Capítulo 2

Sara POV:

A dor latejava em todo o meu corpo, mas minha mente estava clara. Mais clara do que nunca. Senti o peso das cicatrizes em meu rosto, um lembrete constante da traição que me havia moldado. Cada batida do meu coração parecia ecoar o vazio onde minha Força Interior deveria estar.

Com um gemido sufocado, me levantei da cama. Meus músculos tremiam, uma fraqueza que eu nunca havia conhecido. Augusto ressonava suavemente ao meu lado, inconsciente do vulcão que havia despertado em mim.

Me arrastei até o cofre embutido na parede. Augusto sempre foi previsível. O código? Nosso aniversário de namoro. O dia em que ele me pediu em casamento. O dia em que começaram as mentiras, como agora eu sabia.

Abri o cofre. Meus olhos escanearam o conteúdo. Documentos financeiros. Joias. E... um diário digital.

Meus dedos tremiam ao pegar o diário. Augusto sempre disse que escrevia sobre nós, sobre nosso futuro. Que tola eu fui.

Liguei o aparelho. A tela brilhou, revelando uma série de entradas. Mas não sobre nós. Sobre outra.

As primeiras páginas eram cheias de fotos de ultrassom. Datas. Sintomas de gravidez. Tudo detalhado. E a data de concepção… coincidia perfeitamente com a semana em que Augusto me pediu em casamento.

" Hoje, minha Rebeca me deu a melhor notícia da minha vida. Um filho. Eu serei pai. Duas vidas novas para proteger. É hora de colocar meus planos em ação. Sara será... removida do caminho, mas de forma que não gere escândalo. Minha linhagem, meu legado, precisam ser assegurados."

Eu ri. Uma risada seca e sem humor. Ele estava me pedindo em casamento enquanto outro filho crescia no ventre de outra mulher. Que gênio. Que monstro.

Rolei a tela. Havia uma pasta intitulada "Oliver" . Centenas de fotos. Vídeos. Augusto ao lado de Rebeca, segurando um recém-nascido. As entradas do diário eram cheias da voz dele.

"Oliver deu seu primeiro sorriso hoje. Tão perfeito. Eu sou um pai orgulhoso."

"Ele disse 'papai' . Meu coração explodiu. Preciso garantir que ele tenha tudo. O lugar que merece."

"O berço já está pronto no quarto secreto. Rebeca está cuidando de cada detalhe. Sara nunca vai suspeitar. Ela está ocupada demais com os preparativos do casamento. Tão ingênua."

O quarto secreto. Onde ele planejava a vida que eu nunca teria.

Havia também receitas detalhadas de refeições para gestantes, com anotações de Augusto sobre os gostos de Rebeca. Listas de enxoval. Planos para o futuro da criança. Cada detalhe que ele negou a mim.

Percebi que o nascimento de Oliver coincidia com um período em que Augusto alegou estar em uma viagem de negócios urgente. Ele até me disse que sentia falta da minha Força Interior, que poderia me ajudar a lidar com a solidão. Fui tão cega.

Lembrei-me de quando o questionei sobre termos filhos. Eu queria uma família. Ele me disse que não estava pronto. Que precisávamos nos focar em nossa carreira. Em "nossa" casa.

"Não estamos prontos, Sara. Uma criança exige muito. E sua Força Interior… é um pouco fraca para sustentar uma gravidez agora. Precisamos fortalecê-la primeiro."

Mentiras. Todas mentiras. Ele não estava pronto para ter filhos comigo. Ele já tinha um filho. Com Rebeca.

Meus olhos se fixaram em um anel. Não o meu anel de noivado. Era diferente. Mais elaborado. Com uma gravação: "Para minha Rebeca, para sempre."

Então, ele planejava se casar com ela. Depois de me destruir. Depois de me tornar infértil.

Havia documentos. Escrituras de uma propriedade. Em nome de Rebeca Bernardino. Com a data de registro de dois anos atrás. O mesmo ano em que ele me convenceu a investir todas as minhas economias em um "projeto de segurança" para nossa "futura família" .

Uma pasta de documentos jurídicos. Um contrato pré-nupcial, com Augusto Caldeira e Rebeca Bernardino como partes. E instruções para o celebrante do casamento.

"Garanta que a cerimônia seja discreta, mas impecável. E que o 'problema' atual seja resolvido antes da data. Não quero vestígios. Ninguém deve saber."

O problema. Sou eu. Eu era o problema.

Minha garganta apertou. O ar pareceu rarefeito. Comecei a rir. Uma risada histérica, que rapidamente se transformou em soluços. Soluços incontroláveis que rasgavam minha garganta.

Peguei meu telefone, meus dedos trêmulos mal conseguindo digitar. Abri o aplicativo de mensagens. Minha melhor amiga. Olívia.

"Olívia," eu digitei, as lágrimas embaçando minha visão. "Preciso de você. Preciso de um médico. Preciso desaparecer. Preciso de ajuda."

Enviei. O mundo parecia ruir ao meu redor. Mas em meio às ruínas, uma única flor de raiva começava a brotar. Uma promessa de que eu não seria destruída.

Minha mensagem foi enviada. Olívia não fez perguntas. Ela sempre foi leal. Ela pensou que eu finalmente tinha percebido o quão Augusto era um lixo.

A resposta dela veio quase instantaneamente: "Você merece mais, Sara. Muito mais. Estou a caminho."

Soltei o telefone no chão. O cansaço me dominou. Cai em um sono profundo. Um sono sem Augusto. Sem suas mentiras.

Meus sonhos não eram mais sobre ele. Eram sobre mim. Sobre liberdade.

Fui acordada pelo som de um choro. Um choro gutural, vindo de Augusto. Ele estava sentado na beira da cama, segurando um relatório. Suas mãos tremiam incontrolavelmente.

"Não," ele sussurrava. "Não pode ser."

Ele se virou para mim, os olhos vermelhos e inchados. Um ator nato.

"O Dr. Guilherme… ele veio enquanto você dormia," ele disse, a voz embargada. "Ele trouxe os resultados dos seus exames mais recentes. Ele disse que o incêndio... a explosão de Força Interior... danificou seu sistema reprodutivo. Sua Força Interior está quase morta. Você... você não pode ter filhos, Sara."

Ele me abraçou, chorando descontroladamente. "Nossa linhagem. Meu legado. Tudo por água abaixo. Eu queria tanto um filho com você."

Senti um calafrio. As mesmas palavras que ele disse ao Dr. Guilherme. Agora, ele estava recitando para mim, com lágrimas de crocodilo.

Ele se afastou, seus olhos fixos nos meus. "Mas não se preocupe, meu amor. Eu não vou abandoná-la. Nunca. Você é minha companheira. E sempre será. Vamos adotar. Sim. Adotar um órfão. Isso vai nos ajudar a curar. Vai ajudar você a recuperar sua Força Interior."

Ele enxugou uma lágrima do meu rosto com o polegar. Sua tristeza parecia genuína. Mais genuína do que a minha. Era nojento.

Eu o encarei. Cada fibra do meu ser gritava para eu expor suas mentiras. Mas eu precisava de tempo. Precisava de um plano.

"Eu... eu entendo, Augusto," eu disse, minha voz baixa e trêmula. Fingindo a dor que ele queria ver. "É... é difícil. Mas se você acha que adotar é o melhor... eu confio em você."

Ele me abraçou novamente. "Meu amor, você é tão compreensiva. Eu sempre soube que você era a pessoa certa para mim."

Ele se afastou, mas ainda me segurava pelos ombros. Havia um brilho esperançoso em seus olhos. Uma excitação disfarçada.

"A cerimônia… está tudo pronto. Rebeca está cuidando dos últimos detalhes. Ela é uma amiga maravilhosa, não é? Mas com sua condição… talvez não seja bom para você. A exposição. O estresse."

Ele estava me dando uma saída. Ele queria que eu me afastasse.

"Eu... eu compreendo," eu disse, baixando o olhar. "Talvez seja melhor eu não ir. Para não... envergonhar nossa nobre coletividade. Eu não quero que pensem que você é fraco por ter uma companheira com a Força Interior comprometida."

Ele me olhou, surpreso. Ele esperava uma luta. Uma súplica. Mas eu o estava entregando o que ele queria.

"Sara," ele engasgou. "Você é a mulher mais forte que eu conheço."

Meu telefone tocou na mesa de cabeceira. Ele olhou para o aparelho, depois para mim, uma ruga de confusão em sua testa.

"Você... você cancelou seu registro na coletividade?" ele perguntou, sua voz cheia de desconfiança. Ele queria me destruir. Mas não queria que eu tomasse minhas próprias decisões.

Ainda não. Ainda não era a hora.

Capítulo 3

Sara POV:

Eu olhei para ele, meus olhos fixos nos dele. Não havia tremor em meu olhar, apenas uma calma artificial que eu havia cultivado nas últimas horas.

"Augusto," eu disse, minha voz suave, quase um sussurro. "Como você sabe, minha Força Interior está... comprometida. Eu não sou mais a mesma. Não seria justo com a coletividade que eu mantivesse meu registro ativo. Como uma mulher com a Força Interior enfraquecida, eu seria um fardo. Não quero que pensem que a linhagem Caldeira está se enfraquecendo por minha causa."

Ele relaxou visivelmente. Sua expressão de confusão se transformou em uma de falsa preocupação. O ator em tempo integral.

"Meu amor, nunca pense assim. Você sempre será minha companheira. Ninguém na coletividade questionará sua posição. Você é digna de tudo."

Oh, Augusto, você não faz ideia do que eu sou digna.

Eu continuei a encará-lo. "Eu sei que você está ocupado com a cerimônia. E com a adoção. Não quero ser um problema. Eu sempre fui leal à nossa coletividade. E não farei nada para manchar seu nome. Eu seguirei as regras. Em silêncio."

Ele me puxou para um abraço apertado, quase sufocante. "É por isso que eu a amo, Sara. Você sempre pensa no bem da coletividade. Você é perfeita para a minha família. Você é tão... nobre."

Eu forcei um sorriso amargo, que ele, claro, não percebeu. Ele estava tão cego por sua própria arrogância.

"Augusto," eu disse, me afastando um pouco. "Talvez eu deva ir para um lugar mais calmo por um tempo. Para me recuperar. Longe de tudo isso. As feridas ainda estão abertas. E a perda da minha Força Interior… é mais difícil do que eu imaginei."

Seu corpo imediatamente tencionou. Ele me segurou com mais força.

"Não! De jeito nenhum," ele disse, sua voz tensa. "Você ainda não está recuperada. É perigoso para você sair sem mim. E sem a Força Interior dela, você é ainda mais vulnerável."

Eu dei um sorriso fraco e puxei o braço dele gentilmente. "Augusto, por favor. É só por alguns dias. Eu só preciso de paz. Pense em nossa futura criança. Não quero que ela nasça em um ambiente de tristeza. E sobre a adoção... você já tem um nome em mente?"

A menção da criança o acalmou. Seu rosto, antes tenso, suavizou.

"Sim. Sim, eu tenho," ele disse, um brilho de excitação em seus olhos. "O Dr. Guilherme me apresentou a um órfão da nossa linhagem. Um menino. Ele está em um orfanato aqui perto. Eu o visito regularmente. Ele é forte. É... um Caldeira. Gostaria de conhecê-lo?"

Conhecer Oliver, eu pensei. O filho que ele me roubou.

"Sim, Augusto," eu disse, minha voz carregada de uma falsa emoção. "Eu adoraria. Quero fazer parte da vida de nosso filho. De nosso futuro."

A caminho do orfanato, Augusto tirou um brinquedo do banco de trás. Um pequeno lobo de pelúcia.

"Comprei isso para você, meu amor," ele disse, me entregando. "É para te animar."

Eu peguei o brinquedo. A etiqueta revelava que era para crianças de 3 anos ou mais. O mesmo brinquedo que ele comprou para Oliver, sem dúvida.

Eu o coloquei no colo, fingindo uma tontura. "Obrigada, Augusto. Acho que ainda estou um pouco fraca."

Cinco anos de mentiras. Cinco anos de farsa. Isso acaba hoje.

Chegamos ao orfanato. Eu estava em uma cadeira de rodas, fingindo fraqueza, minhas cicatrizes em evidência.

Um menino pequeno correu em direção a Augusto.

"Papai!" ele gritou, se jogando nos braços de Augusto.

Augusto congelou. Seus olhos se arregalaram. Ele me olhou, pânico estampado em seu rosto.

"Oliver! Meu menino!" Augusto disse, forçando um sorriso. Ele me olhou e apressadamente emendou: "Ele chama todos os homens de 'papai' . É um hábito comum aqui no orfanato. Ele é tão carente de uma figura paterna."

Eu assenti, estendendo a mão e tocando o rosto do menino. Ele era a cópia de Augusto. Os mesmos olhos azuis intensos. O mesmo formato de nariz. Mas o sorriso... o sorriso era de Rebeca.

"Ele parece muito com você, Augusto," eu disse, forçando um tom de admiração. "Quão... encantador. Qual o nome dele?"

"Oliver," Augusto disse, sua voz um pouco mais relaxada. "É o órfão que eu sugeri. Um nome forte, não acha?"

Eu acariciei os cabelos de Oliver. Ele cheirava a Augusto. E a um perfume floral que eu conhecia muito bem. O perfume de Rebeca.

Minha Força Interior estava danificada, mas meus outros sentidos, não. Eu não era tão fácil de enganar.

De repente, Oliver começou a chorar. "Mãe! Eu quero a mamãe!"

Augusto empalideceu. O cheiro de seu medo era palpável. Ele olhou para mim, os olhos cheios de pânico.

"Ele... ele sente falta da cuidadora," Augusto gaguejou. "Ele a chama de mãe."

Eu sorri, um sorriso puro e inocente. "Ele é um menino adorável, Augusto. Ele tem a Força Interior de um Caldeira. É um belo nome."

Minha calma o tranquilizou. Ele pegou Oliver nos braços e o levou apressadamente para um escritório adjacente. Oliver se agarrava a ele, como um filhote a seu pai.

Eu me aproximei da porta, fingindo que ia pegar minha medicação. Pude ouvir vozes abafadas lá dentro.

O cheiro de Rebeca era inconfundível agora. Ela estava lá. Com eles.

As vozes ficaram mais claras. Eram os membros da coletividade. Os anciãos.

"Então, ele está fingindo que o filho dele é um órfão? E ainda por cima, Oliver está usando roupas de grife? Que absurdo!"

"Augusto sempre foi um mestre da manipulação. Isso é para legalizar o filho dele. Para que a outra possa assumir o lugar dela sem escândalo."

"E a pobre Sara? Ela não sabe de nada? Que patética! E ainda aceitou a infertilidade como um fardo."

"É por isso que ela é tão fraca. Ela nunca seria capaz de gerar um herdeiro forte para a coletividade. A outra… Rebeca, ela é mais adequada. Mais forte. Mais fértil."

Meu peito apertou. A dor rasgou minha alma. Eu mal conseguia respirar.

Eu me aproximei ainda mais da porta. As vozes de Augusto e Rebeca eram claras agora.

"Você está bem, meu amor?" Augusto perguntou, sua voz suave.

"Estou bem, Augusto," Rebeca respondeu, sua voz carregada de um escárnio mal disfarçado. "Apenas cansada de toda essa farsa. De ter que fingir que sou sua 'amiga'. E de ter que esconder nosso filho. Quando poderemos ser uma família de verdade?"

Augusto riu amargamente. "Em breve, meu amor. Em breve. Assim que Oliver for oficialmente um Caldeira, não teremos mais nada a temer. Eu cuidarei de vocês dois. Sempre."

Ouvi o som de uma caixa sendo aberta.

"Eu te trouxe um presente, meu amor," Augusto disse. "Um creme especial. Para suas cicatrizes. É o melhor que existe. Vai apagar todas as marcas."

Rebeca soltou um suspiro de admiração. "Augusto! É lindo! Mas... e Sara? Se ela descobrir? Ela vai ficar furiosa."

"Sara não precisa de creme," Augusto disse, sua voz gélida. "As cicatrizes dela não importam. Para a coletividade, ela já é um problema resolvido."

Nesse momento, a risada inocente de Oliver preencheu o ar. Uma risada de criança, pura e feliz. Mergulhada no amor de seus pais. O amor que ele me roubou.

"Mamãe! Papai! Quando vamos para casa?" Oliver perguntou.

A risada dele era a trilha sonora da minha destruição.

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