Capítulo 2

O sol da manhã atingiu as janelas do chão ao teto da Cobertura com um brilho agressivo que parecia pessoal.

Lousa estava no centro do quarto principal. Ela havia voltado apenas para pegar seu passaporte e seu laptop. Ela tinha dito a si mesma que não olharia. Não tocaria.

Mas o quarto era um museu de sua solidão.

A cama estava feita, esticada e militarmente justa pela equipe de limpeza. Mas jogado no pé dela estava um paletó cinza-carvão. O paletó de Arpão. Aquele que ele estava usando na filmagem do noticiário na noite passada.

Lousa olhou para ele. Ele deve ter chegado em casa nas primeiras horas da manhã, trocado as roupas encharcadas e saído novamente antes do sol nascer. Ele nem sequer verificou se ela estava na cama.

Ela caminhou até lá, seus movimentos lentos, como se estivesse se movendo na água. Ela pegou o paletó. Era pesado, feito de lã que custava mais do que os carros da maioria das pessoas.

Ela o trouxe para mais perto do rosto.

Sob o cheiro da colônia de sândalo de Arpão, havia outra coisa. Algo doce. Doentiamente floral. Gardênia e desonestidade. O perfume característico de Gema.

Uma onda de náusea rolou por seu estômago. Ela agarrou o tecido, seus dedos ficando brancos.

Algo amassou no bolso interno do peito.

Seus dedos mergulharam, passando pelo forro de seda, e puxaram um envelope grosso de cor creme. Não era uma carta comercial. O papel era texturizado, grau médico.

Ela o abriu.

Era uma impressão de ultrassom. Uma imagem granulada em preto e branco de um útero.

No topo, impresso em letras negritas e inegáveis: Paciente: Gema Stuart.

Data: 14 de Outubro.

14 de Outubro.

A respiração de Lousa falhou. Isso foi há três dias. Foi o dia em que Arpão disse a ela que estava em Boston para uma fusão de empresas. Ele até reclamou dos atrasos nos voos.

Ele não estava em Boston. Ele estava segurando a mão de Gema em uma clínica de fertilidade no Upper East Side.

O papel escorregou de seus dedos e flutuou até o chão, caindo com a face para cima. O pequeno saco gestacional borrado parecia a cratera de uma bomba.

Lousa não chorou. Ela sentia que tinha chorado toda a umidade do corpo na sala de espera do hospital. Agora, ela só se sentia seca. Oca.

O som da porta da frente sendo destrancada ecoou pelo enorme apartamento. O baque pesado da porta de carvalho se fechando. Passos, confiantes e pesados, aproximando-se do quarto.

Lousa não se moveu. Ela ficou ao lado da cama, o paletó ainda em sua mão.

Arpão entrou. Ele parecia impecável, como sempre. Recém-saído do banho da academia, vestindo uma camisa branca engomada, mangas dobradas até os cotovelos. Ele parou quando a viu.

Seus olhos correram para o curativo em sua testa. Por uma fração de segundo, sua expressão vacilou. Um lampejo de algo - surpresa? Culpa?

Mas desapareceu instantaneamente, substituído por sua máscara padrão de superioridade irritada.

- Então - disse ele, passando por ela em direção à cômoda para pegar um relógio. - Você decidiu voltar. O Elmo disse que você não dormiu aqui.

- Eu estava no hospital - disse Lousa. Sua voz estava quieta.

Arpão zombou, prendendo o relógio. - Certo. O "acidente". Sabe, Lousa, essa história de lobo em pele de cordeiro está ficando velha. Se você queria minha atenção, poderia ter apenas reservado um jantar como uma pessoa normal.

Ele se virou para encará-la, encostando-se na cômoda, cruzando os braços. - E então? Vai explicar por que fez uma cena com meu assistente?

Lousa olhou para ele. Realmente olhou para ele. Ela viu as linhas bonitas de seu rosto, o maxilar que ela costumava traçar com os dedos, os olhos que costumavam olhar para ela com desejo. Agora, ele era um estranho. Um estranho cruel e bonito.

- Como está a Gema? - ela perguntou.

Arpão congelou. Sua postura endureceu perceptivelmente. - O quê?

- Gema - repetiu Lousa. - Ela está saudável? O bebê está saudável?

O rosto de Arpão perdeu a cor. Seus olhos dispararam para o paletó na mão dela, depois para o chão. Ele viu a imagem do ultrassom no tapete persa.

O silêncio se estendeu entre eles, espesso e sufocante.

- Você revistou meus bolsos - acusou ele, sua voz baixa e perigosa. Ele não negou. Ele atacou. Era o jeito dele.

- Você mentiu sobre Boston - rebateu Lousa.

Arpão deu um passo em direção a ela, o maxilar trincado. - É complicado, Lousa. Você não entenderia. A Gema está passando por uma crise. Ela precisava de um amigo.

- Um amigo que vai às consultas pré-natais dela? - Lousa soltou uma risada curta e seca. - Você acha que sou estúpida, Arpão? Ou você simplesmente não se importa o suficiente para mentir melhor?

- Ela está sozinha! - Arpão explodiu, sua voz subindo. - A mídia está acabando com ela. Ela não tem ninguém. Tenho uma responsabilidade com a família dela. Você sabe disso.

- E quanto à sua responsabilidade comigo? - Lousa sussurrou. - Com sua esposa?

Arpão olhou para ela com confusão genuína, como se a pergunta fosse absurda. - Você tem tudo, Lousa. Você mora em uma cobertura de dez milhões de dólares. Você tem um cartão de crédito ilimitado. Você tem o nome Wilson. O que mais você quer?

- Quero um marido que não guarde o ultrassom da ex-namorada no bolso - disse ela, largando o paletó no chão. Ele caiu em cima da imagem, cobrindo a prova.

- Não é meu filho - disse Arpão rapidamente. Rápido demais. - Ela só... ela queria que eu visse. Para dar apoio.

- Eu não me importo - disse Lousa. E ela percebeu, com um solavanco, que era verdade. Ela não se importava se era dele ou não. A traição não era a biologia; era a prioridade.

Ela se virou e entrou no enorme closet.

- Onde você vai? - Arpão exigiu, seguindo-a.

Lousa puxou sua mala velha e surrada da prateleira de cima. Era a que ela trouxera de seu dormitório da faculdade, antes que o dinheiro dos Wilson substituísse tudo o que ela possuía.

- Estou fazendo as malas - disse ela, abrindo uma gaveta e pegando um punhado de roupas íntimas.

- Não seja dramática - Arpão encostou-se no batente da porta, revirando os olhos. - Você não vai a lugar nenhum. Temos o baile de gala beneficente na semana que vem. Você tem uma prova de vestido na terça-feira.

Lousa não respondeu. Ela pegou o carregador do laptop. Ela pegou o disco rígido que continha a única coisa que era verdadeiramente dela - suas demos de voz.

- Lousa! - A voz de Arpão trovejou. - Pare com isso. Você está agindo como uma criança.

Ela fechou o zíper da mala. Ela se levantou e o encarou.

- Não estou atuando, Arpão - disse ela. - Estou indo embora.

Ela passou por ele. Ele segurou o braço dela, seu aperto firme, mas não doloroso. Apenas controlador.

- Se você sair por aquela porta - ele sibilou -, não volte mais. Não vou ter uma esposa que foge toda vez que sente ciúmes.

Lousa olhou para a mão dele em seu braço. Então ela olhou nos olhos dele.

- Eu não estou com ciúmes, Arpão - disse ela suavemente. - Eu cansei.

Ela puxou o braço, libertando-se.

Arpão ficou lá, atordoado, enquanto ela caminhava pelo corredor. Ele não a perseguiu. Ele era orgulhoso demais. Ele achou que ela pararia no elevador. Ele achou que ela perceberia que não tinha para onde ir.

Lousa tirou uma foto do ultrassom no chão antes de sair do quarto. Apenas por precaução.

Capítulo 3

Lousa não saiu imediatamente. Ela se sentou no pufe de veludo no hall de entrada, sua mala ao lado dela como um cão leal. Ela precisava fazer isso direito.

Quando Arpão desceu dez minutos depois, ele estava totalmente vestido para o escritório, a gravata desfeita em volta do pescoço. Ele a viu sentada lá e soltou um suspiro de alívio que soou mais como condescendência.

- Ótimo - disse ele, aproximando-se. - Você recobrou o juízo. Agora, arrume essa gravata. O nó nunca fica certo quando eu faço.

Ele estufou o queixo, expondo o pescoço, esperando pelos dedos familiares dela. Era um ritual. Todas as manhãs por quatro anos.

Lousa não se moveu. - Você tem mãos, Arpão.

Arpão congelou. Ele virou a cabeça lentamente, olhando para ela como se o pufe tivesse começado a falar. - Como é?

Lousa enfiou a mão na bolsa e tirou um documento dobrado. Era uma lista manuscrita no verso de um panfleto de alta hospitalar que ela havia rabiscado na sala de espera.

Ela o colocou na mesa de console de mármore.

- Precisamos falar sobre a separação - disse ela.

Os olhos de Arpão se estreitaram. O alívio desapareceu, substituído por uma raiva fria e dura. - Você está abusando da sorte, Lousa. Eu te disse, não tenho tempo para joguinhos.

- Não é um jogo. - Ela se levantou. - Eu quero o divórcio.

A palavra pairou no ar, absorvendo o oxigênio.

Arpão a encarou, depois jogou a cabeça para trás e riu. Foi um som áspero, como um latido. - Divórcio? Você? Lousa, não seja ridícula. Você estaria na rua em uma semana. Você não tem emprego. Você não tem habilidades. Você não tem nada sem mim.

- Tenho minha dignidade - disse ela, embora sua voz tremesse um pouco. - E prefiro dormir na rua do que em uma cama que cheira a ela.

- Ah, cresça - Arpão retrucou. Ele se aproximou, pairando sobre ela. Ele usava sua altura como uma arma. - A Gema é uma estrela. Ela está sob imensa pressão. Ela é frágil. Você... você é apenas uma decoração. Uma decoração muito cara que meu pai comprou para me fazer parecer estável.

As palavras a atingiram como golpes físicos. Decoração. Comprou.

- A decoração quebrou, Arpão - disse ela, encontrando o olhar dele. - Cansei de ser seu adereço de cena. E cansei de ser a vilã na novela da Gema.

- Não se atreva a falar o nome dela - avisou Arpão, apontando o dedo para ela. - Ela é pura. Ela passou pelo inferno.

- Pura? - Lousa soltou uma risada incrédula. - Ela colocou uma foto de ultrassom no bolso de um homem casado. Isso não é pureza, Arpão. Isso é marcar território.

O rosto de Arpão ficou de um tom violento de vermelho. Sua mão se contraiu, movendo-se instintivamente em direção ao bolso do peito, depois parou. Ele sabia. No fundo, ele sabia.

- Saia - ele sussurrou.

- O quê?

- Eu disse, saia! - Ele rugiu, agarrando um vaso de cristal da mesa e arremessando-o contra a parede. Ele se estilhaçou, cacos chovendo no chão imaculado. - Você quer ir embora? Vá! Dê o fora da minha casa!

Ele enfiou a mão no paletó, tirou um talão de cheques e rabiscou furiosamente. Ele arrancou o cheque e jogou nela. Ele flutuou até o chão, caindo perto dos pés dela.

- Toma - ele cuspiu. - Pagamento de rescisão. Pegue e desapareça.

Lousa olhou para o cheque. Estava em branco. Ele nem tinha preenchido o valor. Ele estava dizendo a ela que ela podia dar o preço para ir embora.

Ela olhou para ele, vendo a raiva trêmula em suas mãos, o medo por trás de seus olhos que ele se recusava a reconhecer.

Ela passou por cima do cheque.

- Eu não quero seu dinheiro, Arpão - disse ela calmamente. - Eu só quero meu nome de volta.

Ela agarrou a alça da mala.

- Se você sair por aquela porta - gritou Arpão, sua voz falhando -, vou congelar tudo. Os cartões, as contas, as associações de clubes. Você será um fantasma nesta cidade.

Lousa abriu a pesada porta da frente. O ar do corredor estava frio.

- Eu já era um fantasma aqui, Arpão - disse ela.

Ela jogou seu cartão-chave na mesa do console. Ele caiu com um estalo seco ao lado da lista de divórcio não assinada.

Ela saiu.

A porta não bateu. Ela se fechou com um clique aterrorizantemente final.

Arpão ficou sozinho no hall de entrada. O silêncio era ensurdecedor. Ele olhou para o cheque em branco no chão. Ele olhou para o vaso estilhaçado.

O pânico explodiu em seu peito, uma sensação repentina e irracional de que ele acabara de cometer um erro catastrófico.

Ele pegou o telefone. Seus dedos tremiam enquanto discava para seu advogado.

- Cajado - ele ladrou quando a linha conectou. - Congele as contas dela. Todas elas. Agora. Quero que ela tenha acesso zero a fundos até o meio-dia.

Ele desligou e olhou para a porta, esperando. Esperando a ficha cair. Esperando que ela se virasse e batesse.

Ela não bateu.

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