus, ele vai morrer. O cérebro dele está sendo privado de oxigênio."

Ela olhou para mim, o rosto uma máscara de fria satisfação. "Ótimo."

"O quê?" A palavra foi um suspiro estrangulado.

"Eu disse ótimo", ela repetiu, saboreando a palavra. "Eu quero que ele morra. Não vou criar o pirralho de outra mulher. Não serei madrasta. Guilherme e eu vamos ter nossos próprios filhos. Filhos perfeitos."

"Ele não é meu filho!", gritei, a negação rasgando minha garganta. "Ele é meu irmão! Meu irmão!"

Ela apenas riu, um som completamente desprovido de calor. "Que história conveniente."

Uma caminhonete empoeirada parou com um guincho ao lado da ambulância, e uma montanha de homem saiu. Ele era grande, com a cabeça raspada, tatuagens grosseiras subindo pelo pescoço e os mesmos olhos pálidos e cruéis de sua irmã. Fred Werner.

Ele examinou a cena, seu olhar demorando em mim com nojo aberto. "É essa a vadia?"

"É ela", disse Janaína, sua confiança crescendo com a chegada dele. "Ela tem tentado roubar o Guilherme de mim. Até teve um filho com ele para prendê-lo."

Fred grunhiu, me medindo de cima a baixo. "Ela não é grande coisa." Ele sorriu de lado. "Mas aposto que dá um caldo."

"Obrigada por vir, Fred", disse Janaína, se exibindo sob a aprovação brutal dele. Ela caminhou até mim, agarrando meu queixo e forçando minha cabeça para cima. "Agora, onde estávamos?"

"Por favor", solucei, olhando além dela para o monstro que ela chamava de irmão. "Por favor, apenas salvem meu filho... meu irmão... apenas salvem o menino!"

Os olhos de Janaína brilharam com uma ideia maliciosa. "Você quer que eu o salve?", ela ronronou. "Tudo bem. Eu o salvo. Mas vai te custar."

Ela se inclinou para perto, seu hálito quente e azedo contra minha bochecha. "Fique de joelhos. E você vai me dizer, e para o meu irmão, e para os amigos dele, exatamente que vadia inútil e ladra de maridos você é."

Capítulo 3

Ponto de Vista: Helena Vasconcelos

As palavras pairaram no ar, tão vis, tão completamente insanas, que por um momento, eu não consegui processá-las. Minha mente simplesmente se recusou.

"O que você disse?", sussurrei.

A paciência de Janaína se esgotou. Ela agarrou meu braço e o torceu atrás das minhas costas, forçando um grito de dor dos meus lábios. "Não tenho tempo para me repetir", ela sibilou. "Olhe para ele."

Ela puxou minha cabeça em direção a João. Seus lábios estavam azuis. Seu peito estava imóvel. Uma quietude aterrorizante que gritava finalidade.

Eu estava encurralada. Total e completamente indefesa. Fred e dois de seus amigos brutamontes se espalharam, criando uma jaula humana ao meu redor. Seus olhos percorriam meu corpo, despindo-me com seus olhares lascivos. Um deles lambeu os lábios. Instintivamente, tentei fechar minha blusa rasgada, um gesto patético de modéstia diante de tal violação.

Lágrimas de puro e absoluto desespero queimaram meus olhos. "Por favor", chorei, a palavra perdendo todo o significado.

Janaína apenas zombou. "Lágrimas não vão salvá-lo." Ela olhou para o relógio. "O cérebro dele está sem oxigênio suficiente há quase oito minutos. Ele já pode ter danos permanentes. Mais alguns minutos, e não importará o que eu faça."

A frieza clínica de suas palavras era mais aterrorizante do que qualquer ameaça física. Ela segurava a vida do meu irmão em suas mãos, e estava gostando de vê-la escapar.

Pensei em Guilherme, em como ele descreveu Janaína como apenas "um pouco grudenta" e "melodramática". Ele não tinha ideia. Ele não poderia ter imaginado esse nível de monstruosidade. Isso não era melodrama; era maldade pura e psicopata.

"Anda logo com isso", Fred grunhiu, me cutucando com a ponta da bota. "Não tenho o dia todo."

Janaína pegou o celular e apertou para gravar, a luz vermelha um olho malévolo encarando minha alma. "O tempo está correndo", ela cantarolou.

Não havia escolha. Por João. Pela pequena e vacilante chance de que essa monstra cumprisse sua palavra.

Caí de joelhos no chão duro e implacável. O cascalho cravou na minha pele. Os amigos de Fred riram.

"A vista daqui de baixo é boa", um deles arrastou as palavras.

Vergonha, quente e ácida, subiu pela minha garganta. Meu corpo tremia com uma mistura de dor, medo e humilhação total. "Você... você vai ajudá-lo se eu fizer isso?", perguntei, minha voz mal um sussurro.

"Talvez", disse Janaína, seu sorriso se alargando. "Depende do quão convincente você for." Ela aproximou o celular, enquadrando meu rosto. "Olhe para a câmera. E quero que você comece tirando a blusa."

Minha respiração engatou.

"Faça", ela ordenou, sua voz como aço. "Ou devo dizer ao Marcos para ligar para o IML agora?"

"Não!", gritei, o som arrancado de mim. "Ok. Ok."

Meus dedos, dormentes e desajeitados, foram para os botões da minha blusa. Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui realizar a tarefa simples. O tecido parecia um escudo, e eu estava prestes a jogá-lo fora.

Os olhos de Janaína me devoraram, um brilho faminto e predatório em suas profundezas.

Com a blusa fora, deixando-me apenas com uma regata fina, olhei para ela, meus olhos suplicantes. "Agora você vai ajudá-lo?"

"Ainda não", ela ronronou. "Agora, repita depois de mim. 'Meu nome é Helena Vasconcelos, e eu sou uma vadia inútil.'"

As palavras eram veneno. Pareciam engolir cacos de vidro. Mas o rosto de João, pálido e imóvel, nadava diante dos meus olhos.

Respirei fundo, trêmula, olhei para a lente impassível do celular e forcei a mentira a sair dos meus lábios. "Meu nome é Helena Vasconcelos... e eu sou uma vadia inútil."

"Eu seduzi um homem que já era comprometido", Janaína ditou, sua voz pingando veneno.

"...Eu seduzi um homem que já era comprometido."

"Eu sou uma destruidora de lares patética que merece ser punida."

"...Eu sou uma destruidora de lares patética... que merece ser punida." Cada palavra era mais um pedaço da minha alma sendo arrancado.

"Agora, por favor", solucei, minha voz quebrando completamente. "Por favor, Janaína. Salve meu menino. Salve meu João."

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