Érica era uma mulher de vida sexualmente ativa mesmo solteira, e eu
era aquela que fazia sexo namorando. Tive alguns encontros casuais e não
era exatamente uma prática que dominava. Depois que ela foi embora, fiquei
pensando no quanto precisava me soltar mais e me abraçar sexualmente. Às
vezes, sentia falta do sexo, porém, o que me dava saudade mesmo era sentir
uma conexão.
Parei na frente do espelho e me encarei. Eu era a mistura perfeita.
Minha mãe era negra, alta, de corpo chamativo, um quadril largo, pernas
longas e grossas. Não puxei a altura, mas puxei as curvas de um jeito mais
comedido. No entanto, minha pele era morena clara, por ter um pai branco e
loiro. Meu cabelo era longo, liso e muito preto. Meu nariz não era tão
arrebitado, mas também não era pontudo como o do meu pai.
Me achava uma mulher bonita, porém, eu era péssima na arte de
flertar e ficava toda tímida. Quando os homens chegavam em mim,
costumava escorregar até que eles desistissem. Se começasse a me encher,
acabava ficando irritada e dando um fora. Poucas vezes aconteceu de um
homem me tirar o fôlego e nessas, tive meu coração partido.
Minha irmã dizia que eu tinha o dedo pobre e depois da última
decepção, tive que concordar com ela. Marcus me traiu com minha melhor
amiga. Foi um golpe duplo que estava doendo ainda e não tinha certeza se
estava pronta para um novo relacionamento. Dei um tempo necessário para
mim mesma.
Dormi um pouco durante o dia e antes de sair, finalizei a edição de
um ensaio. Lavei e escovei meu cabelo, empolgada em me arrumar. Escolhi
uma bota que ia até o meio das coxas com o curto e muito justo vestido
preto. Separei meu sobretudo de couro, fazendo uma maquiagem arrasadora
com um batom vermelho matte que demorava uma eternidade para sair.
Poderia beber a noite toda sem me preocupar em retocar.
Tirei uma foto na frente do espelho, mandei para minha irmã e avisei
a Érica que estava pronta, chamando o táxi. Meu prédio não tinha porteiro,
era tudo monitorado por câmeras e para entrar, só com um morador
liberando. Meu pai detestava, achava que era uma falha de segurança. Por
ele, eu moraria em uma cobertura de algum prédio muito luxuoso, mas eu
odiava a sensação de ser a filhinha do papai, embora eu fosse uma.
Meu irmão mais velho comandava a empresa da família e minha irmã
caçula ainda estudava, com vinte anos, ela estava no começo da faculdade.
Eu já tinha idade o suficiente para tomar conta da minha vida. Era difícil não
me sentir errada gastando dinheiro do meu pai sendo maior de idade. Tanto
ele, quanto minha madrasta e até minha mãe, odiavam meu jeito independente
porque raramente pedia ajuda e eles se sentiam de fora.
Sempre gostei de tomar conta de mim.
— Por que está com essa expressão de quem está pensando na vida e
não está gostando? — Érica me encarou assim que a encontrei na calçada.
— Nada. Vamos beber. — Abri um sorriso.
Não precisamos enfrentar a fila. Érica era cliente regular do local,
que já estava meio cheio. Ela me avisou que ia falar com Carick, então parei
no bar, conversando com uma modelo que fiz algumas fotos e trabalhava
como garçonete.
— Quero fazer um ensaio nu, topa? Estou querendo ousar no meu
portfólio. — Ela me serviu com um drinque.
— Claro que topo! Estou querendo fazer umas fotos sensuais bem
conceituais. Vamos marcar na próxima semana...
Érica sinalizou que ia para a pista de dança, meu telefone vibrou com
uma mensagem da minha irmã e fui andando com meu copo de bebida na
mão. Dei um pequeno aceno para Carick, sem querer parar porque ele estava
acompanhado e desci os três degraus, já me balançando no ritmo da música.
Eu amava dançar. Fiz ballet, jazz e outros ritmos por toda minha
vida. Sambava muito. Adorava. O DJ começou a tocar Hawái do Maluma
remixada, fui rebolando sensualmente, me entregando sem pensar em nada ao
redor. Fechei meus olhos, erguendo os braços e percebi que alguns homens
estavam se aproximando. Desviei, ainda dançando, ficando com Érica.
De repente, senti uma fisgada no coração. Girei na pista, procurando
o que me fazia sentir ser observada. Bati de frente com uma espécie de
homem tão lindo que dei um passo para trás. Na escuridão, não podia ver
todos os detalhes. Seus cabelos eram loiros, a luz forte mostrou que seus
olhos eram claros e possuíam uma intensidade que cutucou meu âmago. Sua
boca desenhada era tentadora.
Uau. Ele estava me comendo com os olhos, me senti lisonjeada, era
um desejo cru que impactava. A maioria dos homens me olhavam com
cobiça, mas aquilo era diferente de um jeito que não sabia explicar.
Sem graça por ser pega olhando-o como uma idiota, disfarcei com
um sorrisinho e virei de costas, voltando a dançar com Érica. Ele deu a volta
e me parou.
— Posso dançar com você? — Esticou a mão e reparei que era
grande. Ele era tão alto que precisei olhar para cima. Nervosa, ri. — Só
dizer sim ou não.
— Ela quer sim. — Érica me empurrou para frente.
— Preciso que diga. — Ele olhou em meus olhos.
— Sim... eu quero dançar com você — gaguejei. Eu não podia ser
mais atrapalhada. — Meu nome é Sarah.
— Arthur. — Segurou minha cintura e me puxou para si.
O homem sabia dançar. Mesmo com a diferença de altura, meu corpo
encaixou perfeitamente no dele. Suas mãos desceram para meu quadril,
acompanhando os movimentos e me aquecendo por dentro como há muito
tempo um homem não conseguia fazer.
Joguei minha cabeça para o lado, com meu cabelo caindo e ele me
abraçou, arrastando os lábios pelos meus ombros, subindo e parando no meu
ouvido, sussurrando que eu era linda e que estava louco por mim.
Se ele continuasse dizendo as palavras certas, iria conseguir muito
mais que uma simples dança no meio da pista.
Capítulo 3 | Sarah
As batidas da música não eram nada comparadas às do meu coração,
que de um jeito tão frenético, quase explodiu com a aproximação dele. Seus
lábios roçaram na minha bochecha, as mãos firmes no meu quadril, ergui
meu rosto e fechei os olhos, reunindo coragem ao tomar a iniciativa de beijá-
lo. Arthur ficou surpreso por uns segundos, logo reagindo e puta merda, que
beijo!
A sensação da sua boca na minha era visceral. Me rendi e me perdi
totalmente. Entregue. Virei uma massinha de modelar com sua mão grande
enfiada no meu cabelo, uma pegada nunca experimentada antes. Não ouvi
mais nada. Música, pessoas, pista de dança, minha amiga... nada. Era só eu e
ele. Arthur não parou mais de me beijar, me levando para um canto mais
reservado, agarrando minha bunda e me erguendo para equiparar nossas
alturas.
Apoiei meus pés em uma mesa, mergulhando na pegação desenfreada e
não me reconhecendo. Era impossível parar. Tomada pelo desejo, só
correspondia seus beijos, tateando seu corpo, sentindo músculos muito bem
trabalhados dos braços, abdômen e ele tinha força o suficiente para me
manter ali. Claro que minha mente escorregou para a sarjeta.
— Tão gostosa... — Ele gemeu contra minha boca. — Que beijo
maravilhoso...
Arranhei sua nuca, voltando a beijá-lo, dando uma suave rebolada ao
sentir sua ereção marcando bem a calça jeans escura que usava. Não tinha
certeza se tudo que estava sentindo era seu pênis, se fosse, minha nossa
senhora da bicicletinha.
Não sei quanto tempo ficamos nos pegando no canto, mas eu estava
quase implorando para que me comesse ali mesmo. Ele me colocou no chão
quando o local em que estávamos começou a ficar cheio e um homem nos
encarava descaradamente.
Caminhei até o bar, ciente que estava sendo observada. Pelo reflexo
do espelho atrás das garrafas de bebida, vi que meu acompanhante não
conseguia desviar o olhar do meu rebolar. Virei e mesmo de saltos, precisei
me impulsionar para subir no banquinho. Ele sorriu, passou o braço na minha
cintura e me ergueu sem nenhuma dificuldade.
Parado entre minhas pernas, sinalizou para o barman e voltou a me
olhar com a intensidade que estava me deixando maluca.
— O que quer beber? — Inclinou um pouco o rosto, por ser bem mais
alto do que eu.
Não tinha certeza se deveria continuar bebendo qualquer coisa com
álcool porque eu já tinha a tendência de tomar decisões estúpidas sóbria,
imagine bêbada. No entanto, pensei que qualquer decisão com ele não me
causaria arrependimentos. Um homem daqueles caído na minha rede era uma
pesca que não havia prestado atenção.
— Água. — Me abanei um pouco, com calor pela dança e por ele estar
aquecendo minha corrente sanguínea.
— Uma água para a dama e o mesmo de antes — falou com o barman
que nos observava com interesse. Arthur voltou a me encarar e, sem pensar,
acariciei seu rosto, percebendo que havia uma barba por fazer, uma covinha
atraente e um furinho no queixo que era beijável. Com um pouco mais de luz,
ele me tirava ainda mais o fôlego. Seus olhos eram muito claros,
combinavam bem com o cabelo loiro, já meio bagunçado pelas minhas mãos.
— Está gostando do que vê?
— Do que vejo e do que beijei. — Sorri, mordi meu lábio e procurei
por Érica rapidamente. Ela estava dançando agarradinha com Carick. — O
que faz aqui?
— Eu estava em uma reunião de trabalho meio informal quando você
me tirou completamente do foco. — Segurou meu queixo. — Te vi passar e
esqueci meu nome.
— Não exagera...
— Não sou um homem de mentir ou exagerar, acredite em mim.
— Se queria uns beijos, conseguiu.
— E se eu quiser mais? — Olhou em meus olhos. Caramba, direto ao
ponto!
Coloquei meu cabelo atrás da orelha, pensando. Eu não me sentia
confortável saindo com ele dali, por mais que estivesse com vontade, não
era algo que costumava fazer. Mesmo querendo. Bebi um pouco da minha
água e decidi ser sincera. Se ele topasse, tudo bem. Se não, nós não
passaríamos de uns beijos.
— Não hoje. Talvez outro dia, se me levar para jantar.
Arthur me deu um olhar avaliativo, se inclinou e cochichou no meu
ouvido seu hotel e o horário que estaria me esperando para jantar no dia
seguinte. Ainda acrescentou que estava muito ansioso e era melhor não o
deixar esperando. Sorri, meio aliviada e já um tanto nervosa sobre o dia
seguinte, mesmo quando mal havia terminado aquela noite, que rendeu ainda
mais beijos, mãos bobas e dancinhas safadas.
Quando cheguei em casa, estava com um sorriso enorme no rosto.
Tomei banho e me joguei na cama, querendo pular como uma boba. Érica me
mandou uma mensagem, falando que Carick garantiu que Arthur era solteiro,
que teve algumas namoradas quando estudaram juntos, mas não sabia muito
mais. Não queria detalhes, porque quebraria o clima de conhecê-lo, além do
mais, era um encontro e não um pedido de namoro.
Dormi e sonhei com ele. Nunca fiquei tão ligada em um ficante assim.
Talvez fosse porque ainda iríamos nos encontrar ou porque fazia tanto tempo
que não tinha um amasso bom que estava marcado na minha mente. Eu nem
sabia se ele era um homem bom de conversa, tudo que fizemos foi puramente
físico.
Lembrar das danças quentes me deu um pouco de vergonha. Causei um
showzinho.
Levantei no dia seguinte mais tarde, fiz um dia de beleza – que era
comum no meu domingo –, mas acrescentei depilação nas pernas e nas partes
íntimas, que estavam do jeito que eu gostava. Minha primeira opção de
roupa era muito comportada, em chamada de vídeo com minha irmã, ela
gritou.
— Sarah... cadê a vadia que existe em você? — Rafaella resmungou.
Papai teve uma crise de tosse ao fundo, ouvindo nossa conversa e ela fechou
a porta do seu quarto com um chute.
— Não tem nenhuma vadia aqui, sua idiota.
— Deveria ter. É por isso que está há tanto tempo sem transar. —
Abriu um sorriso.
— Sexo não é tudo. O importante é ter uma conexão e com esse cara,
aconteceu. Eu só não quero parecer que estou desesperada, o que não é o
caso.
— Vai de vermelho. É uma cor que combina muito com você e usa
aquele batom de ontem. Saltos altos, cabelos meio presos e uma
maquiagem simples. Nada apelativo e ao mesmo tempo, linda de morrer —
opinou. Peguei o vestido no closet e ela ergueu os polegares.
Minha irmã era muito engraçada. Apesar de mais nova, tinha uma
mente bem à frente da minha. Nenhum osso tímido no corpo, me deixava no
chinelo, porque eu era mais retraída. Enquanto Pedro Rafael era quase um
bicho do mato que nasceu na cidade, Rafaella era um terremoto. Minha
madrasta costumava brincar que depois de duas crianças tranquilas, a sorte
dela não podia durar muito tempo.
Esse contraste era bom, porque ela sempre me tirava da concha.
Seguindo seu conselho, usei o vestido vermelho que comprei e nunca usei.
Ele delineava meu corpo e ficava mais chamativo que o da noite anterior,
evidenciando a bunda que tinha de sobra e os seios, que sem poder usar um
sutiã, eram sustentados pelo decote suave.
Por baixo, usava uma calcinha preta pequena, que era só um triângulo
atraente atrás e rendada na frente.
Fiz alguns cachos no cabelo depois da maquiagem e perto do horário
combinado, vesti minhas sandálias pretas. Chamei um táxi por aplicativo,
mandando o trajeto para Érica e ao chegar no hotel, meu estômago estava em
nós. Nós não trocamos número de telefone, só combinamos o local e horário,
me bateu insegurança conforme passava pelo saguão do hotel.
Estava quase voltando porque não sabia para onde ir quando ele surgiu
no meu campo de visão. Usava preto e puta que pariu, só um belo de um
palavrão para exemplificar o quanto aquele homem estava lindo e chamando
a atenção de todos. Ele caminhou decidido na minha direção. Sem delongas,
simplesmente me beijou, agarrando minha cintura e me puxando contra ele.
— Você está tão linda. — Suspirou com a testa encostada na minha.
— Obrigada. Você está um gato também. — Toquei sua gola.
— Reservei uma mesa. Me disseram que o restaurante aqui é um dos
melhores, mas, se tiver uma sugestão, podemos sair. — Entrelaçou nossos
dedos.
— Aqui é um dos melhores, sim.
Era um hotel cinco estrelas no qual a diária custava mais do que eu
cobrava em um ensaio fotográfico. Ele era um homem rico, pelo menos
aparentava com seu jeito refinado, roupas caras, o relógio que pagaria a
dívida externa do meu país e sapatos italianos exclusivos. Era uma garota de
joias delicadas e devido a situação financeira abastada do meu pai, minhas
coisas eram reais.
A recepcionista nos deu um sorriso profissional e nos levou para a
mesa sem delongas. Entregou os cardápios e disse que um garçom viria nos
atender em breve. Nossa mesa era bem reservada, no segundo andar, com
uma visão linda para o jardim do hotel e para parte de dentro, o piano, que
estava sendo tocado por um rapaz jovem com muito talento.
Cruzei minhas pernas, girando meu corpo na cadeira para encará-lo.
De um jeito engraçado, rolou um silêncio constrangedor até que começamos
a falar ao mesmo tempo. Desde então, não calamos mais a boca.
Não falamos das nossas vidas pessoais. Ficamos no âmbito simples,
lugar que morávamos, profissão, nada de família ou detalhes realmente
íntimos. Durante o jantar, focamos no que tínhamos em comum e a tensão
sexual só foi aumentando.
Nossos gostos musicais batiam, não mencionei que era brasileira,
talvez fosse errado da minha parte, porém, optei por não causar nenhum
desconforto por ser imigrante. Não estava ali em situação ilegal, só não
queria quebrar a magia entre nós. Até porque, ele não compartilhou as
informações de onde era e apesar de ter a pele bronzeada, não aparentava
ser americano.
Arthur era naturalmente sedutor, um pouco agressivo ao ser direto ao
ponto, não tinha rodeios em nada. De todos os encontros que tive na vida,
aquele foi o primeiro que me senti extremamente confortável comigo mesma
e com o meu parceiro de mesa.
Quando as sobremesas ainda estavam a caminho, ele segurou minha
mão e beijou. Por dentro, estava como uma gelatina. Queria me jogar nele ali
mesmo, beijá-lo e atacá-lo como uma mulher faminta.
— Passei a noite pensando nessa sua boca maravilhosa — falou baixo,
olhando em meus olhos. — No movimento gostoso desse seu quadril. —
Beijou meu pescoço e discretamente, foi puxando minha cadeira. — Você
pensou em mim?
— Sonhei a noite inteira. — Rocei meus lábios nos dele. — Em tudo
que poderíamos fazer... com privacidade.
— Basta dizer a palavra que vamos subir.
Eu queria aquilo. Queria fazer uma loucura. Era só uma noite sem
arrependimentos. Eu e ele éramos uma combinação perfeita. Me inclinei
para frente e beijei seus lábios, cochichando que deveríamos subir. Arthur
não perdeu tempo, sinalizou para colocar a conta no registro do seu quarto,
ficou de pé e ofereceu sua mão, que aceitei e tentei não olhar para quem nos
assistia. Meu rebolar chamava atenção e ele era um homem bonito.
— Sinto pena de todos os idiotas que estão babando por você agora —
falou atrás de mim no elevador. — Eu sou o sortudo.
— É mesmo... um homem muito sortudo. — Virei um pouco meu rosto.
— Não fique nervosa. — Beijou meu ombro.
— Não estou tão nervosa, só um pouco... ansiosa — confessei,
sentindo que minhas bochechas estavam vermelhas.
Estava tão envolvida que não cheguei a considerar desistir, como fiz
muitas vezes. Eu era uma mulher determinada para muitas coisas na minha
vida, em um relacionamento, encarava o sexo com maturidade, aceitava o
tesão, provocava e corria atrás, mas casualmente era um momento
nebuloso...
Ele riu e abaixou o rosto.
— Estou louco para tirar esse vestido e descobrir o que tem por baixo.
— Seu indicador passeou pela tira fina da minha alça.
— Não tem muito. — Dei de ombros, brincando com ele. Arthur riu e
rodeou a ponta do dedo no meu mamilo. O elevador parou antes do seu andar
e ele cruzou os braços nos meus seios arrepiados, impedindo que os dois
homens que entraram me vissem tão exposta.
Não sei que olhar ele deu, mas os homens não tiraram os olhos dos
sapatos. Um disfarçou e olhou o relógio e então, pelo reflexo das portas, vi
que Arthur estava bem sério e me protegendo com seu corpo, além de deixar
muito claro que estávamos juntos. Achei uma atitude engraçada e ao mesmo
tempo fofa, porque normalmente, em um encontro, nenhum cara se
preocuparia em preservar sua parceira daquela forma.
Quando os homens saíram no andar de uma das piscinas, Arthur
apertou o botão para que o elevador fosse direto para seu andar. O último. A
suíte presidencial. O corredor estava vazio, uma passada rápida do cartão
chave, estávamos dentro e eu mal olhei ao redor antes de ser atacada. Rindo
entre beijos, caímos no sofá. Ergui meu vestido sob seu olhar atento.
Suas mãos acariciaram minhas coxas com adoração, subindo para
minha bunda e me puxando. Nossas bocas se encontraram novamente, o beijo
bom, gostoso, parecia que não queríamos ficar longe um do outro. Com
cuidado para não me machucar, me tombou no sofá e abaixou o decote do
meu vestido, expondo meus seios e dando um beliscão em meu mamilo.
Soltei um gemido, sentindo um raio de excitação tão forte que me esfreguei
nele.
— Porra... que perfeitos — choramingou antes de chupar meu peito,
dando igual atenção ao outro. Em ritmo lento, deslizou o zíper lateral do meu
vestido, sentei um pouco e terminei de tirá-lo, jogando no chão. — Você é
como uma sereia. Cada curva é hipnotizadora como um canto. — Beijou
entre meus seios e colocou minha perna em seu ombro.
A antecipação do que ele estava prestes a fazer me causou um
friozinho na barriga. Observei seu rosto, o tesão refletido ali me enchia o
ego. Beijando acima da renda da calcinha, fiquei arrepiada quando ele não
tirou, só afastou para o lado.
— Como você quer? — Olhou em meus olhos.
— Só quero você, Arthur.
Ele abriu um sorriso lindo e começou a me chupar. Agarrei o couro do
sofá, sentindo um prazer imenso e segurei seu cabelo, perdida na dança
erótica que sua língua provocava em meu clitóris.
Capítulo 4 | Arthur
O relógio ao lado da cama indicava ser três da manhã. Despertei de
um cochilo ao sentir um pé macio contra minha perna. Não acostumado a
dormir acompanhado, logo me assustei, mas lembrei bem da companhia
deliciosa que estava ao meu lado. Virei e Sarah estava descoberta, deitada
de bruços, com a bunda dos meus sonhos para o alto e o rosto adormecido
virado na minha direção.
Mulher linda. Gostosa. Inteligente. Engraçada. Ela era a combinação
que não existia. Sarah deveria ter defeitos horríveis para ainda estar solteira.
Não é possível que algum otário deixou escapar, porque na conversa, ela se
garantia. Falava de tudo, entendia bem, o que não sabia, ouvia atentamente.
Pensei que a coisa toda ia se resumir a beijos e sexo. Nós conversamos
muito e o assunto nunca parecia ter fim.
O sexo foi épico. Minhas relações sexuais eram agradáveis,
prazerosas, mas com Sarah havia uma intensidade, uma conexão quase
cósmica. Nós fodemos de todo jeito, com muito tesão, caímos na cama
falando e rindo, até que pegamos no sono. Normalmente, eu era aquele a ir
embora ou sugerir que a mulher deveria ir, com ela, ainda não era o
suficiente e eu duvidava que em algum momento seria.
Sarah abriu os olhos e sorriu.
— Por que está me olhando, stalker? — Ergueu o rosto e deitou no
meu peito, bocejando delicadamente.
— Acabei de acordar.
— Acho que desmaiamos no meio da promessa de uma próxima
rodada. — Brincou com a unha no meu mamilo e fiquei arrepiado. — Opa...
— Não me culpe por ser sensível aí. — Apertei sua bunda bem firme e
dei um tapa. Ela se transformou em uma selvagem de quatro na minha frente.
Me perdi totalmente com sua bunda redonda e meu pau sumindo entre suas
nádegas. Putaria era comigo mesmo, encontrar alguém que não se acanhava
era melhor ainda.
— Onde mais você é sensível? — Jogou a massa de cabelo para o
lado, colocando a perna pela minha cintura e ficando por cima.
— Vai descobrindo... sou todo seu. — Coloquei minhas mãos atrás da
cabeça. Sarah estava com o cabelo bagunçado, os lábios inchados, os
mamilos com as marcas da minha boca, um chupão abaixo de um seio e o
meu novo lugar favorito... bem em cima do meu pau.
Se inclinou para frente e o movimento fez com que sua buceta
esfregasse no meu pau. Soltei um gemido, mordendo o lábio e ela beijou meu
pescoço, me atiçando e foi descendo. Dei um breve pulo com a mordida na
minha barriga e antes de lamber onde eu queria, me deu um sorriso sacana.
— Eu vou começar a implorar. — Suspirei só com sua respiração
próxima à cabeça do meu pau. — Sarah... eu não te torturei assim.
— Foi quase uma tortura não parar.
Dei um sorriso torto.
— Vira. Traga essa bunda gostosa pra cá e senta no meu rosto... —
Lambi meu lábio, já louco para chupá-la todinha novamente.
Sarah ficou vermelha e se movimentou com cuidado. Aquela posição
foi maravilhosa, mas tê-la por cima, cavalgando, com os peitos balançando
bem na frente do meu rosto e minhas mãos bem firmes em sua bunda foi
incrível. Nós gozamos e caímos abraçados, ofegantes e ficamos aos beijos,
com as pernas emboladas. Joguei a camisinha fora, peguei água para ela e
me vi fazendo algo que nunca fiz.
— Existe algum lugar legal para um café da manhã tardio aqui?
Sarah prendeu o cabelo no alto e me encarou com um sorriso.
— Tem um restaurante com esse serviço, por quê?
— Porque não vou te deixar sair daqui cedo e depois, nós vamos
comer. — Me inclinei e lhe dei um beijo.
— Em algum momento você vai trabalhar? — Soltou uma risada, me
abraçando enquanto eu me acomodava. Nós rolamos aos beijos, tateei a
gaveta, encontrando apenas duas camisinhas. Nossa brincadeira precisaria
de reforços em breve. — Isso é um não?
— Vou trabalhar bem depois do nosso café. — Coloquei a camisinha.
— Agora tenho coisas mais importantes para fazer.
Sarah capotou depois do banho. Estava exausto também e
estranhamente sem vontade de dormir. Peguei meu telefone e mudei o horário
da reunião no sistema da empresa, colocando para mais tarde e enviei uma
mensagem para Carick, afinal, não havíamos terminado a nossa conversa.
O dia amanheceu e seu telefone tocou. Ela resmungou antes de pegar e
atender. Sua expressão emburrada mostrou que não era a melhor pessoa
matinal, assim que encerrou a chamada, fechou os olhos por uns segundos e
lhe dei um beijo. Ficamos confortáveis na cama, quase pedi um café da
manhã no local, mas havia detestado a comida do serviço de quarto.
— Já me basta sair do hotel com a roupa que eu entrei, não vou fazer a
caminhada da vergonha em um dos lugares mais badalados da cidade. Se
quiser minha companhia, nos encontramos lá. — Ela me deu um beijo e
fechou seu casaco. — Até daqui a pouco!
Era melhor que ela estivesse lá. Sarah me dava a sensação que podia
escorregar entre meus dedos. Uma mulher que não fazia o esforço de me dar
o seu número de telefone estava tudo bem para mim, mas ela, depois da noite
que tivemos, sequer mencionar o seu sobrenome estava começando a me
deixar maluco.
Me arrumei para encontrá-la, com meu telefone vibrando sem parar e
durante o trajeto, respondi e-mails, falei com minha assistente e ainda discuti
com meu irmão por mensagens. Às vezes, Nathan me irritava. Eu o chamava
de Príncipe Charmoso, porque ele parecia com o personagem do filme do
Shrek, coisa que só descobri porque minha sobrinha me obrigou a maratonar
em um final de semana de natal.
Escolhi uma mesa próxima a parede de vidro que dava uma bela visão
para a cidade. A recepcionista ficou me olhando, abriu um sorriso charmoso,
perguntando se eu teria companhia e parou de falar ao perceber Sarah
andando na minha direção. Ela usava uma calça preta bem justa, botas até os
joelhos e de saltos, com uma camisa de gola alta. Mesmo toda coberta, ainda
era de tirar minha concentração, principalmente porque eu sabia muito bem o
quão gostosa ela era ao gozar.
— Demorei?
— Muito. Estou te esperando há horas. — Brinquei, colocando meu
telefone na mesa. Ela riu e puxou a cadeira para sentar, mas eu quis que
ficasse ao meu lado. — Está linda e cheirosa.
— E dolorida.
— Imaginei. Dolorida com arrependimentos ou sem arrependimentos?
— Sem nenhum arrependimento — garantiu e sorri contra seus lábios.
— Estou faminta porque um certo alguém quis sugar todas as minhas
energias.
Pegamos o menu e fizemos um pedido variado, enchendo a mesa de
comida. Ela queria que eu experimentasse uns bolinhos de quatro queijos
que era especialidade da casa. As panquecas eram infinitamente melhores
que as do hotel e sim, eu era muito chato para comer. Não tinha prato
preferido ou coisa do tipo, só precisava ser gostoso.
— Devo ficar na cidade até amanhã à noite. — Comecei a falar.
— Eu trabalho amanhã. — Ela sorriu, colocando o cabelo atrás da
orelha. — Tenho um evento bem cedo e não posso faltar. O que você quer?
— Eu quero te ver antes de ir embora.
— Tudo bem. — Simples assim. Uma mulher sem enrolações.
— Quero seu número de telefone.
— Não ofereci antes porque pensei que era uma coisa... sem detalhes
íntimos.
— Quero poder falar com você...
Sarah pegou meu aparelho, colocou diante do meu rosto, desbloqueou
e digitou seu número, salvando com nome e sobrenome. Sarah Avelar.
— Sobrenome estrangeiro.
— É de origem judaica. Meu pai é judeu... — explicou e devolveu meu
aparelho.
— E você é? — Interessante. Tive amigos judeus na faculdade, mas
não era um círculo que eu frequentava.
— Não. Embora seja um motivo de muita discórdia na minha casa,
minha madrasta, meus irmãos e eu somos católicos. Não sou praticante, não
desde que me tornei adulta, mas é o que sou. E você?
— Não fui criado com nenhuma religião. Minha avó frequentava a
igreja batista aos domingos, fazia parte do coral e eu a levava depois que
ganhei meu primeiro carro. — Peguei meu suco e dei um gole. — Passei a
frequentar quando me apaixonei pela filha do pastor. Eu tinha que convencer
o homem que era um bom partido para sua menina.
— E conseguiu? — Sarah me olhou com interesse.
— Claro que não. — Soltei uma risada.
— Aprendeu alguma coisa na igreja? — Ela cruzou as pernas e o cano
de sua bota ficou na minha panturrilha.
— Algumas coisas, não muitas, eu era desatento e agitado. Era difícil
ficar parado no mesmo lugar.
— E o que mudou?
— Faculdade me exigiu concentração e agora, o trabalho, a vida
adulta. Jogava xadrez quando era novo, também me deu muito foco a longo
prazo.
Sarah era fotógrafa e apesar de ser uma profissão que eu não me
interessava nem um pouco, ouvir sobre, me deu a impressão que era muito
mais trabalhoso e necessitava de mais organização do que previ. Ela tinha
muitos equipamentos, um site de trabalho e tive que elogiar, sinceramente.
Era talentosa. De brincadeira, tirou uma foto minha que ficou muito bonita.
Na minha galeria, não tinha fotografia nenhuma, depois do nosso café,
havia milhares de fotos nossas e principalmente, dela. Seu sorriso, suas
mãos delicadas, as unhas pintadas de bege claro com anéis bonitos. Eu a
deixei em seu apartamento um pouco mais tarde, com o sentimento de estar
nas nuvens e nem o idiota do diretor operacional me tirou do sério na
apresentação de merda que me fez perder um tempo precioso.
— Não está bom. Os números não batem, o que significa que precisa
ser refeito antes que eu implante uma auditoria e mude tudo isso aqui de
lugar. — Bati com a minha caneta na mesa. — Reunião encerrada.
Esperei que todos saíssem para atender minha mãe, que mesmo
acamada, não conseguia abrir mão de controlar tudo. Ela precisava entender
que estava fora. Eu não voltei para os negócios para voltar e ficar sob seu
domínio.
— Se você está ligando para falar sobre o trabalho, eu vou desligar —
avisei de imediato. Ela riu do outro lado da linha. — Se for sobre seu
aniversário, estarei aí no sábado a noite.
— Obrigada por confirmar sua presença, meu querido. E sim, estou
ligando para saber sobre Atlanta...
— Mãe... — Apertei a ponta do meu nariz. — Ou você volta ou me
deixa assumir.
— Não consigo me desligar totalmente. — Soltou uma risada. —
Apenas uma breve informação sobre a empresa.
— Está tudo sob controle — garanti e girei a cadeira para observar a
cidade. — O diretor operacional que escolheu é um merda e como sou
bonzinho, darei a ele só mais uma chance antes de assinar sua carta de
demissão.
Minha mãe tomou fôlego para dar sua opinião, cortei dizendo que a
amava e encerrei a chamada. Vivian, minha secretária, entrou na sala com
milhares de pastas e um olhar exasperado. Ela tinha quase cinquenta anos e
estava no cargo há uns vinte. Trabalhou com meu pai, depois com minha mãe
e nos últimos tempos havia se tornado meu braço direito e esquerdo.
A mulher sabia absolutamente tudo sobre a empresa e toda vez que a
irritava, ela dizia que iria se aposentar.
— Está chateada com alguma coisa? — Olhei para o seu rosto.
— Esse lugar me irrita. Me deixe aqui um mês e colocarei tudo no
lugar.
— E como vou sobreviver sem você em Nova Iorque?
— Se vira. — Revirou os olhos e saiu da sala, pegando algo na sua
mesa provisória e voltando. — A propósito, como, em vinte e quatro horas,
você conseguiu aparecer no jornal de Nova Iorque? — Me entregou uma
folha impressa.
Porra. Eles nunca se interessaram em mim até Meghan sinalizar que eu
podia ser um pote de ouro.
Herdeiro da BAXTER-FITZGERALD em jantar romântico com
morena ainda não identificada em Atlanta.
Nossas fontes afirmam que Arthur Baxter está na cidade a trabalho e
pelo visto, muito bem acompanhado. A mulher não foi identificada e os
dois estavam em um intenso clima de romance.
Joguei a folha na minha mesa e minha secretária estava esperando que
dissesse algo. Apenas sorri. Quem podia me culpar por cair de quatro por
Sarah? Vivian me deixou depois de resmungar que eu só dava trabalho.
Pensando que poderíamos ter mais uma noite juntos, mesmo que
tivéssemos compromisso logo cedo pela manhã seguinte, encontrei um
restaurante na busca que poderia atender ao meu pedido. Enviei o menu com
uma foto do meu quarto do hotel, que eu tirei sem querer e acabou ficando
salvo.
“Isso é um convite para comida japonesa na sua companhia e no seu
quarto?” Enviou uma carinha pensativa. “Preciso vestir algo especial?”
Acrescentou um diabinho.
Abri um sorriso. Ela era espirituosa.
“Não. Roupas são dispensáveis”.
Sarah levou uns minutos para responder. Enviou uma foto de um
conjunto de lingerie arrumado em cima da cama. Me inclinei para trás, sem
esconder a porra do sorriso, muito ansioso para mais uma noite ao seu lado.
Capítulo 5 | Sarah
Tony me deu um olhar esquisito ao me ver sorrindo feito uma idiota
para meu telefone. Arthur estava me enviando mensagens safadas desde que
deixei sua cama no meio da madrugada, para voltar para minha casa.
Precisava dormir um pouco sem uma tentação grande e loira ao meu lado e
me arrumar para o evento que não era exatamente de trabalho. Na verdade,
um casal de clientes estava completando cinquenta anos de casados e me
convidaram para o brunch de comemoração.
Atlanta tinha muitos hotéis, mas pelo visto, o evento tinha que
acontecer no lugar que o homem que virou minhas noites do avesso estava
hospedado. Eu não sabia se estava em seu quarto ou no trabalho, parecia
desocupado ou era um megalomaníaco que fazia muitas coisas ao mesmo
tempo.
Guardei o telefone no bolso e peguei a taça, participando do brinde. O
bolo foi cortado, servido e Tony se despediu, precisando ir embora. Ainda
fiquei mais um pouco, conversando com uns amigos em comum e ao achar
prudente, me despedi dos anfitriões. Caminhei sem pressa para a saída
porque estava com um par de sapatos altos que se virasse o pé, seria um
desastre. Usava uma calça rosa clara justa, com uma blusa mais larga branca
e me enrolei para colocar o casaco.
— Posso te ajudar, minha dama? — Arthur se aproximou. — Sabe a
minha felicidade ao vir buscar uns documentos e encontrar uma linda mulher
no saguão?
— Você é muito galante. — Virei de frente para ele.
— Leve isso e entregue a Vivian. — Entregou a pasta ao homem que o
aguardava. — Você vem comigo.
— Oi? Simples assim?
Arthur sorriu bem sacana.
— Você quer vir comigo porque sabe que vamos fazer algo muito bom
juntos. — Piscou me fazendo rir. Segurei sua mão, caminhando ao seu lado
até o elevador. — Seu evento era a festa de casamento no salão? Eu vi um
casal entrando quando estava saindo para o trabalho.
— Sim. Eles são meus clientes e fiz as fotografias informais, outro
profissional assumiu as fotos de hoje porque eu não trabalho em festas. É
muito cansativo — expliquei e ele me puxou para seus braços. — Você vai
embora que horas?
— Meu voo está programado para dezenove horas, o que significa que
eu tenho um tempo antes de partir e te esperar em Nova Iorque no final de
semana.
Fiquei tão surpresa que dei um passo para trás, tropeçando com meus
saltos. Arthur riu da minha careta, me abraçou e me beijou. Era uma ótima
maneira de me calar, porque ia soltar alguma besteira. Quando pensava que
ele ia agir de uma maneira, o homem fazia algo totalmente diferente.
— Só vou parar de te beijar se disser “sim, eu vou te encontrar em
Nova Iorque” — falou contra meus lábios. — Não diga “vou trabalhar”.
— Fotógrafos trabalham muito mais nos finais de semana do que
durante, sabia disso? — Como não era a resposta que ele queria, voltou a me
beijar, me fazendo rir. — Mas... eu posso ir sábado à noite, passar o
domingo e voltar segunda.
— É perfeito. — Desceu as mãos para minha bunda. — Vou te mostrar
um pouquinho do meu mundo lá.
— Então, você vai ter que voltar para que eu possa mostrar o meu
mundo de verdade. — Segurei as golas de sua camisa. Arthur sorriu contra
meus lábios, me fazendo derreter no lugar, com o coração todo bobo por
ele.
— Combinado.
Entramos em seu quarto aos beijos e passamos a tarde na cama, não só
fazendo sexo alucinadamente gostoso, mas conversando. Ele era tão
engraçado sendo tão... ele. Era difícil explicar. Arthur tinha uma essência
única. Era intenso, te levava a loucura e ao mesmo tempo, te fazia sentir uma
leveza sobrenatural. Estar com ele nua, falando sem parar, beijando-o como
se fizesse aquilo por dez anos e não dois dias, era natural como a luz do sol,
que mesmo no auge do inverno, iluminava a cama.
Me arrumei para voltar para casa enquanto ele se vestia para ir
embora. Sua mala estava pronta e o motorista aguardando. Saímos juntos e
ele me deixou na frente do meu prédio. Nos despedimos com um beijo, com
a promessa de nos vermos logo e com isso, ele me enviou uma mensagem
assim que entrei no elevador. Era sua mão grande no meu bumbum, foto que
eu tirei, rindo, porque ele acariciava como se fosse uma bola de cristal.
Mal entrei em casa e ele mandou uma foto com a cabeça deitada na
minha barriga. Editei todas em preto e branco, com bastante ruído, não só
para dar um efeito, mas para disfarçar um pouco seu rosto e os demais
detalhes.
Enviei de volta uma foto em que eu estava rindo, com a cabeça deitada
em suas coxas. Sorte que ele estava com o lençol cobrindo as partes que
importavam ou seria o primeiro plano antes do meu rosto. Encostei na porta,
com o telefone contra o peito e um sorriso enorme no rosto.
— Vadia. — Érica me deu um susto. — Toda apaixonada. No meu
país, chamamos isso de amor bandido.
— No meu, chamam de um termo muito vulgar: amor de pica.
A expressão confusa dela me fez rir ainda mais. Levei dez minutos
explicando o sentido até que ela caiu na gargalhada comigo.
— Eu vim aqui te ver porque você sumiu depois do encontro com o
homem. — Ela se debruçou no balcão. — Sua pele brilha.
— Estava ocupada fazendo o que eu não fazia há muito tempo.
— Foi bom? — Seus olhos brilhavam de alegria por mim. Ela sabia o
quanto eu havia sofrido no término com Marcus, a dor de romper minha
amizade com Stacey e até elas, que precisaram se afastar para ficar ao meu
lado. Foi um período horrível, que me trouxe muitas inseguranças e pioraram
todas as paranoias que já tinha.
— Foi épico. Ele quer que eu vá para Nova Iorque no final de
semana.
— Mentira? Sério? Puta merda! — ela gritou comigo. — Isso é
demais! Eu pensei que você estaria chateada consigo mesma porque ele está
indo embora e na verdade o homem te quer lá. Como vai ser?
— Ainda não sei, mas já combinamos que eu vou e depois, ele volta.
— Será que vão ficar nessa?
— Não sei. Não vou colocar nenhuma expectativa ou pressão em nós,
apenas viver o que tiver, aproveitar cada momento e me permitir sentir essas
emoções tão gostosas. Esqueci que é muito bom ter esse friozinho na barriga.
— Abracei minha garrafa de água, suspirando. — E o sexo? Caramba! Eu
não imaginava que podia ser tão bom! Claro que já tive noites memoráveis,
experiências bem agradáveis, até mesmo com Marcus, mas tudo que senti
com Arthur foi único. Aquele prazer, a intensidade entre nós, a vontade de
estar junto...
Érica estava sorrindo, com o queixo apoiado nas mãos, me olhando
com interesse e diversão.
— Agora você entende porque Carick e eu não nos soltamos mais.
Estou feliz por você, mas... — Deu a volta e segurou meus ombros. — Se
der errado, não quero que afunde novamente. Lide com o coração partido e
erga a cabeça, siga em frente, sendo a grande gostosa que é.
— Vou dar o meu melhor.
— Ótimo.
Érica e eu conversamos pelo resto da noite. Carick a buscou quando
ficou muito tarde e eu fui dormir, exausta.
Mergulhei no trabalho durante a semana, com muita foto para entregar,
álbuns para produzir e entrei em um embate com uma gráfica que me fornecia
material. Tony ficou na minha casa várias noites seguidas, compartilhei no
meu instagram nossa maratona de trabalho e ri das mensagens de Arthur,
sempre um emoji arqueando a sobrancelha para o meu assistente.
Ele era espirituoso e safado, me fazia sorrir nos momentos mais
inesperados e estava preenchendo um espaço inesperado na minha mente.
Arthur tinha duas contas, uma corporativa e uma privada. Sua conta
profissional era como um currículo online de sua carreira como advogado, o
user era simples @arthurbaxter e a sua privada, @arbax, enquanto o meu era
apenas @sarah porque meu irmão conseguiu assim.
Minha conta era restrita e todo dia recebia milhares de pedidos de
seguidores por causa da minha mãe e do meu pai. Não gostava de me expor,
nem de holofotes. Minha conta profissional tinha milhares de seguidores, não
só por causa do meu trabalho, mas sim porque os curiosos de plantão
queriam ter um vislumbre da minha vida.
Minha irmã era quase uma influenciadora digital, recebia presentes,
era paga para ir em eventos e fazia parceria com marcas para lançar coleção
de roupas. Sua atual aposta era uma coleção de biquínis. Rafaella sempre
separava alguma coisa para mim e eu voltava do Brasil com minha mala
cheia.
Meu irmão mais velho era tímido. Pedro era bonito, chamava
atenção. Muito inteligente, tinha um gênio infernal e conforme crescemos,
tivemos boas brigas. Taciturno, parecia um touro de terno, preso na cidade,
amava o mato. Eu sabia que ele era infeliz na frente dos negócios da família,
fazia por amor ao papai.
***
Na sexta-feira à noite, arrumei minha mala. Faria um trabalho noturno
e iria direto para o aeroporto. Meu voo estava agendado para logo cedo.
Tony levou todas as coisas para o estúdio que alugamos para o ensaio e eu
segui para meu encontro mensal com minhas amigas. Cristina e Érica já
estavam bebendo vinho e comendo as entradas quando cheguei.
— Por que não me esperaram? — Cruzei os braços.
— Não comi o dia inteiro — Érica falou de boca cheia. — Não tive
tempo.
— Olho grande. — Cristina se justificou e riu.
— Vacas — falei em português, mas elas já sabiam e riram. O
garçom me serviu vinho e trouxe uma salada de entrada que elas pediram
antecipadamente para mim. — O que estavam falando?
— Cristina fez anal. — Érica soltou e eu engasguei com a bebida.
— Doeu, porém, meu marido está tão feliz que até limpou a garagem,
coisa que pedi para ele fazer há meses. Estou chocada com o poder do... —
sinalizou, fazendo um círculo com os dedos. Cristina estava rindo de mim,
que lacrimejava. — Seu novo boy já quis lá? — Balançou as sobrancelhas.
— Não. Ele só... brincou. — Dei de ombros. — Não vai rolar.
Imaginei o pau de Arthur, do tamanho que era. Por mais que muita
gente insistisse que era prazeroso se feito direito, eu sabia que aquilo tudo
não iria caber. Diferente da vagina, que lubrificação e tesão acomodavam, o
outro buraco não.
Nós caímos na risada falando sobre os homens. Nossa mesa estava
tão barulhenta, que chamava atenção dos demais e o garçom se aproximava
já rindo. Encerramos nosso encontro bem perto da hora do meu ensaio, bebi
bastante água, escovei os dentes no banheiro do restaurante e chupei uma
bala até o caminho.
As modelos já estavam prontas quando cheguei. Não era o tipo de
trabalho que eu gostava de pegar, mas um amigo de Cristina, que era o
fotógrafo da noite, pegou uma forte gripe e a marca não quis cancelar.
Assumi para que ele não perdesse o dinheiro do contrato, ganhando uma boa
porcentagem da comissão. Tony foi bem profissional mediante milhares de
mulheres seminuas, trabalhou a noite inteira sem agir fora do programado.
— Quebradeira trabalhar a noite toda. — Ele se esticou. — Quer uma
carona para o aeroporto? — Apontou para minhas bagagens.
— Eu aceito. Estou caindo de sono.
— Vai ver o bonitão? — Me empurrou com os ombros. Eu ri, sem
graça.
— Como sabe que ele é bonitão?
— Eu vi os comentários dele nas suas fotos, não deu pra ver tudo, mas
a foto de perfil sim. Bonitão. — Me provocou.
— Cale-se, Tony.
Sem parar de me zoar, foi dirigindo para o aeroporto chamando Arthur
de todas as referências de homens bonitos que conhecia. Revirei os olhos
para sua palhaçada, peguei minhas coisas e caminhei com calma para meu
portão de embarque. Meu telefone vibrou com uma ligação de minha mãe.
Era tão raro que me espantei.
— Oi, mãe. Aconteceu alguma coisa?
— Só posso ligar para minha filha se acontecer algo? — Ela
brincou. Mal me mandava mensagens. — Estou com saudades de você,
amor. Você vem para o aniversário do seu pai?
— Sim. Vou passar duas semanas de férias.
— Pode tirar uns dias para me ver? Um final de semana?
— Claro que sim, mãe. Eu mencionei, mas você disse que estaria em
uma gravação.
— Sim, é o final da temporada, tirei uns dias para fazer a mudança e
podemos aproveitar um tempo juntas. Ansiosa para te ver. Está em um
aeroporto?
— Estou indo para Nova Iorque fazer um trabalho — menti. Minha
mãe era o pior tipo de pessoa para falar sobre um possível relacionamento.
— Nos falamos depois, tá bom? Te amo.
— Minha filha é tão chique. Vai lá, boa sorte. Também te amo,
tchau.
Encerrei a chamada com o mesmo sentimento confuso que minha mãe
me causava. Nosso relacionamento era maravilhoso até meu pai ganhar a
guarda na justiça. Ela se ressentiu quando disse em juízo que preferia viver
com meu pai. Em uma briga, chegou a jogar na cara que o escolhi pela
riqueza, mas na verdade, a vida com ela era louca. Divertida, mas louca.
Muitas festas em casa, viagens para lugares exóticos, muita gente entrando e
saindo do nosso apartamento.
Mamãe costumava sumir por vários dias e isso começou a me causar
um estresse na escola, não conseguia manter minhas notas, dormia durante as
aulas e ficava apavorada, com medo dos homens esquisitos que
frequentavam as festas que ela dava. Mesmo sendo cheio de pessoas
famosas, na época, eu só queria rotina. Dormir, acordar, ir para escola e ter
silêncio para o dever de casa.
Não escolhi meu pai pelo dinheiro. Em ambas as minhas casas, me
sentia inadequada. Uma intrusa. Eu não era a filha do casamento, porém,
minha madrasta tinha ordem e eu tinha paz. Gostava de me divertir com
minha mãe, mas a vida não era uma brincadeira e eu entendi isso desde
pequena.
Era por isso que eu mantinha a minha vida longe. Quando saí do país,
fiz amigos e consegui construir minha carreira, eu me senti, pela primeira
vez, tendo algo meu. Meu pai surtava com isso, eu sabia que ele me amava
incondicionalmente e não fazia diferença entre meus irmãos e eu. A imprensa
mais de uma vez tentou fazer parecer que eu era fruto de uma traição e
colegas da escola me importunavam.
Ignorei todos os meus pensamentos e guardei o telefone, embarcando
para Nova Iorque. O voo era curto, mas foi o suficiente para tirar um cochilo
e renovar minhas energias.
Arthur disse que alguém iria me buscar, mas ele não disse que ele
mesmo estaria no portão de desembarque usando um boné, óculos escuros e
roupas muito comuns com uma plaquinha “Srta. Mais Bonita”. Ele passou a
me chamar assim porque eu disse que o ego dele era inabalável. O homem
sabia que era bonito, que chamava atenção e que tinha um poder de sedução
enorme.
— Acho que eu sou a Srta. Mais Bonita. — Me aproximei com um
sorriso.
— Você é sim. — Ele não perdeu tempo em me dar um beijo bem ali.
— Me dá isso aqui. — Pegou minha pequena mala. — Poucas coisas?
Ótimo. Não vamos usar roupas além dos momentos necessários. — Passou o
braço por meu ombro e segurei sua mão, dando um beijo.
— É uma promessa?
— É um fato, baby. — Beijou meus cabelos e fomos andando em
direção ao estacionamento.
Capítulo 6 | Sarah
Arthur era o pacote perfeito de CEO. Um carro de luxo no
estacionamento e andando como se fosse dono da cidade. Ele estava
relaxado, cheiroso, disse que trabalhou até tarde e dormiu bem sem precisar
acordar tão cedo. Seu sorriso feliz por me ver me deixou louca, envaidecida
e o beijei mesmo dirigindo.
— Como sou legal, deixei o almoço preparado e vou te deixar dormir
de tarde. Reservei um bom restaurante à noite e vou te levar em um lugar
legal.
— Parece que o senhor controlador tem tudo planejado. — Acariciei
sua coxa firme. — Você vai dormir comigo?
— Não estou cansado. — Me deu um olhar engraçadinho. — Se você
me deixar...
— Isso é uma missão? — Arqueei a sobrancelha. — Tenho energia o
suficiente para aceitar o desafio.
Arthur apenas riu antes de dar a seta e parar em frente a um prédio
luxuoso, esperar que abrissem o portão e subir algumas rampas. Estacionou
o carro em uma das vagas que pertencia a um conjunto de quatro. Todas
estavam ocupadas e imaginei que eram seus outros carros, mas não fiz
perguntas porque não era do meu interesse. Havia um casal chegando junto,
pensei que ele fosse andar separadamente, porém, segurou minha mão e os
cumprimentou com muita educação.
Eu ia zoar se ele morasse na cobertura, mas não. Era quase. Seu
apartamento era muito grande para uma pessoa, um duplex no décimo quinto
andar, com uma varanda bem espaçosa e uma linda visão para o parque.
Todo local era decorado em tons frios, que se assemelhavam aos seus olhos,
com um toque de coisas praianas.
Havia uma parede com fotografias lindas de um lugar de praia e uma
única foto dele com uma garotinha. A moldura parecia de papel e nela, havia
algo escrito em uma letra infantil: “melhor tio do mundo”. Fofo. Arthur parou
atrás de mim e me abraçou.
— Tenho uma casa em Oahu e é um dos meus lugares favoritos no
mundo. Tirei duas semanas de férias não faz muito tempo. — Apontou para
uma fotografia do mar. — Vem, eu quero te mostrar o lugar e te alimentar.
O apartamento era amplo, cheirava muito bem, tinha quatro quartos e
um escritório. Dei uma espiada rápida na varanda pois, estava muito frio e
subimos a escada para seu quarto. Tomei um banho rápido e vesti um pijama
de calça e blusa de cetim, de manga, que era muito sofisticado e vindo de
uma das coleções da minha irmã. Arthur estava na cozinha, descalço, de
jeans e camiseta, olhando algo em uma panela.
— O que tem aí que está tão cheiroso?
— É o molho do filé. Acho que esquentei certo. — Mostrou os pratos
e com uma colher, arrastou o molho como um chef no prato. — Gostou?
— Você está me mimando muito. — Puxei um banquinho e sentei,
faminta.
— Estou feliz que está aqui e é isso. — Se inclinou e me deu um beijo
suave nos lábios. Olhei para o seu rosto. — O que foi?
— Eu gosto da sua honestidade.
— Espero que seja sempre honesta comigo.
— Sempre serei. — Beijei-o de volta.
O almoço estava delicioso. Pensei que tivesse encomendado em um
restaurante, fiquei surpresa que ele havia preparado a salada, deixou os filés
marinando no tempero a noite toda e assou antes de ir me buscar. Lavei a
louça, ele me mostrou onde guardava tudo e começou a escurecer o
apartamento. Apesar de cansada, sabia muito bem o que eu queria e ele
estava disposto a me mimar. Talvez para causar uma boa impressão.
Subimos a escada e seu telefone tocou, era do trabalho, ele se afastou
para atender e tirei toda minha roupa. Me escondi debaixo do edredom, ele
voltou e disse que ia trabalhar um pouco.
— Urgente?
— Não. Só enquanto você dorme. — Tirou o cabelo da minha testa.
— Deita aqui só um pouquinho. — Bati no seu lado da cama.
Sem maldar, Arthur tirou a camisa e a calça, escorregando na cama.
Ele rolou para o centro e o abracei. A expressão dele ao perceber que eu
estava nua foi impagável.
— Eu estava tentando ser bonzinho, te deixando descansar e você me
atrai para a cama com uma expressão inocente. — Passeou com as mãos
pelas minhas costas e parou na bunda. — Senti falta disso aqui. — Deu um
aperto generoso.
— Se acha que pode dormir assim... — Dei de ombros.
— Vamos dormir sim... depois. — Segurou meu rosto e me beijou,
levando a mão para o meio de minhas pernas, me estimulando. Foi calmo,
doce, cheio de saudade e fazia parecer que estávamos há meses sem nos ver,
não só alguns dias. O sexo era como se estivéssemos juntos há muito tempo.
Nós ficamos conversando, ainda abraçados na cama.
— Há algo que não sabe sobre mim. — Brinquei com os poucos pelos
do seu peitoral. Passei o dedo em seu mamilo e ficou arrepiado. — Sou
brasileira. Moro aqui há quatro anos... O que foi?
A expressão dele ficou muito séria.
— Sério? Imaginei que tivesse alguma descendência latina, não que
fosse brasileira. Como veio parar aqui? — Voltou a acariciar minhas costas.
— Eu quis começar minha vida adulta em outro lugar. Vim estudar e
depois fiquei para construir minha carreira.
— Qual é o seu nome todo? — Enfiou os dedos no meu cabelo e foi
penteando.
— Sarah Martins Avelar. — Senti que ficou aliviado no momento em
que terminei de falar. — Você é desses contra imigrantes?
Arthur sorriu.
— Não. Se eu fosse, por você, mudaria de ideia. — Beijou minha
testa. — Você tem irmãos?
— Sim. Dois. Minha família é meio esquisita... — Voltei a apoiar meu
rosto em seu peito. — Meu pai casou cedo e depois de uns anos, ele conta
que algo nele o fez cansar da vida de ser marido e pai. Ele pediu separação
da esposa e caiu no mundo, curtindo a solteirice. Namorou várias mulheres,
inclusive minha mãe e aí, ela engravidou. Eles mal ficaram juntos. Quando
nasci, já não estavam mais namorando. Ele percebeu que fez algo errado ao
renunciar esposa e filho, pediu para voltar, minha madrasta aceitou e me
acolheu também. Ela nunca me tratou mal, sempre foi doce, gentil e amorosa
como uma mãe.
— Mesmo assim, deve ter sido muito estranho ser a filha fora do
casamento — Arthur falou baixo e só suspirei.
— E foi. Sempre me senti inadequada. Às vezes, era difícil explicar
que não fui fruto de uma traição. Na escola, me zoavam.
— Sinto muito por isso. E sua mãe?
— Ela é legal, mas somos muito diferentes. Não combinamos em nada
e isso causa atritos. Falamos uma com a outra, eu fui criada pelo meu pai e
madrasta, então, tem um pouco de estranhamento — expliquei e ele ficou em
silêncio, pegou meu pulso e beijou.
— Por que essa tatuagem?
— Eu quis tatuar algo para lembrar... sempre continuar. Algumas
coisas tem fim, mas a vida continua e outras coisas são nossas para a vida
toda. — Mordi o lábio. — Meu namorado de longa data me traiu com uma
das minhas melhores amigas. Foi muito doloroso. Eu não suporto traição e
para mim, não tem desculpa. Sou única e entregue de corpo e alma. Então, eu
tatuei para um dia encontrar alguém que será meu ponto final e viverá
comigo em muitas vírgulas.
Arthur beijou bem em cima.
— Meu pai foi embora quando eu era pequeno. Eu não falo com ele há
muitos anos e fui criado só pela minha mãe. Ela nunca casou de novo, não
sei se chegou a ter um relacionamento, mas não nos apresentou ninguém —
murmurou. — Minha avó vivia conosco, então, apesar da minha mãe ser uma
mulher ocupada, meu irmão e eu tínhamos companhia.
— Então, seu irmão é o pai da garotinha?
— Ele é. Sou mais velho e fiquei muito surpreso quando ele,
adolescente, me disse que tinha engravidado sua namorada no primeiro ano
da faculdade. Zara tem sete anos agora, está uma mocinha, só pensa em
batons, filmes da Disney e camisetas das suas bandas favoritas, uma coisa
kapop, não sei o quê pop.
— K-POP, gênio. — Começamos a rir.
— É isso. Tanto faz, eles são todos iguais.
— Se você falar isso em público, vai ser massacrado. Melhor ficar
quieto e não se meter em assuntos das crianças. — Ergui meu rosto, ele
estava sonolento e sorrindo. Puxei a colcha sobre nós, me aconchegando em
seus braços de conchinha. — Você se dá bem com sua família?
— É esquisito. Desde que minha avó morreu, os eventos familiares
ficaram estranhos, falamos de trabalho e batemos palmas para as graças da
Zara. Minha mãe é viciada nos negócios, minha família, em ambos os lados,
são agressivos quando se trata de dinheiro e poder. — Sua voz saiu abafada
porque estava com o rosto no meu pescoço. — Normalmente, dou uma
passada nos eventos e logo desapareço. Meu irmão sempre está com a
família da ex-mulher que de vez em quando reatam. Minha mãe não me
enxerga, ela vê cifras. Para ela, sou o homem que faz dinheiro.
Acariciei sua mão, beijando o braço que estava próximo ao meu rosto.
— Isso é irritante e triste. Meu pai até que é bem carinhoso, faz
questão da família unida, faz eventos sem falar de trabalho, mas ele
pressiona muito meu irmão. Pedro não queria assumir a empresa, ele nunca
me disse, mas eu vejo que não é totalmente feliz lá — confessei algo que era
íntimo da minha família e não foi estranho.
Era a primeira vez que sentia conforto.
— Isso é fodido. — Arthur ergueu um pouco o rosto. — Eu passei a
minha vida fugindo de assumir a empresa. Advoguei com prazer, até fora
daqui e no final, entendi que por mais que não gostasse de ser como todos os
homens da minha família, havia muita coisa por trás dessa tradição. Milhares
de empregos e famílias. Uma história completa.
Virei novamente para sua frente e ficamos nariz com nariz. Beijei seus
lábios lentamente e assim, ficamos a tarde inteira na cama, cochilando,
conversando e quando anoiteceu, ele me arrastou para o chuveiro. Foi um
banho muito prazeroso.
— Tenho que fazer uma ligação importante, pode usar meu closet à
vontade para se arrumar, acho que tem o que possa precisar nos meus
armários. Se faltar algo, me avise. — Me deu um beijo e saiu do quarto,
usando apenas uma cueca e com o telefone no ouvido.
Abri minha mala e tirei meu vestido, que era de um tecido que não
precisava passar. Minhas coisas estavam arrumadas de um jeito bem
funcional, logo me hidratei, perfumei, fiz a maquiagem ainda sem roupa no
banheiro percebendo como todo aquele espaço era maravilhoso. O closet de
Arthur era enorme, suas roupas estavam etiquetadas com letra feminina. Era
uma mulher que cuidava da vestimenta dele.
Fiz meu cabelo e cuidei para não deixar alguns fios espalhados,
encontrei um aspirador portátil e limpei o chão do banheiro. Não gostava de
deixar bagunça por onde passava. Sentei em um banco redondo de couro,
rodeada por espelhos no centro do closet. Vesti minha calcinha, o sutiã e
peguei as meias, erguendo a perna para colocar uma.
Arthur entrou devagar no quarto e encostou no parapeito da porta, onde
ficou me admirando. Ele nem disfarçava o prazer ao me ver desenrolar a
peça até prender na liga. Escolhi daquela maneira para me aquecer junto
com a bota e poder usar o que queria sem morrer de frio. Fiz com o outro
lado, calcei as botas e peguei o vestido.
— Eu te ajudo com isso. — Parou atrás de mim, segurando o zíper. —
Só para aprender como tirar bem rápido mais tarde. — Jogou meu cabelo
para o lado, colocando o colar delicado que separei e beijou meu pescoço.
— Você está irresistível. Saber o que tem por baixo torna tudo ainda
melhor... — Foi subindo a mão por baixo da saia do vestido e brincou com a
minha calcinha, me fazendo rir.
— Vou pegar água enquanto você se arruma, ok?