Capítulo 2

O café em Zurique era silencioso, cheirando a café torrado e livros antigos. Kadu Costa sentou-se à sua frente, a expressão séria. Ele não mudara muito em cinco anos — ainda os mesmos olhos perspicazes, a mesma calma que o tornava uma presença tão formidável na sala de reuniões.

"A identidade está limpa", disse ele, deslizando uma pasta fina pela mesa. "Kátia Santos. Sem passado, apenas um currículo brilhante que fabriquei com base no seu trabalho real. Você terá um novo passaporte, novo CPF, tudo novo. O apartamento está pronto. O laboratório está esperando por você."

"Obrigada, Kadu", disse Catarina. Kátia. Soava estranho. "Não sei como te pagar."

"Apenas seja o gênio que eu sempre soube que você era", disse ele com um pequeno sorriso. "Isso é pagamento suficiente."

Ela voltou para o hotel que Darek reservara para sua "recuperação". Parecia mais uma gaiola dourada. Ele estava esperando no saguão, o rosto gravado com uma convincente performance de preocupação.

"Cat, onde você esteve a noite toda? Fiquei tão preocupado." Ele tentou pegar seu braço, mas ela se esquivou.

"Precisei de um pouco de ar."

Enzo estava lá, escondido atrás das pernas de Darek. Ele espiou para ela, e seus lábios se curvaram em desgosto. "Você voltou."

As palavras foram um golpe físico. Ela se lembrava dele como um bebê, seus braços gordinhos em volta de seu pescoço, sua respiração sonolenta quente em sua bochecha. Agora, ele a olhava como se ela fosse um monstro.

Ela ignorou os dois e caminhou em direção ao elevador. Darek a seguiu, a voz um murmúrio baixo e suplicante.

"Eu sei que errei, Cat. Sinto muito. Não posso te perder de novo."

Ela pensou nos anos que ele passou ao lado de sua cama, na maneira terna como ele escovava seu cabelo, nas histórias que ele lia para sua forma inconsciente. Era tudo mentira. Uma performance para as enfermeiras, para seus pais, para si mesmo.

"Meu aniversário é na próxima semana", disse ele, uma nota de esperança em sua voz. "Quero fazer algo especial. Para você."

"Não faça", disse ela, a voz monótona.

Ele a ignorou. "Apenas venha para o nosso quarto. Tenho uma surpresa."

Contra seu bom senso, ela o seguiu. O quarto de hóspedes da suíte havia sido transformado. Estava cheio, do chão ao teto, com caixas de grife. Chanel, Dior, Hermès. Uma montanha de artigos de luxo.

"Para você", disse ele, radiante. "Qualquer coisa que você quiser."

Ela caminhou pelo quarto, um fantasma em um museu da vida de outra pessoa. Pegou um lenço de seda, uma estampa que sempre odiara. Viu um frasco de perfume, um cheiro que Angélica usara no dia anterior.

Misturados com os itens novos, havia coisas que estavam claramente usadas. Uma bolsa com um arranhão tênue perto do fecho. Um par de óculos de sol com uma mancha na lente.

Eram os restos de Angélica. Ele estava lhe dando as sobras de Angélica.

Uma risada amarga escapou de seus lábios. "Livre-se disso. De tudo."

"O quê?" Darek parecia genuinamente confuso. "Mas... eu pensei que você gostaria."

"Ela é tão ingrata!", a voz de Enzo soou da porta. "A mamãe Angélica ia adorar essas coisas! Você é uma mãe má!"

Catarina congelou. A dor foi tão aguda, tão repentina, que lhe roubou o fôlego. Ela suportara uma gravidez de nove meses que quase a matou. Passara inúmeras noites em claro embalando-o, cantando para ele, amando-o com cada célula de seu ser.

E ele a chamava de mãe má.

"Enzo, já chega", disse Darek fracamente, mas não havia força em suas palavras. Ele estava apaziguando o menino, não a defendendo. "Vamos, Cat. Tenho mais uma coisa. O verdadeiro presente."

Ele a levou para a sala de estar principal. Sobre uma almofada de veludo, havia um anel de diamante. Era enorme, uma pedra em forma de coração, impecável, que brilhava sob as luzes.

"É o Coração do Oceano", disse Darek, a voz reverente. "Só existe um no mundo. Assim como você."

As notícias já estavam relatando. O CEO de tecnologia Darek Almeida compra um diamante lendário para sua amada esposa, Catarina, para celebrar sua recuperação milagrosa.

Ele pegou a mão dela e tentou deslizar o anel em seu dedo.

Não coube. Era pequeno demais, parando em sua junta.

O sorriso de Darek vacilou. "Isso é... estranho. Você deve ter ganhado um pouco de peso no hospital. Podemos mandar ajustar."

A mentira era tão descarada, tão insultuosa. Suas mãos estavam mais finas do que nunca, frágeis e ossudas após cinco anos de atrofia. O anel não fora feito para ela. Fora feito para os dedos finos de Angélica.

Ele ainda estava falando, a reportagem na TV zumbindo ao fundo sobre a singularidade do anel, um símbolo de amor eterno.

Ela olhou em seus olhos. E por um momento aterrorizante, viu sinceridade ali. Ele acreditava em suas próprias mentiras. Ele era um homem capaz de amar duas mulheres ao mesmo tempo — ou talvez, amar a ideia do que cada mulher representava. Ele queria o brilho e o prestígio dela, mas também queria o conforto fácil e a complacência de Angélica. Ele queria tudo.

"Darek", disse ela, a voz baixa, mas firme, cortando seu discurso. "Se você tivesse que escolher, agora, entre mim e ela... quem seria?"

Ela precisava ouvir. Mesmo que significasse o fim, ela precisava da verdade.

O rosto dele ficou pálido. Ele abriu a boca para responder, mas seu celular vibrou na mesa. Ele olhou para a tela. O identificador de chamadas era uma única e simples letra: A.

Sua expressão mudou instantaneamente. Um lampejo de pânico, depois irritação, depois uma resignação cansada.

"Eu... eu tenho que atender", gaguejou ele, já se movendo em direção à porta. "É uma emergência no escritório."

Ele estava a meio caminho da porta quando parou. "O que você estava me perguntando agora?"

Ela balançou a cabeça, um sentimento oco se espalhando por seu peito. "Nada. Não era nada."

"Não os deixe esperando muito", acrescentou ela, a voz tingida de uma ironia que ele perdeu completamente.

Ele não percebeu. Voltou, beijou sua testa com uma ternura que a deixou enjoada. "Eu volto logo. Espere por mim."

No momento em que a porta se fechou, ela pegou o diamante em forma de coração. Caminhou até a lixeira e o jogou dentro. Ele caiu com um baque suave e insatisfatório.

Ele já havia respondido à sua pergunta.

Capítulo 3

Catarina pegou o elevador até o andar de serviço do hotel. Encontrou a grande lixeira industrial onde os carrinhos de serviço de quarto eram esvaziados. Sem pensar duas vezes, ela virou a pequena lixeira de sua suíte na lixeira maior. O anel de diamante, o lenço, tudo desapareceu sob uma pilha de guardanapos descartados e restos de comida.

Uma faxineira que passava por ali ofegou. "Senhora! Você deixou cair uma coisa! Isso é um diamante!"

Ela tentou estender a mão para recuperar o anel.

"Não se incomode", disse Catarina, a voz desprovida de emoção. "Está sujo."

"Mas eu posso limpar!", insistiu a mulher, olhando para ela como se estivesse louca.

"Algumas coisas", disse Catarina, olhando para além da mulher, "nunca podem ser lavadas."

A noite de sua festa de aniversário chegou. Darek havia reservado todo o último andar do hotel mais exclusivo da cidade. O salão de festas era uma fantasia de rosas brancas e lustres de cristal. Os convidados murmuravam sobre como Darek era devotado, como ele esperara cinco longos anos por seu único e verdadeiro amor.

"Você tem tanta sorte, Catarina", suspirou uma amiga dela, bebendo champanhe. "Ter um homem que te ama tão profundamente. Ele está planejando uma grande surpresa para você esta noite, sabia?"

Catarina apenas sorriu.

A festa estava a todo vapor, mas Darek estava atrasado. Assim que os sussurros começaram, uma comoção irrompeu na entrada.

Repórteres, que haviam sido mantidos do lado de fora, clamavam, seus flashes disparando. No centro da tempestade estava Angélica, segurando a mão de Enzo.

"A família do Sr. Almeida chegou!", gritou um jornalista, confundindo-a com uma irmã ou prima.

O rosto de Catarina ficou pálido. Sua amiga olhou de Angélica para Catarina, a expressão uma mistura de confusão e horror crescente. "Catarina... quem é essa?"

Como ela poderia explicar? Esta é a mulher que tentou me matar, que roubou meu marido e meu filho, e que meus pais agora preferem a mim.

Angélica deslizou em sua direção, um retrato de inocência e graça. "Catarina, feliz aniversário. Sinto muito, Enzo insistiu em vir te ver."

Catarina se virou para Darek, que finalmente aparecera ao lado de Angélica. "Por que ela está aqui?"

Antes que ele pudesse responder, Enzo falou, a voz alta e clara. "Você é uma mãe má! Você fez a mamãe Angélica chorar!"

Seus pais se materializaram, como se fosse um sinal. "Catarina, não faça uma cena", sua mãe sibilou. "Angélica é da família agora."

Da família. As palavras ecoaram no vasto e silencioso salão de festas. Todos estavam olhando. A pena, a curiosidade mórbida, a especulação sussurrada — era um peso físico, pressionando-a, sufocando-a.

Angélica, sempre a mestra da manipulação, parecia à beira das lágrimas. "Sinto muito", sussurrou ela, alto o suficiente para que todos ouvissem. "Eu não deveria ter vindo. Vou embora." Ela colocou um presente lindamente embrulhado na mão de Catarina.

Os dedos de Catarina estavam dormentes. Ela não conseguia sentir a caixa, não conseguia sentir nada além do pavor frio se enrolando em seu estômago.

Sua amiga, tentando salvar a noite, bateu palmas. "Bem! Hora da surpresa, Darek!"

A multidão, ansiosa por uma distração, juntou-se ao coro.

Darek, grato pela interrupção, respirou fundo. Ele se ajoelhou.

Abriu uma pequena caixa de veludo. Dentro havia outro anel de diamante. Um solitário de corte redondo perfeito.

"Mandei fazer este sob medida", anunciou ele para a sala. "O outro... não estava bem certo. Este é perfeito. Só para você."

Ele o deslizou em seu dedo. Coube perfeitamente.

"Esta pedra", disse ele, a voz ressoando com falsa sinceridade, "pertencerá para sempre a você, Catarina. Você é a minha única."

A sala explodiu em aplausos.

Catarina olhou para o anel. Não sentiu nada. O que "única" significava para um homem como ele?

"Hora de cortar o bolo! Faça um pedido!", alguém gritou.

As luzes diminuíram. Um bolo enorme, brilhando com velas, foi trazido. Todos cantaram.

Catarina fechou os olhos. Ela se inclinou para a frente, respirou fundo e fez seu pedido.

"Eu desejo", disse ela, a voz um sussurro baixo e claro que parecia cortar a escuridão, "que todos os impostores do mundo simplesmente... desapareçam."

Ela soprou as velas.

As luzes permaneceram apagadas por um momento a mais. Quando finalmente voltaram, Angélica a encarava, o rosto pálido. Ela entendeu a mensagem. Com um soluço engasgado, ela se virou e fugiu da sala.

A mão de Darek, que estava em suas costas, caiu.

"Catarina, como você pôde?", sua mãe a repreendeu, o rosto tenso de desaprovação.

"Darek, vá atrás dela!", ordenou seu pai. "Não a deixe fugir assim!"

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