Capítulo 2

O Cerco

O amanhecer chegou em Eldoria, tingindo o céu com tons de laranja e rosa, mas a beleza do sol nascente não trouxe conforto aos moradores da cidade. Os sinos de alarme soaram, e os guardas se posicionaram nas muralhas, prontos para a batalha iminente. O conselho da cidade se reuniu apressadamente, discutindo estratégias e tentando acalmar os ânimos.

Elara, com sua intuição afiada, sentiu que algo estava terrivelmente errado. Ela havia tratado dos feridos em batalhas anteriores, mas dessa vez havia um peso diferente no ar, uma sensação de desespero que ela não conseguia ignorar. Decidida a ajudar, ela se dirigiu ao centro da cidade, onde os cidadãos se preparavam para defender suas casas.

Enquanto isso, fora das muralhas, Alden, agora completamente imerso em sua identidade como Sombra Negra, observava Eldoria. A cidade que ele uma vez protegeu estava prestes a sentir a sua fúria. Seus generais se aproximaram, esperando suas ordens. Ele levantou a mão, sinalizando para que se preparassem para o ataque. As catapultas foram posicionadas, e os arqueiros se prepararam para disparar suas flechas flamejantes.

Dentro das muralhas, o capitão da guarda, Sir Gareth, um homem forte e experiente, organizava suas tropas. Ele sabia que o inimigo era implacável e que a luta seria difícil. Ao avistar Elara, ele se aproximou. “Elara, sua ajuda será crucial. Temos muitos feridos e mais virão. Precisamos de você no hospital.”

Elara assentiu, mas uma parte dela queria entender melhor quem estava por trás desse ataque. Quem era essa Sombra Negra que espalhava terror por onde passava? Enquanto se dirigia ao hospital, sua mente se enchia de perguntas e um pressentimento sombrio.

O primeiro ataque foi brutal. As catapultas lançaram pedras e fogo contra as muralhas, enquanto as flechas choviam sobre os defensores. As defesas de Eldoria eram fortes, mas o inimigo parecia infinito. Sir Gareth liderava seus homens com bravura, mas cada baixa enfraquecia suas linhas.

Dentro do hospital, Elara trabalhava incansavelmente, tratando dos feridos que chegavam. Sangue, suor e lágrimas se misturavam enquanto ela fazia o possível para salvar vidas. No meio da confusão, um jovem soldado entrou, gravemente ferido. “Eles são muitos… ele está vindo… a Sombra Negra… ele não vai parar…”

Elara sentiu um frio na espinha. Quem era esse líder que inspirava tanto medo? Ela olhou pela janela do hospital e viu a silhueta de Alden. Seu coração parou por um momento. Embora estivesse distante, havia algo familiar naquela figura. Poderia ser ele?

O dia se transformou em noite, e a batalha continuava feroz. As muralhas de Eldoria ainda resistiam, mas os defensores estavam exaustos. Alden, impassível, ordenou um segundo ataque. Desta vez, ele próprio lideraria a investida. Com uma espada em mãos e uma determinação fria, ele avançou.

Elara, do hospital, sentiu uma onda de desespero. Ela sabia que tinha que fazer algo. Pegou um manto e se cobriu, saindo furtivamente em direção às muralhas. Talvez, apenas talvez, ela pudesse deter Alden antes que ele destruísse tudo.

Ao se aproximar da linha de frente, viu o caos da batalha e os rostos dos soldados que lutavam por suas vidas. E então, ela o viu. Alden, agora completamente irreconhecível, liderava o ataque com uma ferocidade inumana. Elara reuniu toda a sua coragem e gritou seu nome.

“Alden!”

Por um breve momento, o tempo pareceu parar. Alden virou-se, seus olhos encontrando os de Elara. Houve um lampejo de reconhecimento, uma faísca do homem que ele costumava ser. Mas a sombra da raiva e do ódio rapidamente apagou aquela faísca.

“Saia daqui, Elara,” ele gritou. “Você não entende. Tudo isso precisa acabar.”

Elara deu um passo à frente, lágrimas nos olhos. “Não é tarde demais, Alden. Por favor, pare. Lembre-se de quem você era, de quem você é.”

A batalha rugia ao redor deles, mas naquele momento, apenas os dois existiam. Alden hesitou, sua mão tremendo na espada. As palavras de Elara haviam atingido algo profundo dentro dele, algo que ele pensou ter perdido para sempre.

Mas antes que ele pudesse responder, um de seus generais avançou. “Senhor, temos que continuar. Não podemos nos deter agora.”

Alden olhou para Elara uma última vez, seus olhos cheios de uma mistura de dor e determinação. “Vá embora, Elara. Não posso parar agora.”

Elara sabia que não poderia fazer mais nada naquele momento. Com o coração pesado, ela recuou, voltando para o hospital. A batalha continuaria, mas uma pequena semente de esperança havia sido plantada. Talvez, apenas talvez, Alden ainda pudesse ser salvo.

Capítulo 3

Fogo e Memórias

A lua cheia iluminava o campo de batalha, suas sombras dançando em meio ao caos. Eldoria estava em chamas, suas muralhas ainda resistindo, mas apenas por pouco tempo. Dentro da cidade, os cidadãos lutavam bravamente, mas o desespero se tornava palpável.

Elara, de volta ao hospital, mal conseguia conter as lágrimas enquanto tratava dos feridos. A visão de Alden, tão próximo e ao mesmo tempo tão distante, a assombrava. Sua mente se dividia entre o dever de salvar vidas e a esperança de resgatar o homem que ela amava.

Enquanto isso, Alden, ou Sombra Negra como era agora conhecido, sentia-se dividido. As palavras de Elara ecoavam em sua mente, perturbando sua concentração. Ele sabia que não poderia se permitir fraquezas, mas a lembrança de Elara era uma força poderosa, reavivando memórias que ele tentou enterrar.

Os generais de Alden notaram sua distração e se entreolharam com preocupação. Um deles, um homem robusto e marcado por cicatrizes, se aproximou. "Senhor, precisamos de suas ordens. A resistência da cidade está enfraquecendo. Se atacarmos com força total agora, poderemos acabar com isso."

Alden assentiu, tentando afastar os pensamentos conflitantes. "Preparem-se para o ataque final. Não haverá piedade."

As tropas se organizaram para a investida final, e Eldoria estava prestes a enfrentar seu maior desafio. Dentro da cidade, Sir Gareth e seus soldados estavam exaustos, mas determinados a defender sua casa até o último homem. "Mantenham suas posições!" ele gritou, sua voz ressoando com autoridade e coragem. "Lutem por Eldoria, por nossas famílias!"

No hospital, Elara ouviu os gritos e o barulho da batalha se intensificando. Ela sabia que o momento decisivo estava próximo. Pegando uma pequena bolsa de ervas e medicamentos, ela se preparou para sair novamente. "Elara, você não pode ir!" disse uma das enfermeiras, segurando seu braço. "É perigoso demais!"

"Eu preciso tentar," respondeu Elara com determinação. "Há mais em jogo aqui do que apenas a cidade."

Elara saiu do hospital e se dirigiu para a linha de frente, onde a batalha estava mais feroz. Os soldados de Eldoria lutavam bravamente, mas estavam sendo empurrados para trás. As chamas iluminavam o rosto de Alden enquanto ele liderava o ataque, seu olhar fixo nas muralhas que estavam prestes a cair.

Elara encontrou Sir Gareth no meio do caos. "Capitão, preciso falar com Alden. Talvez eu possa alcançá-lo."

Sir Gareth olhou para ela, os olhos cheios de compreensão e pesar. "Se há uma chance de parar essa loucura, eu permitirei. Mas saiba que o risco é grande."

Elara assentiu e, com coragem renovada, avançou em direção a Alden. Os soldados de ambos os lados se surpreenderam ao vê-la caminhando no meio do campo de batalha. A Sombra Negra, ao vê-la se aproximar, ordenou a seus homens que parassem. "Deixe-a passar."

Elara parou a poucos metros de Alden. "Alden, você não precisa fazer isso. Lembre-se de quem você era. Lembre-se de nós."

Alden olhou para ela, seu rosto uma máscara de conflito. "Eu não posso voltar, Elara. Fiz coisas que não podem ser desfeitas."

"Todos nós cometemos erros," disse Elara, a voz suave mas firme. "Mas ainda há tempo para redenção. Não deixe que o ódio consuma você."

A tensão no ar era palpável. Os soldados observavam, esperando o desfecho. Alden fechou os olhos por um momento, as memórias de seu passado invadindo sua mente. Ele lembrou dos dias em que lutava por justiça, dos momentos felizes com Elara. A dureza em seu coração começou a derreter, mas a batalha interna ainda estava longe de ser vencida.

"Elara..." ele começou, mas antes que pudesse continuar, uma flecha disparada por um arqueiro inimigo o atingiu no ombro. Alden caiu de joelhos, sua espada escorregando de sua mão.

Elara correu até ele, ignorando o perigo ao seu redor. "Alden, por favor, aguente firme."

Os soldados de Eldoria, vendo seu líder ferido, ganharam uma nova determinação e avançaram contra os inimigos. Sir Gareth liderou a carga, empurrando os mercenários para trás.

Alden, segurando o ferimento, olhou para Elara com uma expressão de tristeza e arrependimento. "Eu... sinto muito."

"Não é tarde demais," sussurrou Elara, segurando sua mão. "Nós podemos encontrar um caminho de volta."

O destino de Eldoria e o de Alden estava agora em um delicado equilíbrio. A batalha ao redor deles continuava, mas naquele momento, a chama da esperança brilhava mais uma vez.

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