Capítulo 2

Sophia POV

Acordei com o barulho do despertador e bocejei, olhei para o horário e já estava na hora de voltar a trabalhar. Pelo visto não havia acontecido nada enquanto eu dormia. Levantei, tomei um banho rápido, escovei os dentes, fiz minhas necessidades, então coloquei um novo uniforme limpo, arrumei meu crachá e sai do quarto.

Logo estou no andar 42, a primeira coisa que percebi é que alguns guardas haviam trocado de turnos, assim como o médico responsável. Arqueei a sobrancelha vendo as atualizações junto ao tablet que peguei na recepção.

“Hey, Julie, bom dia.” Cumprimentei minha amiga.

“Oi Soph, ainda bem que tu voltou.” Escutei ela falar, aliviada.

“Aconteceu algo?” Fiquei tensa, mas não tirei o olhar do tablet, passando pelas informações de cada paciente, parecia que a maioria que estava ali que ainda não havia sido liberado, era porque havia vestígio de prata no organismo.

“Esse pessoal, sabe como é…” Julie falou em tom baixo e respirei fundo.

Era o tipo de pessoa que eu odiava, que queriam as coisas do jeito deles e não iriam ter nada menos do que isso. Dinheiro não comprava tudo, apesar de comprar muitas coisas.

“Relaxa, vai para casa, tu está precisando de um descanso.”

Falei enquanto indicava a saída dela do turno e pedia a substituição.

“Obrigada! Você salva vidas!”

Soltei um riso baixo e me virei, começando a andar em direção aos quartos. Percebi que os guardas tentavam me intimidar com o olhar e apenas ignorei, já havia visto piores.

Os primeiros pacientes logo poderiam ser dispensados, a medicação para retirar metais pesados do organismo já estava funcionando, quando cheguei nos três últimos quartos, havia bem mais guardas.

“Tsi…” Não aguentei e deixei escapar a expressão antes de entrar no primeiro quarto. Senhor Andreas Lykaios, múltiplos ferimentos cortantes e perfurantes, com uma taxa elevada de prata no organismo, mas com boa recuperação enquanto o sangue era filtrado. Aproximei da cama e percebi que havia uma mulher sentada na cadeira do lado, ao que tudo indicava, era a esposa do homem deitado. Ele tinha um porte grande, quase músculo puro, com varias cicatrizes, inclusive um que pegava parte do rosto do lado esquerdo, era alguém que muitos cairiam aos seus pés, mas para mim não me interessava. Verifiquei os sinais vitais, a tubulação e pedi a troca dos lençóis e também um banho de esponja.

“Você deve ser a enfermeira chefe que tanto falam.” Escutei a voz da mulher enquanto eu estava olhando o estado das ataduras.

“Sim, sou eu.” Respondi secamente.

“Hum… Disseram que você costuma ser mais receptiva.”

Ergui o rosto e olhei para a mulher, ela tinha olhos de um tom castanhos escuros, cabelos negros e a pele morena.

“Eu sou, pra quem merece.” Comecei a andar em direção a saída e percebi que ela queria me responder, mas guardou as palavras para si.

Caminhei em direção ao segundo quarto. O Senhor Aquiles Lykaios, irmão mais velho de Andreas, ao entrar no quarto notei que haviam dois guardas do lado de dentro também, mas não parecia haver nenhuma esposa, ou marido ali. Ele estava em estado parecido com seu irmão mais novo, apenas me aproximei da cama e comecei a fazer as checagens. Diferente de Andreas, Aquiles era menor, ainda assim tinha músculos bem esculpidos, cabelos castanhos escuros, feições sérias, também com varias cicatrizes pelo corpo, mas nenhuma no rosto e apesar de não gostar tanto desse tipo de homem, aquele ali até que chamava a minha atenção, mas não estava ali para admirar a beleza de ninguém.

Ao olhar o prontuário respirei fundo, ele tinha pelo menos o dobro de prata que o irmão no sangue, era um milagre ainda estar vivo. Anotei algumas sugestões de tratamentos e enviei para a Doutora Miriam, eram tratamentos alternativos então ela precisaria aprovar, sai do quarto sem trocar nenhuma palavra com as pessoas que estavam ali.

Olhei então para a terceira porta e por algum motivo senti meu coração acelerar, aquele era o quarto do chefe da família Heroux. Talvez fosse isso, afinal tenho certeza que se ele morresse ali o hospital estaria com sérios problemas e as pessoas que trabalharam com ele seriam demitidas. Entrei no quarto e a primeira coisa que percebi foi o cheiro amadeirado, como pinheiro, macieira, pinhos, misturado com algo que lembrava couro envelhecido. Arquei a sobrancelha, pediria para limparem o quarto imediatamente e olhei para os dois guardas que estavam ali e também a mulher ao lado da cama.

“Por favor, este é um lugar que deve ser mantido o mais limpo possível, peço que vão se trocar, se eu consigo sentir o cheiro de vocês daqui, não é um bom sinal.”

Não me importei se eles se sentiriam ofendidos, me aproximei da cama, olhando o prontuário, Perseu Heroux, homem, 32 anos, cabelos castanhos claros encaracolados e curtos, corpo não muito musculoso, mas com certeza de alguém que costuma treinar, parece emitir alguma aura de autoridade, mesmo estando desacordado, talvez fossem as cicatrizes. Estava em condições difíceis pois não estava conseguindo filtrar as toxinas no sangue, já que tem o tipo Bombay, ou seja falso O, arquei a sobrancelha novamente, afinal aquele era o meu tipo sanguíneo.

Tipo sanguíneo Bombay, era um tipo que não tinha os carboidratos A e B na membrana, não era tão raro quanto o Fator Nulo, mas ainda assim era uma grande complicação já que só podia receber doação do mesmo tipo. 

Comecei a olhar as informações dos painéis, anotando os números e fazendo algumas modificações que deveriam passar pelo médico responsável para aprovação e torci a boca vendo que agora a responsável era a doutora Miriam.

“Tsi…” Sussurrei novamente e comecei a olhar as bandagens, vendo que algumas estavam manchadas de sangue. O que não deveria acontecer, quanto mais sangue fosse derramado, pior seria para a recuperação, por mais que fosse só um pouco.

Não sei o que estava dando em mim, mas estar próximo desse homem me fazia querer tocá-lo de maneiras que não eram nem um pouco profissionais, mas consegui me manter na postura correta.

“Ele vai ficar bom?” Escutei a pergunta feita, a voz era masculina, fria e carregada com ameaça.

“Isso é uma pergunta para ser feita ao médico responsável.” Respondi com tom de voz jocoso e enquanto terminei de verificar a última bandagem que tinha no abdômen dele.

“Você deveria saber que usar esse tom comigo poderia fazer você ser demitida.”

Ergui o rosto para ver quem estava falando comigo, apesar de já ter uma boa ideia de quem seria. Era um homem que aparentava ter seus 50 anos, bem parecido com Perseu, mas uma versão mais velha.

“Duvido muito.” Arqueei a sobrancelha esquerda. “Já que sou a melhor no que faço e foi requisitado especificamente para eu estar aqui, enquanto eu poderia estar na minha casa dormindo.”

Voltei meu olhar para o tablet e comecei a adicionar as informações e comecei a andar em direção a saída do quarto e senti quando ele segurou meu braço.

“Se eu fosse você tomaria cuidado, ninguém é insubstituível."

A ameaça junto com o apertar dos dedos dele foi quase o suficiente para eu surtar, mas respirei fundo e contei até 10 com calma, tentei puxar meu braço levemente, mas ele não soltou.

“Você tem duas opções, solte meu braço e vou esquecer essa ameaça… Ou você pode continuar me segurando e se arrepender.”

Meu autocontrole estava quase desaparecendo, sei que minha voz mostra o quão séria o que eu estava falando e que eu não aceitava ser tratada como ele queria e que não, eu não tinha medo dele, ou da família dele.

“Você é só uma menina que…”

Abri os olhos e puxei meu braço com força suficiente para que ele me soltasse e quando fui virar escutei a porta se abrindo.

“Sophia Turner!”

Miriam estava ali, olhando diretamente para mim e apenas andei para fora do quarto enquanto colocava o tablet na mão dela.

“Pode mandar colocar outra pessoa no meu lugar, estou indo para casa.”

Avisei em tom de voz baixo e calmo e aquilo era pior do que gritar. Miriam sabia que provavelmente não haveria nada que me fizesse voltar a este andar.

“Soph…”

Miriam começou a me chamar, mas simplesmente ignorei e continuei andando para o elevador, apertei o botão e peguei meu celular para ver minhas mensagens e e-mails e logo a primeira coisa que apareceu foi que a família Heroux estavam pagando para quem tivesse sangue tipo Bombay para virem doarem sangue no hospital.

“Dinheiro não compra tudo…” 

Sussurrei e passei por aquela notícia e fui para a próxima que era uma matéria sobre o atentado no restaurante Olympo.

“Soph… Por favor…”

Escutei o bip do elevador, olhei para ver se ele estava mesmo ali e entrei e me virei, podendo ver Miriam e atrás dela aquele homem que havia me ameaçado, provavelmente ele também havia ameaçado minha chefe e antes que a porta se fechasse um dos guardas segurou ela. Olhei diretamente nos olhos dele com frieza e o vi se encolher por um segundo, mas não soltou a porta. Como estava com o celular na mão comecei a discar o número da emergência policial. 

“Ou você me deixa ir ou vou chamar os policiais e dizer que a família Horoux está fazendo ameaças aos funcionários do hospital e que eu sou uma refém.”

Avisei calmamente com o dedo perto do botão de ligar.

“Não vai funcionar, simples, quem acreditaria em uma simples enfermeira?”

A voz do homem era de escárnio e seus olhos mostravam que não se importava com a minha ameaça.

Apertei para ligar e antes que me atendessem o segurança entrou no elevador para retirar o celular da minha mão, a porta do elevador se fechou enquanto eu me esquivava do ataque.

“Que tal ficar quieto senão vai fazer uma cena bem no meio do térreo com muitas testemunhas.”

Avisei e desliguei a chamada antes que alguém do outro lado atendesse.

“Avisa ao seu chefe que dinheiro e ameaças não compram lealdade e dignidade, que se ele quiser que volte, é melhor ele me implorar de joelhos, pois não vou aceitar nada menos que isso.” 

Arrumei meu jaleco enquanto ficava de frente para a porta do elevador.

“Hum… Provavelmente vou ter o queixo quebrado quando falar isso e também porque não segurei você.”

Escutei a voz dele, era um tom sério, mas também de diversão, uma mistura estranha.

“Você é bem ágil para uma…”

“Mulher? É, é… Eu faço autodefesa." Respondi antes que ele completasse a frase.”Avisa para seu chefe que ameaçar as pessoas desse hospital não vai ajudá-lo em nada.”

Escutei o bip do elevador e depois as portas se abrindo, sai com calma.

“Meu próximo turno é em 12h, se ele quiser conversar é melhor estar disposto a abaixar a cabeça.”

Falei antes que a porta se fechasse e o guarda voltasse para o andar 42.

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Nota: Não esqueçam de seguir minhas redes @lady.arawn e também tenho outros dois livros: Ela é Minha Esperança de lobisomem e Entre Duas Vidas, CEO/BDSM

Capítulo 3

Sophia POV

Acordei novamente com o som do alarme e fui tomar meus remédios, lavei o rosto, preparei café e algo para comer. Fiz tudo o que tinha que fazer antes de sair do meu apartamento e ir para o hospital, tinha desligado meu celular justamente para não saber o que estava acontecendo, era algo que eu sempre fazia, ordens médicas, pois após meu turno eu tinha que descansar e não ficar sobrecarregada pensando no trabalho quando não estava trabalhando.

Comprimentei as pessoas conforme ia ao vestiário e colocava meu uniforme, bati o ponto e fui na recepção pegar meu tablet. Pelo visto eu continuava trabalhando e na minha função, mas ainda estava designada para o andar 42, mas como consultora e não responsável, será que era o jeito dele pedir desculpas? Bom, não funcionaria.

Comecei meu plantão normalmente, passando pela ala de traumas, conversando com todos e até mesmo atendendo alguns casos, quando percebi já era a hora do almoço e fui para o refeitório, peguei o que queria e logo me sentei.

Comecei a responder as mensagens dos meus amigos, parece que a família Horoux tinha feito um pequeno escândalo sobre eu não querer mais trabalhar com eles. Respondi todo mundo com calma, só falando que eu não estava à venda. Eu sei que não sou médica, mas eu poderia ter sido, eu só não queria e por isso os médicos daquele lugar respeitavam minhas opiniões. 

Quando terminou o almoço voltei a fazer a ronda na emergência, até que não precisei que ninguém avisasse que um daqueles guardas estava ali. Voltei-me para ver o mesmo guarda de ontem com as mãos nos bolsos da calça social, sorrindo de canto e fez um leve aceno positivo com a cabeça. Eu sabia o que indicava, comecei a andar em direção a ele.

“Apanhou muito?” Perguntei sorrindo de canto.

“Um pouco… Hiperion não costuma ser uma das pessoas mais calmas.”

Percebi no olhar dele que ele não se arrependia pelo o que havia acontecido, parecia até mesmo orgulhoso. Estranho…

“Vocês e seus nomes gregos.”Revirei os olhos e comecei a segui-lo.

“Eu me chamo Alexander, é um prazer conhecê-la, Sophia Turner.”

“Viu, mais um nome grego.”

Dei um riso baixo e entrei no elevador e o vi apertar o botão do andar 42.

“Da onde venho as pessoas gostam dos gregos e dos deuses gregos.”

“Bom, se eles não gostassem seria estranho dar nomes a vocês assim. Você é meu filho/filha e vou te nomear com nome grego só porque odeio eles.”

“Hahahahaha, você é engraçada.”

“Eu sou, para quem é legal comigo.”

“Que bom que você me acha legal, assim não vou ser alvo da sua ira.”

“Apenas se tentar me atacar novamente.”

A porta do elevador abriu e então Alexander começou a andar em direção a um dos quartos que estava vazio e como sempre do lado de fora tinha dois guardas. Entrei no quarto e vi que ele havia sido modificado para um pequeno escritório e Hiperion estava sentado do outro lado de uma mesa simples de madeira, com um laptop aberto.

“Parece que eu sou insubstituível, não é mesmo?” Falei com um sorriso de canto, sem precisar erguer mais minha cabeça nem nada, minhas palavras já mostravam que eu era superior.

“Arrogante…” Hiperion falou e se ergueu, tentando me intimidar, talvez, com o seu tamanho.

“Tanto quanto você.” Fiquei segurando o tablet com minhas duas mãos abaixadas e o tablet um pouco abaixo da minha cintura, uma postura relaxada.

“As sugestões que você passou deram resultados, além do mais você tem o mesmo sangue que meu filho, mas não vi o seu nome na lista de doadores.”

O vi andar e dar a volta na mesa e encostar nela.

“A doação é algo voluntária.” Meus olhos não saiam dos deles e por um segundo vi que eles mudaram de cor, ficando mais escuros.

“Por acaso não quer salvar a vida do meu filho?” 

A voz dele estava um pouco mais alta e mostrava a raiva que ele sentia.

“Pensei que ninguém fosse insubstituível."

“Ele é meu FILHO!”

O grito dele fez tremer os vidros e havia uma aura ao redor dele que faria muitos se curvarem, se fosse minha antiga eu teria fugido chorando, mas agora eu sou uma pessoa diferente e o que fiz o pegou desprevenido, pois dei três passos a frente e fiquei cara a cara com ele. 

“Ele pode ser Deus em pessoa, mas isso não te dá o direito de ameaçar os outros para ter o que quer. A não ser que você realmente ache que a vida dele pode ser vendida.”

Minha voz é controlada e meu tom calmo.

“Ameaçar quem está tentando salvá-lo não vai fazer as pessoas trabalharem melhor, o medo é um sentimento desprezível e tentar incuti-lo em outra pessoa é ainda pior.”

Meus olhos não saiam dele.

“Não há dinheiro e ameaças suficientes no mundo que faça seu filho ficar vivo.”

Dei três passos para trás, voltando à minha posição inicial.

“Aqui nós tratamos vidas por serem vidas, sem importar a classe social ou qualquer outra coisa. Já vi os médicos daqui salvarem criminosos que estavam no corredor da morte, ao mesmo tempo em que perdiam uma criança na mesa de cirurgia.”

Havia tantas emoções no rosto de Hiperion agora, confusão, raiva, orgulho, tristeza, esperança, entre outras.

“Como falei para o Alex, lealdade e dignidade não podem ser compradas. Eu não sou obrigada a fazer algo que eu não queira, por isso quando chega gente assim podemos escolher se queremos trabalhar ou não. Eu não me importei em vir trabalhar aqui, fazendo até hora extra, apesar de odiar seu tipo… Se você quer culpar alguém por eu querer ficar longe daqui, culpe a si mesmo.”

Terminei meu discurso e esperei a resposta dele, os segundos que se passaram foram estranhos e um tanto quanto constrangedores. Finalmente vi Hiperion soltar um suspiro de derrota e ele se abaixou, ficando de joelhos.

“Por favor, me perdoe, eu…”

Sorri de canto e fui até ele, pelo menos ele tinha a decência de assumir que errou e para alguém com o poder dele, isso era extremamente difícil e vergonhoso.

“Obrigada. Ninguém pode garantir que seu filho vai sobreviver, mas todo mundo que está trabalhando no caso dele está fazendo o possível para que isso aconteça.”

Meu tom de voz era mais acolhedor agora.

“Obrigado.”

O vi se erguer e acenei com a cabeça de leve e sai do quarto/escritorio, respirei fundo e comecei a ir em direção ao quarto de Perseu.

“Você realmente é impressionante.”

Escutei a voz de Alexander atrás de mim e sorri de canto.

“Eu sei.” E escutei ele rindo.

“E humilde também.”

“Hey, meu nome é Sophia Humilde Turner.”

“Ahahaha!”

Alexander parecia ser um cara legal, um pouco menos sério que o restante daqueles guardas. Entrei no quarto de Perseu, a primeira coisa que notei novamente foi aquele cheiro, desta vez um pouco mais forte. Olhei ao redor e vi Miriam ali, as informações dos painéis não eram boas e vi o quão nervosa Miriam estava.

Fui até a mesa do lado da cama, peguei um par de luvas e me aproximei para ajudar Miriam.

“O rim e o fígado não estão conseguindo filtrar as toxinas e não tem sangue suficiente para fazer hemodiálise."

Comecei a virar ele para tirarmos as bandagens da cintura.

“Não dá para colocarmos ele na fila de transplante, porque seria perder um órgão."

Miriam completou bem preocupada.

“Ao que tudo indica, além disso ele também parece ser alérgico a prata.”

As notícias só pioraram, quando terminamos de trocar as bandagens voltei para o tablet.

“Hum…” Comecei a analisar as informações do banco de dados, principalmente do banco de sangue.

“Temos 65l de sangue do time Bombay.” Sussurrei. “Posso doar cerca de 500ml, mas ainda faltaria para fazer um ciclo completo.”

“Não… não, não…” Miriam falou, achando que eu faria alguma coisa estúpida.

“Pelo que vi tem várias pessoas que podem doar mais pelo menos 200ml de sangue, sem problemas ou com efeitos muito baixos.”

Comecei a fazer as contas.

"Ficaríamos com 71l, com essa margem podemos fazer uma sessão.”

Escutei Miriam respirar aliviada.

“Pode falar com o Hiperion, ele vai pagar para essas pessoas virem doar.”

Sai do quarto e comecei a andar em direção ao elevador, iria para a sessão de doação de sangue. Algo estranho estava acontecendo, porque de repente me senti cansada e uma parte de mim não queria se afastar daquele homem. Balancei a cabeça afastando aquela sensação.

“Você está bem?”

Virei a cabeça e vi Alexander com uma expressão preocupada.

“Bom, eu vou ficar.” Sorri e apertei o botão do elevador.

“Ele está tão mal assim?”

“Não tenho permissão para falar.”

Apertei o botão do andar de doações e vi que Alexander estava junto comigo ainda.

“Ué, você não devia estar lá no andar protegendo a família Heroux?”

“Pediram para eu ficar com você também…”

Voltei para ele com raiva, mas antes de falar algo ele continuou.

“Não, não… Não é isso que você está pensando, juro…” 

Vi ele jogar as mãos para o ar.

“É só para ter certeza que você está segura, já que é bem difundido que você está responsável por aquela área, então talvez você também vire algo daqueles que nos atacaram no restaurante. “

“Hum… Não me convenceu muito, mas…” Falei mais calma depois da explicação.

“Juro pela… Minha família, Heroux, eles são tudo para mim.” Arqueei a sobrancelha esquerda, ele ia dizer outra coisa, mas resolveu mudar de direção.

“Desse jeito até parece que são mafiosos.” Sorri de canto, era melhor não pressionar.

“E todo bilionário não é assim?”

“É, você tem razão.”

Entrei na ala e vi várias pessoas ali, fui até uma das cadeiras e me sentei. Logo vi Joshua se aproximando.

“Hey! Finalmente! Já estava com saudades!”

Sorri e retribui o selinho dele, estamos juntos há alguns meses já, mas normalmente no trabalho não damos muitas demonstrações de carinho, mas foi a primeira vez que senti uma pontada estranha, como se fosse errado fazer isso.

“Meu turno vai terminar em 4h.” Escutei ele falando e sorri de canto.

“Eu vou até de madrugada, tenho que acompanhar o procedimento dos nossos convidados especiais.” Falei com certa ironia e suspirei, vendo ele começar a arrumar meu braço para inserir a agulha.

“Pena, mas acho que temos alguma margem para nos encontrar.”

Por que a frase dele me fazia sentir enjoada? Será que eu estava ficando doente?

“Dorme lá em casa então, vai ficar mais fácil.”

Forcei as palavras a saírem da minha boca, mas fazia alguns dias já que eu e ele não conseguimos ficar sozinhos. Além do mais, se eu estivesse ficando doente era melhor ter um clínico geral comigo não é mesmo?

Também Alexander parecia incomodado com a situação.

“Ótimo!”

Senti o carinho dele de leve na minha mão e sorri, fechando os olhos. De certa forma ficar com Joshua era acolhedor, mesmo que essa sensação ruim ainda estivesse em mim.

“Depois volto para verificar tudo."

Só acenei positivamente com a cabeça.

“Vou aproveitar e dar uma cochilada.”

Falei ainda de olhos fechados.

Acordei com o toque de Joshua, me balançando de leve.

“Hey, bem vinda de volta ao mundo dos vivos.”

Olhei para ele, piscando várias vezes.

“Hum…”

Ainda estou um pouco tonta, pelo visto tinha dormido muito profundamente.

“Vamos lá, So.” 

Senti a carícia suave na minha bochecha e ao invés de me sentir acolhida veio uma ânsia que me fez afastar a mão dele com um tapa.

“Ouch!”

Joshua estava com uma expressão magoada, mas não me senti inclinada a me desculpar ou sentir qualquer coisa melhor para com ele.

“Desculpe.” Forcei novamente as palavras. “Acho que a doação me deixou mais cansada e com ânsia."

Bom, isso era parte verdadeira.

“Tudo bem. Você se sente melhor para voltar?” Vi ele pegando o estetoscópio para verificar meus sinais e apenas deixei. “Olha, parece que está tudo certo, mas melhor você comer alguma coisa antes de voltar com força total.”

“Obrigada.” Sorri e encostei meus lábios nos dele só para ver se a reação só acontecia quando o contato era mais intimo e bem, não falhou. Podia sentir meu estômago revirar.

Vi o sorriso dele enquanto se afastava, mas minha expressão era de preocupação. Não que eu esperasse casar com ele, mas com certeza Joshua era uma das pessoas que eu mais gostava e também um dos meus relacionamentos mais longos.

“Você está preocupada com o que?”

Sai dos meus pensamentos e olhei para o lado vendo Alexander, o rosto dele era quase impossível de ler, mas com certeza podia ver raiva contida e preocupação nos olhos dele.

“Hum… Hum…” Como já me diziam, se não queria responder uma questão, era só ficar quieta, levantei da cadeira de doação, arrumei minha roupa e peguei o tablet que estava ali do lado.

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