Capítulo 2

O meu filho, Leo, começou a ter convulsões às três da manhã.

A sua febre estava a arder, o seu corpo pequeno tremia violentamente na cama. Corri para o quarto, o pânico a tomar conta de mim.

Peguei no telefone, as minhas mãos a tremer tanto que mal conseguia marcar o número do meu marido, Miguel.

A chamada tocou uma, duas, três vezes. Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava sonolenta e irritada.

"Clara? O que foi? São três da manhã."

"Miguel, é o Leo! Ele está a arder em febre, está a ter convulsões! Precisamos de ir para o hospital, agora!"

Houve uma pausa. Ao fundo, ouvi uma voz feminina, chorosa e suave. Era a Sofia, a sua meia-irmã.

"Miguel, o Mimo ainda não voltou... Estou com tanto medo."

O Miguel suspirou ao telefone, não para mim, mas para ela.

"Calma, Sofia. Vamos encontrá-lo. Ele não pode ter ido longe."

A sua atenção voltou para mim, a sua voz dura e fria.

"É só uma febre, Clara. Dá-lhe um remédio. Estou ocupado aqui, a Sofia está a ter um ataque de pânico. O gato dela fugiu."

O gato dela.

O meu filho estava a ter convulsões, e o meu marido estava a consolar a sua meia-irmã por causa de um gato desaparecido.

"Miguel, isto é sério! Ele precisa de um médico!"

"Eu sei que estás preocupada, mas não podes exagerar sempre? A Sofia precisa de mim agora. Ela está sozinha e assustada. Leva um táxi para o hospital se achas que é assim tão grave. Ligo-te mais tarde."

Ele desligou.

Não houve mais tarde.

Enrolei o Leo num cobertor, o seu corpo a alternar entre tremores e uma rigidez assustadora. Corri para a rua na noite fria, acenando desesperadamente por um táxi.

No hospital, os médicos e enfermeiros agiram rapidamente. Levaram o Leo de mim, e eu fiquei sozinha no corredor branco e estéril. O silêncio era ensurdecedor.

Horas mais tarde, um médico veio ter comigo. O seu rosto era grave.

"O seu filho tem meningite bacteriana. A intervenção rápida foi crucial. As próximas 48 horas são críticas."

Meningite.

A palavra ecoou na minha cabeça. Uma doença que podia matar ou deixar sequelas permanentes.

Sentei-me no banco de plástico duro, o meu corpo frio. Olhei para o meu telefone. Nenhuma chamada perdida do Miguel. Nenhuma mensagem.

Naquele momento, no corredor silencioso do hospital, com o cheiro a antissético no ar, eu soube. O meu casamento tinha acabado.

Capítulo 3

Miguel só apareceu no hospital ao meio-dia.

Ele entrou no quarto, cheirando a café e a ar fresco da rua. Trazia um ar de quem tinha dormido bem.

"Então, como está o campeão?"

Ele perguntou, a sua voz casual, como se estivesse a perguntar sobre um joelho arranhado.

Leo estava a dormir, pálido, com um acesso intravenoso no seu pequeno braço.

Eu não respondi. Apenas olhei para ele.

"Clara, não me olhes assim. Eu disse que viria."

"Ele tem meningite, Miguel."

A minha voz saiu plana, sem emoção.

Ele franziu a testa, a sua irritação a crescer.

"Meningite? Os médicos dizem sempre o pior para se protegerem. Ele vai ficar bem. As crianças são fortes."

"As próximas 48 horas são críticas. Ele podia ter morrido."

"Mas não morreu, pois não? Estás a exagerar. Eu estava a ajudar a Sofia. Ela estava destroçada. Encontrámos o gato dela debaixo de um carro, assustado mas bem."

Ele sorriu, como se esperasse que eu partilhasse do seu alívio.

O meu silêncio pareceu finalmente incomodá-lo.

"O que se passa contigo? Não vais dizer nada?"

"Eu quero o divórcio."

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar nelas. Mas assim que as disse, soube que eram a única verdade que me restava.

A expressão de Miguel mudou de irritação para incredulidade, e depois para fúria.

"Divórcio? Estás a brincar comigo? Por causa disto? Porque eu ajudei a minha irmã?"

"Ela não é tua irmã de sangue, Miguel. E mesmo que fosse, o Leo é teu filho. Ele estava em perigo de vida, e tu foste procurar um gato."

"Não sejas ridícula! A Sofia não tem mais ninguém! Tu és forte, sabes cuidar das coisas. Ela é frágil!"

Frágil. Aquela palavra. A desculpa para tudo.

"Eu cansei-me, Miguel. Cansei-me de ser a segunda opção. Cansei-me de o nosso filho ser menos importante que os sentimentos da Sofia."

Ele aproximou-se, a sua voz um sussurro zangado.

"Não te atrevas a fazer isto, Clara. Vais arrepender-te. Vais destruir a nossa família por um capricho."

"A família já foi destruída", respondi, virando-me para olhar para o meu filho. "Tu destruíste-a na noite passada, quando escolheste um gato em vez do teu filho."

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