Capítulo 2

A festa de aniversário da minha sogra, Helena, estava no auge. A casa, em Lisboa, estava cheia de risos e do som de copos a tilintar. Eu sorria, sentada num sofá um pouco afastado, com a mão a proteger a minha barriga de sete meses.

O meu marido, Miguel, estava no centro da sala, a contar uma história que fazia todos rir. A sua irmã, Sofia, estava agarrada ao seu braço, a rir mais alto que todos. Ela sempre foi assim, o centro do universo dele.

Helena aproximou-se de mim, com um sorriso que não chegava aos olhos.

"Clara, querida, não estás a beber? Ah, claro. O bebé."

Ela disse a palavra "bebé" como se fosse uma doença.

"Estou bem, Helena. Apenas a descansar um pouco."

"Claro. O Miguel está a divertir-se tanto. Ele precisa disto. Tem andado tão stressado contigo."

As suas palavras eram pequenas farpas, mas eu já estava habituada. Para a família dele, eu era a intrusa que lhe roubou o filho e irmão perfeito.

De repente, um cheiro acre encheu o ar. Fumo.

Alguém gritou da cozinha.

"Fogo!"

O pânico instalou-se instantaneamente. A música parou. Os risos transformaram-se em gritos. As pessoas começaram a correr para a porta da frente.

Levantei-me, o coração a bater descontroladamente. Procurei o Miguel no meio da confusão. Vi-o, os olhos arregalados de pânico. O nosso olhar cruzou-se.

"Miguel!" gritei.

Ele começou a correr na minha direção, mas depois a voz de Sofia soou, aguda e desesperada, vinda do corredor do andar de cima.

"Miguel! Ajuda-me! Estou presa!"

Ele parou. Olhou para mim, depois para as escadas onde o fumo já descia em nuvens densas e escuras. O seu rosto era uma máscara de indecisão torturante.

"Eu estou aqui, Miguel! O fumo está a ficar mais denso!" A minha voz era um apelo desesperado. Eu estava grávida do filho dele.

Mas ele olhou para as escadas uma última vez e depois para mim.

"A Sofia tem asma. Ela não sobrevive a isto. Fica aqui, não te mexas!"

E com isso, ele virou-se e correu escadas acima, desaparecendo no fumo para salvar a irmã.

Fiquei ali, paralisada. O fumo queimava-me os pulmões. A sala estava a ficar vazia, exceto por mim. Ele escolheu-a. No momento mais crucial da nossa vida, ele não me escolheu a mim. Nem ao nosso filho.

A minha visão começou a ficar turva. A última coisa que ouvi antes de desmaiar foi o som distante das sirenes dos bombeiros.

Capítulo 3

Acordei com o som de um bip constante e um cheiro a antissético. As paredes eram brancas. Hospital.

Uma enfermeira estava a ajustar o soro no meu braço. Ela sorriu-me com simpatia.

"A menina acordou. Como se sente?"

A minha primeira ação foi levar a mão à minha barriga. Estava... mais pequena. Menos firme. O pânico subiu pela minha garganta.

"O meu bebé... Onde está o meu bebé?"

O rosto da enfermeira ficou sério. Ela desviou o olhar.

"O médico virá falar consigo em breve. Tente descansar."

Mas eu já sabia. O silêncio dela era a resposta mais alta de todas. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas e quentes. Perdi-o. O meu filho.

Miguel entrou no quarto nesse momento. Tinha o rosto sujo de fuligem e os olhos vermelhos. Ele correu para o meu lado.

"Clara! Graças a Deus, estás bem. Eu estava tão preocupado."

Ele tentou pegar na minha mão, mas eu afastei-a.

"Onde está o nosso filho, Miguel?" A minha voz era fria, sem emoção.

Ele baixou a cabeça.

"Os médicos disseram... a inalação de fumo... o stress... provocou o parto. Era demasiado cedo. Ele não... ele não sobreviveu."

As palavras dele pairaram no ar, pesadas e horríveis. Fiquei a olhar para o teto branco, sentindo um vazio tão grande dentro de mim que parecia que ia engolir o mundo inteiro.

"A Sofia está bem?" perguntei, a voz ainda sem inflexão.

Ele pareceu surpreendido com a pergunta.

"Sim, sim, ela está bem. Só um pouco assustada e inalou um pouco de fumo. A minha mãe está com ela noutro quarto. Ela estava em pânico, coitada."

Coitada. Ele estava a consolar a irmã por um susto, enquanto o nosso filho estava morto.

"Quero o divórcio, Miguel."

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar nelas. Mas assim que as disse, soube que eram a única verdade que me restava.

Miguel olhou para mim, chocado.

"O quê? Clara, não digas isso. Estás em choque. Nós acabámos de perder o nosso filho. Precisamos um do outro agora."

"Não," eu disse, virando o rosto para ele pela primeira vez. Os meus olhos estavam secos agora. "Eu precisei de ti na festa. O nosso filho precisou de ti. E tu escolheste a Sofia."

"Não é justo! Ela tem asma! Ela podia ter morrido!"

"E eu? Grávida de sete meses? Eu não podia morrer? O nosso filho não importava?"

"Claro que importava! Eu pensei que tinha mais tempo! Pensei que te podia tirar de lá a seguir!"

As suas desculpas eram como areia na minha boca. Vazias. Sem sentido.

"Sai."

"Clara..."

"Eu disse para saíres do meu quarto. Agora."

Ele ficou a olhar para mim por mais um momento, o rosto uma mistura de dor e confusão. Depois, virou-se e saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.

Sozinha no silêncio, o meu corpo começou a tremer. O vazio deu lugar a uma dor que me partiu ao meio. O meu bebé. O meu menino. Tinha desaparecido para sempre. E o homem que jurou proteger-nos tinha sido o primeiro a abandonar-nos.

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