Não sabia ao certo que horas eram quando comecei a ouvir gritaria cada vez mais próxima. Lucas dormia na minha cama e parecia em um sono profundo. Levantei cuidadosamente para não acordá-lo. Meu pai Osvaldo poderia ter um treco caso eu não aparecesse logo em sua frente. Eu tinha que enfrentar a fera e ser forte porque ele era um pai muito controlador. Saí do quarto tombando por onde passava. No momento em que cheguei na sala de estar com os cabelos desgrenhados e ofegante, fui recebida com um tapa que me fez ficar tonta.
— Por que desonrou nossa família desse jeito? Um filho Luara? E branco? O que vão pensar da nossa família? Eu deveria te colocar pra fora daqui junto com esse menino, mas não vou, sabe por quê? Porque ao contrário de você eu tenho honra!
Esfreguei meu rosto enquanto engolia o choro. Não queria que Lucas acordasse com toda aquela gritaria desnecessária.
— Não esperava menos do senhor. O grandíssimo Osvaldo Arantes! Não pense que vamos ficar muito tempo sob esse teto. Meu filho e eu logo sairemos dessa casa onde não somos bem-vindos. Vou conseguir um emprego e vou virar as costas pra todos vocês!
Eu tinha meu orgulho e também não queria ficar na jaula dos leões por muito tempo. Resolvi sair de casa para respirar um pouco. Meu rosto formigava do tapa ardido que levei. Do lado de fora de casa avistei quem não queria ver nunca mais. Yago filho de Marieta, nossa cozinheira.
— Quando você voltou? — questionou, aproximando-se. — Nossa, você não mudou nada!
Tirei suas mãos de cima de mim. Yago era um filho da puta. O que pensou ao se aproximar? Que eu era a mesma idiota de antes? Eu não era! Por sua causa perdi a fé nos homens. Ele não passava de um homem desgraçado, que usava sua aparência bonita para seduzir otárias, como um dia fui.
— Mudei e não foi pouco! — comecei a cuspir as palavras ferozmente. — Você me fez assumir a culpa de um incêndio! A culpa foi toda sua! Deveria se envergonhar de usar uma garota apaixonada por você! A melhor coisa que me aconteceu foi ter saído dessa cidade!
Não tinha graça alguma para ele estar rindo como se eu tivesse falado uma piada. Fechei o punho e soquei seu estômago com força. Cruzei os braços debochada, enquanto forçava um sorriso, observando o maldito resmungar de dor.
— Luara! Por que fez isso, porra?!
— Sabe o que você merece? Uma surra de te deixar em coma! Babaca! Não fale comigo nunca mais! Não sou a mesma de antes, apesar do tempo recordo bem tudo que me fez! Eu não contei pra ninguém do incêndio porque fui uma imbecil, mas agora posso muito bem abrir a boca. Vai encarar? Em?
Ele fez cara feia antes de virar as costas e sair andando. Eu sentia que Yago era o menor dos meus problemas. Onde colocaria todas as minhas coisas? O caminhão de mudança logo chegaria até a casa dos meus pais. O assunto do momento na rua, com certeza, seria a minha volta. Não queria que Lucas crescesse em volta de tanto preconceito, meu menino tinha que ser um garoto normal e respeitador.
Chorei com a lembrança de um dos piores momentos da minha vida. Eu era apenas uma criança de dez anos que trouxe uma amiguinha da escola para brincar em casa. Normal, certo? Não para os meus pais! Andressa era ruiva e de pele alva o que causou confusão.
— Não quero que você volte nesta casa nunca mais, entendeu? Luara tem que ter amizades semelhantes a ela. E você não é, então vá embora!
Mamãe disse empurrando Andressa para fora. Éramos apenas duas crianças querendo se divertir, a coitadinha foi embora chorando. Doeu muito vê-la daquele jeito e comecei a chorar também.
— Filha, o que conversamos? Os brancos e os negros não se misturam. Não chore Luara. Por que não brinca com Yago? O filho de Marieta é como nós.
Foi a partir daquele dia e do conselho do meu pai que fiquei mais próxima de Yago, o que veio a ser o causador de tanta dor no futuro. Sequei minhas lágrimas e retornei para dentro de casa. Lucas poderia acordar a qualquer momento e estranhar o ambiente.
No dia seguinte após minha chegada difícil todos estávamos sentados tomando o café da manhã. Meu inocente filho não entendia o porquê os avós sequer trocavam uma palavra com ele. Minha irmã de vez em quando fazia cara de nojo fitando o sobrinho.
— Ele não parece com você em nada. — Isabela disse, provocando-me. — Não quero ser vista com esse sem cor...
Meu sangue ferveu com seu comentário maldoso. Como ela conseguia ser daquele jeito? E com uma criança?
— Mamãe, sou sem cor? Mas, estou usando uma camisa verde, titia! Mamãe, por que a tia disse que não tenho cor? Ela tem probleminha? Não enxerga as cores?
Lucas queria entender do que ela falava e eu não queria magoá-lo com a verdade. Meu inocente, menino, não tinha ideia que sua tia estava sendo preconceituosa por conta da sua cor de pele.
— Tia Isa, tem probleminha filho, um sério problema. — afirmei, apertando o pão na mão direita e continuei. — O problema dela é na cabeça e é muito sério! Sua pobre tia não sabe usar o cérebro, antes de sair falando bobagens!
— Mãe! Luara está me ofendendo! Pai, não vai dizer nada? Ela disse que sou sem cérebro!
Minha irmã a cada dia parecia mais com nossa mãe, agindo como uma dramática exagerada. O olhar frio do nosso pai na minha direção me fez virar o rosto pro lado.
— Isabela, pare de falar da cor do filho de Luara! Não podemos ter um café da manhã em paz? Não provoque sua irmã que é uma perdida!
Sim, ele me chamou de uma perdida! Afastei a cadeira para trás e soltei o pão na mesma hora. Meu coração estava doendo e não era pouco. Minha família cada vez me decepcionava mais.
— Lucas, vem com a mamãe. — disse levantando da cadeira. — Filho, vamos comer em outro lugar, um menos tóxico!
Segurei na mãozinha do meu pequeno e nos afastamos de todos. Engoli o choro, precisava ser forte pelo meu filho. Após sairmos daquela casa onde não significávamos nada, fomos até uma lanchonete próxima. Imagine minha surpresa ao encontrar Andressa do outro lado do balcão. Desde o incidente quando éramos crianças nunca mais trocamos nenhuma palavra porque eu tinha medo dos meus pais. Adentrei com Lucas na lanchonete, e mesmo receosa, resolvi depois de muito tempo falar com ela.
— Bom dia, Andressa! Você pode nos atender? — perguntei, engolindo em seco. A ruiva sorriu em resposta. Senti medo que ela dissesse algo feio na frente do meu filho.
— Claro! O que vocês vão querer? — questionou, apoiando-se no balcão metálico.
— Bolinho, mamãe! De chocolate, um pedaço bem grandão! — meu pequeno disse dando pulinhos. Andressa fitou-me surpresa ao vê-lo me chamando de mamãe.
— Luara, ele é seu? Quer dizer, seu filho mesmo? Você sabe o que quero dizer... — falou referindo-se ao tom de pele dele. Não era segredo pra ninguém na cidade que meus pais eram preconceituosos, e ela sentiu isso na pele.
— Muitas coisas aconteceram. Esse garotão aqui é meu sim! Meu filho amado! — respondi com empolgação. Eu não tinha razão alguma para negar que o filho era meu. Meu bebê era meu orgulho e não importava se ele era branco ou azul, meu amor por ele seria igual, independente da cor de sua pele.
— Fico feliz que você deixou de ser como seus pais. — comentou, demonstrando um certo alívio. Confesso que fiquei um pouco triste por ela ter pensado que eu era igual aos meus pais. Nunca fui como eles, apenas não tinha coragem suficiente de enfrentá-los.
— Eu não sou meus pais, Andressa. Você sabe como eles são, e o quão acuada fiquei durante anos. Não precisa dizer nada, está tudo bem.
— Desculpe! Sentem-se em uma das mesas vazias, vou servi-los. — disse ela, sem jeito. Quis deixar claro que meus pais e eu não tínhamos nada em comum, a não ser o mesmo sangue.
Não era tarde demais para uma reconciliação com os erros do passado. Aproveitaria aquela ajuda do destino pra me desculpar com Andressa, por tudo que aconteceu no passado. Quem sabe pudéssemos ser amigas, outra vez, foi o que pensei e esperava que fosse possível.
Estar em casa sem o conforto de um lar feliz era desconcertante. O caminhão de mudança quando chegou, precisou colocar todas as minhas coisas no aperto da garagem. No dia anterior minha conversa com Andressa no seu local de trabalho, fez com que pudéssemos recomeçar outra vez. Merecíamos, certo? Uma nova chance, a chance de reatar nossa amizade de infância, não tínhamos nada a perder.
Eram quase onze da manhã quando decidi abandonar o quarto. Foi estranho adentrar a sala de estar e ver meu filho conversando com o bisavô. Não esperava que vovô Alfredo fosse dar atenção ao bisneto. Fiquei ali parada observando os dois, sem que eles percebessem minha presença.
— Perna dói, vovô? — Lucas, perguntou, inocentemente, encarando a bengala que ele usava como suporte para caminhar. O mais velho sorriu, com seu sorriso falho dos dentes da frente.
— Garoto, estou velho, o que não dói? — brincou, bagunçando os cabelos do pequeno. — Sua mãe parece estar com medo de se aproximar de nós.
Minha presença foi notada. Vovô Alfredo bateu uma das mãos no sofá de quatro lugares, chamando-me para sentar do seu lado.
— Não queria atrapalhar vocês. — disse caminhando em sua direção. — Sabe, vovô, senti muito sua falta, meu velhinho favorito!
Sentei do seu lado e beijei sua bochecha esquerda. Minha família nunca foi perfeita, mas amava cada um deles.
— Luara, por que nunca veio nos visitar? Deveria ter contando pra sua família, sobre o menino. — falou tocando minha mão e continuou. — Filha, apesar de não ser o que queríamos pra você, cedo ou tarde saberíamos. Você poderia ter evitado todo esse escândalo.
— Nem mesmo o senhor entende, vovô, Alfredo. Vocês não gostam dele e sei bem o motivo. — comecei a falar e parei, Lucas estava por perto, poderia entender alguma coisa.
— A família do pai do garoto rejeitou ele? Não minta pra mim, filha. Você sabia qual seria nossa reação ao trazer o menino para nossa casa. Eu sei que é seu filho, mas talvez fosse melhor entregá-lo ao pai. Ele não parece em nada com você. Luara, você tem apenas vinte e três anos, pode ter outros filhos, e do jeito certo.
E o encanto que houve quando vi vovô, conversando com Lucas, tinha quebrado-se em pedaços. Suas palavras machucaram meu coração. Levantei do sofá na mesma hora e engoli o choro.
— O senhor abriria mão de um filho? Aparentemente sim, se ele fosse diferente. — comentei, segurando na mãozinha de Lucas. — Eu amo meu filho e não abro mão dele. Ele não precisa de um pai. Sou o suficiente para ele.
Puxei meu filho pela mão e juntos saímos da sala em direção à cozinha. Esperava encontrar um pouco de paz e tranquilidade em outro ambiente da casa, contudo, encontrei Yago em vez de Marieta.
— O que faz aqui? — esbravejei, chamando sua atenção. Seu sorriso cínico que no passado, pensei ser a coisa mais linda do mundo, fez meu sangue ferver.
— Dona Regina, pediu para que eu viesse. — respondeu, revirando os olhos. — Eu sabia que, no fundo, existia uma rebelde em você. Aposto que deu pra um universitário metido. Loirinho, sua mamãe, não escolheu direito com quem se envolver. Luara, não me olhe assim, estou pasmo! Esperava mais de você, lindinha!
Eu queria não ceder às provocações de Yago, no entanto, ele merecia ouvir uma boa resposta.
— Filho, vá para o nosso quarto, quero conversar com esse daí!
Lucas era um garoto esperto e logo saiu correndo da cozinha.
— Quer conversar? — perguntou, dando um passo à frente. — Não pense que vai me pegar desprevenido dessa vez, Luara. Sou forte. Posso te quebrar, bonitinha.
Empurrei sua mão atrevida do meu rosto. Senti nojo de um dia ter me apaixonado por ele.
— Você não vale nada! O pai do meu filho fez o que você nunca fez, um sexo gostoso! O resultado você mesmo viu, um menino lindo. Foi apenas uma noite de prazer e não me arrependo.
Admito, queria sim, pisar em seu ego de homem. Infelizmente Yago foi o único homem com quem estive intimamente. Meu primeiro beijo. Minha primeira vez. O cafajeste usou minha ingenuidade pra se aproveitar de tudo que pode de mim.
— A pegada do negão elas nunca esquecem. Lembro bem todas as vezes em que gemeu em cima de mim. Para de marra, quem sabe, eu possa te dar uma dose extra da potência de um homem de verdade.
No momento em que fui puxada para seus braços musculosos gritei. Gritei para quem quisesse ouvir.
— O incêndio da escola Santa Cruz...
Yago não deixou que eu completasse a frase, simplesmente, tampou minha boca com sua mão grosseira.
— Você não vai dizer nada, entendeu? Deixe o passado no passado. Não foi só você que mudou. Luara, você não sabe do que posso ser capaz para guardar esse segredo.
Após ser empurrada contra a bancada, meu coração disparou. Eu sabia pelo tom de sua voz que era uma ameaça. Minha voz travou e tudo que consegui fazer em seguida foi sair correndo. Senti que precisava fugir de toda aquela situação. Ignorei qualquer pessoa que estivesse no meu caminho e saí porta fora.
Cinco minutos depois, estava sentada no banco da praça, e só então me dei conta de que estava apenas de camisola. Minha camisola era de mangas curtas e da cor cinza. A malha era macia, o que me deixava bastante confortável. A estampa de gatinho era bastante chamativa.
— Ótimo, vão achar que sou uma doida. — murmurei, rindo de nervoso.
Mesmo com a rua movimentada, ninguém parecia se importar em me ver daquele jeito. O incêndio da escola Santa Cruz foi um escândalo na época em que tudo aconteceu. Yago era um canalha que me usou da pior forma possível. Não sabia o porquê dele ter feito o que fez. Por que incendiar a escola onde estudávamos? Nunca soube a resposta. Eu pensei que retornar para minha cidade natal fosse trazer em peso os julgamentos pelo passado, mas ninguém sequer tinha olhado torto pra mim. Talvez lá no fundo todos soubessem que eu não seria capaz de fazer tal ato.
Senti um calafrio e até um pouco de pânico quando um carro importado passou lentamente perto de onde estava. Foi uma péssima sensação. Turistas não eram frequentes na cidade. O carrão preto, que com certeza, era blindado, logo pegou velocidade e pude soltar o ar que prendia nos pulmões.
— Muita coisa mudou na minha ausência. — cochichei, pronta para ir embora.
Esperava não ter problemas quando fosse matricular Lucas na escola. Por que estou dizendo isso? Simples, a escola onde ele ficaria estudando, era a qual supostamente, incendiei. Precisava ser positiva, afinal de contas, não sabia quanto tempo ficaríamos na minha cidade natal. Eu queria sair o quanto antes da casa dos meus pais. Aceitaria qualquer emprego que fosse para ter minha independência.