Capítulo 2

Quando o meu chefe me ligou, eu estava no meio do funeral da minha mãe.

A chuva caía sem parar lá fora, batendo contra as janelas da capela, um som monótono e deprimente.

Eu tinha acabado de perder o emprego.

"Lia, eu sei que este é um momento difícil," disse ele, a sua voz sem qualquer simpatia, "mas a empresa não pode esperar. Precisamos de alguém que esteja totalmente focado, e tu, obviamente, não estás."

Eu não respondi, apenas segurei o telemóvel com força, olhando para o caixão de madeira simples à minha frente.

A minha mãe estava lá dentro, quieta e fria.

E eu estava sozinha.

Foi nesse momento que decidi vender a casa. A casa que ela me deixou, a única coisa de valor que tínhamos.

O meu telemóvel tocou novamente. Era o Pedro, o meu namorado. Ou melhor, ex-namorado.

A voz dele soou distante e irritada quando atendi.

"Lia, para de me ligar. Eu já te disse que acabou."

"Eu não te liguei," respondi, a minha voz rouca.

"Não mintas. Recebi cinco chamadas perdidas tuas. A sério, tens de seguir em frente. Eu estou com a Eva agora, ela precisa de mim."

"A tua mãe acabou de falecer, eu entendo que estejas triste," a voz suave da Eva surgiu ao fundo, "mas o Pedro não te pode ajudar. Ele está a construir uma nova vida comigo."

Eva. A minha prima. A filha da irmã da minha mãe. A menina doce e frágil que a minha mãe sempre me pedia para cuidar.

Sorri, mas não havia humor no meu sorriso.

"Pedro," eu disse, a minha voz surpreendentemente calma, "eu só quero que saibas de uma coisa."

Ele ficou em silêncio, provavelmente à espera de mais um apelo desesperado.

"A casa da minha mãe. Eu vou vendê-la."

Houve uma pausa do outro lado da linha, mais longa desta vez. Depois, a fúria dele explodiu.

"O quê? Tu não podes fazer isso! Essa casa também pertence à minha família! A tua mãe prometeu à minha mãe que a Eva podia ficar lá sempre que precisasse!"

"A minha mãe está morta," eu disse simplesmente. "As promessas dela morreram com ela."

"Tu és inacreditável, Lia! Tão egoísta! A Eva não tem para onde ir! Tu sabes como a vida dela é difícil, a mãe dela maltrata-a!"

A vida dela é difícil? E a minha? A minha mãe acabou de morrer, perdi o meu emprego, e o homem que eu amava deixou-me pela minha prima. Mas claro, a vida da Eva é que é a tragédia.

"Isso já não é problema meu," eu disse, e a minha voz não tremeu.

"Tu vais arrepender-te disto! Achas que alguém vai querer uma pessoa fria e sem coração como tu? Vais acabar sozinha, tal como a tua mãe!"

Ele desligou na minha cara.

O telemóvel caiu da minha mão, mas não fez barulho no tapete grosso da capela.

Olhei para o caixão. Sozinha, como a minha mãe. Talvez ele tivesse razão. A minha mãe dedicou a vida inteira a cuidar da irmã e da sobrinha, e no final, morreu sozinha num hospital frio.

Mas eu não ia ser como ela. Eu não ia sacrificar a minha felicidade pelos outros.

A casa era a minha única saída. O meu recomeço.

E eu não ia deixar que ninguém mo tirasse. Nem o Pedro, nem a Eva.

Capítulo 3

No dia seguinte, coloquei a casa à venda.

O agente imobiliário, um homem baixo e com um bigode demasiado grande, percorreu a casa com um olhar crítico.

"É uma boa casa," ele admitiu, "localização excelente. Mas precisa de algumas reparações. A pintura está a descascar, a canalização é antiga."

"Eu sei," respondi, "mas não tenho dinheiro para arranjar nada. O preço tem de refletir isso."

Ele deu de ombros. "Como quiser. Mas vai demorar mais tempo a vender."

Eu não tinha tempo. Precisava do dinheiro o mais rápido possível.

Poucas horas depois de o anúncio ir para o ar, recebi uma chamada. Um número desconhecido.

"Estou a ligar por causa do anúncio da casa na Rua das Flores," disse uma voz masculina, profunda e calma. "Gostaria de a ver."

Fiquei surpreendida. "Claro. Quando?"

"Agora. Estou aqui perto."

Hesitei por um momento. Era estranho, mas eu estava desesperada.

"Está bem. Dê-me dez minutos."

Desliguei e corri pela casa, tentando arrumar a desordem que refletia o caos na minha vida. Não adiantou muito.

A campainha tocou exatamente dez minutos depois.

Abri a porta e deparei-me com um homem que não se parecia em nada com um comprador de casa típico.

Ele era alto, vestia um fato caro que parecia feito à medida, e tinha um ar de poder silencioso. Os seus olhos, de um cinzento penetrante, avaliaram-me de cima a baixo antes de se focarem na casa atrás de mim.

"Sou o Miguel Costa," disse ele, estendendo a mão. A sua mão era quente e firme.

"Lia. Entre, por favor."

Ele entrou e o seu olhar percorreu a sala de estar. Não se focou na tinta a descascar ou nos móveis velhos. Em vez disso, olhou para as fotografias na prateleira. Uma foto minha e da minha mãe, a sorrir num dia de sol.

"Conhecia a sua mãe," disse ele, sem desviar o olhar da fotografia. "Ela era uma mulher boa."

Fiquei paralisada. "Conhecia-a? Como?"

"Negócios," ele respondeu vagamente. "Ela mencionou que tinha uma filha. E que esta casa era tudo o que ela tinha para lhe deixar."

O seu tom não era de pena. Era uma constatação.

"Ela falou de si?" perguntei, confusa. A minha mãe nunca mencionou um homem como este.

"Ela pediu-me um favor uma vez," disse ele, finalmente virando-se para mim. "Pediu-me que, se alguma vez lhe acontecesse alguma coisa, eu garantisse que a filha dela ficava bem."

Um nó formou-se na minha garganta. A minha mãe, sempre a pensar em mim, mesmo quando eu não sabia.

"Eu não preciso de ajuda," disse eu, a minha voz mais dura do que eu pretendia.

Miguel Costa ergueu uma sobrancelha. "Toda a gente precisa de ajuda, Lia. A questão é se a aceita ou não."

Ele caminhou pela casa, em silêncio. Não fez comentários sobre o estado dela. Apenas observou, como se estivesse a memorizar cada detalhe.

Quando voltou para a sala de estar, parou à minha frente.

"Eu compro a casa," disse ele.

Fiquei boquiaberta. "Assim? Sem negociar? O agente disse que..."

"Eu não me importo com o que o agente disse. Eu pago o valor que pediu. Na totalidade. Amanhã."

Aquilo era demasiado bom para ser verdade.

"Porquê?" perguntei, desconfiada. "Porquê está a fazer isto?"

"Porque eu fiz uma promessa à sua mãe," disse ele. "E eu cumpro sempre as minhas promessas."

O seu olhar era intenso, quase avassalador. Havia algo nele, uma profundidade que me assustava e ao mesmo tempo me atraía.

"Não há nenhuma condição?"

"Apenas uma," disse ele, e um leve sorriso surgiu nos seus lábios. "Jante comigo amanhã à noite. Para celebrar o acordo."

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