Capítulo 2

"Isto contém as informações sobre seus pais biológicos", disse Preston, com a voz desprovida de inflexão. "E as providências para os próximos dias."

Journey estendeu a mão. Sua mão estava firme. Ela abriu a pasta.

A primeira foto era de um homem. Kamron Cobb. Ele usava um capacete de segurança, seu rosto marcado por determinação e exaustão. Ele não se parecia em nada com Preston. Ele parecia real.

"Sinto muito", Alleen deixou escapar. Sua voz era aguda e fina. "Eu não queria arruinar sua vida, irmã. Eu só queria ver minha mamãe e meu papai."

Ela enfatizou as palavras mamãe e papai, arrastando as vogais, transformando-as em armas. Ela olhou para Journey, esperando por uma rachadura na armadura.

Victoria se inclinou, passando um braço pelos ombros de Alleen. "Não é sua culpa, querida. Você já sofreu o suficiente."

Journey as ignorou. Ela examinou o documento. Queens. Um apartamento no quarto andar sem elevador. Um negócio de food truck.

Não era os Hamptons. Era melhor. Era anônimo.

Alleen a observava, seus olhos saltando entre o rosto de Journey e a pasta. Ela queria lágrimas. Ela queria gritos.

Journey fechou a pasta. O som foi seco na sala silenciosa.

"Quando eu me mudo?"

O silêncio que se seguiu foi absoluto. A boca de Alleen se abriu ligeiramente. Sua história triste engasgou em sua garganta.

Preston piscou, tirado de seu roteiro. Ele esperava súplicas. "Imediatamente. É melhor para todos."

"Journey", disse Victoria, a voz trêmula com uma culpa encenada. "Nós a criamos por vinte anos. Não queremos ser cruéis..."

"Pelo bem de Alleen", Journey interrompeu, sua voz suave como vidro. "Eu devo sair rapidamente. A mídia fará a festa se eu demorar. Vocês precisam controlar a narrativa."

Alleen mordeu o lábio. Ela percebeu, com um pânico crescente, que Journey estava gerenciando a situação melhor do que ela. Journey estava roubando o papel de vítima.

"Você está com nojo?", Alleen perguntou, com a voz trêmula. "Porque meus pais são pobres? Eles são pessoas boas, mesmo que não tenham... isto." Ela gesticulou vagamente para o lustre de cristal.

Journey virou a cabeça lentamente. Ela olhou para Alleen. Ela não a fuzilou com os olhos. Apenas olhou, dissecando a garota como um sapo na aula de biologia.

"Eu não disse uma palavra sobre eles", disse Journey. "Por que você está tão ansiosa para me dizer como eu me sinto?"

Alleen corou, ficando com o rosto manchado de vermelho. Ela olhou para as próprias mãos.

Preston bateu os dedos na mesa, impaciente com as emoções femininas que atrapalhavam sua agenda. "Chega. Journey, preparamos um acordo."

Journey ergueu uma sobrancelha.

A cabeça de Alleen se ergueu bruscamente. A dor desapareceu, substituída pelo cálculo afiado de uma contadora.

Uma empregada entrou, colocando um serviço de chá na mesa. A porcelana tilintou suavemente. Journey pegou uma xícara, serviu o chá, adicionou leite, mexendo uma, duas, três vezes. A colher não tocou as laterais.

Alleen observou o ritual com inveja nua e crua. Ela tentou endireitar a coluna, imitando a postura de Journey, mas apenas pareceu rígida.

"Alleen é nova nesta vida", disse Victoria, notando o contraste. "Você terá que perdoar a falta de polimento dela, Journey."

A implicação pairou no ar: Você é a forasteira agora. Você é a convidada.

Journey pousou a xícara. Ela fez um clique decisivo contra o pires.

"Não há nada a perdoar", disse Journey. "Somos estranhas agora."

Victoria recuou como se tivesse levado um tapa. Seu rosto empalideceu. Ela não esperava que o corte fosse tão limpo.

Preston tirou um cheque do bolso do paletó. Ele o colocou sobre a mesa.

Capítulo 3

Um milhão de dólares.

Journey olhou para os zeros. Para uma pessoa normal, era uma fortuna. Para os Kensingtons, era o orçamento do buffet para a gala anual de verão. Era um pagamento. Um suborno para ir embora em silêncio.

"Indenização", disse Preston. "O suficiente para comprar um imóvel no Queens. À vista."

Journey sentiu uma risada ameaçar escapar novamente. Ela a segurou entre os dentes. Colocou as pontas dos dedos no cheque e o deslizou em sua direção.

"Fechado."

Alleen emitiu um som baixo, engasgado. Seus olhos estavam arregalados, fixos no papel. Ela parecia que queria arrancá-lo.

"No entanto", acrescentou Victoria, sua voz endurecendo, "você deve assinar este Acordo de Confidencialidade. O que quer que tenha acontecido nesta casa, fica nesta casa."

Journey pegou a caneta da mão de Preston. Ela não leu o texto. Conhecia o jargão jurídico padrão dos Kensington melhor do que a Bíblia. Assinou seu nome com um floreio. Journey Cobb.

Ela se levantou. "Vou fazer as malas."

"Espere", disse Alleen. Ela se levantou de um salto, bloqueando o caminho de Journey até a porta. "Você não pode levar as coisas dos Kensington."

Journey olhou para a garota. Alleen era mais baixa, mais delicada.

"Como é que é?"

"As roupas", disse Alleen, apontando um dedo trêmulo para a roupa de Journey. "As joias. As bolsas. Mamãe e papai pagaram por isso. Pertencem à família."

Victoria parecia desconfortável. "Alleen, querida, deixe-a ficar com as roupas..."

"Não!", Alleen bateu o pé. "Ela está roubando!"

Journey se virou para Higgins, que pairava perto da porta. "Traga meus baús, por favor."

Higgins assentiu, desaparecendo. Momentos depois, dois lacaios carregaram três grandes baús Louis Vuitton para dentro da sala de estar.

Alleen se atirou no mais próximo, abrindo os fechos. Ela escancarou a tampa. Lá dentro, fileiras de seda, caxemira e couro de edição limitada a encaravam de volta.

"Viu!", Alleen gritou. "Isso vale mais que o cheque! Você é uma ladra!"

Preston franziu a testa, dando um passo à frente. "Journey, se estes foram comprados com a mesada da família..."

Journey enfiou a mão na bolsa. Tirou uma pilha grossa de papéis, presos por um clipe. Ela a jogou sobre a mesa de centro. Os papéis se espalharam em leque.

Recibos.

"Verifique o método de pagamento", disse Journey. Sua voz estava entediada.

Preston pegou a folha de cima. Sua testa se franziu. "L.C. Holdings? Quem é?"

"Um fundo fiduciário privado deixado para mim por um padrinho que você provavelmente esqueceu, administrado por uma holding para minimizar impostos", Journey mentiu com naturalidade. "Ou talvez você se lembre dos dividendos dos meus investimentos de juventude? Sou autossuficiente desde os dezesseis anos."

Preston estreitou os olhos, estudando o documento. A explicação era plausível — a L.C. Holdings parecia uma fachada padrão para desembolsos de fundos fiduciários. Ele fez uma anotação mental para pedir à sua secretária que fizesse uma verificação de antecedentes da entidade mais tarde, por via das dúvidas. Por enquanto, no entanto, a papelada parecia legal.

"Muito bem", Preston murmurou, largando o recibo. "Parece válido."

Alleen começou a remexer no baú, suas mãos rudes nos tecidos delicados. Ela estava desesperada para encontrar uma falha, um brasão dos Kensington, qualquer coisa para provar que Journey era uma fraude. Mas não havia nada.

Journey deu um passo à frente. Agarrou a tampa do baú e a bateu com força. O vento do movimento jogou o cabelo de Alleen para trás. Alleen puxou a mão bem a tempo de evitar quebrar os dedos.

"Não toque nas minhas coisas", disse Journey. Sua voz baixou uma oitava. Não era um pedido. Era uma ordem.

Alleen recuou, tropeçando, com os olhos arregalados de medo genuíno. Por um segundo, ela viu algo por trás dos olhos de Journey que não era uma socialite deslocada. Ela viu um tubarão.

Journey sinalizou para os lacaios. "Para a calçada."

Ela pegou o cheque, dobrou-o uma vez, sabendo que levaria três dias úteis para passar pelos protocolos de detecção de fraude do banco, e saiu pela porta sem olhar para trás.

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