Capítulo 2

Os lábios de Nando ainda estão colados aos meus. Nosso beijo é doce e gentil, e a sensação é tão boa — tão diferente dos outros que já experimentei. Quando minha ficha cai e percebo que o que estamos fazendo é errado, me afasto rapidamente e tento voltar a respirar.

— Meu Deus. Isso é loucura! — Me levanto da cama nervosa.

— Desculpa, foi culpa minha. — Ele abaixa a cabeça, as bochechas corando com a vergonha.

E estou ainda mais envergonhada que ele, por ter sentido o que senti.

— Só esquece, Nando. Isso nunca aconteceu. Está me ouvindo? Nunca.

Sem ter coragem de olhar em seu rosto novamente, saio do quarto em disparada. Nando me chama, mas o ignoro. Entro no meu quarto e tranco a porta. 

— Que droga! — Me jogo na cama e afundo o rosto no travesseiro, soltando um grito.

Deixo as lágrimas caírem. Estou confusa e com o coração em pedaços. Henry me enganou durante todo esse tempo, jogou nossos dois anos no lixo! Ele foi o meu primeiro namorado, o homem a quem me entreguei por amor. Depois de tanto chorar e remoer tudo que aconteceu, acabo pegando no sono.

Acordo com os olhos ardendo. Me sento na cama, pego meu celular de baixo do travesseiro e vejo que já é quase meia-noite. Há chamadas de Henry não atendidas, e só de olhar seu nome na tela, com vários corações ao lado, dói o meu peito. Bloqueio o celular, me levanto e vou até o guarda-roupa, separo uma camisola e vou direto para o banho.

***

Abro a porta do quarto. As luzes já estão apagadas. Todos já devem estar dormindo. Decido descer até a cozinha para arrumar algo para comer. Abro a porta da geladeira e vejo um prato com dois pedaços de pizza e um pequeno bilhete ao lado. Pego-o e começo a ler.

“Pequena, guardamos pra você. Espero que esteja melhor. Nando nos contou o que aconteceu. Te amamos. Caio”

Não sei se fico feliz por não ter que explicar o que aconteceu ou se fico com raiva por Nando ter contado. Mas Manu e Caio são sempre tão atenciosos e amorosos comigo. Eu amo tanto os dois.

Coloco a pizza no microondas para esquentar, dobro o bilhete e o coloco na bancada. Encho um copo de coca, pego o prato no microondas e me sento à mesa. Fico aqui, comendo e pensando em várias coisas ao mesmo tempo.

— Posso me sentar com você? — Levo um susto ao ver Nando em pé ao meu lado. — Desculpa, não queria te assustar. Não consigo dormir.

Por que será que não consegue? Será que aquele beijo também significou algo para ele? Será que as mesmas dúvidas que pairam na minha cabeça também estão na dele? Minha cabeça parece que vai explodir! Queria que tudo isso não tivesse acontecido. Queria minha vida perfeita de volta.

— Pode sentar. Você está na sua casa. — Aponto para a cadeira.

— Estou na nossa casa, Aurora. — Ele se senta e fica me observando.

— Não vou conseguiu comer com você me encarando. Quer um pedaço? — Levanto o garfo com o último pedaço de pizza.

— Obrigado, já comi mais cedo. Aurora... Eu não sei como dizer isso, mas não quero que nada entre nós mude. O que aconteceu mais cedo foi algo de impulso, eu não deveria ter feito aquilo. É que te ver chorar daquele jeito mexeu comigo, e ver seus olhos inchados do jeito que estão agora me faz querer ir até onde aquele mané do seu namorado está e acabar com ele — Nando diz, cerrando os punhos.

— Já falei pra você que temos que esquecer o que aconteceu. Vamos seguir em frente, Nando. Não precisa se preocupar. — Minha mão já se move para a dele, quase que inconscientemente, mas hesito e, por fim, desisto. E isso não passa despercebido a ele, que observa cada movimento meu.

— Não consegue nem me tocar e fala pra seguimos em frente? — Seu olhar é triste, sua voz, baixa.

Me levanto, fingindo não ouvi-lo, e levo a louça até a pia. Então murmuro um “boa noite, Nando” e parto rapidamente para as escadas.

Minha vontade nesse momento é sumir. Eu sei que, mesmo afirmando o contrário, nosso relacionamento jamais voltará a ser como antes. Entro rapidamente no quarto, sigo para o banheiro e escovo os dentes. Em seguida, me olho no espelho e percebo como estou um caco. Em questão de horas, perdi todo o equilíbrio que demorei anos para juntar. Suspiro e me arrasto até a cama, aconchegando-me sob as cobertas.

(*** Nando ***)

Não consigo dormir. Me viro de um lado para o outro na cama e aperto a cabeça contra o travesseiro e tento não pensar em nada, mas a lembrança do que aconteceu continuando voltando à minha mente, se repetindo sem me dar um único segundo de descanso. Devo estar ficando louco. Como pude beijar minha própria irmã? Aurora e eu sempre fomos muito ligados, companheiros um do outro. E agora vejo que coloquei tudo a perder por causa de um simples beijo. Por um sentimento que só eu devo estar sentindo.

Não consegui me controlar. Quando dei por mim, meus lábios já estavam colados aos dela. E foi tão bom e tão errado.

Cansado de esperar o sono vir, me levanto e vou até a cozinha pegar um copo d'água. Ao abrir a porta do meu quarto, vejo que a do dela também está aberta. Penso em entrar, mas logo desisto. Mas, para a minha surpresa, assim que desço as escadas e noto a luz ligada, vejo Aurora sentada à mesa, comendo, perdida em seus pensamentos. Mesmo não tendo certeza do que dizer, sei que preciso conversar com ela.

Meus olhar passeia pelo seu corpo. Aurora está usando uma camisola de seda rosa, e seus cabelos estão presos em um rabo de cavalo; a pele branquinha está muito à mostra. Mas por que estou prestando tanta atenção nisso? Parece que depois aquele beijo, algo se desencadeou dentro de mim e me deixou assim. Que droga! O que estou fazendo?

Mas não posso evitar. Enquanto ela come, fico, em silêncio, admirando-a. E vejo que seus olhos estão inchados. Culpa daquele idiota do Henry. Como ele teve coragem de trair uma garota como ela? Aurora é a garota mais incrível que conheço. Tudo o que eu queria era parti-lo ao meio. Como pode ser tão otário?

— Posso me sentar com você? — pergunto, e, em pouco tempo, percebo que me reaproximar de Aurora não será tão fácil como esperava.

Quando ela fica com receio de me tocar, sinto meu coração se quebrar no peito. Quero continuar conversando, mas Aurora foge novamente. Uma certeza eu tenho: não vou deixá-la se afastar de mim. Me levanto e vou até o quarto dela, decidido a resolver isso de uma vez por todas. Entro devagar e a vejo encolhida, a luz de sua luminária em formato da Torre Eiffel iluminando o local. Meu coração se aperta ao perceber que está chorando.

— Nando, o que está fazendo aqui? — murmura assim que me vê.

Me sento ao seu lado e acaricio seus cabelos.

— Não quero que se distancie de mim novamente, Aurora. Pare de fugir. Eu sou seu irmão e quero cuidar de você. Sei que seu coração está despedaçado. Lembra de quando você tinha medo dos trovões e ia correndo pro meu quarto pra dormir comigo? — Ela balança a cabeça, confirmando. — E quando alguém te irritava na escola, quem era que te defendia no mesmo instante?

— Você. — Sua voz sai embargada.

— Eu sempre estive ao seu lado e sempre estarei. Não existe Nando sem Aurora.

Ela abre um pequeno sorriso.

E eu não estou mentindo. Aurora sempre esteve ao meu lado desde quando nasci. Não tenho ideia de como seria a vida sem ela.

— Lembra quando caí da bicicleta na primeira vez que andei sem rodinhas? Manu te deu uma bronca daquelas — Aurora diz, ainda sorrindo, e acabo rindo da lembrança.

— Sim. Mas você a convenceu que fui forçado a te deixar andar na minha bicicleta, mesmo não sendo verdade. Fui eu que te desafiei a andar nela. Sabe porque você fez isso?

— Porque somos parceiros — fala, baixinho.

Eu assinto.

— Um nunca quer ver o outro na pior, mesmo que isso signifique aguentar as consequências de uma coisa que não fez. Posso me deitar do seu lado, como fazíamos quando éramos pequenos?

Aurora vai mais para o lado e levanta o edredom rosa com estampa de corações. Tiro meus chinelos e me deito ao seu lado. Ficamos virados um para o outro em silêncio por um tempo.

— Eu queria tirar essa dor do seu peito. Não gosto de te ver assim desanimada. — Acaricio sua bochecha. — Posso te perguntar uma coisa?

— Pode.

— Você sentiu alguma coisa quando te beijei? Eu sei que você pediu pra esquecer o que aconteceu, mas quero muito saber.

— Não sei se é uma boa entrar nesse assunto novamente, Nando.

— Só me responde isso, por favor.

— Estou confusa com o que senti. Nós somos irmãos. Nunca era pra ter acontecido aquilo.

Mesmo falando isso, consigo sentir que sua respiração acelera quando minha mão toca o seu rosto.

— Mas aconteceu. E pra ser sincero com você, estou com vontade de te beijar novamente. — As palavras saem sem que eu tenha qualquer controle sobre elas, e Aurora me olha surpresa.

Aproximo meu rosto do seu e olho profundamente em seus olhos. Minha mão desliza para a sua nuca e a sinto estremecer com meu toque. Tomo seus lábios em um beijo intenso. Desço e começo a beijar seu pescoço.

— Aurora, você só precisa pedir pra eu parar.

— Eu não posso, Nando.

Capítulo 3

Nesse momento, já estou por cima dela na cama. Nosso beijo é maravilhoso. O gosto de Aurora é diferente. Seus dedos entram por minha camisa, as unhas arranhando minhas costas. Ela me excita como nenhuma outra. Enquanto a beijo, uma de minhas mãos passeia pelo seu corpo, tocando-a como se pudesse desaparecer a qualquer momento. Encosto a ponta do dedo em seus seios e vou descendo até a cintura. Separo os nossos lábios e olho em seus olhos; brilhantes, tão perdidos quanto os meus. Sua respiração está irregular, pesada, e vejo quando a expressão muda em seu rosto e os primeiros traços de pânico começam a surgir.

— O que estamos fazendo, Nando? — ela pergunta.

Tentando esconder a decepção, me afasto e me deito ao seu lado. É claro que ela está arrependida.

— Pra ser sincero, nem eu sei — confesso. — Pode parecer loucura, mas a sensação de estar com você em meus braços é tão boa.

— E se Caio e Manu descobrirem? Não quero decepcionar nenhum dos dois. — Aurora recua, distanciando-se cada vez mais de mim, e se senta. — Não quero ser uma decepção pra eles.

— Você nunca será uma decepção — murmuro. — Eles te amam e sentem muito orgulho de você. Assim como eu.

— Acho que é melhor ir para o seu quarto, Nando — ela diz, fugindo do meu olhar.

— Você não vai tentar me afastar novamente nem me pedir pra esquecer o que aconteceu aqui, né?

Mesmo sabendo que Aurora é legalmente minha irmã, não consigo vê-la mais da mesma forma. Agora tudo mudou. Nós mudamos. E por que isso deveria ser errado?

— Não vou te pedir pra esquecer e nem vou te afastar — ela diz, mas não sinto nenhum pingo de firmeza em suas palavras.

— Aurora, não faz isso comigo. — Seguro seu rosto e a faço olhar para mim novamente. — Quero ficar com você, nem que seja escondido.

Aproximo nossos rostos e a beijo. E quando os seus lábios se movem com os meus, devagar, hesitantes, meu peito se aperta com o gosto de despedida em minha língua. Ela se afasta e acaricia a minha bochecha. Há tristeza em seu olhar.

— Boa noite, Nando — ela sussurra.

— Você tem certeza que quer que eu vá? — pergunto, baixinho, e ela assente.

Mesmo contra minha vontade, me levanto, calço meus chinelos e saio do seu quarto sem fazer barulho. Volto para o meu e me deito com as mãos embaixo da cabeça.

Tudo isso está parecendo uma montanha-russa. Uma hora as coisas fluem bem, na outra tudo desmorona. Não sei o que fazer! Ela diz estar confusa com tudo isso, mas eu também estou. Mesmo assim, quero ficar ao seu lado. Por que ela não compreende que não há mal quando não somos irmãos de sangue? Por que insiste em me manter longe?

***

Acordo meio atordoado. Não consegui dormi bem essa noite. Me levanto e vou ao banheiro, tomo um banho, me arrumo e desço para o café da manhã.

— Bom dia — digo, me sentando à mesa.

Percebo que só meus pais estão presentes. Aurora ainda deve estar dormindo.

— Vejo que nenhum dos dois acordou muito bem hoje — minha mãe fala, preocupada.

Então quer dizer que Aurora já acordou. Será que já voltou para o quarto?

— Só estou com dor de cabeça, mãe. Não precisa se preocupar. Aurora já tomou café?

— Já. Ela se levantou cedo, tomou um café rápido e foi pra casa de Camila.

Ela está me evitando. Já imaginava que isso fosse acontecer.

— Como rolou tudo aquilo com o vagabundo do Henry, ela deve estar precisando de um tempo com sua melhor amiga. Tenho dó daquele garoto. Quando ele aparecer na minha frente... — Meu pai balança a cabeça; um sorriso perigoso nos lábios.

— Caio, você não vai dar uma surra nele! Já conversamos sobre isso. — Minha mãe cruza os braços e o encara, séria.

— E eu já disse que não garanto nada. Aquele moleque safado machucou minha filha e não vai sair impune. Pode ter certeza disso.

Enquanto os dois discutem sobre dar uma surra em Henry ou não — se bem que ele merece, e eu até ajudaria meu pai com isso — meu pensamento está em Aurora. Estará mesmo buscando consolo com a amiga ou uma fuga?

(**** Aurora ***)

Estou deitada no colo de Mari e ela tenta me animar. Hoje estou me sentindo pior que ontem.

— Amiga, não fica assim. Pensa pelo lado bom. É melhor ter descoberto agora do que nunca descobrir e Henry te enganar por anos. Você já falou com ele?

— Não. Ele me ligou várias vezes, mas não tive coragem de atender.

Meu celular começa a tocar, e sei que é ele. Mari o toma de minha mão e atende. Olha-a sem entender.

— Oi, Henry. Ela não pode atender. Agora estamos na casa de uns amigos. Aurora está na piscina nadando com Júlio. Sim, esse Júlio mesmo. Você já vai voltar pra casa?! Mas ela disse que você ficaria uma semana fora. Vou avisar, espera aí... Aurora, amiga! — Ela faz uma pausa. — Henry, ela está muito distraída conversando, mas depois eu aviso. Até. Tchau!

— Não acredito que fez isso. Ele morre de ciúmes de Júlio.

Mari abre um grande sorriso.

— Eu sei. Você tinha que ouvir, ele ficou louco.

Eu rio.

— Você é maravilhosa, Mari! — Me sento e a abraço.

— Nós somos. Mas sinto que não é só isso que está te incomodando. Aconteceu mais alguma coisa?

Mari me conhece tão bem. Ela, Nando e eu sempre fomos muito ligados. Crescemos juntos e seus pais são nossos padrinhos.

— Aconteceu uma coisa ontem que me deixou mais atordoada.

Mari me olha com curiosidade.

— Coloca tudo pra fora. Você sabe que não vou te julgar.

Respiro fundo para tomar coragem de entrar nesse assunto.

— Nando e eu nos beijamos.

Mari fica literalmente de boca aberta.

— Menina, que babado! Me conte os detalhes.

Nós duas nos deitamos na cama e ficamos olhando para o teto.

— Eu te contei como descobri sobre Henry, mas omiti a parte do beijo. Quando estava sentada na cama dele, estava com os olhos fechados, sentindo seu toque. Nem sei por que fiz isso, mas Nando aproximou seus lábios dos meus e me beijou.

— O que você sentiu? Seja sincera.

— Eu gostei muito! Isso me deixou ainda mais confusa. Ele é meu irmão! — Coloco as mãos no rosto, a angústia me consumindo.

— Nem sei o que dizer sobre isso. É muita coisa pra uma pessoa só! Nem sei como você não surta.

— Mas estou a ponto de enlouquecer — admito. — E ainda tem mais — Mari se vira para mim. — Nando foi ao meu quarto após uma conversa rápida que tivemos na cozinha. Já era de madrugada.

— Vocês...?

— Não! Mas foi por tão pouco. Estava tão perdida no momento. Sério, Mari, Nando me deixou louca de desejo. — Solto um suspiro só de lembrar de seu toque, seus beijos.

— Imagino, amiga. Nando é um pedaço de mau caminho, igual ao pai.

— Mari!— exclamo, em tom de repreensão.

— Amiga, eu não tenho culpa se os dois são gostosos. Pegaria pai e filho juntos se eles quisessem. — Ela dá um sorrisinho. — Só não dou em cima deles por respeito a você e sua mãe.

— Mari, você é muito safada!

— Só sou realista. — Dá uma piscadela. — Agora, voltando ao assunto, o que vai fazer em relação a Nando? E a Henry?

— Ainda não sei sobre Nando. Vou tentar evitá-lo ao máximo, até entender tudo. E claro que vou terminar com Henry assim que o vir pessoalmente. Vou esfregar aquela foto na cara dele. Mas pra isso preciso falar com Nando, pra que ele me envie. Sabe qual a pior coisa, Mari?

— Não faço ideia.

— Nando disse que quer ficar comigo mesmo que seja escondido.

— Se fosse eu, já estava afogando minhas mágoas no leite, se é que me entende.

— Você não disse isso! — Olho para ela incrédula.

— Ah, eu disse sim! E você me ama pelo jeito que sou, então não reclame. — Dá um tapinha em meu braço. — Tive uma ideia! Vamos nos levantar, separar uma roupa bem bonita, fazer o cabelo e uma maquiagem perfeita, pra quando Henry chegar, ver o que realmente perdeu. Ele vai se arrepender amargamente de ter te traído.

— Não sei o que faria sem você. — A abraço e beijo sua bochecha.

— Nós somos irmãs. Mas não vamos nos pegar! — Mari ri dá própria piada. Essa menina é impossível. — Agora vamos começar nosso programa de beleza. 

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