Capítulo 2

Quando abri os olhos, o teto branco do hospital foi a primeira coisa que vi.

O meu braço doía. Olhei para baixo e vi uma agulha de perfusão intravenosa espetada nele.

O meu marido, Leo, estava sentado ao meu lado, a sua cabeça baixa, a olhar para o seu telemóvel.

A sua expressão era sombria.

Tentei falar, mas a minha garganta estava seca e rouca.

"Leo..."

Ele levantou a cabeça, o seu olhar frio.

"Acordaste?"

A sua voz não continha qualquer calor.

Lembrei-me do que aconteceu antes de eu desmaiar.

Eu estava a fazer o jantar quando o meu cunhado, Tiago, o irmão mais novo do Leo, entrou a correr na cozinha.

Ele estava a brincar com um isqueiro, e eu disse-lhe para ter cuidado.

Ele não gostou. Atirou o isqueiro para o fogão a gás.

O fogo explodiu.

A última coisa que vi foi o rosto aterrorizado do Tiago antes de as chamas me envolverem.

"Onde está o Tiago? Ele está bem?" perguntei.

O rosto do Leo tornou-se ainda mais frio.

"Estás a perguntar pelo Tiago? Devias estar a perguntar por ti mesma. Os teus braços e costas têm queimaduras de segundo grau."

O seu tom era acusador, como se a culpa fosse minha.

"Ele provocou o incêndio," eu disse calmamente.

Leo zombou.

"Ele tem apenas dezassete anos. Ele estava apenas a brincar. Foste tu que não estavas atenta."

Senti um arrepio no meu coração.

Brincar? Ele quase me matou.

"Leo, ele tem dezassete anos, não sete. Ele sabe o que é o perigo."

"Basta, Ana," ele interrompeu-me, a sua voz cheia de impaciência. "O Tiago já está suficientemente assustado. A mãe está em casa a confortá-lo. Não causes mais problemas."

A minha sogra, a mãe dele. Claro. O seu precioso filho mais novo nunca poderia fazer nada de errado.

As lágrimas encheram os meus olhos, mas forcei-as a recuar.

"Leo, vamos divorciar-nos."

A palavra saiu da minha boca antes que eu pudesse detê-la. Mas assim que a disse, soube que era a coisa certa a fazer.

Ele olhou para mim, chocado.

"Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto?"

"Isto? Eu quase morri, Leo."

"Não sejas dramática. Os médicos disseram que vais ficar bem. O Tiago não teve a intenção. Ele é meu irmão. Somos uma família."

Família. Uma palavra que ele usava para me controlar e me fazer aceitar o comportamento irresponsável do seu irmão.

"Eu não faço parte desta família," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente. "Nunca fiz."

Leo levantou-se, o seu rosto vermelho de raiva.

"Estás a ser ridícula, Ana! Estás a exagerar! Precisas de descansar. Vou buscar um médico."

Ele saiu da sala apressadamente, sem me dar outra olhada.

Olhei para o meu braço enfaixado. A dor era real. O fogo era real.

O desrespeito do meu marido pela minha vida também era real.

O nosso casamento de três anos tinha sido uma longa série de desculpas para o Tiago.

Ele reprovou na escola, o Leo pagou.

Ele bateu com o carro, o Leo encobriu.

Ele roubou dinheiro da minha carteira, e o Leo disse-me para ser mais compreensiva.

Eu tinha aguentado tudo porque amava o Leo.

Mas o amor não podia ser uma rua de sentido único.

O amor não devia doer assim.

Quando o Leo voltou com uma enfermeira, eu fechei os olhos, a fingir que estava a dormir.

Não queria falar com ele. Não queria olhar para ele.

Eu só queria sair dali.

Longe dele. Longe da sua família. Para sempre.

Capítulo 3

No dia seguinte, a minha sogra, a Dona Isabel, veio visitar-me.

Ela não veio sozinha. O Tiago estava com ela, a esconder-se atrás das suas costas como uma criança pequena.

A Dona Isabel colocou uma cesta de frutas na mesa de cabeceira, o seu rosto uma máscara de falsa preocupação.

"Ana, querida, como te sentes?"

Não respondi. Apenas olhei para o Tiago.

Ele não conseguia encontrar o meu olhar. Os seus olhos estavam fixos no chão.

"Tiago, pede desculpa à tua cunhada," disse a Dona Isabel, empurrando-o para a frente.

Ele murmurou algo ininteligível.

"Fala mais alto," ordenou ela.

"Desculpa," disse ele, a sua voz mal audível.

A sua desculpa era tão vazia quanto a preocupação da sua mãe.

"Ele não teve a intenção, Ana. Sabes como ele é. É apenas um rapaz," continuou a Dona Isabel, a sua voz a suavizar para um tom suplicante.

"Leo disse-me que falaste em divórcio. Não podes estar a falar a sério. Pensa na nossa família."

"Eu pensei na vossa família," respondi, a minha voz firme. "É por isso que quero o divórcio."

A sua expressão mudou. A máscara caiu, revelando o seu verdadeiro rosto.

"És tão ingrata. Depois de tudo o que fizemos por ti. Acolhemos-te. E é assim que nos retribuis?"

"Acolheram-me? Eu trabalho, pago a minha parte das contas. Eu cozinho, eu limpo. O que é que vocês fizeram por mim, exceto esperar que eu cuidasse do vosso filho problemático?"

A Dona Isabel ficou sem fôlego, ofendida.

"Como te atreves! O Tiago não é um problema! Ele é apenas... enérgico!"

Olhei para o Tiago, que ainda estava a olhar para os seus sapatos. Enérgico. Que bela maneira de descrever um pirómano.

"Quero que saiam," eu disse calmamente.

"Não podes expulsar-nos! Somos família!" gritou ela.

"Não. Não somos. Saiam agora, ou eu chamo a segurança."

A Dona Isabel olhou para mim com puro ódio nos olhos. Ela agarrou no braço do Tiago e arrastou-o para fora do quarto, a bater a porta atrás de si.

Senti um alívio imenso.

Mais tarde naquele dia, o Leo voltou.

Ele parecia cansado e derrotado.

"A mãe ligou-me. Ela estava a chorar."

"Bom," eu disse.

Ele suspirou. "Ana, por favor. Vamos resolver isto. Eu falo com o Tiago. Vou garantir que ele se comporte."

"Já disseste isso antes. Muitas vezes. Nada muda, Leo. Porque tu não o deixas mudar. Tu e a tua mãe estão sempre a protegê-lo das consequências das suas ações."

"Ele é o meu único irmão!"

"E eu sou a tua esposa! Ou pelo menos era."

Ele passou as mãos pelo cabelo, frustrado.

"O que queres de mim, Ana? Queres que eu o mande para a prisão?"

"Eu quero que admitas que ele fez algo de errado. Quero que pares de o desculpar. Quero que me ponhas em primeiro lugar, pelo menos uma vez."

Ele ficou em silêncio.

O seu silêncio foi a resposta mais alta de todas.

Ele nunca me colocaria em primeiro lugar. O seu irmão, a sua mãe, eles seriam sempre a sua prioridade.

Eu era apenas uma adição conveniente à sua vida.

"Vou contactar um advogado," eu disse.

O Leo olhou para mim, os seus olhos a suplicar. "Ana, não faças isto."

"Já está feito, Leo."

Virei o meu rosto para a janela, a recusar-me a olhar para ele.

A cidade lá fora continuava a sua vida, indiferente ao meu pequeno mundo a desmoronar-se.

Ou talvez, a ser reconstruído.

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