Capítulo 2

Mas, como toda história tem um começo, que tal iniciar esta pelo início? Agora que você já conhece nossos personagens principais e será mais fácil compreender o perfil de cada um na sequencia, para isso vamos viajar ao passado, mais o menos vinte e um anos atrás.

Há vinte e um anos atrás Lílian vivia um dos momentos mais felizes de sua vida, ela que tinha nascido em Porto Alegre, agora vivia em São Paulo junto com o namorado Seven e o irmão dele Chuck, os dois tinha uma banda de rock de muito sucesso na época, os shows que aconteciam praticamente todos os dias estendiam-se em turnês pelo país e até mesmo fora dele e é claro ela ia a todos, acreditando ser a única na vida de Seven, porém um belo dia seu sonho foi destruído, depois de uma ligação inesperada Lílian descobriu que Seven tinha outra namorada, Cibele, a menina que vinha de família rica e da alta sociedade estava grávida dele de três meses, e era algo grande demais para que ela pudesse competir quem era Lílian? Uma garota comum, sem pais que tinha apenas 15 anos e que gostava de rock? Como poderia ela competir com uma mulher como Cibele, linda, rica e agora grávida...

Ao descobrir tudo e entender que tinha sido enganada por ele, ela ajuntou suas coisas as poucas que tinha e partiu, usando o pouco dinheiro para conseguir voltar a Porto Alegre, sua esperança estava em ficar na casa de uma amiga de sua mãe até conseguir algo que a sustenta-se e poder se virar, mas o destino não foi tão bom assim com ela, ao chegar a Porto Alegre ela descobriu que a amiga da mãe já tinha falecido, seu filho até ofereceu poso para ela, mas logo Lílian percebeu que sua intenção não era assim tão boa e em uma noite precisou fugir de seus abusos, perdida pelas ruas, ela não tinha onde ficar e para seu desespero alguns meses depois acabou descobrindo a gravidez, ela pensou em ligar para Seven e pedir ajuda, dizer o que tinha acontecido, mas como faria isso se ao cruzar em uma banca de jornais e revistas ela tinha visto a manchete estampando as capas: “Roqueiro apaixonado” “O Casamento do ano”... Seven já tinha se casado com Cibele e agora os dois comemoravam a união regada a champanhe e a felicidade do herdeiro que viria para o mês de setembro, com o casamento Seven acabou assumindo os negócios do pai de Cibele e assim nasceu à empresa “Kirtman” de turismo, sem rumo e perdida Lílian procurou ajuda do governo para poder se manter, conseguiu lugar em um albergue, a assistência social lhe ajudava com roupas e sua gravidez teve todos os acompanhamentos cedidos pelo SUS (sistema único de saúde), as condições eram cada vez mais precárias, e a cada mês que se passava ela se perguntava o que faria quando o bebe viesse... Um filho, o que ela faria com um filho? Ela tinha apenas 15 anos... A depressão se assolou em se coração e o medo do futuro só crescia à medida que a barriga despontava, os meses passaram e então chegou setembro, depois de uma crise bastante complicada onde ela achou que perderia seu filho, ela tentou ligar novamente para Seven, porém ele não atendeu o celular, mal sabia ela que ele não tinha atendido por que ele acabará de entrar na maternidade, Sebastien estava nascendo, o filho de Seven acabará de chegar ao mundo no dia 24 de setembro e pesou 3,800 kg era um menino gigante. Depois que a crise passou e ela pode voltar para casa, ela pensou em voltar a ligar... Mas soube que o bebe tinha nascido e decidiu que não iria atrapalhar a felicidade dele, ele nem ao menos sabia de sua gravidez e se soubesse provavelmente tomaria seu filho para si e ela ficaria sem ninguém e sem o bebe, ainda que isso não fosse em todo ruim por que pelo menos Tiago teria um lar, uma família e poderia crescer saudável e longe de toda essa miséria.

E então chegou dezembro e as dores vieram, fracas no começo e muito fortes depois, Lílian achou que não aguentaria, mas não sabia a força que tinha, Tiago nasceu de um parto induzido e infelizmente não era tão saudável, ela teve complicações durante o parto e precisou ficar um tempo no hospital, o que foi muito bom para o bebe que teve um lugar quentinho para passar as primeiras noites, assim que a enfermeira o trouxe no quarto, ela não acreditou no que via, ele tinha os olhinhos pequenos tão lindos e seu rostinho rechonchudo era sem dúvidas o rosto mais lindo do mundo, mas os dias passaram e ela precisou voltar para o albergue, quando chegou com o bebe nos braços, percebeu que sua vaga tinha sido invadida por uma família de dependentes químicos, os poucos móveis que tinha ganhado da prefeitura tinham sido quebrados e postos para fora, com medo do que pudesse lhe acontecer ela saiu dali apressada com o bebe nos braços, medo, pânico foi o que eu sentiu ao ser perseguida, raiva foi o que sentiu pelo preconceito das pessoas na rua que a condenavam por ter um filho tão nova, a primeira noite na rua pensou ela ao abraçar o bebe com força para tentar aquecê-lo de alguma forma, mas ele chorava tanto, para piorar ainda mais ela descobriu que não tinha leite e agora como faria para alimentar o bebe? Não tinha dinheiro para comprar o leite que o bebe necessitava, nessa hora o desespero falou mais alto que a razão, ela não poderia ficar com ele, não conseguiria nenhum emprego enquanto estivesse com ele, não tinha nem mesmo como alimentá-lo, não ele não merecia uma vida tão miserável ela faria algo por ele, por amor a ele... Daria a ele um futuro melhor, foi então que ela o fez, se aproximou daquela casa bonita e iluminada e sem pensar o deixou na calçada de entrada, junto dele um colar que ela tinha ganhado de Seven, e um pequeno pedido de ajuda de uma mãe desesperada, bateu três vezes na porta e saiu em disparada correndo feito uma doida pela rua, não olhou para trás pois não sabia se caso o fizesse se não acabaria voltando e talvez acabasse sendo presa por abandono de incapaz, ela correu, correu e correu até sumir por entre os prédios e carros. A porta foi aberta por Catherine, ela acabará de chegar de um dia exaustivo no trabalho ela tinha 26 anos e um trabalho muito importante na prefeitura, quando seus olhos se encontraram com os olhos daquele lindo bebe que chorava descompassado ela não teve dúvidas de que o amava, e de que aquele tinha sido um presente deixado por alguém.

Catherine adotou Tiago e lhe deu o seu sobrenome, três anos depois seu relacionamento com Nicholas ruiu e ela achou que estava perdida ao descobrir a gravidez, ela que achou que nunca seria mãe de verdade, estava gravida de uma menina, foi então que nasceu Érika, sua princesinha, e agora os três formariam uma linda família.

Os anos se passaram e quando Tiago tinha seis anos Lílian a procurou pela primeira vez, ela ainda lembrava com detalhes do nervosismo da mulher e do medo que sentiu dela querer o bebe de volta, ela amava Tiago e seria capaz de sumir com ele no mundo se ela quisesse ficar com ele, as duas brigaram muito no começo, mas com o tempo Cat conseguiu entender o que significava o amor que uma mãe tinha por um filho e passou a permitir os presentes e a ajuda financeira que Lílian dava.

Lílian tinha se reencontrado com Chuck que ela não sabia, mas que desde que ela tinha saído de São Paulo vinha procurando por ela, a banda com o irmão tinha acabado e os dois tinham brigado feio, Chuck a encontrou na rua e a ajudou a recomeçar, pagou seus estudos e depois de oito anos Lílian estava formada em medicina, os dois viviam juntos em um apartamento no centro da cidade, foi ideia de Chuck que ela procurasse por Catherine, e foi também com a ajuda dele que as duas começaram a se entender, é claro que Tiago nunca soube que sua mãe estava mais próxima dele do que ele imaginava, e provavelmente se soubesse odiaria Cat por toda vida, mas... O que ela poderia fazer? Se o amava demais para abrir mão dele?

Mãe assim como pai é quem cria, é quem dá amor, quem protege e se importa, foi o que ela disse para Lílian no primeiro encontro e mesmo ainda pensando assim, ao longo de 20 anos as duas tinham conseguido quebrar muitas barreiras juntas, e por isso ela tinha permitido que Lílian pagasse o presente dele, agora ela tinha dinheiro, vivia em uma cobertura, era Neurologista e considerada uma das melhores de Porto Alegre, Cat sabia que se por ventura, Tiago um dia descobrisse tudo e viesse a querer ficar com ela, dinheiro não iria lhe faltar, mas ela torcia para que esse dia nunca chegasse, esta foi a breve história de Lílian, agora vamos voltar aos dias atuais de nossa história...

Dias atuais...

Érika atravessou a cidade, com o boné virado para trás e as roupas mais largas do que o normal do que costumava usar, andando pela periferia e com um tênis surrado, ninguém conseguia acreditar que aquela era a mesma menina que estudava no segundo ano do ensino médio do Pátrian um colégio particular renomado em Porto Alegre e era bom que ninguém soubesse se não sua reputação e amizades cairiam por terra, ela sabia que no fundo Kurt tinha razão quando dizia que ela não tinha amigas de verdade e sim colegas, mas ainda assim ela não queria que sua mãe soubesse que por dentro daquela menina doce que dançava balé e era dedicada aos estudos existia uma skatista, ela desceu a rua em cima do skate e avistou a pista, assim que chegou Chuck já a esperava, ele tinha aberto uma academia ali perto e dava aulas para jovens que quisessem aprender a andar de skate sem custo algum, assim que ele a viu ele acenou para ela que correspondeu.

Nessa hora Érika se lembrou de quando o conheceu, naquele dia chato de aula de cálculo, ele tinha entrado na sala de aula oferecendo curso de bateria, ela fingiu desinteresse, não podia erguer a mão, suas amigas nem mesmo sabiam que ela ouvia músicas que fugissem do gênero pop, então pediu para ir ao banheiro assim que ele saiu e foi no corredor mesmo que o atacou.

- Hei, você...

Chuck se virou surpreso, e logo a reconheceu, era a menina de Catherine, a mesma Catherine que havia criado seu sobrinho, isso só podia ser coincidência ou então um sinal dos céus.

- Sim?

- Toca bateria?

- É, acredito que tenha sido por isso que eu fui até a sua sala de aula há poucos minutos atrás.

Ela ficou em silêncio por um tempo e então o puxou para o lado ao perceber que tinha alguém vindo no corredor.

- E quanto quer para me ensinar?

Ele olhou para ela de alto a baixo, era uma das poucas garotas que não usava o uniforme adequadamente, estava de salto alto e com as unhas bem-feitas, muita maquiagem para uma garota da idade dela e certamente Catherine não sabia que ela se apresentava assim no colégio, mas ela era popular ali e precisava se apresentar a altura de sua fama.

- Na verdade participo de uma ação social, não cobro, as aulas são dadas no ginásio todas as terças-feiras e a turma tem 11 alunos.

- Não, não... Quero ter aulas particulares e ninguém pode saber que estou aprendendo entendeu?

- E qual é a graça de tocar bateria se ninguém vai te ouvir tocando?

- Não é da sua conta, então vai me dar aulas ou não?

Ele pensou em dizer que não, ela era chata e esnobe, uma patricinha mimada e ele odiava receber ordens e pelo visto ela tinha 13 anos de muita rebeldia, porém querendo ou não ela vivia com Tiago e isso seria uma excelente forma dele se aproximar do sobrinho, pelo menos saberia por ela, se ele estava bem ou se estava precisando de alguma coisa.

- Tudo bem eu topo, mas você é quem vai ter que vir até minha casa, por que eu não vou ficar carregando minha bateria para todos os lados por sua causa patricinha.

Ela concordou e assim os dois começaram as aulas e uma longa amizade que se estendia até os dias de hoje, Chuck tinha presenciado algumas lágrimas dela por causa do pai, alguns ataques de ciúme por causa do amor de Cat por Kurt e ao longo do tempo viu ela se transformar em outra pessoa, ou pelo menos com ele ela era outra pessoa, tinha aprendido a andar de skate a se vestir com roupas mais folgadas e não era mais tão mimada, Chuck tinha conhecido em Érika uma menina muito diferente daquela que ele tinha julgado quando a conheceu.

Enquanto em Porto Alegre,

Catherine se preocupava com Érika.

Em São Paulo, Seven chegava cansado de mais um dia de serviço e percebia o quanto seu filho tinha crescido nesses vinte e um anos.

Eram passados das seis da tarde quando Seven adentrou na mansão dos Kirtman, estava exausto, tinha trabalhado o dobrado naquele mês, precisava contratar alguém com urgência, mas não queria contratar qualquer um, precisava ser alguém do meio, que já tivesse experiência na área, e por isso tinha remetido um e-mail para todas as filiais a procura de alguém que quisesse trabalhar na matriz, mas até o exato momento não tinha recebido nenhuma resposta e as que tinha recebido não tinham lhe agradado, ele frouxou a gravata do pescoço e chamou por Thereza.

- Thereza!

Ela logo apareceu na porta vindo da cozinha, trazia um pano de copa nas mãos.

- Chamou senhor?

- Onde está meu filho? Já voltou da faculdade?

- Na verdade o menino Sebastien não se sentiu bem pela manhã e acabou não indo à escola, ele está melhor agora, está no jardim!

Seven concordou com a cabeça e então se dirigiu até o jardim pensando em ver se o filho estava melhor, ao chegar lá se deparou com uma festa regada a muita cerveja e muitas pessoas desconhecidas, viu Sebastien próximo à piscina conversando com Eduardo, Eduardo trabalhava para ele e era uma boa pessoa, talvez o único e melhor amigo de seu filho, quanto ao resto, certamente estavam ali para aproveitar a piscina e o dinheiro que Seb gastava com eles, só mesmo seu filho para ser tão ingênuo de achar que todos ali eram seus amigos.

- Sebastien, Thereza me disse que não foi à faculdade por que não se sentia bem, está melhor?

Seb tomou dois goles de cerveja e olhou para o lado buscando por Thereza e então a viu fazer sinal da janela da cozinha, mais uma vez ela tinha salvado seu pescoço, que mulher fantástica!

- Pois é me senti um pouco enjoado, mas já estou melhor... Obrigado por se importar.

Seven deu uma olhada para as pessoas que se divertiam na piscina.

- Certo, vê se limpa tudo isso aí depois.

Ele deu as costas ao filho e já estava entrando quando Seb o chamou de volta.

- Pai...

- Sim?

- Não quer se juntar a gente? Vamos “queimar” uma carne depois, e amanhã é sábado.

Sim amanhã era sábado e ele não deveria trabalhar no sábado, mas estava lotado de coisas no escritório, ele suspirou gostaria de passar mais tempo com o filho, mas...

- Eu vou ver talvez eu desça.

Era o que ele sempre respondia, mas depois se trancava no escritório e ficava por lá até amanhecer e quando Seb pensava em passar para dar boa noite, via que ele tinha pegado no sono em cima dos papeis, às vezes ele o cobria com um cobertor que já estava por lá estrategicamente e às vezes apenas suspirava e tentava entender por que seu pai nunca mais tinha se casado, tinha pelo menos 15 anos que sua mãe tinha morrido e ele nunca tinha trazido nenhuma outra mulher para casa, era novo ainda e não era de se jogar fora, tinha inclusive uma amiga dele que às vezes dava a entender que gostaria de ter uma chance com ele, mas o fato é que a vida do ex-roqueiro já tinha sido bem mais animada, e hoje se resumia a comandar uma empresa de turismo e pagar contas.

Tiago tinha um costume desde moleque que era tocar violão em bares para ganhar uma grana extra, com o tempo passou a ser reconhecido pela voz rouca e ganhou até um apelido, “Kurt” apelido este motivado por causa de uma banda de grunge dos anos noventa que tinha Kurt Cobain como vocalista, a semelhança com o vocalista não estava apenas na voz, mas no jeito de se vestir e também no fato de sorrir muito pouco, os olhos também lembravam muito o vocalista, que eram de um tom azul limpo e claro, somente o cabelo é que fugia do contexto já que Tiago tinha os cabelos escuros como a noite o que dava ainda mais ênfase a cor dos olhos.

A tarde tinha caído depressa, Catherine caminhava de um lado para o outro esfregando as mãos nervosas no cabelo.

- Não Kurt isso já foi longe demais, olha que horas são? Passam das seis da tarde e ela nem ao menos ligou para dizer se está bem, ela sabe muito bem que é tradição comer pizza na noite do seu aniversário, fazemos isso há 20 anos!

- Mãe você conhece a Érika ela deve ta na casa de uma amiga nem lembra que dia é hoje.

- Como não vai se lembrar?

- Não vai brigar com ela...

E nessa hora Érika abriu a aporta e deu de cara com a fúria de Catherine.

- Onde é que você esteve?

Por sorte ela tinha largado o Skate atrás de algum arbusto e trocado de roupas no banheiro publico da cidade, ela tinha imaginado que há essa hora Cat e Kurt já tivessem saído e ido até a pizzaria sozinhos, mas ela tinha se enganado.

- Estava na casa de uma amiga.

- Viu mãe eu te falei, agora vamos esquecer isso e ir para a bendita pizzaria, vamos estou morrendo de fome...

- Não! Estou cansada de ser boa com a sua irmã, está mais do que na hora dela criar um pouco de juízo e parar de nos preocupar assim... Érika me de seu celular!

- O que?

Catherine caminhou até a filha e pegou o celular que estava com ela.

- Você não vai confiscar meu celular!

- Não só vou como já fiz, enquanto não aprender a respeitar a sua família não vai ter seu celular de volta...

- Família? Um irmão bastardo e uma mãe que finge conhecer a filha mas nunca sabe onde ela realmente está, ah mamãe me poupe, você mal me conhece e fica aí posando de super mãe!

Catherine ergueu a mão para esbofetear Érika, mas Kurt se colocou entre as duas.

- Parem vocês duas agora! Mãe não há necessidade disso e você Érika deveria ter mais respeito com a Cat!

- Para você de bancar o certinho! O filho perfeito e bom irmão! Eu sei que pelas minhas costas deve ter enchido a cabeça da mamãe a meu respeito e por isso que ela está tão brava comigo!

- Érika eu nunca faria isso, vamos parar de discutir sim, hoje é um dia de festa é meu aniversário, vamos sair comer pizza e esquecer tudo isso, ok?

- Ah quer saber eu odeio vocês dois e principalmente eu odeio você mamãe! Por que você sempre defendeu e gostou mais do Kurt do que de mim...

- Isso não é verdade Érika, sempre gostei dos dois da mesma forma!

- Não! Sempre me tratou diferente, Kurt sempre foi o seu preferido... Sempre!

Érika começou a chorar e então saiu porta a fora, Catherine correu atrás dela até o portão, mas ela já tinha descido a rua, Tiago saiu na calçada e ficou em silêncio olhando para a mãe.

- Não precisava ter sido assim você sabe.

- Eu sei, mas sua irmã me tira do sério! Ela tem o maldito gênio do pai dela!

- Vamos entrar e esperar por ela a gente encomenda uma pizza do Dantas e fica vendo Netflix até o sol nascer, ela vai voltar logo.

- Não, eu não vou estragar a sua noite por causa dela, eu mesma vou ir buscar a bendita pizza, você fica em casa e espera pela sua irmã.

- Tudo bem então...

Tiago entrou e ligou a televisão enquanto Cat tirava o carro para ir buscar a pizza, não seria a mesma coisa que passar a noite em uma pizzaria, mas o clima também não estava bom para ir jantar fora.

Capítulo 3

Érika desceu a rua chorando, era sempre assim no aniversário de Kurt, sua mãe fazia todas as vontades dele e ela ficava em segundo plano, no fim das contas ela terminava o dia chorando em seu quarto, mas hoje tinha sido um pouco pior ela não tinha ido para o seu quarto, mas tinha saído de casa e gritado com a mãe, tinha dito que a odiava, ela nunca tinha dito para Cat que a odiava até então... E no fundo ela sabia que não era verdade, só estava irritada e quando estamos irritados falamos sem pensar a primeira coisa que nos vem à cabeça.

Ela estava tão perdida em seus pensamentos que não viu Chuck que vinha subindo a rua e acabou esbarrando nele.

- Érika?

Ela olhou para trás e assim que viu quem era correu até ele e o abraçou com força.

- Chuck...

- O que é essa carinha de choro?

- Briguei com a Cat, ela tomou meu celular e eu disse coisas horríveis para ela.

Ele balançou a cabeça.

- Pobre garota, não me diga que Kurt foi o pivô disso?

- Ela o superprotege de tudo!

- Você sabe que isso não é verdade, não é? Já conversamos sobre isso...

- Eu sei..., mas eu fiquei com raiva, ela não podia ter tomado meu celular, como vou falar com você agora?

- Pode pegar o notebook de Kurt, tenho certeza que ele emprestaria...

- Claro que emprestaria, se eu implorasse de joelhos e prometesse favores intermináveis para ele...

Chuck riu e ela se obrigou a rir também.

- É justamente para isso que servem os irmãos mais velhos, ora vamos sua mãe já deve estar mais calma, por que não volta para casa e vocês duas tentam conversar e se entender? Não seria a primeira vez que você diz que vai largar tudo e ir atrás do seu pai e decide voltar para casa por que sabe que estar com ela é muito melhor.

- É... Tem toda razão... Como sempre.

- Vem cá... – Ele a puxou para um abraço e fez um afago em seu cabelo, daquele ângulo ela conseguia ver melhor a rua e nessa hora ela viu o carro de Cat que parou no sinal vermelho.

- Olha, é o carro da minha mãe, será que ela está me procurando?

- Pode ser, por que não faz um sinal para ela?

Érika começou a abanar freneticamente, mas Cat não viu, nessa hora o sinal abriu e ela acelerou.

Um caminhão que vinha na direção contrária acelerou também acreditando que dava tempo de passar, porém Cat já estava no meio do caminho e não conseguiu voltar, o carro foi acertado em cheio e começou a capotar na avenida enquanto era empurrado, Érika viu o carro da mãe ficar destruído e começou a gritar.

- Mãe!

Chuck a segurou rapidamente pelo braço para impedi-la de ir até lá.

- Não Érika fica aqui...

- É a minha mãe Chuck, ela ta lá, alguém tem que tirar ela de lá...

- Eu vou ligar para a ambulância, fica calma...

Ele pegou o telefone e começou a ligar para o resgate, mas nessa hora soltou Érika que invadiu a rua desesperada correndo.

- Mãe!

- Érika não...!

Mas era tarde demais, ela já tinha atravessado a rua e invadido o local do acidente, o carro de Cat estava capotado de cabeça para baixo, Érika se aproximou do vidro e bateu com a mão nele, para tentar fazer sua mãe acordar, mas Cat já estava inconsciente.

Ela enrolou o casaco na mão e começou a bater com força nos rachados do vidro para quebra-lo, e conseguiu, Chuck assistia de longe a loucura desesperada dela, ele precisava fazer alguma coisa, as pessoas começavam a se juntar e a rua tinha sido fechada o motorista do caminhão altamente alcoolizado tinha tentado fugir, mas foi barrado pelas pessoas na rua que ameaçavam linchá-lo, não demorou muito para a polícia aparecer, Érika conseguiu quebrar o vidro e um policial correu até ela para impedi-la de entrar no carro, mas ela já tinha se colocado dentro quando ele começou a pegar fogo, as pessoas começaram a ser afastadas ás pressas, pois havia grandes riscos de explosão, o guarda gritava do lado de fora para que ela saísse do carro, mas Érika estava determinada a soltar a mãe e tirá-la de lá.

- Eu vou salvar você mãe, eu não vou te abandonar... Vamos acorde mãe... Acorde...

Qualquer um que estivesse ali por perto rezava em silêncio ao ver o desespero da filha que tentava a todo custo tirar a mãe com vida de dentro do carro, mas Catherine estava muito machucada, havia sangue para todos os lados e todos bem sabiam que era dela, o caminhão tinha acertado o carro em cheio, quando finalmente ela percebeu que não conseguiria soltar a mãe, Érika tentou sair, mas sua perna tinha ficado presa na janela e o fogo já tinha dominado praticamente todo o carro a fumaça tóxica penetrou em seus pulmões e começou a deixa-la tonta, ela juntou suas forças e abraçou a mãe com carinho.

- Eu não odeio você... Por favor, não me deixe...

Nessa hora Érika ouviu uma pequena explosão na parte de trás do carro e acabou desmaiando.

A vida é um jogo, horas estamos combinando ações e palavras para tentar não ferir ninguém e horas estamos tentando sobreviver às situações sem nos ferir.

Em São Paulo mais uma noite chegava sorrateira e gelada...

Sebastien se cansou da festa e resolveu subir para descansar, ainda tinha alguns amigos brincando na piscina, mas ele não se importou, disse para Thereza que estava cansado e que era para dizer que a festa tinha terminado, quando cruzou pelo corredor, viu que o pai mais uma vez tinha apagado sobre os papeis, ele entrou cuidadoso no escritório e pegou a manta sobre o sofá o cobrindo as costas.

- Boa noite, meu velho...

Mas em Porto Alegre a noite estava muito longe de acabar, pelo menos para Tiago.

Eram nove horas da noite quando o telefone da casa tocou e Kurt se levantou para atender já começando a ficar preocupado com Érika que não tinha voltado e com Cat que estava demorando demais.

Era a polícia, Cat tinha sofrido um acidente de carro e ela e a filha estavam internadas no hospital em estado grave, ele não quis acreditar quando ouviu, o que Érika fazia com Cat? Como podiam ter se encontrado?

Ele pegou a carteira e as chaves e se dirigiu até o local, rezando para que tudo não passasse de um mal-entendido.

Enquanto isso em São Paulo,

Eduardo desistiu de ficar no barzinho e resolveu ir para casa, ele sabia que tinha alguém esperando por ele lá, ele tinha saído cedo da casa de Sebastien, alegando estar cansado do trabalho, acabou parando em um barzinho, pois não queria ter que chegar em casa, ele sabia que ela precisava dele, mas depois de dois anos de terapia e psicólogos ele começava a desconfiar que logo mais quem precisaria de ajuda seria ele, ele se levantou e pagou a conta, pegou a moto, mas não tinha mais certeza se estava apto para dirigir, ainda assim ligou o motor e o deixou ele funcionar por um tempo até que respirou fundo e decidiu de vez que deveria ir para casa.

Há dois anos atrás Eduardo tinha largado tudo, faculdade trabalho e namorada em Minas gerais, depois que sua mãe tinha se suicidado, tudo por causa daquele homem.

Eduardo abriu a porta da frente e silenciosamente tirou os sapatos para que não a acordasse, na verdade ele não sabia se ela estava dormindo ou não, mas ele esperava que sim.

Dois anos atrás as coisas iam muito bem, ele tinha passado em Medicina Veterinária em Uberlândia e Suélem estava terminando a sexta série, foi então que aquele homem entrou na vida deles, sua mãe chegou bastante animada do serviço e o apresentou como o novo namorado, no começo Eduardo gostou do homem já que ele era bastante simpático e para a alegria de todos sua mãe estava finalmente feliz e realizada, desde que o pai deles os tinha abandonado, ela nunca tinha saído com outra pessoa, mas aquele homem tinha conseguido quebrar o gelo em seu coração e agora ela estava realizada e feliz, tudo ia bem.

Dois meses depois Eduardo teve sua primeira discussão com o homem, pois ele tinha uma mania nada agradável de andar pela casa com a toalha na cintura, e Eduardo não gostava já que Suélen além de ser uma menina era ainda muito nova, a mãe obviamente defendeu o novo namorado e disse que não tinha necessidade de tudo aquilo, os dias passaram e parecia que ele tinha entendido Eduardo já voltava a se dar melhor com ele novamente. Naquele dia Moisés seu chefe o liberou para sair antes do serviço, pois estava com uns problemas em casa para resolver e teria que fechar a loja, Eduardo pegou suas coisas e montou a moto indo direto para casa.

Quando Suélen chegou do colégio ela viu o namorado da mãe sentado apenas de toalha no sofá e se assustou.

- Que foi garota? Nunca viu um homem não?

A menina não gostava do sujeito, ele era agressivo com ela, sem responder subiu correndo as escadas, não demorou muito para ver que ele vinha atrás dela gritando.

- Precisa aprender a respeitar seu novo papai!

Assustada ela se trancou no banheiro, mas ele estava alcoolizado e empurrou a porta entrando logo atrás dela, e foi então que tudo aconteceu.

Quando Eduardo chegou escutou os gritos da irmã que vinham do andar de cima e subiu as escadas correndo, Leon o namorado da mãe estava deitado sobre a irmã que se debatia no chão e gritava, havia sangue pelos lados e ele sabia que era dela, aquele desgraçado... Eduardo perdeu o foco e pegou o namorado da mãe o batendo fortemente contra a cuba de porcelana do banheiro e fazendo um corte em sua testa o homem desmaiou em seguida, mas Eduardo só parou de bater quando a mãe chegou e começou a gritar.

Suélem foi socorrida, precisou levar alguns pontos, pois ele não tinha abusado dela como tinha a machucado bastante, o homem foi detido, mas a mãe apenas se culpava por ter deixado aquele homem entrar na casa deles, os dias se passaram e Suélem não ria mais, não falava, não descia para almoçar e aquilo foi destruindo a mãe deles que tinha voltado a tomar os antidepressivos, um certo dia Eduardo que agora carregava o mundo em suas costas, por que precisava cuidar da mãe e da irmã que tinha pesadelos praticamente todas as noites, encontrou sua mãe morta em cima da cama, ela tinha tomado doses extras de remédio, eram agora ele e sua irmã, mas Suélen não ia mais a escola e logo os vizinhos começaram a falar que ela tinha ficado louca, uns até a perseguiam até que por fim Eduardo decidiu que deveria se mudar, largou tudo, casa, faculdade, namorada e partiu ao lado de Suélen para São Paulo, onde logo começou a trabalhar na empresa Kirtman, Suélen, porém nunca mais voltou a ir as aulas, estudava em casa trancada em seu quarto presa a um mundo de ilusão que ela tinha criado para se proteger.

Ninguém sabia sobre Suélen, Eduardo preferia não falar dela, ou melhor, era preferível que ninguém soubesse, ele não queria que o conselho tutelar batesse sua porta e perguntasse por que a menina não frequentava as aulas, ele não queria uma equipe médica dopando sua irmã como tinha acontecido com sua mãe, ele não queria ter que dividir aquela dor com ninguém.

Catherine deu entrada no hospital com traumatismo craniano e precisou passar por uma longa cirurgia, Chuck acompanhava tudo de longe sem se envolver, o que ele faria ou diria? Ninguém sabia de sua amizade com Érika ou que ele tinha uma ligação direta com eles, rapidamente ele telefonou para Lílian.

- Hei...

- Oi, Chuck e então como foi com Érika hoje?

- Lílian, é... Aconteceu uma coisa horrível, você está no hospital?

- Sim, é meu plantão lembra? Aliás, tenho uma cirurgia daqui a pouco então fale logo...

O silêncio no outro lado da linha fez com que ela se preocupasse.

- Algum problema Chuck?

- Lílian, a Cat sofreu um acidente grave e considerando que eu esteja no hospital em que você trabalha, eu acredito que ela seja a paciente aguardando pela cirurgia.

Era a vez dela de fazer silêncio, de perder o foco ou de simplesmente enlouquecer, Lílian deixou o corpo cair sobre a cadeira e nessa hora a enfermeira abriu a porta e chamou por ela.

- A equipe está aguardando para a cirurgia, doutora.

Lílian não respondeu, Chuck continuava chamando por seu nome no telefone, de repente ela tinha ficado muda e aquilo o tinha deixado ainda mais nervoso do que estava.

- Doutora, tudo bem?

Lílian olhou para a mocinha na sua frente que deveria ter uns 19 anos no máximo.

- Sim... Sim está, diga que já vou, eu vou me preparar...

- Claro.

Lílian voltou para o telefone.

- Chuck eu preciso ir, nos falamos.

- Mas você está bem?

- Não, ou melhor, eu não sei, mas vou ficar.

Durante o caminho Lílian não conseguiu parar de pensar que a vida da mãe adotiva de seu filho estava em suas mãos, ela poderia se aproveitar daquela situação? Não! Meu Deus, aquela mulher tinha feito de tudo por seu filho, tinha dado o melhor a ele, como ela poderia pensar nisso como algo bom? Culpou-se tanto que quando entrou na sala e viu aquele rosto, teve vontade de recuar e passar a responsabilidade para outro, mas Cat podia não resistir a tanta demora, e ela tinha que fazer seu trabalho e ele tinha que sair perfeito, por que aquela mulher precisava voltar para a vida de Kurt, ele precisava dela, assim como ela também precisava dele.

Tiago entrou as pressas no hospital, ele gostaria de que aquilo tivesse sido uma mentira, mas ele tinha visto o carro destruído, tinha estado no acidente, porém não conseguia entender o que Érika fazia com a mãe, será que tinham se encontrado no caminho? Teriam feito às pazes? E se estivessem brigando, e se Érika tivesse provocado o acidente sem querer? Não, ele não queria pensar nisso, se alguma coisa acontecesse a Catherine ele não a perdoaria.

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