O cheiro de desinfetante no hospital era forte, quase sufocante.
Eu acordei com uma dor aguda na minha barriga agora vazia.
O meu bebé, que deveria nascer em duas semanas, tinha-se ido.
O meu marido, Miguel, não estava ao meu lado.
A minha sogra, Laura, entrou no quarto, com o rosto carregado de desprezo.
"Eva, como pudeste ser tão descuidada? Grávida de quase nove meses e ainda a conduzir por aí. Agora o meu neto se foi!"
A sua voz era fria, cada palavra me atingia com força.
Eu olhei para ela, a minha própria voz fraca e rouca.
"Onde está o Miguel?"
Ela bufou, ajeitando a sua bolsa de marca.
"O Miguel está a cuidar da Sofia. Ela ficou tão assustada com o acidente, coitadinha. O médico disse que o trauma emocional dela é severo."
Sofia. A ex-namorada do meu marido.
A mulher que ele escolheu salvar primeiro, deixando-me presa nos destroços do carro.
Senti uma amargura subir pela minha garganta.
"Nós vamos divorciar-nos."
A minha decisão foi instantânea, clara como o dia.
Laura olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido.
"Divórcio? Tu perdeste o meu neto e agora queres destruir a minha família? Eva, tu não tens vergonha?"
Ela não esperou por uma resposta, virou-se e saiu, batendo a porta com força.
Sozinha no quarto branco e estéril, as lágrimas que eu segurava finalmente caíram.
Eu lembrava-me do acidente.
O som do metal a ranger, o vidro a estilhaçar-se.
Eu liguei para o Miguel, a minha voz a tremer.
"Miguel, eu tive um acidente. O bebé... por favor, ajuda-me."
A sua voz do outro lado estava cheia de pânico, mas não por mim.
"Sofia estava no carro atrás de ti! Ela está bem? Estou a caminho!"
Ele desligou.
Essa foi a última coisa que ouvi antes de desmaiar.
Quando acordei, o meu mundo tinha desabado.
O meu bebé tinha-se ido, e o meu marido tinha feito a sua escolha.
Não havia mais nada a que me agarrar.
O Miguel só apareceu no dia seguinte.
Ele parecia cansado, com olheiras escuras sob os olhos, mas a sua roupa estava impecável.
Ele sentou-se na cadeira ao lado da minha cama, evitando o meu olhar.
"Eva, eu sei que estás chateada."
A sua voz era baixa, quase um sussurro.
"Mas a Sofia estava em choque. Ela precisava de mim."
Eu ri, um som seco e sem alegria que arranhou a minha garganta.
"E eu? Eu não precisava de ti? O nosso filho não precisava de ti?"
Ele finalmente olhou para mim, e vi irritação nos seus olhos.
"Não sejas dramática. Foi um acidente. Estas coisas acontecem."
"Estas coisas acontecem?", repeti, a minha voz a subir. "Tu deixaste-me a sangrar no carro para ires consolar a tua ex-namorada! O nosso filho morreu, Miguel!"
"Não fales do meu filho!", ele gritou, levantando-se de repente. "Tu é que foste irresponsável! Se tivesses ficado em casa como eu te disse, nada disto teria acontecido!"
A culpa. Ele estava a tentar virar a culpa para mim.
Eu senti o meu corpo tremer de raiva.
"Eu fui a uma consulta pré-natal, Miguel. Uma consulta que tu te esqueceste porque estavas 'demasiado ocupado'."
Ele ficou sem palavras, o seu rosto vermelho de fúria.
Nesse momento, o meu advogado, o Sr. Alves, entrou no quarto. Ele era um velho amigo da minha família.
Ele olhou para o Miguel com frieza e depois para mim, com uma expressão de simpatia.
"Eva, eu trouxe os papéis do divórcio, como pediste."
Ele colocou uma pasta na mesinha de cabeceira.
O Miguel olhou para os papéis e depois para mim, incrédulo.
"Tu estás mesmo a fazer isto? Depois de tudo o que passámos?"
"Depois do que tu me fizeste passar", corrigi, a minha voz firme. "Acabou, Miguel. Eu quero o divórcio."
Ele riu, um som desagradável.
"Tu não vais conseguir nada, Eva. Tu não tens nada. O teu pai deixou-te sem um tostão. Vais voltar a rastejar para mim."
Com essa ameaça, ele saiu do quarto, deixando um silêncio pesado para trás.
O Sr. Alves suspirou.
"Ele vai tornar as coisas difíceis, Eva."
"Eu sei", respondi, olhando para a minha barriga lisa sob os lençóis. "Mas eu já perdi tudo o que importava. Não tenho mais nada a temer."