Capítulo 2

Mais tarde, por volta das onze horas da manhã, recebo a visita da diretora Gertrudes em minha sala. Ela ficou parada na porta, com os olhos esbugalhados, sem dizer nada. O desespero em seu rosto está me deixando apavorada.

- Aconteceu alguma coisa, Gertrudes? – Pergunto apreensiva.

Ela só concorda com a cabeça.

- Alguma coisa com Manu? – Pergunto por minha filha, porque estou dando aula na sala de Ben, então, tenho plena certeza de que meu filho está bem.

Ela negou, balançando a cabeça, e falou:

- Por favor, Susan... Eu preciso muito falar com você querida, mas tem que ser aqui fora.

- Claro! – Apresso-me em dizer, e me dirijo à sala logo em seguida – Continuem fazendo a lição. – Fiz menção de sair, mas voltei a olhá-los novamente para reforçar o aviso. – Ah! E, por favor, não conversem.

Caminho até a porta, com o coração acelerando dentro do peito, a cada passo que dou. Alguma coisa havia acontecido e pela reação de Gertrudes, com certeza, algo de muito grave. Mesmo ela tendo negado, - e conhecendo a minha pequena como eu a conheço - alguma coisa me diz que tem a ver com Manuela... Temi por minha filha.

Quando chego do lado de fora da sala, percebo que tem mais alguém com ela. O professor Antunes, um senhor de meia idade, franzino e de cabelos grisalhos, e outro homem que eu não conheço. Olho para eles assustada e apreensiva.

- Com licença. – disse o professor Antunes, fechando a porta atrás de mim.

Eu me mantenho parada no mesmo lugar, e acompanho com o olhar o movimento que ele faz. Quando Gertrudes começa a falar, volto minha atenção para ela.

- Susan eu... Na verdade... - Imediatamente, eu sinto uma angústia na voz dela. Eu a observo inspirar, criando coragem para falar o que tanto a aflige. - Ah meu Deus, eu não sei nem por onde começar!

Eu não estava com medo ou apavorada, ainda; eu estava naquela linha tênue de apreensão.

Um silêncio se instalou no corredor, depois da tentativa frustrante do início da conversa, e isso me deixou ainda mais angustiada.

- Gertrudes, você está me assustando. Por favor, diga logo de uma vez o que está acontecendo!

Meu olhar passa rapidamente dela para o homem estranho parado ao seu lado, e em seguida, volto a encará-la.

Depois de ver o quanto eu estou aflita, ela decide continuar:

- Aconteceu um acidente. – Sua voz saiu receosa. Vi formar poças de lágrimas em seus olhos.

- Manu?! – Pergunto, com certa exaltação na voz.

- Não querida! – Meneou a cabeça. – Manuela está bem. O acidente foi com outra pessoa... – e hesitou um pouco antes de concluir: - Foi com seu marido.

- Com o Téo?!

- Sim. – Ela engoliu forçadamente, contendo o choro, e fez sinal com a cabeça para o homem, pedindo para ele dar continuidade ao assunto.

Nessa hora eu senti como se tivesse engolido uma pedra grande, e ela estava alojada em meu estômago. Eu sabia que tinha acontecido algo de errado, só não sabia ainda a dimensão do problema.

E o homem, prontamente, se dirigiu a mim.

- Senhora Milano - Começou falando, e minha atenção ficou completamente voltada para ele. - Eu me chamo Luca Soares e sou funcionário do aeroporto internacional. Ligamos várias vezes para seu celular, mas como não obtivemos sucesso...

- Ele está desligado dentro da bolsa. – Precipito-me em dizer.

- Sim. Eu imaginei que seria esse o motivo. – respondeu ele, inalterável. - Como eu estava dizendo: procuramos outro meio de entrar em contato com a senhora. Então, depois de uma busca no celular do seu marido, encontramos o número da escola a qual a senhora trabalha e decidimos ligar para cá.

Eu estou completamente atônita, sem reação. A única coisa que consigo pensar nesse momento é em Téo, e nos nossos filhos.

O homem continua:

- Infelizmente senhora, as notícias que trago não são boas.

- O que aconteceu com meu marido? Ele está bem, não está? – Eu o questiono suplicante. - Nós saímos de casa hoje cedo e Téo estava bem... Eu vi!

- Calma Susan! Por favor, deixe-o terminar. – pediu gentilmente Gertrudes, colocando sua mão sobre a minha.

E o homem prosseguiu falando calmamente, como se estivesse recitando uma poesia, mas percebo que ele faz isso para não me deixar mais nervosa do que eu já estou. O que era praticamente impossível, porque, por dentro, eu sentia todos os meus ossos tremerem.

Atento-me a olhá-lo.

- Senhora… o seu marido não chegou a embarcar no avião. Testemunhas contaram que, enquanto ele estava na fila do check-in falando ao telefone, teve um mal súbito e desmaiou. Um médico, que também iria fazer check-in, estava próximo a ele e tentou reanimá-lo algumas vezes, mas... – ele faz pausa e meus olhos ficam tão fixos nele, que até parece que eu quero ler sua mente. Ele seguiu de onde parou: - seu marido não reagiu. Sinto muito!

- Não! – Recuso-me a acreditar. – Não, não, não pode ser! Eu vi meu marido hoje de manhã e ele estava bem! - Afirmo mais uma vez, olhando para Gertrudes. - Meu Téo estava bem.

Vejo dó em seu rosto.

Aperto as mãos contra o peito, como se esse gesto fosse capaz de fazer a dor parar. Sentindo como se o ar estivesse escapando dos meus pulmões, murmurei o nome dela em angústia.

– Gertrudes! - Meus olhos estão suplicando, para que ela desminta o absurdo que esse homem acabou de dizer, mas posso ver nitidamente em seu olhar piedoso que tudo é verdade.

Téo se foi. Ele se foi! Mas como?

Fico devastada. Sinto o chão se abrir debaixo dos meus pés e uma dor imensa invadir meu peito, como se alguém acabasse de arrancar o meu coração fora. Posso ouvi-los falando palavras de conforto, tentando me manter calma, mas eu estou em choque. O desespero toma conta de mim e lágrimas correm em meu rosto como torrentes, e nesse momento, especificamente, eu não sei mais o que aconteceu. Eu só sei que gritei, eu berrei tão alto que pude ouvir minha voz ecoar pelo corredor. E eu lamento. Lamento amargamente aquela dor horrível de ausência.

E aos quarenta anos de idade, meu Téo se foi e me deixou só. Perdi meu marido... Perdi o amor da minha vida. Para sempre!

E o que se seguiu depois disso, foi só um borrão escuro e eu não vi mais nada.

Capítulo 3

Janeiro de 2017.

Com os olhos firmes na estrada, eu reflito sobre as circunstâncias que me levaram a estar dirigindo esse carro agora.

O dia vinte e cinco de março de 2014, ficará marcado em minha memória para sempre.

Quando recebi a notícia que meu marido resolveu nos deixar de forma inesperada, o meu mundo virou inteiramente de cabeça para baixo, e isso afetou minha família de todas as maneiras. Juro que se pudesse, eu apagaria essa data de todos os calendários existentes no mundo.

E em meio a todo aquele processo que estávamos atravessando, eu senti a necessidade de saber a verdadeira causa da morte dele. Acabei descobrindo que, o que tirou Téo de mim, vinha ocorrendo com mais frequência entre jovens e adultos com menos de quarenta anos. A probabilidade de morte súbita nessa faixa etária, se tornou mais fácil e rápida do que no idoso. No caso do meu marido, o médico me explicou que esse tipo de infarto ocorre quando o fluxo do sangue para o coração sofre um impedimento súbito. Isso pode acontecer por causas de questões genéticas, aumento da pressão arterial ou mesmo por alteração dos vasos sanguíneos por causa de arritmias graves. Enquanto ouvia o doutor dando esclarecimento dos fatos, ao mesmo tempo eu refletia no estilo de vida que meu marido levava, principalmente, nos últimos dois anos. Então, constatei que minhas suspeitas e preocupação com o bem estar dele, tinham lá seus fundamentos. A vida corrida consumia todo seu tempo e por várias vezes, - e olha que não foram poucas - eu o alertei sobre seu lado inconsequente. Téo, teimoso como era, sempre se preocupou mais com os outros do que com ele mesmo. Essa era uma de suas qualidades que seria admirável, se o final não fosse tão trágico para todos nós. Pensar que sua atitude irresponsável nos levou a condição a qual eu me encontro hoje, me faz querer tirar Téo do túmulo e dizer-lhe um monte de desaforos, pois, era isso o que ele merecia ouvir por ter causado tanta dor.

E não falo só por mim, falo também por nossos filhos. Principalmente, Benjamim, que em meio ao caos que se instalou ficou arrasado, perdido, pois o pai era seu alvo de admiração. Na noite seguinte ao enterro, eu fui ao quarto do Ben para ver como ele estava e dar um beijo de boa noite. Eu o encontrei dormindo. Olhei para ele por alguns minutos antes de beijá-lo na testa. Não fui embora de imediato, porque algo me impulsionou a ficar ali por mais um tempo. Então, puxei a cadeira de sua escrivaninha, me sentei ao lado da cama e velei seu sono. Quando finalmente acordou e me viu, Ben começou a chorar e só falou do pai. Transtornado, ele deu início aos seus questionamentos, e quis saber: por que o pai tinha feito aquilo com a gente? Por que ele tinha nos abandonado daquela maneira? Nessas horas, parece fácil para quem está de fora encontrar - ou achar que encontrou – as palavras de conforto certas para dizer. Eu não as encontrei. Porque, não havia nada que eu pudesse falar naquele momento, que aplacasse a dor que meu filho sentia. Então, apenas me sentei ao seu lado na cama e o abracei. Tentei ser forte, fiz o possível e o impossível para confortá-lo; e ali, acabamos adormecendo.

Na manhã seguinte, eu acordei abraçada a ele. Ben repousava sua cabeça em meu ombro e, aparentemente, parecia mais tranquilo. Tirei com cuidado sua cabeça de onde estava e coloquei-a sobre o travesseiro. Antes de sair, fiquei em pé, parada ao lado da cama, olhando para meu menino. E as palavras de ódio que ele proferiu enquanto eu o estava consolando ficaram martelando em minha mente, e uma preocupação cresceu dentro de mim. Sentia-me sozinha, cansada, sem escapatória. Já tinha perdido meu Téo para a morte, não queria perder meu filho para o rancor.

Os últimos anos que seguiram, para mim, se tornaram desafiadores demais, e as dúvidas e os questionamentos de como eu conseguiria seguir em frente sem o Téo, me assustavam. Nos primeiros meses, eu preferi manter a ilusão de que ele estava em uma de suas viagens, e que, a qualquer momento, ele chegaria em nosso apartamento e me diria que tudo aquilo não passou de uma mentira. Era isso ou enlouquecer de vez! No entanto, o tempo foi passando e eu sabia que precisava ser forte o bastante para encarar o fato de que, agora, somos apenas uma pequena família de três.

E é por essa razão que estamos a caminho do interior. Estou retornando para a casa de minha mãe, com meus dois filhos: Benjamim, hoje com dezesseis anos e Manuela, que acabou de completar cinco aninhos há uma semana. Olho pelo retrovisor interno do carro e vejo minha menina sentada no banco de trás. Manu, brinca com a boneca bebê que acabou de ganhar de sua melhor amiga da escola. Ela acalenta a bebê contra o peito, como se estivesse ninando uma criança para dormir. O brinquedo foi um presente de aniversário, mas, basicamente, acabou se tornando um presente de despedida. Benjamim está sentado ao meu lado, no banco do carona. Quieto como sempre. Com a cabeça recostada no vidro da janela, ele olha a paisagem que passa rapidamente lá fora. Eu sabia que seu pensamento não estava nas árvores, nos animais ou em qualquer outra coisa que, supostamente, ele viu passando neste momento. Seu pensamento estava distante. Estava no pai e nas coisas que ele tinha deixado para trás.

Já se passaram quase três anos, mas a dor permanece tão intensa quanto no mesmo dia. Eu tento reprimi-la dentro de mim a todo custo, apenas para não ver meu filho sofrer mais do que já vinha sofrendo. Benjamim era muito apegado ao pai, e a perda tão repentina de alguém que ele tanto idealizava, acabou endurecendo um pouco o seu coração. Manuela ainda era muito pequena quando tudo aconteceu, e juro que não sei como explicar, mas a imagem do pai permanece viva em sua memória. Ela demonstra isso todas as vezes que vê uma fotografia e me pergunta por ele. E as feridas? Essas são abertas a cada momento que nos lembramos do Téo. Várias vezes eu me perguntei se algum dia elas sumiram, ou se para sempre seriam um infeliz lembrete.

Por diversas vezes mamãe me pediu para virmos morar com ela, e eu sempre relutei, por causa de Benjamin. Ele, de certa forma, procurava se distrair com os amigos. Mas eu? Eu não tinha ninguém... Apenas a saudade.

Não conto às vezes que à noite em meu quarto, sozinha, e de portas fechadas, eu me abracei ao travesseiro do meu marido e inalei seu cheiro. Eu desejava que ele estivesse ali, ansiava sentir de novo o seu toque, os seus beijos…, mas Téo não estava lá comigo. E o que me restava era somente chorar a sua ausência. Infelizmente, não existia um manual que me ensinasse a enfrentar tudo aquilo. Eu estava em modo de sobrevivência.

Procurei ocupar meus dias o máximo que pude, concentrando meus pensamentos em assuntos do trabalho, para tentar esquecer o que eu não podia mudar e não deixar a solidão me consumir. Peguei novas turmas, fiz curso de jardinagem, culinária... Nossa! Eu fiz coisas que jamais imaginei ter tempo de fazer, apenas para preencher a lacuna e poder esquecer a dor. Mas nada adiantou, porque o vazio continuava em cada cômodo da casa, em cada lugar que visitamos juntos e que passei a evitar... na nossa cama. Eu sabia que precisava fazer alguma coisa o quanto antes, senão, acabaria enlouquecendo. Eu precisava tomar uma atitude urgentemente! Por meus filhos... Por mim.

Tentei. Juro que tentei seguir em frente sem o Téo, mas não deu. Foi difícil me despedir do lugar onde construímos nosso mundo? Sim, foi. Naquele apartamento eu vivi os melhores momentos da minha vida. Lá nós planejamos sonhos, formamos uma família, vimos nossos filhos crescerem; no entanto, não dava mais pra continuar me iludindo. Naquele lugar, onde antes só havia alegria, hoje reinava apenas a tristeza e eu, realmente, tinha chegado ao meu limite. Só de pensar em pisar naquele apartamento de novo, fico com um nó no estômago.

Então, certo dia, depois do último telefonema de minha mãe, tomei a decisão de voltar para minha cidade natal. Eu tinha certeza, que no começo seria muito difícil para as crianças aceitar a ideia de mudança. Principalmente para Benjamim, que ao receber a notícia deixou claro para mim que era completamente contrário a ideia. No entanto, essa foi a minha escolha, e, definitivamente, o primeiro passo para dar um novo rumo às nossas vidas.

E pensando bem, hoje posso ver que a nossa estada na capital, depois da morte do Téo, durou muito mais tempo do que eu suportei.

Tiro uma mão do volante e de um jeito que Benjamim não veja, enxugo uma lágrima que corre em meu rosto.

Deixo a rodovia para trás e entro na estrada de asfalto. Estamos há horas na estrada e ainda faltam percorrer mais 30 km, até chegarmos à vila.

Dou mais uma olhada no retrovisor. Manuela está dormindo como um anjo. Olho de relance para meu filho - que continua com a cabeça encostada no vidro - e para quebrar o silêncio instalado entre nós, eu comento:

- Mais alguns minutos e estaremos na casa da sua avó.

Silêncio.

- Ouviu o que eu disse, Ben? – Pergunto, esperando uma resposta.

- Hum-Hum. – Ele expressou, desanimado.

 Isso não foi bem a resposta que eu esperava ouvir, mas estava valendo por enquanto.

- O seu tio Dom deve estar ansioso por te ver. - digo com voz animada. - A última vez que viemos aqui foi nas férias de final de ano. Você tinha o quê? Uns treze anos se não me engano.

Tento animá-lo, fazendo-o lembrar de alguns bons momentos que tivemos na casa da avó, naquela época. Contudo, ele insiste em ficar calado e eu sei muito bem o motivo: após aquelas férias, três meses depois, perdemos o Téo.

Não aguentando mais o seu jeito desinteressado no assunto abordado, dou um suspiro longo e cansado.

- Ben. – Começo dizendo com voz baixa. Meu estado de ânimo já está esgotado. - Eu sei que mudança às vezes assusta, e também sei que você está chateado comigo, porque pensa que estou te afastando dos seus amigos. Mas preciso que você entenda meu filho, que continuar vivendo lá com tantas lembranças me cercando, estava ficando muito difícil e...

- Não é só pelos amigos. – Disse, me interrompendo, e me encarou zangado. Finalmente, vejo uma reação da parte dele. - Eu preferia estar lá com todas essas lembranças que tanto incomodam a senhora, do que me esquecer dele.

Ah, não! Isso sim já é demais! Eu tentei ser compreensiva, me mantive calma o tempo todo, e agora, esse moleque atrevido me vem com essa! Me acusando como se eu não tivesse amado ou sofrido também, ou, como se tudo que eu fizesse pela família não valesse nada. Seu comentário sem sentido me encheu de raiva e toda a calmaria com a qual eu estava tentando levar essa conversa à diante, foi pelos ares, e eu explodi.

- Nunca mais diga isso, ouviu Benjamim?! – Eu o repreendo severamente – Jamais volte a repetir isso de novo!

Aborrecido comigo, ele voltou o olhar para fora e ficou em silêncio. Esse é seu escape. O isolamento.

Às vezes, quando Benjamim me aborrece com esse seu comportamento infantil, posso ouvir a impaciência no meu tom de voz, e faço de tudo para não passar dos limites com ele. Porém, neste momento eu não me importo, porque o que ele acabou de dizer é completamente contrário à razão e me irritou muito. Definitivamente, estou cansada desse seu gênio forte.

Sinto a exaltação dentro de mim borbulhando como um vulcão que está prestes a entrar em erupção. Cerro os punhos, apertando o volante com força e por um instante mantenho-me imóvel, lutando contra minha irritação.

E em meio a raiva e a decepção, eu me pergunto: como ele pode pensar um absurdo desses, quando tudo o que eu fiz - e sempre farei, - é pensando no melhor para eles? Como pode pensar que o simples fato de mudarmos de cidade, vai apagar tudo o que eu vivi com seu pai, ou, tudo o que vivemos como família?

É difícil para mim saber que, por mais que eu me esforce em fazer o melhor, meu filho sempre será contrário a tudo o que faço. Ben vai dificultar as coisas. - penso de imediato e suspiro. - Sem dúvida que vai... e eu já posso ver que não vai ser fácil.

Com os olhos fixos na estrada, eu reflito sobre o que acabou de acontecer e reconheço que me excedi. Talvez, eu não devesse ser tão dura com ele, e sim, abrir seus olhos para a realidade em que nos encontramos agora. Benjamim precisa entender que muita coisa mudou, e que ele não pode mais continuar agindo como se somente seu umbigo fosse a coisa mais importante do mundo.

Olho de relance para ele e o vejo de cara amarrada.

Nessa hora, me dou conta de que preciso ter cuidado com meus rompantes. Tenho que manter a calma, porque, o que eu quero realmente é me aproximar do meu filho e não o afastar de mim.

Sinto um aperto no peito só de pensar nisso. Não. Afastar Benjamim de mim é a última coisa que eu quero nesta vida.

Inspiro profundamente e solto o ar dos pulmões em um suspiro.

Procuro manter o controle sobre minhas emoções e tento contornar a situação, falando com serenidade na voz.

- Ben... O fato de virmos morar no interior não diminui em nada o que vivemos com seu pai, muito menos, isso vai nos levar a esquecer dele. Esquecer seu pai é algo praticamente impossível! Vocês dois são a maior prova disso.

Ele não me responde. Apenas, mantém os olhos fixos lá fora.

E o silêncio segue por alguns minutos, que mais parecem horas.

- Olha. – Continuo dizendo - Eu sei que não está sendo fácil pra você e também não vou exigir que entenda isso agora; mas, será que você pode pelo menos tentar? – Peço educadamente.

Mais silêncio.

E a impaciência cresce dentro de mim.

Sem desviar o olhar da estrada, eu cobro dele.

- Quando chegarmos à casa de sua avó, me prometa que pelo menos vai se esforçar.

Olho para ele rapidamente.

Ben faz uma careta retorcendo o canto da boca – a mesma que o pai costumava fazer quando estava chateado com alguma coisa - e depois de alguns segundos pensativo, ele responde:

- Eu vou tentar. 

Respiro aliviada.

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