O couro do sofá no escritório de Sarah Miller estava frio contra a pele de Evelyn, um contraste gritante com a sensação de queimação que ainda latejava sob as bandagens em seu pescoço. Sarah sentou-se à sua frente, seu corte chanel, geralmente impecável, um pouco bagunçado, os nós dos dedos brancos enquanto ela segurava uma caneta.
"Ele te abandonou", Sarah sibilou, sua voz tremendo com uma raiva que Evelyn estava exausta demais para sentir. "O apartamento estava pegando fogo, Evelyn. Pegando fogo. E ele estava em L.A. bancando o cavaleiro de armadura brilhante para aquela... aquela sereia."
"Ele não sabia do incêndio quando o alarme disparou pela primeira vez", disse Evelyn, com a voz monótona. Ela não o estava defendendo. Estava apenas constatando fatos. Fatos eram tudo o que lhe restava.
"Ele soube quando a notícia saiu", Sarah rebateu, batendo a caneta em sua mesa de vidro. "Ele soube quando o paramédico deixou aquele correio de voz. Já se passaram doze horas, Evelyn. Ele ligou? Mandou ao menos uma mensagem?"
Evelyn olhou para o celular na mesa. Estava silencioso.
"Prepare os papéis, Sarah."
Sarah piscou, sua raiva pausando por um momento de silêncio atônito. "Você está falando sério? Finalmente? Você vai mesmo fazer isso?"
"Eu quero um rompimento limpo", disse Evelyn, inclinando-se para a frente. O movimento repuxou as queimaduras em sua perna, mas ela o ignorou. "Não quero pensão. Não quero a casa dos Hamptons. Não quero um único centavo do dinheiro dos Vance."
"Evelyn, você tem direito a-"
"Eu tenho dinheiro", Evelyn interrompeu. Ela desbloqueou o celular e o deslizou pela mesa, mostrando a ela o saldo da conta Architect.
Sarah olhou para a tela, seus olhos se arregalando. Ela soltou um assobio baixo. "Ok. Então a atuação de 'esposa-troféu pobre e indefesa' acabou oficialmente?"
"Nunca foi uma atuação para mim, Sarah. Era uma gaiola. E eu cansei de ser o pássaro. Além disso... preciso de um médico. Um que seja discreto. Eu saí do Sinai contra a recomendação médica."
Sarah assentiu imediatamente, pegando seu telefone fixo. "Vou ligar para o Dr. Evans. Ele faz visitas particulares. Ele pode te encontrar no apartamento ou em um hotel para verificar essas queimaduras direito."
De repente, o telefone na mesa vibrou. Uma foto de Julian preencheu a tela rachada.
Sarah estendeu a mão para pegá-lo, o rosto se contorcendo, mas Evelyn levantou uma mão. "Coloque no viva-voz."
Evelyn tocou no ícone verde.
"Evelyn?"
A voz dele era grave, familiar. Costumava lhe dar um frio na barriga. Agora, apenas revirava seu estômago. Ele parecia cansado, irritado. Não preocupado.
"Estou aqui", disse Evelyn.
"Eu vi as notícias", disse ele. "Harrison me disse que a cobertura está uma bagunça. Você está cuidando dos peritos do seguro?"
Evelyn encarou o telefone. *Você está cuidando do seguro?* Não um *Você está bem?* Não um *Você se queimou?*
"Eu não estou no apartamento, Julian."
"Bem, volte para lá. Você precisa supervisionar a limpeza. Não posso lidar com isso agora. A imprensa está em cima."
"Onde você está?", Evelyn perguntou, embora suspeitasse da resposta.
"Acabei de pousar em Teterboro", disse ele, a mentira saindo suavemente. "Estou indo para o Pierre. Não posso ir para casa com os paparazzi me seguindo, e preciso acomodar a Serena. Ela está abalada."
Então, fracamente, ao fundo, uma voz que Evelyn conhecia melhor que seus próprios pesadelos.
"Julian? Querido, a pressão da água deste hotel é horrível. Você pode ligar para a recepção?"
O ar no escritório de Sarah pareceu desaparecer. Sarah parecia que ia vomitar. Ele não estava apenas pousando. Ele já estava no hotel com ela.
Julian cobriu o receptor instantaneamente. Houve um som abafado, um sussurro áspero, e então ele estava de volta.
"Estou em uma reunião", ele mentiu. Suavemente. Sem esforço. "Estarei em casa hoje à noite para verificar os estragos. Não seja dramática com o incêndio, Evelyn. Foi só um acidente na cozinha, certo? Harrison disse que a estrutura está intacta. Você sempre foi descuidada com o fogão."
Evelyn sentiu um sorriso repuxar o canto de sua boca. Foi uma sensação aterrorizante.
"Descuidada", Evelyn repetiu. "Sim. Suponho que fui descuidada ao pensar que você estava trabalhando."
"Como é que é?" Seu tom baixou, tornando-se gélido. "Não comece com seu ciúme. Serena teve um ataque de pânico. Ela precisava de um amigo. Sei que esse conceito é estranho para você, já que não tem nenhum."
"Aproveite sua reunião, Julian", disse Evelyn. "E diga para a Serena experimentar o chuveiro do spa no segundo andar."
Ela desligou.
Sarah estava olhando para Evelyn com a boca aberta. "Você... você acabou de desligar na cara de Julian Vance."
"Desliguei."
"E ele estava... ela estava lá? Em New York?" Sarah se levantou, andando de um lado para o outro na sala. "Eu vou matá-lo. Vou descobrir onde ele está e esfaqueá-lo com um stiletto."
"Sente-se, Sarah", disse Evelyn, levantando-se. Ela se sentia estranhamente leve. A âncora que a vinha arrastando para o fundo por três anos tinha acabado de ser cortada. "Temos trabalho a fazer. Não vou apenas me divorciar dele. Vou pegar meu nome de volta."
"Você quer escrever de novo?"
"Não", disse Evelyn, caminhando até a janela e olhando para a cidade que a havia mastigado e cuspido. "Passei anos escrevendo as histórias de todo mundo. Escondendo-me atrás do nome 'The Architect' porque Julian achava que escrever roteiros era 'comum'. Agora? Eu quero ser vista."
Ela se virou de volta para Sarah. "Eu quero atuar, Sarah. Marque audições para mim. Sob o nome de Evelyn Reed. Sem contatos. Sem favores."
"Mas o seu rosto..." Sarah gesticulou vagamente para o pescoço de Evelyn.
Evelyn tocou a bandagem. "É uma história. É personagem. Cubra com maquiagem ou deixe à mostra. Não me importo. Apenas me coloque na sala."
Evelyn deixou o escritório de advocacia uma hora depois com um cartão de consulta para o Dr. Evans e um plano de codinome 'Rebirth'.
Ela parou em uma farmácia no caminho de volta para a cobertura para pegar alguns analgésicos que o Dr. Evans havia receitado. Acima do balcão, uma TV estava reprisando a filmagem. Julian levantando Serena para dentro do SUV. Sua mão na cintura dela. A intimidade daquilo era nauseante.
"Ele é tão romântico", a caixa suspirou, estourando uma bola de chiclete. "Queria que meu namorado olhasse para mim assim."
Evelyn ajustou seus óculos de sol. "Acredite em mim", ela murmurou, "você não quer."
Ela chegou à Vance Tower. O cheiro de fumaça ainda pairava no saguão, fraco, mas persistente. A viagem de elevador até a cobertura levou quarenta segundos. Ela os passou respirando, firmando os tremores em suas mãos.
Evelyn entrou no hall de entrada. O estrago se concentrava principalmente na cozinha e na sala de estar, onde as paredes estavam enegrecidas. Mas o ar estava pesado com o cheiro de desastre.
Ela foi direto para o quarto principal. Puxou sua mala da prateleira de cima do closet.
Ela não guardou os vestidos que ele comprou para ela para as galas. Não guardou as joias que ele lhe deu como desculpas por aniversários perdidos. Ela guardou seus jeans. Seus suéteres velhos. Seu laptop. E o disco rígido do cofre - aquele que continha os roteiros de The Gilded Cage, Silent Echo e Glass Walls.
Evelyn estava fechando o zíper da mala quando ouviu o som do elevador.
Sua espinha se enrijeceu.
Passos. Pesados, apressados.
Julian apareceu na porta. Ele ainda usava o terno da filmagem da TV, mas sua gravata estava afrouxada, seu cabelo ligeiramente desgrenhado. Ele parecia exausto.
Ele parou quando viu a mala. Suas sobrancelhas se uniram, a confusão manchando suas belas feições.
"Indo a algum lugar?", ele perguntou.
Ele entrou no quarto, trazendo consigo o cheiro de ar de avião e... por baixo dele, distinto e doce... gardênias. O perfume de Serena. E por baixo disso, o cheiro limpo e ensaboado do sabonete líquido de verbena exclusivo do Pierre Hotel.
O estômago de Evelyn se revirou.
"Sim", disse ela.
Ele zombou, chutando a mala levemente com a ponta de seu sapato de couro italiano. "Guarde isso, Evelyn. Você está exagerando. Harrison já contratou a equipe de limpeza. Ficaremos no Pierre até que tudo seja consertado."
Ele passou por ela em direção ao banheiro, desabotoando os punhos da camisa. "Deus, estou cansado. Prepare um banho para mim, sim?"
Evelyn encarou suas costas. A audácia era de tirar o fôlego.
"Prepare você mesmo", disse ela.
Julian congelou. Suas mãos pararam sobre as abotoaduras. Ele se virou lentamente, como se não tivesse ouvido Evelyn direito.
"O que você disse?"
Evelyn agarrou a alça de sua mala. "Eu disse, prepare você mesmo. Eu não sou sua empregada, Julian."
Ela tentou passar por ele, mas ele estendeu a mão e agarrou seu antebraço para impedi-la. Seu aperto era forte, atingindo diretamente a parte da pele que o fogo havia lambido, bem abaixo da borda de sua manga.
"Ah!" Evelyn ofegou, a dor aguda e cegante. Ela puxou o braço de volta, aninhando-o contra o peito.
Julian olhou para sua mão, depois para o pulso de Evelyn. Ela puxou a manga para cima, revelando a pele vermelha e irritada, com bolhas nas bordas da gaze que havia aplicado mais cedo. Seus olhos se arregalaram.
"O que é isso?" Ele estendeu a mão novamente, mas parou antes de tocá-la. "Como você fez isso?"
"O incêndio", disse Evelyn, dando um passo para trás. "Aquele que você chamou de 'acidente na cozinha'."
"Eu não sabia que você estava ferida", disse ele, com a voz mais baixa. Um lampejo de algo que parecia culpa passou por seu rosto, mas ele o dissipou instantaneamente com um piscar de olhos. "Por que você não me disse no telefone?"
"Você estava ocupado demais perguntando sobre a pressão da água do hotel para a Serena."
Ele trincou o maxilar. "Pare de falar dela. Ela estava histérica. Eu não podia simplesmente deixá-la sozinha no hotel."
"Você poderia", disse Evelyn em voz baixa. "Você só não quis."
Ela se virou e entrou no banheiro, trancando a porta atrás de si. Precisava de um minuto. Sua perna latejava, a adrenalina passando e deixando para trás uma agonia surda e dolorosa.
"Evelyn! Abra a porta!" Julian esmurrou a madeira. "Nós não terminamos de conversar!"
Evelyn o ignorou. Ligou o chuveiro, deixando o vapor encher o ambiente. Tirou a roupa, fazendo uma careta de dor enquanto o tecido se descolava de sua pele.
Ela se olhou no espelho. Seu pescoço, seu antebraço, sua coxa. Manchas de um vermelho raivoso, vergões elevados como marcas de ferro. Ela parecia destruída.
Ela entrou no chuveiro. A água estava quente demais. Atingiu suas queimaduras como fogo líquido.
Evelyn gritou, cambaleando para trás. Seu pé escorregou nos azulejos lisos.
Ela caiu com força.
Seu quadril bateu com força no chão de mármore. O ar lhe foi arrancado dos pulmões. Um grito de dor rasgou sua garganta antes que ela pudesse impedi-lo.
CRASH.
A porta do banheiro se abriu com um estrondo. A fechadura se estilhaçou.
Julian estava parado ali, o peito arfando. Seus olhos varreram o cômodo e pousaram em Evelyn, encolhida e nua no chão, a água escorrendo sobre suas queimaduras.
Por um segundo, ninguém se moveu.
Ela viu o horror nos olhos dele. Ele estava vendo a extensão do dano pela primeira vez. A prova física e crua de sua negligência.
"Evelyn..." A palavra foi um suspiro estrangulado.
Ele se ajoelhou em um instante, ignorando a água que encharcava as calças de seu terno caro. Pegou uma toalha, enrolando-a em volta dela com as mãos trêmulas.
"Não me toque!" Evelyn gritou, empurrando seu peito.
"Pare com isso!" Ele agarrou seus ombros, imobilizando-a, mas com cuidado — muito cuidado — para não tocar nas queimaduras em seu pescoço. "Você está ferida. Está muito ferida. Por que não me disse que estava tão ruim?"
"Porque você não perguntou!" Evelyn soluçou. A luta estava se esvaindo dela.
Ele a pegou no colo. Era forte, levantando-a sem esforço do chão molhado. Ela apertou os olhos, odiando o fato de que seus braços ainda pareciam seguros, mesmo sabendo que eram o lugar mais perigoso do mundo.
Ele a levou para a cama e a deitou gentilmente. Correu para o armário e pegou o kit de primeiros socorros. Suas mãos, geralmente tão firmes ao assinar acordos bilionários, tremiam enquanto ele abria o antisséptico.
"Eu posso fazer isso", disse Evelyn, tentando se sentar.
"Fique quieta", ele rosnou. Mas não havia mais raiva naquilo. Apenas pânico.
Ele aplicou a pomada. Era desajeitado, sem saber quanta pressão aplicar. Ele nunca tinha feito isso. Evelyn cuidara dele durante gripes, ressacas, lesões esportivas. Ele nunca tinha sequer colocado um curativo nela.
"Me desculpe", ele murmurou, com os olhos fixos na perna dela. "Eu não sabia."
"Ignorância não é uma desculpa, Julian. É uma escolha."
Ele olhou para ela. Seus olhos azuis estavam escuros como uma tempestade. "Eu sou seu marido. Eu cuido de você. Esse é o acordo."
"O acordo acabou."
Evelyn estendeu a mão para a mesa de cabeceira, onde estava a pasta que Sarah lhe dera. Ela puxou o documento.
ACORDO DE DIVÓRCIO.
Ela o jogou na cama entre eles.
Julian olhou para ele. Leu o título. Seu rosto ficou inexpressivo. O pânico desapareceu, substituído por uma máscara fria e dura. O Julian Vance da sala de reuniões retornou.
"Isso é uma piada?", ele perguntou em voz baixa.
"Parece uma piada?"
Ele se levantou, impondo-se sobre Evelyn. "Você vai se divorciar de mim? Por causa de um incêndio? Porque eu ajudei uma amiga?"
"Porque estou sozinha neste casamento, Julian. Estou sozinha há três anos."
Ele riu. Foi um som áspero e cruel. Ele pegou os papéis.
"Você não consegue sobreviver sem mim, Evelyn. Você não tem carreira. Nem família. Nem dinheiro. Você acha que o mundo é gentil com divorciadas de trinta anos sem currículo?"
"Vou arriscar."
Ele a encarou, esperando que ela cedesse. Esperando que ela pedisse desculpas e implorasse por perdão, como geralmente fazia quando brigavam.
Quando Evelyn não vacilou, seu orgulho se quebrou.
Ele rasgou os papéis ao meio. Depois em quatro.
"Eu não vou assinar isso", disse ele, deixando o confete chover sobre a cama. "Você está chateada. Está traumatizada. Não está pensando com clareza."
"Nunca estive mais lúcida."
Seu telefone tocou.
O toque cortou a tensão como uma faca. Ele olhou para a tela.
Serena.
Evelyn olhou para ele. "Atenda."
"Evelyn..."
"Atenda, Julian. Mostre-me que estou errada."