Capítulo 2

O som do metal a rasgar foi a última coisa que ouvi antes de a minha cabeça bater no volante.

O cinto de segurança apertou o meu peito, a minha barriga de grávida de oito meses pressionada de forma perigosa.

"Mãe? Estás bem?"

A minha voz saiu trémula, cheia de pânico. A minha mãe, no banco do passageiro, estava desmaiada, com um corte feio na testa a sangrar abundantemente.

O nosso carro estava destruído contra uma árvore na berma da estrada, o motor a fumegar. O outro condutor fugiu.

As minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar no telemóvel. O primeiro número que disquei foi o do meu marido, Lucas.

Ele atendeu ao terceiro toque, a sua voz impaciente.

"Clara? O que foi agora? Estou ocupado."

"Lucas, tivemos um acidente. Um acidente grave. A mãe está ferida, eu... eu não sei. Preciso de ti."

O pânico na minha voz era óbvio, mas ele não pareceu notar.

"Um acidente? Estás bem? Chama uma ambulância, estou a meio de uma coisa importante."

"Importante? Lucas, eu estou a sangrar! A mãe não acorda!"

Houve uma pausa, e ouvi a voz da minha cunhada, Sofia, ao fundo. A sua voz era chorosa e mimada.

"Lucas, o meu tornozelo dói tanto. Podes ir buscar-me gelo? Por favor?"

A voz do meu marido suavizou-se instantaneamente, cheia de uma ternura que ele raramente me mostrava.

"Calma, Sofia, estou a ir. Não te mexas."

Ele voltou a falar comigo, o seu tom novamente frio e duro.

"Ouve, a Sofia torceu o tornozelo a descer as escadas. Ela está em pânico, preciso de cuidar dela. Fica onde estás, a ajuda há de chegar."

"Ela torceu o tornozelo? E eu estou num acidente de carro! Lucas, por favor!"

"Pára de ser dramática, Clara. Não vês que a Sofia precisa de mim? Ela é frágil. Resolve os teus problemas, liga para o 112. Tenho de ir."

Ele desligou.

O som do silêncio no meu ouvido foi mais ensurdecedor do que o da colisão. Olhei para a minha mãe inconsciente, para o sangue nas minhas calças, para a minha barriga enorme.

Naquele momento, debaixo do fumo do motor e do cheiro a gasolina, eu soube. O meu casamento tinha acabado.

Capítulo 3

Uma dor aguda e lancinante atravessou o meu abdómen, fazendo-me gritar.

As luzes da ambulância finalmente chegaram, uma eternidade depois. Os paramédicos tiraram-me do carro com cuidado, colocando-me numa maca.

"A minha mãe," consegui dizer. "Salvem a minha mãe."

No hospital, tudo se tornou um borrão de luzes brancas, vozes apressadas e o cheiro a antissético. Levaram-me para uma sala de operações de emergência.

Quando acordei, a primeira coisa que senti foi o vazio. O peso na minha barriga tinha desaparecido.

Uma enfermeira com um rosto simpático estava ao meu lado.

"Onde está o meu bebé?" perguntei, a minha voz rouca.

Ela evitou o meu olhar. "Lamento, Sra. Alves. Devido ao trauma do acidente e à hemorragia, não conseguimos salvar a gravidez. Era um menino."

As suas palavras não fizeram sentido de imediato. Um menino. O meu menino.

Toquei na minha barriga, agora estranhamente lisa debaixo do lençol do hospital. Não havia mais pontapés. Não havia mais vida.

As lágrimas começaram a rolar silenciosamente pelo meu rosto. Não havia soluços, apenas uma torrente silenciosa de dor que parecia não ter fim.

O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Tinha 15 chamadas perdidas da minha sogra, Helena, e nenhuma do Lucas.

Ele não se importou em ligar. Ele estava ocupado com um tornozelo torcido.

Uma médica entrou no quarto.

"Clara, sou a Dra. Mendes. A sua mãe está estável. Teve uma concussão e algumas costelas partidas, mas vai recuperar. Ela teve sorte."

"E eu?" perguntei, a voz morta. "Eu tive sorte?"

A médica olhou para mim com compaixão. "O que passou foi terrível. A perda do seu filho foi uma consequência direta do impacto e do stress agudo. Se tivesse recebido ajuda mais cedo..."

Ela não terminou a frase. Não precisava.

Se o meu marido tivesse vindo. Se ele me tivesse colocado a mim e ao seu filho em primeiro lugar.

O meu menino ainda estaria aqui.

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