Capítulo 2

Empurrei a porta do bar, o barulho da música e das conversas me envolvendo. Murilo, sentado em um canto com Cecília, me viu e um olhar de surpresa, quase de desconfiança, passou por seu rosto. Ele não esperava que eu aparecesse.

"O que você está fazendo aqui?" ele perguntou, a voz um pouco mais alta do que o normal, com um tom acusatório. "Está me seguindo?"

Eu peguei meu telefone e o mostrei. "Você me mandou uma mensagem. Disse para eu vir te buscar e trazer sua carteira."

Cecília, que estava aninhada ao lado dele, riu, uma risada forçada. "Ah, Murilo, você esqueceu que me pediu para ligar para ela? Eu disse que você precisava da carteira."

O rosto de Murilo relaxou um pouco, mas a tensão ainda pairava. Ele me deu um sorriso forçado, a mentira tão óbvia que era quase cômica. Eu apenas acenei com a cabeça, sem emoção. Eu estava acima disso. Não havia mais espaço para dor em meu coração.

"Claro," Murilo disse, tentando se recompor. "Laís, você não precisava vir. Eu poderia ter pego um táxi."

Eu o interrompi, entregando-lhe a carteira e as chaves. "Não se preocupe. Você está muito bêbado para dirigir."

Ele olhou para a carteira em minha mão, depois para mim, e por um instante, vi um lampejo de algo em seus olhos. Arrependimento, talvez? Ou apenas irritação por ter sido pego em sua própria teia de mentiras?

Cecília se levantou, cambaleando ligeiramente. Murilo a segurou pela cintura, mas seus olhos ainda estavam em mim. Ele se despediu rapidamente de Cecília, que parecia relutante em deixá-lo. Ele a empurrou gentilmente, com uma frase de "eu te ligo depois".

Enquanto eu caminhava para o carro, Murilo correu atrás de mim. Ele agarrou meu braço, me puxando de volta com força.

"Cuidado!" ele gritou, enquanto um carro passava em alta velocidade, raspando meu braço.

Eu me virei para ele, o coração batendo forte. Ele me segurava firme, a palma da mão quente contra minha pele.

"Você é tão descuidada!" ele repreendeu, mas havia preocupação em seus olhos.

Era uma sensação estranha. O toque dele, que antes me trazia conforto, agora me parecia estranho. Lembrei-me de como ele costumava me segurar a mão quando atravessávamos a rua, quando me puxava para dançar. Aqueles eram os dias em que eu acreditava no nosso amor. Agora, era apenas um hábito, um reflexo do passado.

Com um movimento suave, puxei minha mão. Ele me soltou, os olhos perdidos por um segundo.

Na manhã seguinte, me preparei para ir ao escritório. Eu estava exausta, mas determinada a manter minha rotina. Murilo me surpreendeu ao se oferecer para me levar ao trabalho.

"Não se preocupe, eu te levo," ele disse, com uma voz estranhamente suave.

Eu sabia que ele estava tentando ser "o bom marido", tentando me convencer de que eu não deveria deixá-lo. Eu estava atrasada, então concordei, relutantemente.

Assim que entrei no carro, o cheiro de um perfume floral forte me atingiu. O cheiro de Cecília. Meu estômago revirou. No banco do passageiro, havia um bicho de pelúcia fofo, uma tiara brilhante e um copo de café com o nome "Ceci" escrito nele.

Murilo, o homem que sempre foi obcecado por manter o carro impecável, agora permitia esse tipo de bagunça. Lembrei-me de quando ele me repreendeu por deixar um lenço de papel no porta-luvas. Agora, o carro de Cecília era um parque de diversões.

Ele notou meu olhar. Um leve rubor subiu em seu rosto. "Ah, isso? É da Cecília. Ela é como uma criança, sabe?"

Uma criança. Eu me lembrava das fotos nas redes sociais. Aquela "criança" estava bebendo champanhe e rindo em um iate. Eu guardei minhas palavras amargas.

Percebi que, para Murilo, eu era um incômodo conveniente, uma esposa para manter as aparências. Cecília, por outro lado, era a diversão, a novidade. A parte mais dolorosa era que, de alguma forma, eu não estava surpresa. Eu já sabia.

Forcei um sorriso e me sentei no banco de trás, observando a paisagem passar.

Murilo tentou quebrar o silêncio. "Quer um suco? Um biscoito? Eu tenho um monte aqui."

Eu olhei para o banco do passageiro, que agora estava recheado de lanches e bebidas. Ele oferecia tudo para Cecília, mas quando eu estava doente e com febre alta, ele se recusou a parar em uma farmácia para comprar um remédio, dizendo que precisava economizar tempo para uma reunião importante.

"Não, obrigada," eu disse, sem olhar para ele. "Estou bem."

Eu me perdi na paisagem do lado de fora, a mente correndo. Eu precisava sair dali. Eu precisava deixar essa empresa, essa vida. Mas eu tinha um projeto importante para terminar. Eu não podia simplesmente ir embora. Eu era responsável. Eu sempre fui.

No escritório, eu mergulhei de cabeça no trabalho, tentando ignorar a dor. As horas passavam, uma após a outra. Eu estava exausta, mas continuava trabalhando, a mente focada apenas nas minhas tarefas. Eu sabia que precisava terminar este projeto antes de ir. Eu não ia deixar Murilo me derrubar.

Quando a noite caiu, e eu ainda estava debruçada sobre minha mesa, o escritório se encheu de um cheiro doce. Uma grande caixa de doces foi entregue.

"Bolos sem lactose e sem glúten!" Alguém gritou. "Deve ser o Murilo! Ele é tão atencioso!"

Todos os meus colegas vieram correndo, animados.

"Uau, Murilo realmente mima a Cecília, não é?" uma colega disse. "Sem lactose, sem glúten. Tudo que ela gosta."

Meu coração afundou.

Capítulo 3

Os comentários sobre Murilo e seus "mimos" para Cecília continuaram, cheios de admiração e inveja.

"Você viu o presente que ele deu a ela no fim de semana?" uma colega sussurrou. "Um carro novo! E aquela bolsa de grife! Ele realmente a adora."

"Shhh," outra colega interveio, olhando para mim. "Laís está aqui."

Todos ficaram em silêncio por um momento, me olhando com pena ou constrangimento.

"Desculpe, Laís," uma delas disse, a voz cheia de falsa simpatia.

Eu apenas acenei com a cabeça, sem dizer nada. Meus olhos se fixaram na caixa de doces na mesa. Bolo de cenoura com cobertura de cream cheese. Sem lactose, sem glúten. Exatamente o que Cecília amava.

Eu entendi. Aquela caixa de doces não era um gesto de bondade para os funcionários. Era uma declaração pública de Murilo para Cecília, uma forma de mostrar o quão atencioso ele era com ela, o quão bem ele a conhecia. E o quanto ele a valorizava.

Uma pontada de amargura me atingiu. Ele se lembrava dos gostos dela, das suas restrições alimentares. Por um momento, senti uma tentação de pegar um pedaço, apenas para ver a reação dele, para ver se ele percebia o quão insensível ele estava sendo. Mas eu sabia que não me faria bem. Eu era alérgica a lactose. Eu não gostava de bolo de cenoura.

Lembrei-me de como Murilo costumava ser atencioso comigo, no início do nosso relacionamento. Ele me escrevia poemas, me trazia flores sem motivo, me levava para jantares românticos. Ele sabia de todas as minhas alergias, de todos os meus gostos. Ele me protegia.

Uma vez, tive uma forte gripe e ele passou a noite acordado, fazendo sopa e cuidando de mim. Lembro-me dele me entregando um comprimido para dor de cabeça, escondido em um morango, porque eu odiava o gosto de remédio. Ele era meu porto seguro.

Agora, o escritório parecia um palco para o novo romance dele. Cada risada, cada sussurro, cada olhar de admiração para Murilo e Cecília era uma facada.

Eu sabia que o amor dele não era mais meu. Havia mudado de endereço. E eu não podia fazer nada para recuperá-lo, nem queria. Eu estava cansada de lutar por algo que não existia mais.

Eu me forcei a voltar ao trabalho, tentando ignorar a dor. Eu tinha que me concentrar. Eu precisava terminar o projeto. Eu queria sair dali com a cabeça erguida.

Eu trabalhei sem parar, dia após dia, noite após noite. Minha mesa estava empilhada com documentos, meu computador piscava com e-mails não lidos. Meus olhos ardiam, meu corpo doía. Eu estava exausta, mas a adrenalina me mantinha em pé.

Eu sabia que teria que trabalhar até tarde de novo hoje. Olhei pela janela. A cidade estava coberta por um manto de escuridão, as luzes dos prédios piscando como estrelas distantes.

Um movimento na porta me fez levantar a cabeça. Murilo estava ali, parado, me observando.

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