Capítulo 2

Volkan estava voltando para o carro quando viu uma mulher tentando trocar um pneu.

A garota não deveria ter mais que 20 anos. Ela usava um vestido florido com os cabelos soltos e seu rosto estava vermelho devido ao esforço.

A escola que o filho visitara ficava em um bairro distante da mansão e naquela hora não passava quase ninguém na rua.

Volkan olhou no relógio e viu que estava quase na hora da reunião com os novos clientes, mas sua criação não o deixou ir embora sem antes ajudar aquela mulher.

— Era só o que me faltava! Essa porcaria de pneu foi murchar justo hoje e o Ômer não atende a droga desse celular.

Aslı estava cansada de tentar mexer na ferramenta para trocar o pneu, ninguém passava por ali, e o irmão estava com o telefone desligado.

Agora ela precisava ir até o supermercado para a cunhada e com o contratempo, ela perdeu 10 minutos do seu precioso tempo que já era cronometrado.

A jovem tentava e o suor escorrendo pelo rosto não ajudava em nada.

— Posso auxiliar a senhorita?

Uma voz rouca fez com que Aslı parasse o que estava fazendo no mesmo instante. Um arrepio que a moça não sabia o que era há muito tempo percorreu seu corpo e ao se virar de frente para o estranho da voz bonita a jovem se deparou com um homem de quase 1 metro e 85, cabelos negros que estavam bem penteados e uma barba escura que lhe dava uma aparência misteriosa.

Aslı não pôde deixar de reparar no terno elegante que ele usava e na camisa branca por debaixo dele.

— Eu… É… Eu nunca troquei um pneu antes, meu irmão não atende o telefone e ninguém passa por aqui para me ajudar.

Volkan sorriu ao notar o nervosismo dela, que mexia as mãos em um gesto.

— Vou auxiliar a senhorita. — Volkan tirou o paletó e pediu para a moça segurar.

— Senhor vai sujar sua camisa, não precisa se incomodar. Eu consigo ajuda, não é necessário.

— Sem problemas, senhorita, não posso deixar uma mulher sozinha tentando trocar um pneu em uma rua deserta como essa.

Volkan enrolou as mangas da camisa e Aslı notou os braços fortes do homem e o relógio caro que ele usava no pulso esquerdo.

— Nenhum anel no dedo, será que ele é solteiro?

Aslı se pegou pensando nisso e se recriminou em pensamento.

Enquanto isso o estranho, com facilidade em menos de 10 minutos trocara o pneu do carro dela.

Sem esforço e sem uma sujeira na camisa branca dele.

Aslı entregou o paletó para o homem que vestia e quem o visse daquele jeito não imaginava que minutos atrás ele estava trocando um pneu furado.

— Senhor, obrigada por me ajudar. Não sei o que posso fazer para compensar.

Volkan riu da garota e apenas balançou a cabeça em negativa.

— Não fiz mais do que a minha obrigação como homem, senhorita. Agora seu pneu está arrumado e você pode seguir seu caminho com tranquilidade.

Aslı não sabia como retribuir ao estranho e então se lembrou dos biscoitos de limão que ela havia guardado para comer no caminho.

Foi até o carro e pegou um pequeno pote descartável.

Com timidez, entregou ao homem e antes que Volkan falasse algo, ela respondeu.

— Não posso pagar pelo serviço com dinheiro, então espero que aceite esse pequeno presente.

Volkan ficou sem graça ao receber aquele pequeno pote de biscoitos. Ele pensou em recusar, mas seria falta de educação.

— Tudo bem, senhorita… Bom eu ainda não sei o seu nome. Me chamo Volkan e você?

O advogado estendeu a mão para a jovem a cumprimentando e Aslı envergonhada com o gesto, estendeu a sua mão e um simples aperto foi como se uma corrente elétrica tomasse conta do corpo de ambos.

— Eu me chamo Aslı, vim deixar minha filha na escola e só na hora da saída notei que o pneu estava murcho. Se não fosse o senhor, eu não sei o que seria. Novamente, obrigada senhor Volkan.

— Pode me chamar de Volkan e sua filha estuda nessa escola? Volkan apontou para o colégio e Aslı confirmou que sim com a cabeça.

— Şymal estuda aqui desde pequena. Ela tem 9 anos agora e eu também estudei nessa escola quando era criança. Aslı respondeu e quando Volkan foi responder, o celular da moça tocou.

— Um momento, deve ser meu irmão preocupado.

A jovem atendeu a ligação e explicou para Ômer que Volkan deduziu ser o irmão dela, que o problema do pneu tinha sido resolvido e ela se atrasaria alguns minutos para o trabalho.

— Desculpa, mas se eu não respondesse, meu irmão ficaria preocupado.

Aslı pegou sua bolsa no carro e tirou de lá um cartão de visitas.

Entregou para Volkan que ficou surpreso com o gesto.

— Se o senhor gostar dos biscoitos e tiver um tempinho para tomar um café, eu trabalho nessa padaria e o café e biscoito será por minha conta.

— Agora preciso ir embora, minha cunhada está esperando pelas compras e vou ao supermercado ainda.

Volkan então estendeu a mão novamente, em despedida, guardou o cartão na sua carteira, e desejou um bom dia para Aslı. A jovem entrou no seu carro e seguiu para o supermercado.

Volkan ainda ficou parado, por alguns segundos, pensando no que acontecera minutos atrás.

Ele não se interessava por nenhuma mulher e apesar de noivo, Cansu e ele nunca tiveram nenhuma intimidade antes. O advogado preferia casos de uma noite e nunca escondeu isso da noiva.

Mas agora, anos depois, uma jovem mulher mexeu com os sentimentos do homem.

Verificou a hora no relógio e viu que estava atrasado. Ele precisava estar no escritório às 8 e eram quase 8:45 da manhã.

Só então lembrou que o celular ficou no carro e com certeza a secretária ligara várias e várias vezes para ele.

Volkan foi para o carro e pegou o celular que estava no, porta-treco e ligou para sua secretária.

— Meryem tive um imprevisto, mas já estou chegando no escritório. Demir e Cemil já chegaram?

A secretária então avisou que os dois sócios já estavam conduzindo a reunião e Volkan lembrou a moça de ligar para Zeynep lembrando sobre o horário que Yiğit sairia da escola.

Desligou e seguiu para o trabalho, com o pensamento em uma certa jovem de olhar cativante e cabelos cor de mel.

*************

Aslı, depois de uma hora de compras, enfim tinha tudo que a cunhada precisava no carrinho de compras. O irmão ligou várias vezes para saber se estava tudo certo com o carro e avisou a irmã que ela venderia aquele carro velho. Ele a ajudaria a comprar um novo, mesmo sendo usado, mas sem problemas mecânicos.

Enquanto Aslı guardava as compras no porta malas, lembrou do homem chamado Volkan que a ajudou a trocar o pneu.

— Ele era tão elegante e parecia ser rico. O que será que ele fazia naquela região que não era de gente rica? — Pensou.

A jovem se fechou para o amor depois da morte do marido.

Osman era 3 anos mais velho do que ela e, mesmo com o pai sendo contra o casamento por ser tão nova, o casal se amava. Viveram felizes até a morte do marido, anos atrás.

Osman era órfão e morava na mesma rua que a família de Aslı. Os dois cresceram juntos. O marido da jovem morava junto da sua tia, que depois da morte do sobrinho, voltou para sua cidade natal.

Após a morte de seu companheiro, a sua vida era dedicada a cuidar de Şymal.

Namoro ou um novo casamento, não estava em seus planos, e mesmo os encontros com Ali, amigo de Ômer e também comissário, para Aslı não teve importância.

Nenhum homem mexeu com ela, até aquela manhã…

— Sua boba, o homem nem vai lembrar de você e muito menos ir à padaria lanchar como você está sonhando.

Aslı organizou tudo e seguiu para a padaria.

Capítulo 3

Volkan estava perdido em pensamentos, enquanto Demir explicava os termos do contrato dos novos clientes. Na reunião daquela manhã, o advogado lembrou do convite que Aslı fez a ele.

Tirou a carteira do bolso do paletó e pegou o cartão de visitas que a moça lhe entregou.

Leu o endereço e viu que o lugar era próximo da escola que a filha da jovem estudava.

— Seria ela solteira? Casada? Existia alguém em sua vida? Volkan pensava em Aslı que não percebeu o primo falando com ele.

— Volkan se ganharmos essa causa, eu vou conseguir quitar meu apartamento. O valor é altíssimo.

Demir era primo e melhor amigo de Volkan. Dos 3 sócios, a porcentagem menor na sociedade era dele e por várias vezes o homem abriu mão dos honorários em algumas causas para o primo poder ganhar um valor maior.

Claro que em todas às vezes o pai de Volkan reclamou porque para Aslan, o primo era apenas um caso de caridade, já que o irmão mais novo do homem, quando vivo, acabou acumulando dívidas de jogos e com agiotas.

— Irmão está tudo bem? Demir perguntou se acontecera algo, já que na reunião mais cedo ele quase não falou.

— Tudo, sim, eu estava apenas pensando em Yiğit. Até agora Zeyno não me ligou e conhecendo a minha irmã, me preocupo dela esquecer o menino no colégio. — Vou para o meu escritório, ligar para aquela mocinha e saber se Yiğit já está em casa.

— Saímos para o almoço daqui a 20 minutos? Volkan perguntou ao primo.

Demir respondeu que sim e que Cemil não iria com os dois. Com o problema da cunhada, o homem decidiu tirar o restante do dia de folga e só foi para o escritório naquela manhã porque a presença dos três sócios era necessária.

— Volkan antes de você sair, gostaria de saber como Cansu está? Quer dizer, você chegou e não tocou no nome dela, Cemil me disse que ela teve que ficar em observação. Me desculpa se meter no seu noivado, mas se não existe amor porque não termina tudo de uma vez?

Volkan não queria falar da noiva, o encontro com Aslı o fez esquecer completamente dela, e só em imaginar que ao chegar na mansão o pai iria começar o sermão de sempre, ele queria sumir nem que fosse por um dia.

— Demir, eu não quero falar sobre isso agora, vou ligar para Zeyno e te espero para irmos almoçar.

Volkan saiu em direção ao seu escritório mais com o pensamento ainda em Aslı.

***************

— Mamãe, eu conheci um novo amiguinho na escola, e ele não tem mãe assim como eu não tenho pai.

Şymal e Aslı estavam em casa preparando o almoço, Elif ficou na padaria para terminar uma encomenda e Ômer não almoçaria com elas.

— Como foi a apresentação e me conta sobre esse seu amigo?

Aslı e Şymal colocaram os pratos na mesa e a menina arrumou a jarra de suco. Aslı colocou a travessa com a massa, o prato favorito da sua menina.

— Foi tudo lindo e todos gostaram dos doces e do bolo que a tia fez. Os colegas de hoje eram engraçados e o meu coleguinha, é mais novo que eu. — Pena que não perguntei o nome dele, agora nunca mais vou encontrar ele de novo.

— Não fica assim filha, talvez um dia vocês dois possam se reencontrar e brincar novamente. Agora vem almoçar, que hoje à tarde sua tia entregará uma encomenda grande e eu terei que fechar a padaria.

— Vou te deixar no ballet e seu tio irá te buscar. Ômer me avisou que não trabalhará hoje à noite.

— Tá bem, mamãe, vou almoçar e depois trocar de roupa.

Volkan e Yiğit conversavam ao telefone. Os 20 minutos se tornaram quase 30 e o filho não parava de falar da amiguinha com jeito de anjo, que ela era engraçada e que assim como ele não tinha mãe, ela não tinha pai.

— Meu leão, agora o papai precisa mesmo desligar, estou atrasado para o almoço. Passa o telefone para sua tia.

— Tudo bem, papai, mas promete que não vai chegar tarde? — Yiğit perguntou do pai.

— Não posso prometer, mas seu pai vai tentar, agora deixa eu falar com tia Zeyno.

O menino passou o celular para a irmã de Volkan e o advogado perguntou como foi tudo e se o menino realmente havia se comportado bem.

— Irmão, se acalma que meu sobrinho está muito bem. Cheguei no horário marcado e me parabeniza que encontrei o lugar sozinha, claro que o GPS me salvou, mas foi tudo tranquilo.

Volkan riu da irmã ao falar que “ela encontrou uma escola sozinha”, já que sua caçula era tratada como uma princesa pelo pai.

— Parabéns, super tia, você vai ficar na mansão agora à tarde? Yiğit me disse pela manhã que vocês dois vão montar um novo quebra cabeça. Aconteceu algo para você estar em casa?

— Não aconteceu nada, só quero passar um tempo com meu sobrinho e está tudo tranquilo na loja hoje. Ah, quase esqueço de te avisar, Cansu me ligou, me contou o que aconteceu e me perguntou se você encontrou outra pessoa.

— Volkan, por que não acaba logo com esse compromisso? Você não a ama e sofre apenas para agradar nosso pai.

— Irmã… não quero falar sobre isso e agora vou desligar que Demir está me chamando.

Volkan desligou o telefone, pegou o seu paletó e vestiu, pegou o celular e a carteira e ao colocar no bolso, algo caiu e ele viu o que era.

— Se eu aparecer hoje no trabalho dela, será que ela vai gostar?

Volkan ficou pensativo por uns segundos, olhou para o pote de biscoitos, que ela entregou para ele, e guardou o cartão novamente. Era melhor esquecer aquela jovem.

***********

— Quantas vezes tenho que te falar o mesmo, Cansu? Você precisa conquistar o coração de Volkan e não afastar ele de você.

Bahar, a irmã de Cansu, entrou no quarto da jovem como um furacão.

— Quando seu noivo me ligou, informando o que aconteceu e que vocês estavam no hospital, tem ideia de como me senti?

Cansu estava cansada da irmã, daquele noivado sem amor e de tentar conquistar um homem que não dava a mínima para ela.

A irmã e o mesmo discurso de sempre, o cunhado que insistia no noivado e o sogro que planejava o casamento.

Tudo isso era demais para a jovem que, em um momento de desespero, quando Volkan chamou a noiva para conversar e avisou que queria terminar tudo, se desesperou e tentou se matar.

Cansu queria apenas continuar sua vida em Londres, como era atrás, quando era uma jovem recém-formada, havia conseguido um bom trabalho numa grande empresa. Mas, a irmã não perdia a oportunidade de jogar na cara tudo o que havia feito por ela.

— O que você quer que eu faça? Que eu me jogue para cima dele? Volkan não me ama, Volkan não me quer. É simples assim e você não consegue entender. O meu desespero foi por essa sua reação.

— Se você deixasse eu viver a minha vida, como quero, te garanto que não estaria assim agora.

— Você queria o quê? Que eu te deixasse ficar com aquele pobretão que não tem nada para te oferecer? Acha que tolero o seu cunhado todos esses anos para nada?

— Convenci Aslan a te aceitar como nora, te coloquei nos melhores colégios para um dia você se tornar a esposa de Volkan. Então você vai agora mesmo levantar dessa cama, almoçar comigo e seu cunhado, colocar seu melhor sorriso e depois vai para a mansão.

— Aquela tonta da Zeynep está em casa cuidando do pirralho e você vai chegar lá com sua expressão mais triste.

— Irmã não me obrigue, por favor. Volkan nem mesmo ligou para saber de mim. Tive que falar com Zeynep, só para que você não brigasse comigo.

Bahar andava nervosa pelo quarto da irmã. Um descuido de Cansu e tudo que ela lutou por anos e anos seria destruído como um castelo de areia.

— Cemil me contou que ele chegou atrasado no escritório e estava pensativo durante a reunião. Agora vai se trocar, seu cunhado está lá embaixo te esperando para o almoço.

Bahar saiu do quarto e Cansu pegou o celular, precisava falar com ele, precisavam se encontrar naquela noite.

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