Capítulo 2

O mundo escureceu depois que ele se foi. Meu corpo caiu no chão, a dor em meu abdômen se intensificando, uma agonia implacável e roedora. Eu gritei, um som gutural arrancado da minha alma, mas ninguém veio. Ele tinha ido embora. E ele tinha levado tudo com ele.

Eu me debati no mármore frio, minhas mãos pressionadas contra meu estômago, tentando me agarrar a algo que já estava escapando. "Adriano!", eu lamentei, minha voz rouca, desesperada. "Por favor, não me deixe! Por favor!"

Ele nunca olhou para trás. O som de seus passos desapareceu, substituído pelo zumbido em meus ouvidos, o fluxo de sangue, os arquejos irregulares por ar. Ele era meu mundo, meu protetor, o único que entendia os monstros que assombravam minhas noites. Agora, até ele havia se tornado um deles.

"Você é tudo o que eu tenho!", eu engasguei, um último e desesperado apelo sussurrado no ar vazio. Minha família, minha casa, minha paz de espírito – tudo havia sido estilhaçado anos atrás. Ele foi quem prometeu reconstruir tudo, ser meu tudo. E ele simplesmente foi embora.

Sua voz, fria e distante, ecoou em minha memória. Você assassinou nosso filho. Era uma mentira. Uma mentira cruel e viciosa. Mas era a verdade dele. "Precisamos de vidas separadas, Eleonora", ele havia dito, suas palavras uma sentença de morte. "É para o melhor."

Ouvi a porta da frente se fechar, a finalidade do som um golpe físico. Ele realmente tinha ido embora. O vazio que se instalou na cobertura era mais pesado que qualquer peso físico. Esmagou-me, roubando meu fôlego, minha vontade de lutar.

"Mentiroso!", eu gritei, minha voz crua, quebrada. "Você mentiu para mim! Você prometeu!"

Antes de Adriano, antes do incêndio, eu era Eleonora Mendonça, um nome que carregava o peso do dinheiro antigo, da aristocracia paulistana. Eu era vibrante, cheia de vida, uma socialite que se movia com graça e risos. Minha família, os Mendonça, eram pilares da sociedade, seu legado entrelaçado na própria estrutura da cidade.

Então veio a noite da invasão domiciliar. Um ato brutal e sem sentido que despedaçou minha família. Meus pais, se foram. Meu mundo, estilhaçado em um milhão de pedaços irreparáveis. Fui deixada com uma casca de vida, assombrada por sombras e pelo aperto constante e sufocante do estresse pós-traumático. Cada barulho alto, cada movimento súbito, me enviava de volta para aquela noite. A socialite vibrante foi substituída por uma garota trêmula e aterrorizada.

Adriano Barros, a estrela em ascensão do mundo da tecnologia, entrou em minha vida como uma força da natureza. Ele era dinheiro novo, ambição implacável, mas viu algo em mim, algo que valia a pena salvar. Ele me tirou dos escombros, me cobriu com sua proteção e jurou nunca mais deixar nada me tocar. Ele se tornou meu protetor feroz, me protegendo do mundo, dos meus próprios demônios.

Mas o trauma havia me mudado. Torceu meu amor, deformou minha lealdade. Tornei-me ferozmente possessiva, minha "loucura", como as pessoas a chamavam, uma tentativa desesperada de impedir que meu mundo desmoronasse novamente. Eu via ameaças em todos os lugares, em cada olhar, em cada sussurro. Adriano entendia, ou assim eu pensava. Ele até lutou contra sua própria família, seus pais de dinheiro antigo, que me viam como um fardo instável, uma mancha em sua carreira em ascensão.

"Ela precisa de mim", ele rugiu para eles, sua voz ecoando por sua mansão opulenta. "Ela é minha esposa. Minha responsabilidade." Ele até desistiu de um grande negócio, um que teria cimentado seu império, apenas para ficar ao meu lado durante um episódio particularmente brutal. "Você é minha prioridade, Eleonora", ele sussurrou, me abraçando forte, suas palavras um bálsamo para minha alma quebrada. "Sempre."

Agora, essas promessas, esses sacrifícios, pareciam cinzas em minha boca. Ele tinha ido embora. E eu fui deixada, sangrando e sozinha, no chão frio do nosso santuário de outrora.

A dor era uma maré implacável, me puxando para baixo. Eu entrava e saía da consciência, flashes do rosto de Adriano, seus olhos frios, suas palavras cruéis, perfurando a névoa. Cada vez que eu acordava, a dor era pior, uma ferida aberta em minha alma. Horas se passaram, ou talvez minutos, eu não sabia dizer. Meu corpo era um campo de batalha, devastado e quebrado.

Quando a clareza finalmente retornou, foi com uma resolução arrepiante. Eu não o deixaria me ver assim. Eu não lhe daria a satisfação. Arrastei-me até o banheiro, o espelho refletindo uma mulher machucada e quebrada. Mas o fogo em meus olhos, o brilho frio e duro da determinação, ainda estava lá.

Eu me limpei, escondendo as evidências físicas de sua brutalidade, assim como eu havia escondido as cicatrizes emocionais por tanto tempo. Então, com o corpo ainda doendo, chamei meu carro. Eu tinha mais uma parada a fazer.

A clínica estava silenciosa, estéril. Dafne estava em um quarto particular, parecendo pálida, mas irritantemente serena. Seus olhos se abriram quando entrei, um lampejo de medo, depois uma inocência cuidadosamente construída. Caminhei até sua cama, meu rosto uma máscara.

"Eu tenho algo para você", eu disse, minha voz baixa, firme. Tirei um envelope branco liso da minha bolsa, grosso com notas de cem reais. Joguei-o sobre os lençóis brancos imaculados. "Pegue. E desapareça. Você não vai querer saber o que acontece se não o fizer."

Ela olhou para o envelope, depois para mim, os olhos arregalados. Ela balançou a cabeça, um gesto suave e tímido. Ela pegou um bloco de notas e uma caneta em sua mesa de cabeceira, a mão tremendo ligeiramente. Ela rabiscou algo. Eu não entendo, Eleonora. Eu não quis fazer mal.

Eu bufei, um som áspero e desdenhoso que ricocheteou nas paredes silenciosas. "Não insulte minha inteligência", eu disse, minha voz endurecendo. "Você não está enganando ninguém. Não mais."

Enfiei a mão na bolsa novamente, tirando um pequeno pássaro de madeira primorosamente esculpido. Foi um presente que Adriano me deu anos atrás, um símbolo de nosso amor compartilhado pela natureza. Ele jurou que nunca daria outro a ninguém. Joguei-o na cama, deixando-o tilintar contra o envelope. "Ele segurou sua mão hoje, Dafne. Ele sussurrou para você. Ele te deu isso, não deu?" Minha voz estava tensa, um fio fino esticado até o ponto de ruptura.

Seus olhos se arregalaram, um lampejo de pânico genuíno. Ela balançou a cabeça violentamente, os lábios tremendo. Não, Eleonora. É seu. Ele não faria...

"Não se atreva a mentir para mim, sua cobra", eu rosnei, minha pretensão de calma se estilhaçando. "Você não passa de uma prostituta barata, uma vadia manipuladora que se aproveita de homens vulneráveis. E estou te avisando, Dafne. Esta é sua última chance. Saia da minha vida, ou eu acabarei com a sua."

Seu rosto se desfez, lágrimas escorrendo por suas bochechas. Ela rabiscou freneticamente no bloco de notas. Por favor, Eleonora, não me machuque. Eu sou apenas uma garota simples. Eu amo o Adriano. Eu nunca mentiria para ele.

A pura audácia de sua mentira, de sua performance, alimentou uma nova onda de raiva incandescente. Minha mão disparou, não para golpear, mas para pegar o pesado vaso de vidro com flores em sua mesa de cabeceira. Com um grito primal, eu o bati contra a estrutura de metal da cama. Cacos de vidro voaram, espalhando-se pelo quarto, alguns se cravando na parede, outros brilhando no chão branco imaculado.

Dafne gritou, um som cru e aterrorizado. Suas mãos voaram para o rosto, protegendo-se dos destroços voadores. Inclinei-me perto, meu hálito quente em sua bochecha. "Mais uma mentira, Dafne, e eu juro, vou garantir que você perca mais do que apenas sua voz."

Virei-me para os dois seguranças corpulentos que estavam impassivelmente parados na porta. "Certifiquem-se de que ela entenda", eu disse, minha voz plana, desprovida de emoção. "Um pequeno lembrete, de hora em hora, até que ela decida fazer as malas e sair da cidade. E façam doer."

Saí, deixando para trás os soluços aterrorizados de Dafne e os murmúrios confusos dos seguranças. Os sons estavam desaparecendo quando entrei no elevador, o metal frio refletindo meus próprios olhos assombrados. Eu tinha feito o que tinha que fazer.

Voltei para a cobertura vazia, o silêncio ecoando minha própria desolação. Afundei no sofá de pelúcia, o tecido frio contra minha pele, mas nada podia derreter o gelo ao redor do meu coração. Ele tinha ido embora. E eu me quebrei tentando mantê-lo.

O telefone tocou, quebrando o silêncio. Era a assistente de Adriano, sua voz seca e tensa. "Sra. Barros", ela disse, "tenho uma... notícia infeliz. Dafne Thornton... ela teve um aborto espontâneo."

As palavras me atingiram como um golpe físico. Um aborto espontâneo. Minha respiração engasgou. Meu bebê. Nosso bebê. Eu queria tanto um filho, implorei a Adriano por um. Ele sempre descartava, dizendo que não estávamos prontos, que eu não era estável o suficiente. Mas ele a deixou engravidar. A ironia, a pura e brutal injustiça disso, era um gosto amargo em minha boca.

A porta da frente se abriu com um estrondo, batendo contra a parede com uma força que sacudiu todo o apartamento. Adriano estava lá, o rosto uma máscara de fúria pura e inalterada, os olhos brilhando com um fogo perigoso. Ele se moveu como um predador, diminuindo a distância entre nós em alguns passos rápidos.

Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando-se em minha carne, me levantando. "Você fez isso!", ele rugiu, sua voz um trovão. "Você matou meu filho!" Ele me sacudiu, violentamente, minha cabeça balançando para frente e para trás. A dor em meu abdômen se intensificou, aguda e agonizante.

"Não!", eu chorei, lágrimas finalmente escorrendo pelo meu rosto. "Não fui eu! Eu não-"

Ele não ouviu. Ele me arrastou pela sala de estar, me jogando na cama, o colchão quicando com o impacto. Ele arrancou uma gravata de seda do armário, amarrando meus pulsos na cabeceira da cama, depois meus tornozelos no pé da cama. Eu lutei, me torcendo e virando, mas seu aperto era muito forte, sua raiva muito absoluta. As amarras cortaram minha pele, um lembrete cruel da minha impotência. Minha respiração vinha em arquejos rasos e irregulares.

O terror, o terror sufocante e familiar daquela noite anos atrás, me invadiu. Eu gritei, um som cru e primal, meu corpo tremendo incontrolavelmente. "Não! Por favor! De novo não! Não me toque!"

Ele se inclinou sobre mim, o rosto a centímetros do meu, os olhos queimando com uma luz fria e aterrorizante. "Sua bruxa nojenta e inútil", ele cuspiu, suas palavras pingando veneno. "Você acha que pode simplesmente entrar, destruir tudo o que eu amo e sair impune? Você acha que pode roubar minha paz, meu futuro, meu filho?" Ele riu, um som curto e sem humor. "Você não tem ideia com quem está lidando, Eleonora."

Meu corpo enrijeceu, um pavor frio se insinuando em minhas veias. Suas palavras, seu tom, me cortaram, mais frios que qualquer dor física. Ele nunca havia falado comigo assim, nunca me olhou com tanto ódio cru e desenfreado. Minha mente ficou em branco, processando nada além da pura e agonizante traição.

Ele observou minha reação, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos – arrependimento? Não, desapareceu tão rápido quanto apareceu, substituído pela mesma fúria arrepiante. Ele agarrou meu cabelo, puxando minha cabeça para trás, expondo minha garganta. "Você sempre foi demais, Eleonora", ele rosnou, sua voz um rosnado baixo. "Intensa demais, quebrada demais. Eu deveria ter te deixado apodrecer naquele hospício."

Ele soltou meu cabelo, apenas para golpear. Um flash ofuscante de dor quando sua mão encontrou minha bochecha. Minha cabeça virou para o lado, meus ouvidos zumbindo. Minha mandíbula doía, uma dor profunda e latejante. "E agora", ele sussurrou, sua voz perigosamente suave, "você vai pagar por cada pedacinho disso."

Ele me deu outro tapa, mais forte desta vez. Minha visão embaçou, lágrimas que eu não conseguia parar turvando meus olhos. Minha bochecha queimava, um protesto ardente contra a injustiça. "Você se lembra daquela noite, não é?", ele sibilou, o rosto contorcido. "A noite em que eles invadiram seu mundinho perfeito? A noite em que você se tornou essa coisa patética e quebrada?" Ele fez uma pausa, seu olhar queimando no meu. "Você vai desejar ter morrido naquela noite, Eleonora. Eu juro."

Capítulo 3

Uma nova e quente onda de lágrimas escorreu pelo meu rosto. "Seu covarde!", eu gritei, minha voz abafada por minhas amarras. "Você usa meu trauma contra mim? Você é um monstro, Adriano! Um monstro patético e cruel!"

Ele riu, um som áspero e sem humor que arranhou meus nervos em carne viva. "Monstro? É assim que você me chama, Eleonora? Quem é o monstro aqui? A mulher que manipula, que pressiona, que destrói tudo em seu caminho? Ou o homem que finalmente explode depois de anos sendo arrastado pelo inferno pelo seu 'amor'?"

Ele se inclinou mais perto, seu hálito quente e rançoso de raiva. "E quanto a você, minha querida? O que você fez com aquela pobre garota? Você gostou de vê-la sofrer? Você se deleitou com o medo dela, assim como se deleita com o meu?" Suas palavras foram um ataque físico, cada uma um golpe de martelo em minha alma já estilhaçada.

Virei a cabeça, incapaz de encontrar seu olhar, incapaz de formar um pensamento coerente. Meu corpo tremia com soluços silenciosos, as lágrimas escaldando minhas bochechas. Cada fibra do meu ser gritava em agonia, uma mistura de dor física e devastação emocional.

Ele me observou por um momento, seus olhos demorando-se em minha forma trêmula. Por um segundo fugaz, pensei ter visto um lampejo de algo, um fantasma do homem que ele já foi, um indício de preocupação. Mas desapareceu, engolido pela escuridão que agora o consumia.

Com um rosnado, ele agarrou minha mandíbula, forçando minha cabeça para trás, seus dedos cravando-se em minha carne. Sua boca se chocou contra a minha, um beijo brutal e punitivo que tinha gosto de raiva e sangue. Foi uma violação, violenta e humilhante, um contraste gritante com os beijos ternos que ele uma vez me deu.

Ele se afastou, seus olhos queimando nos meus. "Você se acha tão pura, tão injustiçada?", ele rosnou, sua voz um rosnado baixo. "Foi você quem me quebrou, Eleonora. Foi você quem envenenou nossa vida. E agora, você vai pagar o preço."

"Eu não vou te deixar", ele declarou, sua voz plana, assustadoramente desprovida de emoção. "Ainda não. Mas você vai aprender o seu lugar, Eleonora. Você vai aprender a se arrepender de cada escolha egoísta que fez."

Ele fez uma pausa, um brilho cruel em seus olhos. "Dafne perdeu nosso filho hoje. Por sua causa." Suas palavras foram uma nova facada, torcendo a faca já em minhas entranhas. Meu estômago se contraiu, uma onda de náusea me invadindo.

Ele não esperou por minha resposta. Ele se moveu com uma eficiência brutal, suas ações desprovidas de calor, de paixão, de qualquer coisa que se assemelhasse ao amor. Foi um ato de domínio, de punição, forçando-me a arcar com as consequências de sua percepção distorcida. Quando terminou, ele se afastou com um estremecimento de nojo, o rosto uma máscara de repulsa. Ele saiu do quarto sem uma palavra, a porta pesada batendo atrás dele, deixando-me amarrada, quebrada e totalmente sozinha.

Os dias seguintes se transformaram em um ciclo agonizante de medo e degradação. Ele vinha, geralmente tarde da noite, sua presença um presságio de novo tormento. Ele nunca falava, o rosto uma máscara de pedra, suas ações frias e deliberadas. Ele infligia dor, tanto física quanto emocional, um ataque implacável ao meu corpo e ao meu espírito. Cada vez que ele saía, sua partida era marcada por um silêncio arrepiante, a porta pesada se fechando, deixando-me no vazio ecoante do quarto.

Ele nunca usou proteção. Um ato deliberado de crueldade, uma afirmação silenciosa de seu controle, um lembrete constante da minha impotência. Era um jogo vicioso, um jogo de poder distorcido, e eu era apenas um peão em seu xadrez sádico. Cada vez, ele saía imediatamente depois, um estremecimento de nojo acompanhando sua retirada, como se minha presença por si só fosse uma contaminação.

Então veio a manhã em que acordei com uma estranha agitação no estômago. Um tremor minúsculo e esperançoso em meio ao desespero. Consegui convencer uma empregada subornada a me conseguir um teste de gravidez. As duas linhas rosas me encararam, um respingo chocante de cor em meu mundo monocromático. Grávida.

Uma bolha frágil e hesitante de alegria, tão estranha neste pesadelo, inchou em meu peito. Um filho. Nosso filho. Talvez, apenas talvez, isso pudesse mudar as coisas. Um bebê, um símbolo de novos começos, uma ponte de volta ao homem que ele já foi. Ele não poderia rejeitar sua própria carne e sangue. Ele não poderia possivelmente ainda me odiar se eu carregasse seu filho.

Agarrei o teste, meu coração batendo com uma mistura de terror e esperança. Eu tinha que contar a ele. Eu tinha que fazê-lo ver.

A porta se abriu com um estrondo, estilhaçando minha frágil esperança. Adriano estava lá, não sozinho. Dois seguranças corpulentos o flanqueavam, seus rostos impassíveis, sua presença irradiando ameaça. Meu sangue gelou. A esperança, tão fugaz, evaporou, substituída por uma premonição arrepiante.

Ele não falou. Ele simplesmente gesticulou para os seguranças, seus olhos queimando com uma resolução fria e implacável. Eles avançaram, seus passos pesados ecoando no quarto silencioso. Meu coração batia contra minhas costelas, um tambor frenético contra a ameaça iminente.

"Não!", eu gritei, lutando contra minhas amarras, minha voz crua de terror. "Adriano, pare! Por favor! Estou grávida! É seu bebê!"

Ele parou, um sorriso cruel tocando seus lábios. "Grávida?", ele zombou, seus olhos desprovidos de calor. "E você acha que isso muda alguma coisa? Você acha que eu quero um filho de uma mulher quebrada e instável como você?"

"É seu!", eu implorei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Nosso bebê! Seu sangue, Adriano! Por favor, não faça isso!"

Seu sorriso se alargou, uma careta arrepiante e sem humor. "Meu sangue?", ele zombou, sua voz pingando desprezo. "Você não se lembra, Eleonora? Eu nunca quis um filho com você. Não depois do que aconteceu com sua família. Eu preciso de um novo começo. Uma linhagem pura. Algo que você nunca poderia me dar."

Ele se inclinou mais perto, seus olhos queimando nos meus. "Você está manchada, Eleonora. Danificada. E eu não terei meu legado manchado por alguém como você. Não mais." Suas palavras foram um golpe cruel e calculado, rasgando os últimos vestígios da minha dignidade. "Livre-se disso", ele ordenou, sua voz fria e absoluta. "Agora."

Os seguranças avançaram, suas mãos me alcançando. Parei de lutar. A luta me deixou, drenada por suas palavras brutais, pela pura e inflexível crueldade de seu olhar. Fechei os olhos, uma rendição silenciosa. Não havia mais nada pelo que lutar.

Meu corpo convulsionou, uma dor lancinante me rasgando, torcendo minhas entranhas. Memórias, fracas e distantes, piscaram em minha mente. Adriano, me abraçando, sussurrando promessas de um futuro, de uma família. Sua mão em meu estômago, uma carícia suave e terna. Um dia, Eleonora. Quando você estiver pronta. Quando nós estivermos prontos. A ironia era um gosto amargo em minha boca, misturando-se com o sabor metálico de sangue.

A vida dentro de mim, tão recém-formada, tão fugazmente esperada, arrancada. Um grito silencioso rasgou minha alma, mas nenhum som escapou de meus lábios. Apenas uma rendição silenciosa e agonizante.

Os seguranças, seus rostos impassíveis, afrouxaram minhas amarras. Eles me levantaram, meu corpo mole e quebrado, e me carregaram para fora do quarto. Enquanto eles se moviam pelo corredor, meus olhos, pesados e desfocados, vislumbraram Adriano. Ele estava perto da janela, de costas para mim, o braço em volta de Dafne. A cabeça dela estava aninhada em seu ombro, o rosto virado para o dele, um sorriso suave em seus lábios. Eles eram uma imagem de contentamento sereno, alheios à carnificina que haviam causado.

Minha visão embaçou, mas não antes de eu ver sua cabeça se inclinar, seus lábios roçando o cabelo dela. Um gesto de ternura, de intimidade, roubado de mim, agora concedido a ela. Um nó frio e duro de ódio se torceu em minhas entranhas. Meus olhos, antes opacos de desespero, agora queimavam com um fogo arrepiante.

Eu não era mais Eleonora. Eu era uma casca vazia, preenchida apenas por uma necessidade crua e ardente de vingança. Minha mente, afiada e clara apesar da agonia, começou a formular um plano. Eu precisava do meu irmão.

Uma única mensagem de texto, enviada de um celular descartável que eu havia escondido meses atrás, foi enviada. Daniel. Preciso da droga. Aquela de que falamos. Agora.

Ele pagaria. Adriano Barros pagaria por cada hematoma, cada lágrima, cada pedaço estilhaçado da minha alma. Ele me queria fora? Tudo bem. Eu desapareceria. Mas não antes de orquestrar uma morte tão espetacular, tão absolutamente devastadora, que ele nunca mais conheceria um momento de paz. Ele testemunharia minha morte, minha queda final e trágica. Ele carregaria o peso do meu fantasma, um tormento constante, até seu último suspiro. Ele viveria uma vida assombrada pela minha memória, pela dor fantasma do que ele destruiu. E então, só então, meu verdadeiro trabalho começaria.

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